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O texto sumério que revela o que está impedindo os Anunnaki voltar à terra AGORA

Vídeo investiga textos sumérios e babilônicos sobre os Anunnaki, separando o que está nas tábuas de cuneiforme das interpretações modernas sobre deuses e extraterrestres.

Key Takeaways

  • Os textos mesopotâmicos são mais complexos e variados do que as interpretações populares sugerem.
  • A tradução e o sentido de Anunnaki mudaram ao longo do tempo e entre fontes.
  • A presença divina era ritualmente produzida, o que contrasta com a ideia de deuses ausentes e trancados.
  • Muitas leituras populares dependem de traduções e interpretações não sustentadas por especialistas.

What the video covers

  • A Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, é apresentada como berço de uma das primeiras civilizações, com a escrita cuneiforme por volta de 3.200 a.C.
  • Cada cidade suméria tinha uma divindade protetora; Eridu era ligada a Enki e Nippur a Enlil.
  • Os mesopotâmios adoraram entre 300 e 1.000 deuses, e o culto variava de cidade para cidade; Enlil foi assimilado por Marduk durante o reinado de Hamurabi.
  • Os mitos eram reescritos e reinterpretados por escribas sob governos diferentes, e muitas obras atribuídas aos sumérios foram escritas em acádio ou babilônico.
  • O ritual Mis Pi (abertura da boca) consagrava estátuas para que recebessem a presença do deus, mostrando uma visão de presença divina cotidiana.
  • O nome Anunnaki tem tradução mais provável como 'descendência de An'; a leitura popularizada por Zecharia Sitchin ('aqueles que do céu à terra vieram') é contestada por especialistas.
  • O significado do termo mudou: no início designava os deuses mais altos, depois passou a se referir aos deuses do mundo inferior.
  • Os textos foram recuperados da biblioteca do rei Assurbanipal em Nínive, escavada no século XIX, e decifrados por George Smith no Museu Britânico.
  • Narrativas como o dilúvio aparecem em versões com heróis diferentes (Ziusudra, Atrahasis, Utnapishtim), indicando herança cultural.
  • O vídeo questiona se os textos realmente descrevem um impedimento definitivo do retorno dos deuses, sugerindo que a ideia de um afastamento absoluto pode ser uma interpretação moderna.

Answers

Questions about this video

Quem eram os Anunnaki segundo os textos mesopotâmicos?

Segundo o vídeo, o termo designava originalmente os deuses mais altos do panteão sumério, que decidiam os destinos. Com o tempo, passou a se referir também a deuses do mundo inferior.

O que significa o nome Anunnaki?

A tradução mais aceita por especialistas como Nicole Brisch é algo como 'descendência principesca' ou 'descendência de An'. A leitura de 'aqueles que do céu à terra vieram' foi popularizada por Zecharia Sitchin e é contestada.

Como os textos sumérios chegaram até nós?

Grande parte veio da biblioteca do rei assírio Assurbanipal em Nínive, escavada no século XIX e enviada ao Museu Britânico. George Smith ajudou a decifrar essas tábuas de argila.

Full Transcript — Download SRT & Markdown

00:00
Speaker A
A Mesopotâmia é considerada por muitos o berço da civilização humana. Foi nela que, segundo historiadores e arqueólogos, uma das primeiras civilizações surgiu.
00:11
Speaker A
Os sumérios. Entre os dois rios, o Tigre e o Eufrates, no território que hoje pertence ao Iraque, esse povo desenvolveu cidades, templos, leis, uma forma de governo e, por volta de 3.200 a.C., um dos sistemas de escrita mais
00:28
Speaker A
Os sumérios. Entre os dois rios, o Tigre e o Eufrates, no território que hoje pertence ao Iraque, esse povo desenvolveu cidades, templos, leis, uma forma de governo e, por volta de 3.200 a.C., um dos sistemas de escrita mais antigos de que se tem notícia, o cuneiforme.
00:47
Speaker A
Mas os sumérios não deixaram registrado apenas o que comiam, quanto produziam ou quem governava as cidades. Eles escreveram sobre os deuses, escreveram sobre como os deuses os criaram, por que os castigaram e o que aconteceu quando as divindades se afastaram do mundo dos homens. Entre essas divindades, uma palavra atravessou os milênios e chegou até a internet: Anunnaki.
00:58
Speaker A
Hoje, esse nome aparece em livros, documentários e milhões de vídeos. Dizem por aí que os Anunnaki eram extraterrestres que desceram à Terra em busca de ouro. Outros afirmam que eles foram trancados do outro lado de uma barreira cósmica e que nunca mais poderão voltar.
01:13
Speaker A
Mas o que os próprios textos sumérios e babilônicos dizem sobre isso? Existe, de fato, alguma passagem que explique o que impediria esses deuses de retornar?
01:25
Speaker A
Que bom estarmos juntos para investigarmos esse tema. Espero que esteja tudo bem com você.
01:31
Speaker A
Neste vídeo, a gente vai ler o que as tábuas dizem, comparar as fontes e separar o que está escrito em argila do que foi acrescentado depois.
01:40
Speaker A
E já adianto que, no meio do caminho, existe uma cena em que os Anunnaki aparecem exatamente onde ninguém espera.
01:49
Speaker A
Mas para chegar lá, precisamos voltar ao começo, ao tempo em que uma cidade era, antes de tudo, a casa de um deus.
01:57
Speaker A
Na Suméria, cada cidade tinha uma divindade protetora e o templo era considerado a morada dela.
02:04
Speaker A
Eridu, uma das cidades mais antigas, era associada a Enki, o deus da sabedoria e das águas doces.
02:12
Speaker A
Nippur, no centro do território, era a cidade de Enlil, o deus que, segundo os textos, governava a terra e decidia o destino dos homens.
02:23
Speaker A
De acordo com a World History Encyclopedia, a adoração a Enlil em Nippur é atestada desde o início do período dinástico, por volta de 2.900 antes de Cristo.
02:35
Speaker A
Isso significa que, quando falamos desses deuses, estamos falando de uma tradição religiosa com milhares de anos de estrada.
02:43
Speaker A
E a quantidade de divindades impressiona. Segundo a mesma enciclopédia, os mesopotâmicos adoraram algo entre 300 e 1.000 deuses diferentes ao longo da história.
03:02
Speaker A
Nem todos tinham o mesmo prestígio, a mesma origem ou a mesma função. E o culto variava de cidade para cidade.
03:17
Speaker A
Isso é importante por um motivo simples. Quando um vídeo fala dos deuses da Mesopotâmia, como se fossem um grupo único, com um plano comum, ele está simplificando uma religião que mudou muito ao longo de mais de 2.000 anos.
03:33
Speaker A
Um exemplo claro está no próprio Enlil. De acordo com a World History Encyclopedia, ele foi venerado como o grande deus em Nippur, na Suméria, mas acabou sendo absorvido e assimilado por Marduk durante o reinado de Hamurabi, na Babilônia, entre 1.792 e 1.750 antes de Cristo.
03:49
Speaker A
Em outras palavras, o deus principal de uma época cedeu o lugar ao deus principal de outra, conforme o poder político mudava de cidade.
04:05
Speaker A
Isso mostra algo que vai nos acompanhar até o fim do vídeo. Os mitos mesopotâmicos nunca estiveram parados. Eles eram reescritos, copiados e reinterpretados por escribas que viviam sob governos diferentes, com interesses diferentes.
04:22
Speaker A
E há outro ponto que raramente aparece. Muitas obras que a internet chama de textos sumérios foram escritas em acádio ou na versão babilônica da língua. O Atrahasis, por exemplo, é um poema acádio e o Enuma Elish é babilônico.
04:30
Speaker A
Os sumérios fornecem a base, mas boa parte do que sabemos vem de povos que herdaram e adaptaram essa tradição.
04:36
Speaker A
Mas existe um aspecto da religião mesopotâmica que ajuda muito a entender o que estamos investigando.
04:43
Speaker A
A ideia de que o deus estava, de certa forma, presente na terra. Isso era levado ao pé da letra no culto.
05:02
Speaker A
Os templos abrigavam estátuas dos deuses, feitas com um núcleo de madeira revestido de ouro ou prata, com pedras incrustadas e vestes.
05:18
Speaker A
Só que, segundo os estudos sobre o ritual chamado Mis Pi, que significa lavagem da boca, uma estátua recém-feita ainda não era um deus. Para que ela se tornasse apta a receber a divindade, era preciso uma série de cerimônias.
05:33
Speaker A
No primeiro dia, a lavagem da boca purificava a imagem de qualquer contaminação humana surgida durante a fabricação. No segundo, a abertura da boca dava vida à estátua com o uso de xarope, gui, cedro e cipreste.
05:41
Speaker A
O processo tinha cerca de 11 etapas, com procissões até o rio e um pomar, e invocações dirigidas a nove grandes deuses.
05:47
Speaker A
Só depois disso a imagem podia, segundo os textos, ver, agir, comer e beber as oferendas e aspirar o incenso.
05:55
Speaker A
Um dos encantamentos afirma que sem a cerimônia a estátua não podia comer nem beber.
06:09
Speaker A
Pense no que isso revela. Para os mesopotâmicos, a presença do deus não era um acontecimento raro e distante.
06:23
Speaker A
Era algo que os sacerdotes preparavam, alimentavam e mantinham todos os dias. Em certo sentido, pode-se dizer que os deuses voltavam à terra a cada consagração de uma estátua.
06:32
Speaker A
Isso muda bastante a nossa pergunta. Se o deus podia ser chamado para dentro de uma imagem, será que a religião da época enxergava o afastamento dos deuses como definitivo? Os textos, como veremos, nem sempre sugerem isso.
06:46
Speaker A
Essa elasticidade, essa capacidade de mudar de forma e de sentido, vale especialmente para o nome que dá título a este vídeo.
06:55
Speaker A
A palavra Anunnaki vem do sumério e aparece escrita de formas como Da Nuna. Os especialistas a traduzem como algo próximo de descendência principesca ou descendência de An, o deus do céu.
07:10
Speaker A
É a tradução adotada por estudiosos como a pesquisadora Nicole Brisch, da Universidade da Pensilvânia, em seu verbete sobre o grupo.
07:22
Speaker A
Aqui existe a primeira divergência importante. A tradução mais famosa na internet é outra: aqueles que do céu à terra vieram. Ela foi popularizada pelo escritor Zecharia Sitchin a partir de 1976.
07:28
Speaker A
O assiriólogo Michael Heiser, autor de um site inteiro dedicado a criticar o trabalho de Sitchin, afirma que essa leitura não corresponde ao que as palavras significam.
07:37
Speaker A
E tem um detalhe que quase nunca é mencionado. O significado do termo mudou com o tempo.
07:53
Speaker A
Segundo Brisch, nos textos sumérios, o grupo designa os deuses mais altos do panteão, aqueles que decidem os destinos.
08:05
Speaker A
Depois do período babilônico antigo, por volta de 1600 antes de Cristo, o nome passa a ser usado também e cada vez mais para os deuses do mundo inferior. Os deuses do céu, por sua vez, passam a ser chamados de Igigi, de acordo com a análise de Jeremy Black e Anthony Green.
08:18
Speaker A
Ou seja, os Anunnaki do início da história e os Anunnaki do final não ocupam exatamente o mesmo lugar no cosmos.
08:32
Speaker A
Guarde essa informação. Ela vai ser decisiva mais adiante.
08:41
Speaker A
Agora, de onde vem tudo isso? Como sabemos o que os sumérios, os acadianos e os babilônios escreveram sobre seus deuses?
09:00
Speaker A
A resposta está em uma biblioteca soterrada. No século 19, os arqueólogos Austen Henry Layard e Hormuzd Rassam escavaram Nínive, antiga capital do império assírio, no norte do atual Iraque.
09:20
Speaker A
Entre as ruínas, encontraram dezenas de milhares de tábuas de argila e fragmentos que foram enviados ao Museu Britânico, em Londres.
09:36
Speaker A
Pertenciam à biblioteca do rei Assurbanipal, que governou no século 7 antes de Cristo. Durante anos, boa parte desse material ficou à espera de alguém que conseguisse ordená-lo. Era um quebra-cabeça com milhares de peças, escrito numa língua que quase ninguém sabia ler.
09:53
Speaker A
Foi um funcionário do museu, George Smith, um autodidata sem formação universitária, quem começou a juntar os pedaços.
10:01
Speaker A
Em novembro de 1872, ele identificou numa dessas peças um relato de dilúvio. Um deus avisa um homem, ele constrói um barco e todos os outros seres vivos perecem.
10:17
Speaker A
O texto era a 11ª parte da epopeia de Gilgamesh.
10:34
Speaker A
Segundo o próprio Museu Britânico,
10:48
Speaker A
responde a uma pergunta que ainda hoje intriga muita gente. Por que os deuses precisaram criar a humanidade?
10:55
Speaker A
Esse texto se chama Atra-Hasis. A cópia mais bem conservada do poema é de cerca de 1.700 antes de Cristo, do reinado do rei babilônico Ammi-Saduqa, segundo um estudo disponível no repositório Zenodo. A edição de referência foi publicada pelos
11:13
Speaker A
pesquisadores Wilfred Lambert e Alan Millard pela Clarendon Press de Oxford em 1969. O poema abre com uma cena de trabalho.
11:25
Speaker A
Os deuses maiores, os Anunnaki, mandam os deuses menores, [música] os Igigi, cavar canais e manter os rios. O serviço é pesado, constante e sem descanso.
11:36
Speaker A
As traduções que consultei falam em 40 anos de trabalho. Alguns vídeos mencionam milhares de anos, mas essa informação não aparece nas edições padrão. Alguns comentaristas acreditam que o número é simbólico, mas o que está escrito é 40.
11:52
Speaker A
Passado esse período, os Igigi se revoltam. Queimam as ferramentas e à noite cercam a casa de Enlil.
11:59
Speaker A
É uma cena rara na literatura antiga, deuses fazendo greve. Para resolver o impasse, Enki propõe a criação de um novo ser.
12:08
Speaker A
A deusa Nintu mistura argila com a carne e o sangue de um deus chamado We-ila, sacrificado para esse fim.
12:16
Speaker A
Dessa mistura surge a humanidade, com um propósito que o poema não esconde. Carregar o fardo que antes era dos deuses.
12:26
Speaker A
Só que o plano tem um problema. Os humanos se multiplicam e fazem barulho. E o barulho tira o sono de Enlil.
12:33
Speaker A
Segundo as traduções, a cada 1.200 anos ele envia uma punição. Primeiro uma praga, depois uma seca com fome e, por fim, o dilúvio. Nas três ocasiões, Enki avisa um homem chamado Atrahasis.
12:47
Speaker A
No caso do dilúvio, ele manda o aviso por meio de uma parede e orienta a construção de um barco.
12:54
Speaker A
E um detalhe revela muito sobre a visão de mundo dos mesopotâmicos. Quando as águas baixam, os deuses estão famintos, porque ninguém lhes oferecia alimento e se amontoam em volta do sacrifício.
13:07
Speaker A
Enlil, ao descobrir que Atrahasis sobreviveu, fica furioso. Mas o desfecho que o poema oferece não é a destruição total.
13:16
Speaker A
Segundo a New World Encyclopedia, a deusa Nintu estabelece limites para a humanidade. Uma em cada três crianças que nascem morrerá e certas sacerdotisas viverão em celibato.
13:29
Speaker A
É uma solução para controlar a população e ao mesmo tempo evitar um novo dilúvio.
13:35
Speaker A
Perceba o que isso significa. A ordem do mundo nesse poema é construída por meio de acordos e correções, não de um decreto que ninguém pode mexer.
13:45
Speaker A
Os deuses erram, revêem decisões e criam limites novos. Esses são os deuses do Atrahasis. Eles se cansam, sentem fome, tem medo, brigam entre si e dependem dos seres que criaram. Não são entidades todo-poderosas e sim parte de um
14:02
Speaker A
sistema. Me diz uma coisa, o que acontece com uma divindade que depende de oferendas quando o último templo é fechado?
14:11
Speaker A
Guarde essa [música] pergunta. Antes de seguir, vale conhecer outra versão do dilúvio escrita [música] em sumério e uma das tábuas que a preserva está guardada nos Estados Unidos.
14:23
Speaker A
É a chamada tábua do dilúvio do Museu da Universidade da Pensilvânia, catalogada como CBS 10673.
14:32
Speaker A
Trata-se de um fragmento de argila cozida do período babilônico antigo, por volta do século XVII antes de Cristo, escavado em Nippur por uma expedição da Universidade. O original teria cerca de 260 linhas. Hoje restam seis colunas de texto, três de cada lado, numa peça de
14:51
Speaker A
pouco mais de 13 cm. O texto faz parte do que os especialistas chamam de Gênese de Eridu.
15:00
Speaker A
Nele, a deusa Nintur, que deu à luz à humanidade, chama os homens a se fixarem e construírem cidades. [música] O deus Enki avisa o rei Ziusudra, governante de Shuruppak, sobre a decisão dos deuses de destruir a humanidade com
15:16
Speaker A
um dilúvio. A inundação dura sete dias e sete [música] noites. Quando Ziusudra sai do barco e faz sacrifícios, Enki acalma a fúria dos deuses e An e Enlil concedem ao rei a vida eterna.
15:32
Speaker A
Reparem em alguns detalhes. Quem avisa o sobrevivente é Enki, o mesmo padrão do Atrahasis.
15:39
Speaker A
Quem decide a destruição é Enlil, que segundo o resumo dos estudiosos sobre a obra, também se incomoda com o barulho dos humanos.
15:49
Speaker A
E o sobrevivente recebe um prêmio divino. A imortalidade. Na epopeia de Gilgamesh, o herói do dilúvio se chama Utnapishtim e também é descrito como imortal.
16:02
Speaker A
Ou seja, o mesmo enredo atravessa textos de épocas diferentes, com o herói trocando de nome. Ziusudra, Atrahasis, Utnapishtim.
16:12
Speaker A
Um relato copiado, adaptado e reescrito durante séculos. O dilúvio, porém, não é a única história de origem. Existe uma segunda grande narrativa que conta a criação do mundo de um jeito bem diferente, o Enuma Elish.
16:29
Speaker A
O poema tem sete tábuas e reúne a teologia da Babilônia no primeiro milênio antes de Cristo.
16:36
Speaker A
Os manuscritos encontrados na Assíria e na Babilônia são datados, aproximadamente, entre 1300 antes de Cristo.
16:45
Speaker A
O nome vem das palavras iniciais, algo como "quando no alto". No começo só existem as águas primordiais [música] Apsu, a água doce, e Tiamat, a água salgada.
16:58
Speaker A
Os deuses jovens perturbam o sono de Apsu e ele planeja destruí-los. Ea o mata com magia. Nasce então Marduk, com força superior à dos outros deuses.
17:10
Speaker A
Tiamat, irritada com o barulho, cria monstros e nomeia Kingu seu comandante, com quem se casa e a quem confia as tábuas do destino. Marduk se oferece para lutar, mas impõe uma condição: receber poder supremo entre os deuses.
17:26
Speaker A
Depois da assembleia divina, ele vence Tiamat com uma flecha no coração e divide o corpo dela para formar o céu e a terra.
17:35
Speaker A
E a humanidade. Aqui está o contraste. Marduk cria os seres humanos a partir do sangue de Kingu, e lhes atribui o trabalho.
17:44
Speaker A
Depois, reorganiza o panteão e recebe os louvores de todos os [música] deuses. Existe ainda um dado importante sobre como esse poema era usado. Segundo a enciclopedia.com, ele era recitado ou até cantado durante o festival de ano novo, o Akitu, no mês
18:02
Speaker A
de Nissan, no quarto dos 11 dias da festa. Ou seja, não era só literatura, era parte de um ritual político e religioso que reafirmava o poder de Marduk a cada ano.
18:15
Speaker A
Vamos comparar. Temos três explicações para a origem da humanidade. No Atrahasis, os humanos nascem da argila misturada à carne e ao sangue de um deus sacrificado, o Ilawela, para aliviar os deuses do trabalho. [música] Na Gênese de Eridu, a deusa Nintur dá à
18:34
Speaker A
luz a humanidade e a convida a construir cidades. No Enuma Elish, Marduk faz os humanos com o sangue de Kingu, o comandante derrotado.
18:46
Speaker A
Três textos, três origens. E isso não é um problema para os especialistas. Mostra que a Mesopotâmia não tinha um único dogma sobre o tema e que cada cidade e cada época contava a história de um jeito que reforçava a sua própria
19:01
Speaker A
teologia. Mas existe um padrão que atravessa essas narrativas e ele é curioso: o barulho.
19:09
Speaker A
No Atrahasis, o ruído dos humanos tira o sono de Enlil. Na Gênese de Eridu, Enlil decide destruir a humanidade também incomodado com o barulho.
19:20
Speaker A
No Enuma Elish, são os deuses jovens que perturbam Apsu e Tiamat se irrita com o alvoroço.
19:28
Speaker A
Em outras palavras, nos três poemas, a relação entre o alto e o baixo começa com um problema de convivência. O barulho do mundo incomoda quem está acima.
19:38
Speaker A
Eu não encontrei nenhuma fonte que faça essa leitura de forma conclusiva, então trato isso como uma observação minha e não como [música] tese de um especialista. Mas ela ajuda a perceber que os mesopotâmicos pensavam a relação entre deuses e homens como uma relação
19:54
Speaker A
de vizinhança, com atritos, negociações e limites. Agora, o que mudou depois do dilúvio? Uma das respostas mais famosas está num objeto de argila guardado em Oxford.
20:07
Speaker A
A lista dos reis sumérios é um documento que enumera cidades e governantes com a duração dos reinados.
20:14
Speaker A
A versão mais completa está no chamado Prisma Weld-Blundell, escrito por volta de 1800 antes de Cristo, encontrado em 1922 na cidade de Larsa e doado em 1923 ao Museu Ashmolean pelo explorador Herbert Weld-Blundell.
20:35
Speaker A
A lista começa com uma sequência de reis anteriores ao dilúvio. Segundo o Museu da Universidade da Pensilvânia, são oito governantes em cinco cidades que somados reinariam por 241.200 anos.
20:50
Speaker A
Depois, vem a passagem mais citada: "O dilúvio varreu a terra e quando a realeza desceu do céu novamente, ela se estabeleceu na cidade de Kish".
21:01
Speaker A
Repare no novamente. O texto não diz que os deuses cortaram o contato com os homens, diz que a autoridade de reinar voltou a vir do alto, mas passou a ser exercida por governantes humanos.
21:14
Speaker A
E o próprio Ashmolean faz uma ressalva: "A lista não é história no sentido moderno, e sim uma combinação de mito, lenda e dados históricos". Pesquisadores do projeto de tábuas cuneiformes da Universidade de Oxford observam ainda que a parte sobre o dilúvio só aparece
21:33
Speaker A
em algumas versões a partir do período babilônico antigo. Isso levanta uma hipótese que me parece mais sólida do que a versão dramática.
21:42
Speaker A
Talvez o dilúvio como divisor entre o tempo dos deuses e o tempo dos homens seja uma construção posterior dos escribas, ajustada ao longo dos séculos para explicar a origem da realeza humana.
21:55
Speaker A
Isso não resolve o mistério, mas muda a pergunta. O que separa os deuses dos homens nesses textos não é um muro, é uma sucessão de decisões, de contextos e de interpretações.
22:08
Speaker A
E é aqui que entra um conceito central da religião suméria, os Me. O assiriólogo Samuel Noah Kramer, ao estudar o poema Inanna e Enki, identificou uma lista com mais de 100 decretos divinos que sustentavam a civilização suméria.
22:25
Speaker A
Entre eles estão a realeza, a verdade, a mentira, a arte do escriba, a viagem e a descida ao mundo inferior.
22:34
Speaker A
É comum ouvir que os Me funcionavam como programas de computador, que uma vez ativados, ninguém conseguia desligar.
22:42
Speaker A
A analogia é popular, mas é moderna, e eu não encontrei nenhuma fonte acadêmica que a use como definição técnica.
22:50
Speaker A
Mais importante, o poema contradiz a ideia de irreversibilidade. Os Me estavam sob a guarda de Enki, na cidade de Eridu.
23:00
Speaker A
A deusa Inanna o visita, os dois participam de um banquete e Enki, embriagado, entrega a ela os decretos um a um.
23:10
Speaker A
Quando acorda e percebe, tenta recuperá-los, mas Inanna os leva para a sua cidade, Uruk.
23:16
Speaker A
Ou seja, os Me trocam de dono, são transportados e disputados. Isso é bem diferente de um código [música] que ninguém pode alterar.
23:26
Speaker A
O que o texto mostra é uma ordem do mundo com regras fortes, mas negociada pelos próprios deuses.
23:32
Speaker A
Agora pensa comigo. Se um deus pode perder as regras da civilização numa noite de bebida, quão sólido seria um bloqueio feito dessas regras?
23:42
Speaker A
E é com a própria Inanna que chegamos à cena que eu prometi no início.
23:47
Speaker A
O poema da descida de Inanna ao mundo inferior é um dos textos mais famosos da literatura suméria.
23:54
Speaker A
Inanna, rainha do céu, decide visitar sua irmã mais velha, Ereshkigal, rainha dos mortos. Ao chegar, é recebida por um guardião chamado Neti, que lhe pergunta por que quer entrar numa terra de onde ninguém volta.
24:10
Speaker A
Quando Neti leva a notícia, a reação de Ereshkigal chama a atenção. Segundo a World History Encyclopedia, [música] ela bate na coxa e morde o lábio e não parece satisfeita com a visita da irmã.
24:22
Speaker A
Por ordem de Ereshkigal, Neti tranca os sete portões do mundo inferior e permite que Inanna passe por um de cada vez.
24:31
Speaker A
Em cada portão, ela é obrigada a entregar uma peça de seu poder: a coroa, o colar de contas, o anel, o cetro e as vestes.
24:40
Speaker A
Quando chega diante do trono, está nua e curvada. E aí acontece o que quase ninguém espera.
24:47
Speaker A
Sentados diante de Inanna estão sete juízes. Os textos os chamam de Anunna, uma das formas do nome Anunnaki.
24:56
Speaker A
Segundo Nicole Brisch, é justamente nesse poema que os Anunna aparecem como juízes do mundo inferior e são eles que pronunciam o veredito contra a deusa.
25:06
Speaker A
Ereshkigal fixa nela o olhar da morte e o corpo de Inanna é pendurado numa parede.
25:13
Speaker A
Isso inverte a imagem que se popularizou. Nesse texto, os Anunnaki não são seres exilados do lado de fora tentando entrar. Eles são os juízes do lado de dentro, parte do mecanismo que decide quem passa.
25:28
Speaker A
Então, a pergunta muda. Em vez de "O que impede os Anunnaki de voltar?", seria "O que acontece com quem tenta atravessar a porta que eles vigiam?".
25:38
Speaker A
A resposta do poema é reveladora. Inanna morre, mas é resgatada. Seu auxiliar, Ninshubur, pede ajuda aos deuses e Enki intervém, criando dois seres para trazê-la de volta.
25:53
Speaker A
Só que existe uma condição. Ninguém sai do mundo inferior sem deixar um substituto. Demônios chamados Gala acompanham Inanna até a superfície para reclamar alguém em troca.
26:05
Speaker A
O escolhido é Dumuzi, seu marido. Ou seja, a porta não era intransponível. Ela tinha um preço.
26:14
Speaker A
Essa é uma leitura bem diferente da do bloqueio permanente. A barreira do poema é uma regra com custo, não uma parede sem saída.
26:23
Speaker A
E aí? Será que a ideia de nunca mais não é uma simplificação moderna de uma lei que no texto era bem mais flexível?
26:31
Speaker A
Existe ainda uma terceira história de travessia e ela é a mais famosa de toda a literatura mesopotâmica, a epopeia de Gilgamesh.
26:41
Speaker A
Gilgamesh, rei de Uruk, é o herói de um poema de 12 tábuas e foi justamente a 11ª, a do dilúvio, que George Smith leu em 1872.
26:54
Speaker A
Quando o poema chega a esse ponto, o rei já está em busca de [música] algo que nenhum humano deveria alcançar: a imortalidade.
27:03
Speaker A
Segundo a resenha da New York Review of Books, Gilgamesh atravessa as águas da morte de barco até chegar à ilha da imortalidade, onde vive Utnapishtim, o único sobrevivente do grande dilúvio.
27:17
Speaker A
É dele que o rei ouve a história que Smith leu no museu. Reparem como a geografia do cosmos funciona nesse poema. Existe uma fronteira, as águas, e existe um lado de lá, a ilha. Um humano consegue atravessar, mas não porque venceu uma
27:33
Speaker A
regra, e sim porque enfrenta uma viagem perigosa e, no fim, descobre que a imortalidade de Utnapishtim foi uma concessão dos deuses e não algo que se possa tomar.
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Speaker A
O mesmo vale para Ziusudra, na Gênese de Eridu, que recebe a vida eterna de An e Enlil, e para o próprio Atrahasis.
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Speaker A
Nesses textos, a passagem para o lado dos deuses existe, mas ela é concedida, não conquistada.
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Speaker A
Isso nos leva a uma pergunta interessante: se a travessia entre o mundo humano e o divino dependia da vontade dos próprios deuses, o que diriam os escribas de uma barreira que nem os deuses pudessem abrir? Nas fontes que consultei, ela simplesmente não
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Speaker A
aparece. Falta mencionar o objeto mais citado nos vídeos sobre esse tema: a Tábua dos Destinos.
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Speaker A
No mito de Anzu, uma criatura meio ave, meio leão, rouba a Tábua de Enlil.
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Speaker A
O objeto simboliza a autoridade de decidir o destino de deuses e homens. O deus Ninurta, filho de Enlil, derrota Anzu e devolve a tábua ao dono. Segundo a enciclopédia da EBSCO, há ainda uma versão em que quem a recupera é o rei
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Speaker A
Lugalbanda, pai de Gilgamesh. No Enuma Elish, o grande poema babilônico da criação, a trajetória é outra.
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Speaker A
A deusa Tiamat entrega a tábua a Kingu, seu comandante. Quando o deus Marduk derrota os dois, toma o objeto para si.
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Speaker A
É a partir desse episódio que muita gente constrói a tese de uma chave única, nas mãos de um único deus, capaz de abrir ou fechar os portões entre o céu e a terra.
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Speaker A
Só que as fontes que consultei não dizem isso. No mito de Anzu, a tábua volta ao seu dono. E em nenhum dos dois textos, o objeto aparece como chave de uma passagem entre mundos.
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Speaker A
Essa função é uma interpretação posterior. A especialista Rebecca Wisnom, citada em verbete sobre Kingu, observa que no Enuma Elish, a tábua serve mais como símbolo de posição do que como objeto difícil de conquistar.
29:46
Speaker A
O poema, ao que tudo indica, tem um objetivo político: [música] afirmar a supremacia de Marduk, o deus de Babilônia, sobre os outros deuses.
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Speaker A
O saldo até aqui é claro. Os textos mostram deuses sujeitos a regras. Mostram fronteiras que cobram um preço.
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Speaker A
Mostram objetos de autoridade que passam de mão em mão. Mas não existe nenhuma frase afirmando que os Anunnaki jamais poderão voltar à terra.
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Speaker A
Isso não elimina o mistério. Só o desloca. Se o texto não diz isso, de onde veio a ideia?
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Speaker A
Vamos às teorias. A mais conhecida é a de Zecharia Sitchin. Nascido em Baku, ele foi jornalista e editor em Israel e aprendeu a ler cuneiforme por conta própria.
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Speaker A
Em O 12º Planeta, de 1976, e em O Livro Perdido de Enki, de 2002, [música] propôs que os Anunnaki eram seres de um planeta chamado Nibiru, que teriam criado a humanidade por engenharia genética e prometido voltar. Segundo descrições do livro, eles teriam chegado
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Speaker A
à Terra há cerca de 445.000 anos. O que a evidência mostra? Assiriólogos como Heiser rejeitam as traduções de Sitchin e afirmam que os textos não associam os Anunnaki a um planeta ou culto. A palavra Nibiru aparece em textos astronômicos babilônicos ligada
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Speaker A
ao deus Marduk e não existe evidência astronômica de um planeta como o que ele descreveu.
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Speaker A
Um dos argumentos mais conhecidos de Sitchin é um selo cilíndrico catalogado como VA 243, no qual ele via um sol cercado por 11 esferas.
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Speaker A
Heiser propõe outra leitura. O desenho poderia representar o conselho dos 12 grandes deuses. Quando duas leituras disputam uma imagem, a que dialoga com a cultura que a produziu costuma ser a mais sólida.
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Speaker A
Vale olhar de perto a palavra que ocupa o centro dessa polêmica: Nibiru. Em acádio, Nibiru significa travessia ou ponto de passagem, sobretudo de rios.
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Speaker A
Era o termo para um vau ou para uma balsa. Nos textos astronômicos, ele se aplica a um astro associado a Marduk.
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Speaker A
De acordo com os estudos de referência, o catálogo astronômico Mul Apin identifica Nibiru com Júpiter, chamado ali de estrela de Marduk, que divide o céu ao meio.
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Speaker A
Outras tábuas, catalogadas como K 6174 e [música] K 12769, associam o termo a Mercúrio, quando ele divide o céu.
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Speaker A
E na quinta tábua do Enuma Elish, Marduk fixa as posições de Nibiru entre os astros.
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Speaker A
Há ainda uma passagem do Enuma Elish que descreve esse astro como um poste no ponto de virada, ocupando as passagens entre o céu e a terra.
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Speaker A
É o tipo de frase que alimenta teorias de portais. Mas o estudioso Bell, citado na página de referência, considera essa passagem muito difícil de interpretar.
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Speaker A
Veja a ironia. A palavra que a tradição moderna transformou em planeta que cruza o sistema solar e traz os deuses de volta significava para os babilônios um ponto de travessia no céu, marcado por um astro conhecido e ligado a um deus.
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Speaker A
Isso sozinho não prova que Sitchin errou em tudo. Mas mostra que o termo tem uma explicação dentro da astronomia babilônica e que essa explicação não exige um planeta desconhecido. É também um bom exemplo de como uma coincidência de ideias, travessia e retorno pode
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Speaker A
gerar interpretações que parecem encaixar, mas dependem de ler o texto de fora para dentro.
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Speaker A
A segunda teoria é a do bloqueio tecnológico, que circula em vídeos e fóruns sem um autor identificado.
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Speaker A
Ela diz que os escribas descreveram na linguagem que tinham um mecanismo real que selou o contato entre dois mundos.
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Speaker A
O que a evidência mostra? Nada nas tábuas sustenta isso e a hipótese depende de ler portões, decretos e tábuas como código disfarçado.
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Speaker A
A terceira é a leitura acadêmica. Para os especialistas, os mesopotâmicos construíram uma teologia em que os deuses são poderosos, mas presos a papéis e usaram mitos para explicar por que existem trabalho, morte e realeza.
34:25
Speaker A
Existe ainda um argumento frequente. O tema do ser divino afastado ou preso aparece em outras culturas.
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Speaker A
O livro de Enoque, texto judaico antigo, fala dos vigilantes, seres celestes que descem, ensinam segredos proibidos e acabam acorrentados até o julgamento.
34:45
Speaker A
Mas o pesquisador Amar Annus argumenta que a origem dos vigilantes está nos Apkallu, sábios míticos mesopotâmicos ligados a Enki.
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Speaker A
Ou seja, não se trata de culturas independentes chegando à mesma ideia. É herança cultural.
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Speaker A
Bom, e você? O que acha mais plausível? Uma memória de algo que realmente aconteceu ou uma imagem poderosa que várias culturas reaproveitaram?
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Speaker A
Voltemos agora à pergunta que deixei lá atrás. O que acontece com um deus quando ninguém mais lhe oferece comida?
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Speaker A
Os textos mesopotâmicos não respondem a isso diretamente, mas a história oferece pistas sobre o fim do mundo em que essas ideias faziam sentido.
35:30
Speaker A
Segundo um estudo do Centro de Estudos de Manuscritos de Hamburgo sobre a extinção da escrita cuneiforme, o cuneiforme não desapareceu de repente.
35:40
Speaker A
Ele foi perdendo espaço ao longo do primeiro milênio antes de Cristo e sumiu no século 1 depois de Cristo.
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Speaker A
O aramaico, escrito com tinta sobre papiro ou pele, passou a ser usado em paralelo ao acádio.
35:54
Speaker A
Como esses materiais orgânicos não sobreviveram, restam sobretudo as tábuas de argila. Depois da chegada de Alexandre, em 331 antes de Cristo, o acádio em cuneiforme passou a ser usado quase só em Babilônia e Uruk pelo clero. Os textos tardios são
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Speaker A
frequentemente defeituosos e seus autores escreviam mal na própria língua. Existem cerca de 20 textos chamados graeco-babyloniaca que transcrevem sumério e acádio em letras gregas, feitos para ensinar a pronúncia a babilônios que já tinham perdido o contato com essas línguas.
36:32
Speaker A
O texto mais recente conhecido data de 75 depois de Cristo e é de caráter astronômico.
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Speaker A
É importante dizer o que o estudo não afirma. Ele não apresenta uma explicação religiosa para esse declínio. Ele associa a escrita sobretudo ao clero e as instituições dos templos. O que sabemos então é que a língua e a escrita
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Speaker A
desses rituais foram desaparecendo e que os últimos usuários eram estudiosos, astrólogos e sacerdotes de templos.
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Speaker A
Isso não é uma resposta sobre os Anunnaki, mas oferece uma imagem poderosa, a de um mundo em que as vozes que chamavam os deuses foram se calando uma a uma até restarem poucos escribas escrevendo numa língua que já mal
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Speaker A
dominavam. Se existe algum bloqueio que explique por que os deuses mesopotâmicos não se manifestam hoje, a explicação mais simples que as fontes permitem apontar é histórica, não cósmica. Essa é uma leitura minha e não uma conclusão dos especialistas, mas ela se sustenta nos
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Speaker A
fatos. A rede de templos, sacerdotes e escrita que alimentava, nomeava e recitava esses deuses deixou de existir.
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Speaker A
Antes de encerrar, vale lembrar que esses textos ainda estão sendo descobertos. Em 2009, o curador do Museu Britânico Irving Finkel recebeu de um colecionador Douglas Simmons uma tábua trazida do Oriente Médio pelo pai dele depois da Segunda Guerra. Ela ficou conhecida como
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Speaker A
a tábua da arca. Tem 60 linhas e segundo Finkel foi escrita entre 1900 e 1700 antes de Cristo.
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Speaker A
É um trecho do Atrahasis, o mesmo poema que vimos. Nele um deus manda o herói construir um barco com medidas precisas e a embarcação é redonda, como um grande cesto chamado coracle.
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Speaker A
Finkel apresentou o achado em janeiro de 2014, no livro A Arca antes de Noé.
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Speaker A
Na época, David Owen, professor da Universidade Cornell, o chamou de extraordinário, segundo a Associated Press. O próprio Finkel deixou claro que a tábua não prova que a arca bíblica existiu.
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Speaker A
E a tábua da arca não é a única novidade. Segundo a página de referência sobre a Gênese de Eridu, o texto sobrevive em fragmentos de Nippur, de Ur e da biblioteca de Assurbanipal e um novo fragmento foi publicado em 2018. Ou
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Speaker A
seja, mesmo a história do dilúvio sumério, estudada há mais de um século, continua ganhando linhas novas.
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Speaker A
Por que isso importa para o nosso tema? Porque mostra que cada nova tábua pode mudar a leitura que fazemos e que afirmações do tipo: "Os textos dizem que nunca mais" exigem cautela.
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Speaker A
Então, qual é o estado atual do debate? Os especialistas tratam os Anunnaki como deuses de uma religião antiga, cujos mitos explicavam a ordem do mundo.
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Speaker A
Ainda se discute como os significados de Anunnaki e Igigi mudaram, por que o mundo inferior ganhou tanto peso e em que medida os mitos de regiões vizinhas se influenciaram.
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Speaker A
E o que continua sem resposta? A pergunta que dá título a este vídeo: Se existe alguma coisa que impeça os Anunnaki de voltar à Terra, ela não está escrita nas tábuas que sobreviveram.
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Speaker A
O que as tábuas registram é mais curioso: Uma civilização que imaginava deuses cansados, famintos e dependentes, que imaginava portões, juízes e um preço para atravessar e que colocou os próprios Anunnaki do lado de dentro dessa porta e não do lado de fora.
40:19
Speaker A
Para organizar tudo isso, vale montar uma linha do tempo. Por volta de 3.200 antes de Cristo, surge o cuneiforme na Suméria.
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Speaker A
Em torno de 2.900 antes de Cristo, Enlil já é adorado em Nippur. Entre 1.792 e 1.750 antes de Cristo, no reinado de Hamurabi, o poder religioso começa a se deslocar para Marduk em Babilônia.
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Speaker A
Por volta de 1.800 antes de Cristo, é escrito o Prisma Weld-Blundell, com a lista dos reis.
40:55
Speaker A
Em cerca de 1.700 antes de Cristo, no reinado de Ammi-Saduqa, é copiada a versão mais bem conservada do Atrahasis.
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Speaker A
No século XVII antes de Cristo, a tábua do dilúvio de Nippur é escrita em sumério.
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Speaker A
Por volta de 1.600 antes de Cristo, o nome Anunnaki começa a migrar para o mundo inferior.
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Speaker A
Entre 1.300 antes de Cristo, circulam os manuscritos do Enuma Elish. No século VII antes de Cristo, o rei Assurbanipal reúne sua biblioteca em Nínive.
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Speaker A
Em 331 antes de Cristo, Alexandre chega a Babilônia e o cuneiforme passa a ser usado quase só por sacerdotes. Em 75 depois de Cristo, é datado o último texto cuneiforme conhecido.
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Speaker A
Em 1.872, George Smith lê a tábua do dilúvio. Em 1.969, Lambert e Millard publicam a edição de referência do Atrahasis.
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Speaker A
Em 1.976, Sitchin lança O 12º Planeta. E em 2014, Irving Finkel apresenta a tábua da arca.
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Speaker A
Repare no tamanho dessa linha. São mais de 5.000 anos entre a invenção da escrita e os debates de hoje. E mais de 3.000 anos entre os primeiros textos sobre esses deuses e a ideia, lançada em 1976, de que eles seriam visitantes do espaço.
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Speaker A
Quando alguém afirma que os textos antigos dizem algo, vale perguntar: Qual texto, de qual século, copiado por quem e traduzido por quem?
42:40
Speaker A
Vamos recapitular o caminho. Começamos entre o Tigre e o Eufrates, com os sumérios e a invenção da escrita.
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Speaker A
Vimos que os Anunnaki têm um nome elástico, que mudou de sentido ao longo dos séculos. Reencontramos a biblioteca de Assurbanipal e George Smith no Museu Britânico, abrindo as portas para esse universo.
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Speaker A
Lemos o Atrahasis, em que deuses cansados criam a humanidade para trabalhar. Vimos que a lista dos reis mistura mito e história e que o dilúvio como divisor de eras provavelmente foi uma construção tardia.
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Speaker A
Descobrimos que os mi mudavam de dono numa noite de bebida, que a porta do mundo inferior cobrava um preço e que a tábua dos destinos, no mito de Anzu, voltava ao seu dono.
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Speaker A
E em nenhuma dessas tábuas apareceu a frase que muita gente repete, a de que os deuses nunca mais poderão voltar.
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Speaker A
A Mesopotâmia, berço da civilização, nos deixou o que talvez seja a primeira grande reflexão escrita sobre fronteiras, entre o céu e a terra, entre os vivos e os mortos, entre os deuses e os homens e sobre o custo de
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Speaker A
atravessá-las. E você, o que que acha desse tema? Deixa nos comentários. Se você curtiu o vídeo, dá o seu like e não deixa de se inscrever no canal.
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Speaker A
Muito obrigado pela sua companhia sempre especial. A gente se vê num próximo vídeo.
Topics:AnunnakiMesopotâmiaSumériacuneiformeEnlilEnkiAssurbanipalmitologia sumériaZecharia SitchinGilgamesh

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