Análise do voto evangélico feminino nas eleições presidenciais brasileiras e suas divisões em 2022.
Key Takeaways
- O voto evangélico feminino é decisivo e diverso, não mais um bloco homogêneo.
- A defesa da família tradicional e dos valores cristãos é central para o eleitorado evangélico conservador.
- A entrada de Lula na disputa presidencial provoca divisão entre evangélicas.
- A fé e a identidade religiosa influenciam profundamente as decisões políticas desse grupo.
- Campanhas políticas que dialogam com a família e valores religiosos tendem a conquistar esse eleitorado.
What the video covers
- Os evangélicos representam um terço do eleitorado brasileiro e foram decisivos na eleição de Bolsonaro em 2018.
- Mulheres evangélicas, maioria nesse grupo, são consideradas voto-chave para as eleições presidenciais.
- O voto evangélico não é homogêneo; há divisões internas, especialmente com a entrada de Lula na disputa.
- A defesa da família tradicional, baseada na Bíblia, é um dos principais motivadores do voto evangélico conservador.
- Algumas evangélicas apoiam Bolsonaro por sua defesa dos valores cristãos e da família, rejeitando ideologias de esquerda.
- Outras evangélicas, como Tatiana, mudaram de opinião ao perceber contradições entre discurso e prática de Bolsonaro.
- A fé evangélica é central na vida familiar e influencia a visão política e social dessas mulheres.
- Especialistas destacam a importância do discurso familiar para conquistar o voto evangélico feminino, majoritariamente negra e jovem.
- A campanha de Bolsonaro em 2018 explorou o medo de ameaças às igrejas evangélicas para mobilizar eleitores.
- A eleição de 2022 mostra um cenário mais complexo, com diferentes interesses e opiniões dentro do eleitorado evangélico.
Chapters
- 00:00Introdução ao voto evangélico nas eleições brasileiras
- 01:11Visão tradicional do voto evangélico e a eleição de 2018
- 02:28Defesa da família e princípios bíblicos entre evangélicas
- 03:30Debates sobre direitos LGBTQ+ e homofobia
- 04:35Entrevista com Raquel Prado: apoio a Bolsonaro e valores familiares
- 06:03Críticas à ideologia de gênero e perda de identidade
- 07:40Perspectiva de Tatiana: mudança de opinião sobre Bolsonaro
- 08:45Importância da fé e da família na decisão eleitoral
- 10:03Conclusão: divisão do voto evangélico e impacto nas eleições
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Speaker A
Os evangélicos já são um terço dos eleitores no Brasil. Em 2018, votaram em peso em Jair Bolsonaro.
Speaker A
"Votei no Bolsonaro pela proposta." Deus, Pátria, Família. Muito obrigado. "Pela visão que ele tinha sobre os princípios.
Speaker A
Princípios da família." E a família está definida da Bíblia. Não tenham emenda à Bíblia.
Speaker A
Mas a entrada de Lula na corrida presidencial pode rachar o voto evangélico. Ele, na cabeça dele, acha que arma resolve o problema de todo mundo.
Speaker A
Um doente. O Estado pode ser laico, mas Jair Bolsonaro é cristão. A gente deveria criar, na televisão do PT, um momento evangélico.
Speaker A
E as mulheres são a maioria, quase 60% dos evangélicos no Brasil. Não tenho dúvida que elas são voto que define essa eleição.
Speaker A
Para entender o que move esse eleitorado, vamos viajar ao Rio de Janeiro, Brasília, Salvador e São Paulo.
Speaker A
Até pouco tempo, muita gente achava que os evangélicos votavam em bloco, seguindo a orientação dos pastores ou movidos por questões mais ou menos homogêneas.
Speaker A
A eleição de 2018, com o apoio maciço a Bolsonaro deste segmento, impulsionou essa visão.
Speaker A
Mas a eleição deste ano mostra um quadro bem mais complexo. Diferentes interesses estão em jogo.
Speaker A
Eu vou conversar com mulheres evangélicas que continuam apoiando Bolsonaro e outras que mudaram de opinião.
Speaker A
A cara típica do evangélico no Brasil é feminina, negra e jovem. 58% são mulheres, 59% são pretos ou pardos e mais de 60% têm entre 14 e 44 anos.
Speaker A
É o caso da Alexia. Aos 22 anos, ela já é pastora da igreja neopentecostal Sarando a Terra a Ferida, em Belford Roxo, no Rio de Janeiro.
Speaker A
Em 2018, votou em Jair Bolsonaro. "Há situações em que somente a oração..." Percebi no Bolsonaro alguém de punho firme, alguém que queria lutar pela igualdade e lutar pela família, lutar pela causa.
Speaker A
Porque sabemos muito bem que a família é a base de tudo. Bíblia deixou de ser um livro?
Speaker A
Lê quem quer, acredita quem quer. Quem não acredita, o que nós podemos fazer? Tenta evangelizar.
Speaker A
Todo povo da esquerda. Eles tentam disfarçar a imposição com a necessidade do povo, como o ativismo LGBT...
Speaker A
"E amar não olha cor, amar não olha status, amar não olha situação. Quem ama, se entrega.
Speaker A
Quem ama, faz. Então..." Eu não sou contra os gays de jeito nenhum. Não apoio a prática, não apoio a prática.
Speaker A
Uma coisa é você acreditar em alguém pelo que a pessoa é. Isso é homofobia. Eu não aceitar não é homofobia, é um direito que eu tenho.
Speaker A
Você falar muito sobre o direito de professar a sua fé, ser quem é. Defender o que quer defender.
Speaker A
Você não acha que um casal gay não deveria ter o direito de casar e ser quem são?
Speaker A
O problema do impor está onde? Aonde a outra parte não aceita. E eles vão tentar vir falar que nós somos obrigados a aceitar.
Speaker A
Eu não sou a favor do casamento gay, não sou a favor disso. Os respeito.
Speaker A
Quem sou eu para falar alguma coisa, mas se for pedir uma opinião, perguntar, não apoio, não sou a favor.
Speaker A
"Você tem um potencial dentro de você. Você tem o poder de influência. De influenciar dentro da sua casa, sua empresa, onde você passa.
Speaker A
Essa é Raquel Prado, de 40 anos. Ela é pastora há mais de 20 anos e roda o país pregando para centenas de pessoas.
Speaker A
Fomos a Taquara, no Rio de Janeiro, para conversar com ela. Assim como Alexia, Raquel está entre os quase 70% de evangélicos que votaram em Bolsonaro.
Speaker A
Olá! Olá, tudo bem? Licença. Raquel, na eleição de 2018, das mensagens do presidente Bolsonaro, na época candidato Bolsonaro, o que mais te atraiu para ele?
Speaker A
O que mais te interessou? Não foi por ele ser um militar, não foi porque eu queria, como eu vou dizer, o exército na rua.
Speaker A
Não foi porque ele falou que vai defender ter a arma liberada dentro de casa.
Speaker A
Não, não é. Foi, dentro de todo nicho que ele defendeu, ele propôs a preservação da família e Deus acima de todos, ou seja, o princípio da Palavra de Deus.
Speaker A
De que maneira você enxerga que a família está ameaçada e que precisa ser garantida?
Speaker A
Eu vejo pessoas entrando para faculdades, jovens entrando para a faculdade e famílias perdendo seus filhos por causa das ideologias esquerdistas que se aplicam lá dentro.
Speaker A
Pessoas mudadas, transformadas. Perdendo de que forma? Perdendo a sua identidade, a sua identidade sendo roubada, a sua identidade por uma ideologia criada, uma mutação que eu chamo de mutação.
Speaker A
Eu não chamo aquilo de algo original. A ideologia que você pode fazer o que quer, que você pode fazer o que quer, e não assumir suas consequências.
Speaker A
Eu faço o que quero, vivo do jeito que quero. Essa é a antropóloga Jacqueline Teixeira, professora da Universidade de São Paulo e autora de vários livros sobre igrejas evangélicas.
Speaker A
A gente foi tentar entender com ela como a campanha de Bolsonaro em 2018 mobilizou o voto de mulheres como Alexia e Raquel.
Speaker A
Essa palavra de conexão com a política é a família. A gente está falando de mulheres que majoritariamente são responsáveis por suas famílias.
Speaker A
Quando chega alguém candidato à Presidência da República que diz que de fato vai construir uma linguagem de políticas públicas que beneficie a família, não tinha dúvida que o risco seria ganhar o voto desse contingente de mulheres negras.
Speaker A
Mas a gente também foi encontrar a Tatiana, que mora em Santíssimo, no Rio de Janeiro, e que tem uma visão diferente da de Alexia e Raquel.
Speaker A
Ela é influenciadora digital e frequenta a igreja Assembleia de Deus desde criança. Com mais de 300 mil seguidores no TikTok e 90 mil no Instagram, ganhou popularidade com vídeos de humor que desmistificam estigmas sobre evangélicos.
Speaker A
As pessoas têm uma visão de crente, tipo assim: não, você não usa coque, é crente mesmo?
Speaker A
Tatiana conta que pensou em votar em Bolsonaro em 2018, quando ouviu dizer que tinha um candidato que falava muito em Deus e na defesa de valores cristãos.
Speaker A
Mas mudou de opinião depois que uma professora na escola recomendou que ela pesquisasse mais sobre ele.
Speaker A
Numa dessas minhas pesquisas, vi que tudo que ele dizia e fazia não estava encaixando.
Speaker A
O que ele fazia era uma coisa, o que ele falava era outra. Em nome de Cristo, minha saudação a todos os senhores e senhoras.
Speaker A
Aí eu falei: não, pera aí. Por que um cara que diz que segue Jesus vai falar que a mulher não tem o direito de igualdade porque o homem está acima dela?
Speaker A
Não é assim, Jesus não pregava sobre isso. Então fui construindo essa minha opinião. Fui vendo que realmente ele se contradizia demais, ele não vivia o que ele mesmo falava.
Speaker A
[Família orando] A fé evangélica é central na vida da família da Tati. A mãe era missionária, o pai, pastor.
Speaker A
E a irmã lidera o grupo de jovens. O que você procura num candidato? Que tipo de ações e promessas seriam relevantes pra você?
Speaker A
Eu procuro um candidato, principalmente nesse ano, alguém que queira realmente mudar o quadro que está o país, porque literalmente virou um caos.
Speaker A
As pessoas estão comprando um osso para comer em casa, é desumano, real. Eu não acho que uma pessoa, um bom candidato, olhe essa situação e fale: ah, beleza, é o que realmente tem, vai ser isso.
Speaker A
Quero uma pessoa que fique indignada por conta disso, porque tem muitas pessoas, muitas pessoas por aí que estão sendo realmente esquecidas por ser preto, por ser pobre ou não ter as mesmas oportunidades e tudo mais.
Speaker A
Você já decidiu em quem vai votar? Ainda não decidi, mas acho que vou votar no candidato Lula.
Speaker A
Aqui não há divisão, divergência. Todos nós somos unidos em um só propósito, uma só opinião, senhor.
Speaker A
Quero te agradecer, pois quantas famílias estão rachadas, divididas por uma opinião diferente. Bolsonaro venceu o segundo turno da eleição passada com uma diferença de 10,7 milhões de votos contra o candidato do PT, Fernando Haddad.
Speaker A
Segundo especialistas, foram os evangélicos que fizeram a diferença. Deram a Bolsonaro 11 milhões de votos a mais que a Haddad. Acredite em Deus, ele nos salvou.
Speaker A
A professora da USP Jacqueline Teixeira lembra que, durante a campanha eleitoral daquele ano, foi propagandeada no meio evangélico a ideia de que a existência das igrejas evangélicas estava em risco no país, dependendo de quem fosse eleito.
Speaker A
Uma coisa que foi muito difundida, para além da pauta da moral.
Speaker A
Quando você é uma mulher responsável por sua família, que habita numa região periférica do país, que não tem acesso ao Estado e que tem acesso a uma igreja que te ajuda, que é o seu ponto de contato de assistência e de associação civil.
Speaker A
Se você começa a perceber que isso vai ser colocado em risco, você não vai apostar nesse voto.
Speaker A
Você vai apostar na candidatura que está dizendo que vai proteger isso. Essa foi uma jogada do Bolsonaro que certamente garantiu que essas mulheres, que não são Bolsonaristas, que não se entendem como pessoas de direita de fato, apostassem principalmente
Speaker A
no segundo turno. Consciente que evangélicos voltarão a ser chave na eleição desse ano, Bolsonaro se mantém próximo de pastores como Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
Speaker A
E cumpriu a promessa de indicar um “ministro evangélico”, André Mendonça, para o Supremo Tribunal Federal.
Speaker A
Mas outros candidatos também estão centrando esforços em conquistar o voto evangélico. Lula, por exemplo, tem se reunido com pastores e eleitores cristãos.
Speaker A
O esforço de conquistar a confiança desse segmento da população faz todo sentido. Nos anos 70, os evangélicos eram só 5% dos brasileiros.
Speaker A
Agora já são 30%. E, segundo projeções, podem se tornar maioria, ultrapassando a população de católicos, em dez anos.
Speaker A
Estou aqui na frente do Templo de Salomão, em São Paulo, construído pela Igreja Universal e inaugurado em 2014.
Speaker A
Cada pedra da parede e do piso do templo foi trazida diretamente de Israel. A obra custou cerca de 680 milhões de reais.
Speaker A
A magnitude desse prédio já dá um indicativo da força do crescimento evangélico no Brasil.
Speaker A
Mas é olhando os bairros de periferia, as pequenas cidades do interior e as favelas, que a gente mais percebe a expansão das igrejas neopentecostais.
Speaker A
A igreja evangélica tem essa comunicação mais diferenciada, um pouco mais jovem, um pouco mais atraente.
Speaker A
Ninguém quer algo sem graça, tirando esse lado muito formal: 'não, porque tem que falar assim'.
Speaker A
A gente fala normal. Jesus era simples e essa simplicidade da forma da comunicação é o jeito que é direto.
Speaker A
Esse pode ser uma das áreas do porquê do crescimento, desse favoritismo. Esse culto teve mais de três horas de pregação e orações num domingo à noite, com igreja repleta de jovens.
Speaker A
Nao é so o estilo mais informal de pregar e orar que explica a expansao dos evangelicos no Brasil.
Speaker A
A facilidade de abrir igrejas eh fundamental. Qual é a característica da Igreja Evangélica, principalmente o pentecostalismo?
Speaker A
O pentecostalismo não tem necessariamente uma necessidade de você ter um padre um bispo um ser um arcebispo.
Speaker A
Se você tem uma garagem, se você tem um grupo de pessoas que está interessado você abre uma igreja.
Speaker A
A gente tem um conjunto de programas de educação na saúde que são católicas e os evangélicos passam a fazer isso também, só que nas periferias, nos lugares em que esse modelo de gestão do catolicismo nunca permitiu com que a Igreja Católica chegasse de fato.
Speaker A
Ana Carolina Evangelista estuda o crescimento de igrejas pentecostais no Brasil e sua influência política há mais de 15 anos.
Speaker A
Eu quero entender com ela se é realmente possível falar em “voto evangélico”. O voto evangélico como um bloco, como homogêneo não existe, mas é um segmento da população que é impossível se desconsiderar.
Speaker A
E é importante levar em conta que a maioria católica brasileira era não praticante e agora a gente está falando de um cenário no Brasil onde cresce a população evangélica e ela é de característica mais praticante.
Speaker A
Ou seja, ela frequenta mais templos religiosos e ela fala mais, ela mobiliza mais essa identidade religiosa fora dos templos do que os católicos.
Speaker A
Segundo as últimas pesquisas de intenção de voto, a maior parte dos homens evangélicos continua votando em Bolsonaro.
Speaker A
Já as mulheres começam a transferir os votos para outros candidatos, principalmente Lula. A pastora Jacqueline Rolim, de Brasília, faz parte dessa estatística.
Speaker A
Venho publicamente perdir perdão pelo meu voto equivocado nas últimas eleições para presidente da República no Brasill.
Speaker A
Em setembro de 2021, ela postou esse vídeo nas redes, dizendo que se arrependeu de ter votado em Bolsonaro em 2018.
Speaker A
Quando o Lula foi eleito em 2003, pela primeira vez, foi uma festa. Só que logo ele começou a negociar com o pessoal da direita Quem gostava das ideias que ele pregava antes, como trabalhadores, ficou decepcionado.
Speaker A
Foi o meu caso. Nós ficamos. Eu fiquei muito decepcionada né. Eu me senti traída.
Speaker A
[Marina Silva] Na eleição passada, Jacqueline votou em Marina Silva no primeiro turno. No segundo, se viu obrigada a escolher entre o PT e Bolsonaro.
Speaker A
Não concordava com o Bolsonaro, mas também não conhecia porque quando me senti traída eu me alienei.
Speaker A
Foquei só na igreja, em coisas espirituais. Não quis mais saber de política não queria me envolver mais.
Speaker A
Então escolhi ir lá sem compromisso sem conhecimento. ‘Vou arriscar. Não me importo mais.' Ele está fazendo uso do nome de Deus aí usando o versículo.
Speaker A
Quem sabe ele faz alguma coisa pelo menos por causa de princípios cristãos né’. E qual foi o momento da virada, quando você se arrependeu de ter votado em Bolsonaro e decidiu fazer um vídeo pedindo desculpas?
Speaker A
Durante a pandemia. ele começou a falar imitando alguém que estivesse morrendo de covid, sem ar.
Speaker A
Eu tenho bronquite asmática, eu sei o que é ficar sem ar. Isso me doeu e eu entendi que ele estava agindo com impiedade sem nenhuma piedade por pessoas, um egoísta e anti-cristão totalmente.
Speaker A
Jacqueline agora diz que vai votar em Lula. Minha irmã me chamou de comunista no WhatsApp, ficou escandalizada porque alguém viu e ficou com ela.
Speaker A
No lugares onde eu preguei, as pessoas ficaram muito escandalizados e me abandonaram. Hoje eu voto no Lula porque é o único dos candidatos que se apresentam que correspondem às necessidades do povo, do trabalhador, do pobre.
Speaker A
Mas o ex-presidente Lula não chegou a ser inocentado. O Supremo não analisou as provas e decidiu que Lula não cometeu os crimes dos quais ele era acusado.
Speaker A
Decidiu que ele tinha que ter sido julgado em outra jurisdição não na Vara de Curitiba e que o juiz Sérgio Moro não foi imparcial.
Speaker A
Você se sente mesmo assim confortável em votar nele? Nosso sistema político é todo corrompido.
Speaker A
A gente sabe disso e foi a minha maior decepção quando já adulta percebi isso.
Speaker A
Mas o Lula é o único cujo projeto de governo foca em se preocupar de fato com as minorias.
Speaker A
Isso que... Mesmo que no governo dele tenha havido um motivo para eu me decepcionar.
Speaker A
Ele tem essas práticas, se preocupa com o jovem, o jovem pobre de periferia. Agora, o que explica as pesquisas mostrarem que os homens continuam em sua maioria com Bolsonaro, enquanto mulheres, como Jacqueline, estão repensando o voto?
Speaker A
Essa imagem que o Bolsonaro constrói se conecta com alguns pontos de um modelo de masculinidade.
Speaker A
Então a arma na mão, ou o revólver ou o modo como Bolsonaro fala determinadas coisas.
Speaker A
A irreverência, uma espécie de uma irreverência para lidar com protocolos, a própria posição. E tem uma outra coisa especificamente relacionada aos homens Evangélicos, que é uma configuração teológica que está relacionada a essa ideia de que quanto mais a pessoa é imperfeita
Speaker A
e quanto mais ela é incapaz mais ela vai fazer porque Deus vai usá-la. Vamos receber o presidente do Brasil.
Speaker A
Essa narrativa de que Deus usa os incapazes como instrumento da vontade dele, e que “os humilhados serão exaltados” está presente em várias passagens bíblicas.
Speaker A
E essa mensagem foi explorada pela campanha de Bolsonaro. Pouco depois de vencer a eleição em 2018, ele participou de um culto com Silas Malafaia, da assembleia de Deus, e disse: Tenho certeza que não sou o mais capacitado, mas Deus capacita os escolhidos.
Speaker A
As mulheres por sua vez elas têm um outro conjunto de questões. As questões delas estão relacionadas às responsabilidades familiares e às responsabilidades com a sociedade civil.
Speaker A
Ali em 2019 nas pesquisas de opinião que a gente rodou a gente já via que várias mulheres evangélicas estavam se distanciando do voto e já arrependidos por terem votado no Bolsonaro por conta da pauta armamentista e da centralidade da pauta armamentista.
Speaker A
Os homens não. Eles já se sentiam mais confortáveis em relação a isso. [Som Olodum] Na eleição de 2018, Bolsonaro ganhou do candidato do PT Fernando Haddad, no segundo turno, em todas as regiões, menos no Nordeste.
Speaker A
Eu to aqui em Salvador na Bahia, para conversar com a Luciene de 49 anos, que é da Assembleia de Deus.
Speaker A
Na eleição passada, diferentemente da maioria das pessoas na Bahia, ela votou em Bolsonaro. Na pandemia, ficou frustrada com a postura do presidente diante das mais 660 mil mortes por covid no país.
Speaker A
Como presidente de uma nação ele podia usar a mídia, pelo menos para dar um conforto.
Speaker A
Isso eu fiquei triste. Sabe, porque muita das vezes uma palavra... você está sofrido, você está machucado, lhe traz esperança.
Speaker A
E muitas das vezes se sentia, se sentia abandonado, tipo solto, como se a gente não tivesse ninguém por nós.
Speaker A
E muitas das vezes a gente sentia como se ele estivesse legislando contra nós brasileiros, ele sendo o nosso presidente.
Speaker A
E daí, lamento, quer que faça o que? Sou Messias, mas não faço milagre. Como muitos brasileiros, Luciene chegou a depositar as esperanças na chamada terceira via, para evitar votar novamente em Bolsonaro ou transferir o voto para Lula.
Speaker A
No início, eu fiquei esperando para ver se ia aparecer essa terceira pessoa ou quarta pessoa que viesse trazer, e eu não digo nem propostas novas, para ser sincera, mas que me trouxesse uma confiança de que eu abriria mão de um desses dois e votaria nele.
Speaker A
E essa pessoa não apareceu? Não, não no momento. Você olha um, você conversa, você pesquisa, você não vê algo que de fato estimule a mudar.
Speaker A
Luciene diz que vai repetir o voto em Bolsonaro. Assim como Alexia e Raquel, ela menciona a promessa de proteção à família como razão principal para isso.
Speaker A
E de uma forma ou de outra, se é verdadeiro nele ou não, ele fala de família.
Speaker A
Você não vê nenhum outro candidato se posicionar em relação à família, entende? Luciene mora com a mãe, Edith, em Salvador.
Speaker A
Depois do culto, a programação é almoço em família, na varanda. A família é, para mim, para mim é a base de tudo.
Speaker A
Como eu disse, eu venho de uma geração que pede benção a pai e mãe.
Speaker A
Hoje, infelizmente, a geração de hoje às vezes acorda e não dá nem um bom dia.
Speaker A
A preocupação em “proteger a família” é central na fala de todas as mulheres com quem a gente conversou, apesar de declararem voto em candidatos diferentes.
Speaker A
É comum pensar que essa ideia estava associada a uma oposição a direitos LGBTs. Mas o enfoque parece ser outro.
Speaker A
Botar a família, em primeiro lugar, se traduz na prática em questões como violência, educação e saúde.
Speaker A
Eu queria saber de vocês. O que vocês gostariam de ver em termos de promessas, o que preocupa vocês, o que vocês gostariam de receber de um presidente.
Speaker A
Que acabe com essa violência. Tem muita coisa acontecendo que não deveria acontecer. Saúde, hoje, é uma coisa que também nos preocupa.
Speaker A
Saúde, violência são coisas que preocupam muito. Na verdade, uma política de inclusão mesmo, para toda sociedade.
Speaker A
Conservando os valores. Mas nossas entrevistadas falaram muito, também, do medo que elas têm de que na rua, na internet ou até na escola as crianças possam receber conteúdos ou ensinamentos que façam com que deixem de ouvir ou respeitar os pais.
Speaker A
Como se pairasse no ar um risco de perda de controle sobre a família. Essas mulheres elas pensam uma ideia de respeito a familia quase como uma coisa que ajude a pensar o respeito das posições das pessoas dentro do contexto familiar.
Speaker A
Então, filhos que obedecem e respeitam seus pais; coisas que crianças de determinada idade não podem ver.
Speaker A
E isso é muito instrumentalizado, tem sido muito instrumentalizado pela linguagem e campanha bolsonarista em 2018 e a gente imagina que agora também.
Speaker A
Essa é minha colega Lebo Diseko, correspondente de religião da BBC. Ela me acompanhou nessa jornada, e trouxe uma questão que mostra como, mesmo entre evangélicas que votaram e continuam votando em Bolsonaro, como Raquel e Alexia, há muito mais diferenças do que muita gente imagina.
Speaker A
Eu tenho 40 anos, vou fazer 41. Eu nunca sofri racismo. Ninguém na minha família nunca sofreu racismo por ser negro.
Speaker A
Existe, mas eu não considero em grande proporção, de verdade, aqui no Brasil não. Eu observo que ele tem essa visão.
Speaker A
Ele não é negro. Ele nunca vai saber que é diferente. A visão dele é diferente e só quem realmente é negro sabe que existe sim.
Speaker A
E isso não pode ser negado. Alexia conta que, no dia a dia, vive o racismo na pele.
Speaker A
Certa feita, minha mãe e meu irmão pegaram um ônibus. Meu irmão eu acho que tinha uns 4 anos de idade.
Speaker A
Ela colocou ele no colo dela e a perna dele bateu em uma senhora que estava ao lado da minha mãe, e essa senhora começou a falar: 'tira esse garoto que eu não gosto de gente negra, tira esse menino daqui, ele encostou em mim’.
Speaker A
Esse foi um caso de racismo que eu nunca pensei que viveria na minha vida.
Speaker A
Eu confesso que veio uma revolta no meu coração junto com uma tristeza. E eu pensando, como que pode um mundo tão atualizado, com coisas tão atualizadas, e a mente de algumas pessoas tão fechadas.
Speaker A
Claro que eu jamais iria aprovar alguém racista de jeito nenhum. Mas como eu não vejo isso nele, vou seguir os princípios naquilo que ele tem, naquilo que ele segue.
Speaker A
Durante a nossa conversa, Luciene falou muito sobre sua preocupação com o racismo e com a violência contra a população negra no Brasil.
Speaker A
Ela disse que tinha ouvido falar de uma declaração controversa de Bolsonaro sobre quilombolas, mas nunca tinha visto o video.
Speaker A
Fui num quilombola aqui no Eldorado Paulista. Olha, o afrodescendente mais leve lá pesava 7 arrobas.
Speaker A
Não fazem nada. Eu acho que nem pra procriadores servem mais. Acho que é mais esse jeito dele meio grosseiro de tratar as coisas.
Speaker A
É difícil a gente ouvir uma situação dessas de seres humanos. Não é fácil a gente, ser humano, ouvir. falar de outro ser humano de maneira tão pejorativa, que não serve nem para procriar, então é muito complicado.
Speaker A
Se a gente for olhar por esse parâmetro, a gente não vai votar em ninguém.
Speaker A
Entende? A questão é que ele se expõe. A gente não sabe se o Lula tem esse mesmo pensamento.
Speaker A
Ele não se expõe. Por enquanto, os principais candidatos à presidência têm focado em firmar alianças com os líderes das grandes denominações evangélicas - e a maioria deles são homens e brancos.
Speaker A
Mas é a conexão com as evangélicas que pode definir o resultado da próxima eleição para presidente Nossos pastores, se eu chegar para ele, procurar uma orientação, ele vai me orientar, mas não vai decidir o meu voto.
Speaker A
Primeiro, que o voto é meu, o voto é meu. Eu faço com meu voto o que eu quiser.
Speaker A
Vai ter mais chances de vencer o candidato que souber ouvir e responder às preocupações de mulheres como Luciene, Alexia, Jacqueline, Raquel e Tatiana.
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