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Os Funerais da Mamãe Grande: Literatura, América Latina e o poder da esperança (2026)

Análise literária de 'Os Funerais da Mamãe Grande' e o papel da literatura na esperança e compreensão da diferença na América Latina.

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Key Takeaways

  • A literatura é fundamental para desenvolver empatia e compreensão da diferença.
  • O futuro é uma construção coletiva e a literatura pode inspirar esperança.
  • 'Os Funerais da Mamãe Grande' é uma obra seminal para entender o realismo mágico e a literatura latino-americana.
  • Contos exigem um leitor ativo e interpretativo, especialmente por seus finais abertos.
  • Conhecer o contexto histórico é essencial para uma análise literária completa.

What the video covers

  • A professora da Unicamp compartilha sua trajetória acadêmica e paixão pela literatura.
  • A importância da literatura para entender o outro e a si mesmo, especialmente em tempos de desesperança.
  • Discussão sobre a construção do futuro e a necessidade de uma postura ativa da juventude.
  • Apresentação da obra 'Os Funerais da Mamãe Grande' de Gabriel García Márquez como marco do realismo mágico.
  • Diferenciação entre conto e outras formas literárias, destacando a estrutura e o papel do final no conto.
  • Referência ao contexto histórico da América Latina nos anos 60 e sua influência na literatura.
  • Análise da obra de García Márquez como uma combinação de dor e esperança.
  • Importância do leitor ativo para interpretar finais abertos e a complexidade dos contos.
  • Relação da literatura com a construção de repertório cultural e ético para lidar com a diferença.
  • Recomendações para complementar o estudo com aulas históricas sobre o autor e o contexto literário.

Answers

Questions about this video

Qual a importância da literatura segundo a professora?

A professora destaca que a literatura é fundamental para entender o outro e a si mesmo, ajudando a construir empatia e uma postura ativa diante das diferenças e do futuro.

Por que 'Os Funerais da Mamãe Grande' é uma obra relevante?

'Os Funerais da Mamãe Grande' é considerada a pré-história da obra-prima 'Cem Anos de Solidão' e um marco do realismo mágico, combinando dor e esperança na literatura latino-americana.

Como o conto difere de outras formas literárias?

O conto é uma narrativa curta com conflito único e poucos personagens, caracterizado por finais importantes e muitas vezes abertos, que exigem um leitor ativo para interpretar seu significado.

Full Transcript — Download SRT & Markdown

00:10
Speaker A
Para quem não me conhece, porque muita gente é novata no cria, né? Sou professora de língua portuguesa e literatura e sou cria da Unicamp. Sou formada em Letras aqui, fiz filosofia também, acabei não formando, mas fiz 3 anos. Fiz mestrado em história da
00:26
Speaker A
literatura, fiz doutorado em crítica literária, tudo aqui no IEL. Fiquei 5 anos descansando da minha última pesquisa e encontrei por sorte do destino o professor José Alves, que não tá aqui hoje, mas que é o responsável pela Convest, e falei: "Zé, acho que eu quero
00:43
Speaker A
voltar a estudar". Aí ele falou assim: "Que louca, vamos". E aí eu fiz um pós-doutorado no ano passado, foi minha última coisa. Agora eu tô vendo aí onde eu vou me meter para estudar, porque eu sou o tipo
00:55
Speaker A
de pessoa que só vive se tiver motivada pelo estudo, até porque, né, escolhi ficar na escola para sempre, né, sou professora de ensino médio, de cursinho e de graduação. Então, hoje aqui para mim, eu tô basicamente no meu lugar
01:09
Speaker A
favorito do mundo, que é Unicamp. Então, aquilo que vocês projetam ser no futuro, eu sou resultado, uma cria oficialmente.
01:18
Speaker A
Então, para mim é bem especial. Várias vezes que eu tive aqui, eu comecei falando sobre a importância da literatura pra gente entender o outro.
01:30
Speaker A
Quando eu tava, eu lembro claramente de abrir a palestra da Chimamanda, que foi a última que eu fiz, se eu não me engano, já não lembro, gente, mas acho que é falando sobre o quanto uma mulher nigeriana podia nos passar enquanto
01:42
Speaker A
experiência pela literatura e pela arte para construir um processo de compreensão da diferença em nós mesmos.
01:49
Speaker A
E vindo para cá, moro em São Paulo, dirigindo, eu pensei que, de fato, como muito bem eu aprendi com o Antônio Cândido, a coisa que mais me interessa na literatura, e é por isso que eu sou professora de literatura,
02:00
Speaker A
é conseguir ensinar os meus alunos que por meio da arte eu posso ser um indivíduo melhor em relação à diferença.
02:06
Speaker A
E aí a gente sabe que a gente tá precisando de gente que consiga lidar com a diferença mais do que nunca. Mas hoje eu não queria falar disso. Embora esse seja um lugar primoroso da literatura, eu tenho visto, eu dou aula
02:20
Speaker A
há mais tempo do que vocês têm idade, eu acho, de alguns de vocês. Tem aula quase 20 anos. E eu tenho visto cada vez mais numa potência muito assustadora, a desesperança, uma sensação constante que vocês têm nessa idade que vocês têm de que não há
02:39
Speaker A
um futuro pelo qual lutar. E de fato não há. Mas a impressão que vocês têm é que não existir um futuro seja uma coisa de agora. Ai aquecimento global, ai governo fascista.
02:51
Speaker A
Ah, verdade, tudo isso é verdade. Nunca houve futuro, gente. Futuro não existe. Futuro é uma construção nossa. O único problema que vai ter é se a gente não der conta de construir o nosso. Então eu preciso urgentemente que essa juventude
03:07
Speaker A
que me acompanha, assiste as minhas aulas, comece outra postura em relação à ideia de futuro. É verdade que ele não existe, mas também é verdade que ele nunca existiu. E onde a literatura entra nessa história? Ela nos dá repertório,
03:22
Speaker A
porque do mesmo jeito que ela ensina a gente lidar com o outro, ela ensina a gente lidar com a gente. E eu acho que eu fui pra literatura porque eu fui uma jovem com muitas dificuldades de lidar comigo mesma. Eu sou filha de refugiados
03:34
Speaker A
libaneses da guerra civil do Líbano. Eu cresci falando primeiro árabe e depois português. Eu escolhi dar aula de língua portuguesa, que não é minha língua materna. É um senso que obviamente eu não percebi com 17 anos, mas hoje
03:49
Speaker A
chegando, indo aí pros 40, eu percebi que foi uma decisão de gratidão ao país que acolheu a minha família. Se eu ensino língua portuguesa, se eu falo de literatura em língua portuguesa, sou eu agradecendo o futuro que a língua
04:02
Speaker A
portuguesa me deu. E eu queria muito que a literatura de língua portuguesa, de hispânica, seja o que for, desse um pouquinho de esperança para vocês, porque esse cara escreveu numa época que outras coisas estavam acontecendo, mas ela continua fazendo sentido. Se
04:19
Speaker A
continua fazendo sentido, se Macondo nesse lugar imaginário pode ser hoje aqui, é porque a gente pode fazer qualquer coisa com a nossa história.
04:28
Speaker A
Vamos começar assim, então bora. Para falar de "Funerais de Mamãe Grande", livraço, eu vou partir de um pressuposto, um acordo nosso. Já teve uma aula aqui maravilhosa do professor Felipe, que é historiador. O que ele fez? Porque não
04:46
Speaker A
não caía no passado, mas eles chamaram para fazer uma preparação. Ele fez um trabalho que eu, que sou da literatura, não faria também, um baita trabalho histórico sobre o que foi, né, os anos 60 na América Latina, o boom
05:02
Speaker A
histórico da escrita do Gabo nos anos 60, como ele vai evoluir até os anos 80 para ganhar o Nobel, todo esse processo maravilhoso que foi a literatura latino-americana dos anos 60 do século XX.
05:15
Speaker A
Vamos fazer um acordo. Vocês vão assistir essa aula. Eu deixei o link para vocês no último slide da minha aula, tá bom? Porque eu vou fazer o que eu faço melhor, análise de obra. Aí assim vocês têm o melhor dos dois
05:26
Speaker A
mundos. Se eu tivesse duas, três horas, como eu tenho nos meus cursos tradicionais, eu faria tudo. Mas eu vou fazer uma opção para ajudar vocês em literatura, já que já fizeram muito bem a parte histórica de quem é o Gabriel
05:38
Speaker A
García Márquez, o que foi a revolução cubana, como a revolução cubana impacta a literatura latino-americana dessa época. Isso tá muito bem feito e muito bem documentado no YouTube. Tá bom. Cria mandou muito bem nessa decisão. E agora eu vou falar efetivamente de literatura.
05:55
Speaker A
Aqui tá o Gabo, né? Essa figura curiosíssima, esse escritor que modificou a literatura latino-americana, que foi um dos nossos grandes nomes aqui e que escreveu o que a gente inaugura, né, como realismo mágico, mas ele escreveu
06:13
Speaker A
com uma potência de dor e ao mesmo tempo de esperança, que é um paradoxo, né, uma antítese, a depender do ponto de vista, que vai passar por toda essa obra, essa obra que é considerada inclusive a pré-história da literatura do Gabo. Eles
06:27
Speaker A
dizem que "Vulneráveis de Mamãe Grande", né, os especialistas na obra dele, seria o germínio do que vai virar depois a sua obra-prima "Cem Anos de Solidão", né? Mas sobre isso, como eu falei para vocês, eu prefiro que vocês vejam a aula que é
06:39
Speaker A
muito mais competente que a minha nesse sentido. A, este é o nosso livro. Não é qualquer livro, são oito contos. E agora a gente vai começar a falar de teoria da literatura. Conto não é romance. Conto não é crônica. Conto não é qualquer
06:56
Speaker A
unidade linguística de texto. Quem melhor documentou a estrutura do conto no século XX foi um cara chamado Ricardo Piglia e um outro chamado... esse documentou brincando, né? Fez um decálogo do perfeito contista que é o Quiroga. Uma coisa que esses dois autores
07:14
Speaker A
partilham e que é muito importante é a importância do final dentro de um conto.
07:20
Speaker A
Porque a definição básica é que o conto é uma narrativa curta de conflito único com número reduzido de personagens, mas isso diz muito pouco, tá? O Quiroga brinca que você não começa a fazer um conto, não escreve as três primeiras
07:33
Speaker A
linhas de um conto sem saber as três últimas, porque existe uma importância muito grande nesse final. E eu que sou versada em literatura e em jovens, sei que vocês odeiam quando eles acabam e você fica assim: "Acabou, acabou,
07:50
Speaker A
é isso que acabou. E o que aconteceu?" E não aconteceu efetivamente nada explícito, né? A linguagem deixa muitos meandros para você descobrir o que aconteceu e vocês odeiam. Quanto mais jovem, mais odeia isso. Eu também odiava. Mas esses finais que a gente
08:04
Speaker A
fala de finais abertos ou não finais que aparecem muito na Chimamanda também, eles são importantíssimos pro que o conto é.
08:11
Speaker A
O conto não é um texto fechado. O conto é uma promessa constante, é uma obra muito aberta que exige de nós um leitor ativo. Tá bom? Então assim, como que é o final de tal conto? Depende de quais circunstâncias você está
08:27
Speaker A
movimentando para isso. E a gente tem que tomar um cuidado porque eu vou parecer até hipócrita, né? Eu quero que você dê conta de ser o leitor ativo e
08:41
Speaker A
isso. Não é o que você quiser, é o que o texto deixa que a gente construa, porque o texto é soberano, a literatura é musa soberana, a gente pode ser um leitor ativo, mas a gente não inventa qualquer
08:52
Speaker A
coisa, tá? E aí a gente tem que tomar cuidado aí com análises de internet, com isso, tá bom, gente? a galera cria, galera criativa. O realismo mágico, para quem não conhece, é uma evolução da teoria do realismo clássico, né, que é o
09:08
Speaker A
maravilhoso, que o principal escritor que falou sobre isso foi o Todorov mesmo. Eh, ele vai ter uma característica que é tão latino-americana que é a necessidade de colocar dentro do realismo clássico, que é o que é teoricamente, né, é reprodução exata da
09:26
Speaker A
realidade. algum elemento do da ordem do fantástico, mas que não seja como é um conto de fadas. Ou seja, num conto de fadas, eu crio uma coerência interna em que um unicórnio e uma bruxa podem estar ali numa boa. O realismo mágico não, ele
09:44
Speaker A
não cria um universo, é o nosso universo. E nesse universo tem fissuras e nessas fissuras a magia entra, seja para constranger, seja para salvar, seja para oprimir.
09:58
Speaker A
O mágico, ele não entra, como entra no conto de fada, como salvação. Ele entra como forma de escancarar as chagas da realidade. É como se ele exagerasse no limite o que a gente tem de realidade. E o melhor de tudo, né? Um bom texto de
10:13
Speaker A
realismo mágico eh essa essa rachadura na realidade, ela é interpelada pela pelo pela figura dos personagens que não contestam. Você fala, tem tá pássaro morrendo e ninguém vai perguntar por eles estão o tempo todo preocupados com a ideia de um judeu errante e ninguém
10:34
Speaker A
vai falar, sei lá, se tem uma zonose. É essa que é a graça, tá? E pensar isso dentro do contexto latino-americano, naquela época e ainda hoje, é uma forma de pensar também que eu preciso resgatar o que os povos originários e o que toda
10:51
Speaker A
essa leva de escravizados que foi trazida para cá a força também nos legou. Porque esse realismo duro, né, europeu, ele não dá conta do que é de fato um lugar que foi colônia, o e e que continua sendo colônia, né? Acho que a
11:08
Speaker A
maior ilusão, né? Acho que as grandes ilusões do século XX são várias, né? Tem uma coleção, mas a minha favorita é a ideia de que a gente não é mais colônia.
11:17
Speaker A
Ai, que fofo, né? Eu acho um dos meus mitos favoritos. Ah, Brasil não é mais colônia. Independência não, né, gente? A gente segue numa estrutura colonial. O fato da gente acordar todos os dias massacrando jovens negros no Brasil, se
11:29
Speaker A
você ainda acha que a gente é um país independente, você errou muito, né? As nossas chagas coloniais, elas estão gritando, registraram lá um papel, mas a gente segue levando uma lógica colonial.
11:39
Speaker A
E isso dialoga muito com a gente. Leram o livro? Agora é a parte que eu sofro.
11:45
Speaker A
Leram? Leram nada? Leram? Levanta a mão quem leu. Entendi. Bom, né, gente? Pois vocês sabem que eu sou carinhosamente conhecida pelas minhas alunas de bruxona. Apelido aí que eu me autode dei porque eu deixo pras, tá? Se você não
12:02
Speaker A
ler este livro, você vai passar no vestibular, porque eu desejo que todo mundo passe, mas você não vai pegar ninguém nos primeiros dois anos de faculdade. Ah, mas eu namoro, vai terminar você. Eu não, não vou ameaçar ninguém
12:17
Speaker A
com vai todo mundo passar. Ah, mas eu já sou casado. Vai acabar. Você você quer arriscar?
12:25
Speaker A
Arrisca. Eu, se fosse você leria os funeráis de mamãe grande. Pode ser até a segunda fase, mas tem que ler. OK. Para quem leu essa quantidade mínima de pessoas que vão fazer a festa no primeiro ano de faculdade de alegria,
12:42
Speaker A
deve ter reconhecido algumas coisas, inclusive muito 2026, né, no na descrição do primeiro conto, ele fala assim, né, porque uma o início do conto, ele é super magético, né, com espaço que ele tá atravessando pelo trem e ele fala
12:55
Speaker A
das casinhas coloridas com plantações verdejantes e cadeirinhas brancas à frente, né, Bad Bunny? Isso mesmo. Essa é a referência.
13:05
Speaker A
Não tem como não pensar nisso. Se a gente Olha, mas olha que loucura. Olha, quando eu falo que a literatura, gente, a literatura não é um fardo na vida do vestibulando. A literatura é o seu maior presente no meio de um monte de coisa
13:18
Speaker A
que você tem que aprender, uma das coisas que você tem que aprender é sobre você. Que bom, que sorte que o vestibular coloca a literatura também, porque a gente falou sobre o boom, né, do do dos latinoamericanos e do da
13:32
Speaker A
constatação super nova de que somos parte da, né, da América Latina enquanto brasileiros, né, ouvimos o Bad Bunny falou Brasil, então a gente é latino-americano. Galera, quem lê Garcia Marques sabe que a gente é latino-americano há muito tempo. A gente
13:46
Speaker A
é latino-americano por milhões de questões, tá? inclusive pela descrição das cadeirinhas brancas, que é um detalhe, claro, vocês vão ver que ressoa muito na nossa realidade um monte de coisa que eu vou falar aqui. Como que eu fiz? Eu disponibilizei esses slides para
14:01
Speaker A
Ju mandar para para quem quiser. Então vocês não precisam ficar se matando de copiar se não quiserem, mas pode. Acho fofo. Eu também aprendo copiando, mas não sou se não perderem alguma coisa que isso fica disponível. A gente vai falar
14:13
Speaker A
desse livro que ele é simultaneamente pós-colonial e decolonial. Vamos falar sobre essa nomenclatura pós-colonial.
14:22
Speaker A
Esse pós, esse prefixo me diz que ela é uma literatura feita depois do processo de emancipação, tá? Mas ele também tem uma uma motivação decolonial. Que que é decolonial? A fim de desconstruir e vilipendiar mesmo as estruturas coloniais do da da América Latina. Ele
14:44
Speaker A
tá falando da Colômbia, ele escreve desde a Colômbia, ele vai pro México, mas a gente tem essa macondo, que vai ser o lugar que ele cria e que vai reaparecer depois em cim anos de solidão, como um grande símbolo da
14:57
Speaker A
América Latina, como uma grande, agora eu quero usar um pouquinho de nomenclatura de literatura, metonímia da América Latina. Para mim é mais do que uma metáfora, uma metonímia. Qual que é a definição de metonímia? Parte pelo todo, todo pela parte. Eu tenho um
15:14
Speaker A
espaço imaginário que simboliza toda uma realidade. E para alguns contos hoje eu quero fazer uma revisão de figura de linguagem com vocês, tá? Que que eu fiz aqui? Falei de Macondo, depois vocês leem essa coisa maravilhosa. Eu dividi
15:29
Speaker A
em três chaves de leitura, que é o meu jeito de dar aula. Quem meu aluno, eu tenho vários ex-alunos aqui, eu tenho atuais alunos, tenho alunos de graduação, lindo, maravilhoso. Então, você já alguns me conhecem, é o meu
15:39
Speaker A
jeito de organizar a entrada no livro, porque às vezes a gente fica assim, tá, eu li, mas que que eu tenho que olhar?
15:46
Speaker A
Um livro você pode olhar 70 coisas um livro bom. Eu escolhi três. Ponto número um. Esse é um livro sobre subversões.
15:54
Speaker A
Sempre existe um poder instituído e alguma força de resistência que vai ou não lograr nessa resistência. Em alguns momentos dá certo, em alguns momentos não dá.
16:06
Speaker A
O mais importante para mim, bota aí esteirinha postit. Pessoal anotando no celular, jovem é né? Tudo bem. bota asterisco, então, já que não dá para botar um postite, eh, a inversão da moralidade, aquilo que a gente entende, né, como o
16:24
Speaker A
poder instituído é o moral e a subversão é o amoral ou imoral. Qual que é a diferença? A moral não tem regras morais. Imoral desrespeita as regras instituídas. Esses dois valores acontecem no livro, o amoral, o imoral.
16:42
Speaker A
Ele tá invertido. É como se eu tivesse um pêndulo de o que é o correto e o que é o errado trocando de lado. O que seria lido como incorreto, por exemplo, um roubo, vai ser lido como correto diante do que é
16:57
Speaker A
verdadeiramente incorreta, a pobreza. Tudo bem? Vou explicar conto a conto, mas essa é a ideia. E por fim, a gente tem um monte de símbolos, símbolos literários. Símbolos são metáforas, mas metáforas com poder cultural mais amplo.
17:13
Speaker A
Vou falar de alguns só rapidamente. Mais importante de todos tá num slide, inclusive. O calor. O calor é um personagem nesse livro. Ele não é só um clima, tempo. É clima ou é tempo, calor?
17:26
Speaker A
Não sei. Variação termo de termo temperatura. Não sei geografia, desculpem, mas enfim. É que eu sei que tem uma diferença de clima e tempo. Ah, enfim, enfim. É isso aí. Eh, o calor é um personagem importante. O box, para quem leu, às
17:42
Speaker A
vezes passa despercebido, mas o box era uma é um é um dá para pensar que é um análogo do que o futebol é aqui no Brasil. A ideia de que alguém de classe média baixa, principalmente meninos negros, só vão conseguir acender pela
17:55
Speaker A
pelo esporte. E o box ele é mais ainda do que o futebol, né, extremamente violento pro corpo, né? Não, não o esporte é violento, mas ele machuca muito o corpo.
18:08
Speaker A
E em vários momentos o box vai aparecer como sendo o que não deu certo. E o personagem, por exemplo, do primeiro conto, ele desiste do box e ele rouba. E ele não tem nada, né? Nem cinto ele tem.
18:19
Speaker A
Ele usa uma faixa para segurar a calça, nem sapatos, são símbolos de de terça.
18:24
Speaker A
Isso é uma dica pra vida, tá? Sapatos na literatura são muito importantes. Ter ou não ter sapatos. Quais sapatos você tem?
18:31
Speaker A
São símbolo literário, tá? G pensando para outros livros. Esses símbolos, o box, o calor, o sapato, eles são policêmicos. Então eles não significam só uma coisa, tá? Mas eles também são ambivalentes.
18:47
Speaker A
Além deles significarem mais de uma coisa, às vezes ao mesmo tempo ele é o bem e o mal.
18:51
Speaker A
E isso às vezes pode ser difícil de entender se você não tiver um acompanhamento literário do livro, tá?
18:57
Speaker A
Como eu não vou conseguir ler todos os exertos que eu gostaria, porque eu nem sei quanto tempo de aula eu tenho, uma hora. Ju, alguém sabe quanto tempo de aula eu tenho? Eu não esqueci de ver.
19:06
Speaker A
Uma hora eu acho. Eu sempre passo, mas eu não vou passar hoje que a minha colega aqui tá me esperando. Então eu vou fazer o seguinte, eu vou comentando, depois vocês leem casos. Só que eu organizei de um jeitinho que fosse legal
19:15
Speaker A
para vocês. Quando vocês pegarem o slide e já volto aqui, gente. Eu só quero mostrar. Eu fiz assim, um slide de síntese, um slide de análise e um slide com o final do conto. Todos os contos t isso. Para você, se for estudar sozinho,
19:30
Speaker A
depois sem mim, não lembrar direitinho o que eu tava falando, você consegue se organizar nos estudos. Muito professora ela, né, gente? Ai, tadinha. Vamos agora volta aí. Outra coisa que eu quero falar que no usando os termos que usaria-se na
19:43
Speaker A
América Latina, especialmente na Colômbia, a gente tem uma força que atravessa essa obra que é o gamonalismo, que é muito similar ao que a gente tem no Brasil por coronelismo, tá? que são figuras de poder vinculadas a à
20:00
Speaker A
estrutura agrária, né, que no caso lá na Colômbia são as plantações de banana, principalmente. E essa estrutura de poder, ela vai ter figuras que vão fazer voto de cabresto, que vocês conhecem muito bem, vão decidir questões locais, vão eh nomear os alcaides, que são os
20:18
Speaker A
prefeitos, uma mistura de prefeito e de poder eh político, mas também um pouquinho militar. uma coisa diferente do que a gente tem aqui, mas que essa lógica do coronel, tá? Eu acho muito importante a gente fazer aproximações com o Brasil, não só porque isso pode
20:34
Speaker A
ser cobrado, independente disso seja cobrado, mas porque quando a gente consegue identificar a nossa realidade, a literatura também faz muito mais sentido, né? Então essa estrutura do coronelismo, ela vai aparecer o tempo todo. Eu falei do calor, passei o slide
20:46
Speaker A
do calor, mas eu vou contar o que eu queria que vocês soubessem. O calor ele é muito agressivo.
20:55
Speaker A
Ele é um símbolo muito agressivo. Só que o calor só é agressivo se você precisa estar embaixo do sol. Ele não é qualquer agressividade. Você percebe? Se você tem um direito a se proteger, isso o primeiro conto fala isso, você não vai
21:11
Speaker A
olhar o calor como um grande eh uma grande violência, mas ele significa, em certa medida, esse poder opressor, sufocante. As descrições desse livro, o trabalho descritivo e o uso de modalizadores, advérbios e aditivos constróem um espaço que deixa a
21:30
Speaker A
gente sem ar em alguns momentos, querendo assim se abanar também, tá? ao mesmo tempo, e para citar Bad Bunny, é o calor que traz um pouquinho de sazon pelas roupas das mulheres, pela exuberância da mata, pelo jeito como as
21:45
Speaker A
pessoas lidam com os horários. estão eu consigo fazer uma piadinha com um forasteiro, colocando ele para sentar no lugar mais quente, porque ele não sabe que às 2 horas da tarde o sol bate exatamente ali, mas todo mundo ali sabe.
21:57
Speaker A
E saber como o clima funciona de um p tempo, clima, não sei, a temperatura, as chuvas, diz que a gente é daqui e quem de fora não mexe com a gente. Me lembra inclusive um livro que tá na na lista da
22:10
Speaker A
Unicamp, que eu adoro essa cena. Eu falei paraos meus alunos essa semana que o o Augusto Machado no vida e morte de JM MJ Gonzaga de Sá, ele vira e fala assim: "Que que esses ingleses estão segurando um pedaço da minha árvore?
22:24
Speaker A
Isso é meu. Você não sabe como isso funciona. Ele fica muito bravo que um cara, um um o estrangeiro arrancou um pedaço de planta. Mas é um pouco isso.
22:32
Speaker A
Se lhes falta sazon, lhes sobra a coragem de achar que sabem alguma coisa sobre nós. E estamos no ano de pensar muito sobre soberania, né? Essa semana, inclusive, tem gente querendo dizer pra gente o que que facções do nosso país
22:46
Speaker A
são. Ah, faça meu favor. Vamos lá, começa pro primeiro conto. A cesta, vamos falar de símbolos, é um baita símbolo.
22:57
Speaker A
Isso é uma herança colonial. Quem tem o hábito da cesta são os espanhóis. Tanto que aqui no Brasil a gente não usa muito esse esse termo. Deveria, bem gostoso, mas a gente não usa. Eh, que é o de
23:07
Speaker A
tirar um não só tirar um cochilo, mas parar. num período do dia sem trabalho, sem estudo, sem nada para se recolher.
23:16
Speaker A
Primeiro porque você tem que dar uma descansada. Segundo porque o calor impede que você fique na rua. Deveria ser um hábito brasileiro, não é? é uma herança hispânica, não uma herança portuguesa. E nós temos essa característica aí dessa colônia
23:31
Speaker A
diferente. Esse conto que chama A sexta da terça-feira, ele tem esse título que é tão a palavra que eu quero aqui singelo.
23:42
Speaker A
um dia, um dia de semana comum, como outro qualquer, num horário onde as pessoas descansam, mas narra a história de uma mãe e de uma filha atravessando um trem na pior condição possível, no vagão mais quente, no vagão onde o
23:57
Speaker A
cheiro do carvão do trem chega até elas suja o cabelo da menina, porque elas têm que chegar em Macondo para enterrar o filho, né, e irmão.
24:07
Speaker A
E ela chega altiva para enterrar aquele que é conhecido como o ladrão daquele lugar.
24:16
Speaker A
E ela e o bonito dessa história, né, que que é super pesada, apesar de tudo, é que essa mãe, ela não culpa o filho, tem um espaço super e opressivo, quente, todo mundo em macondo fica de olho nelas. Porque isso inclusive é o título
24:34
Speaker A
de outro conto, nessa terra não tem ladrão, que é uma baita ironia. Uma baita ironia, né? Claro que tem ladrão.
24:41
Speaker A
Inclusive o conto é sobre alguém que rouba. Ah, ela tem uma uma discussão ética importante. Ela chega pro pro padre local e o padre local diz assim: "Quem que você quer enterrar?" "O fulano de tal". Mas esse nome aqui não tem. Tem
24:57
Speaker A
sim. Foi o cara que vocês chamaram de ladrão e mataram semana passada. E aí ele fala: "Tá bom, vou te dar a chave, né, para você fazer o seu puto aumento do seu filho". E tem um determinado momento que ele fala assim:
25:09
Speaker A
"Você devia ter ensinado o seu filho a não roubar". Aí ele falou, ela falou assim: "Eu ensinei o meu filho a não roubar nada que fizesse falta para alguém.
25:19
Speaker A
Você e ela sai, a descrição dela é, ela sai com total altivez e porte.
25:26
Speaker A
E ele, o padre diz o seguinte: "Tá muito sol lá fora, você quer uma sombrinha?" E ela: "Não, eu não preciso disso, porque o padre já percebeu que o o vilarejo inteiro tá de olho nelas. A sombrinha não é para proteger do sol, é
25:43
Speaker A
para proteger do julgamento alheio. E o sol, o calor, não é o calor. O calor é um símbolo deste olhar julgado, que já tá julgando alguém que rouba para se alimentar. E como que esse menino morreu? Levou um tiro de uma mulher que
26:01
Speaker A
tinha uma arma 28 anos em casa e nunca tinha usado. Assustou com roubo e matou este homem. Vocês percebem que quem que fez, quem cometeu o grande crime aqui, né? O menino que tá roubando porque ele não tinha nem sapatos. E a mãe sabe
26:18
Speaker A
disso. A mãe não tem medo do julgamento. Ela não precisa de uma sombrinha. Ela dá conta do calor. Tudo bem sobre os símbolos desse conto? Conto curto, potente, bonito demais. Deixei o finalzinho para vocês lerem lá depois esse trechinho. Ela fala: "Espero que eu
26:34
Speaker A
empreste uma sombrinha". Obrigada. Vamos bem assim. Não, não preciso dessa, não preciso de disfarce.
26:42
Speaker A
O segundo conto chama Um dia desses. Ele com eh Aí eu tenho dificuldade, mas acho que esse é o meu favorito. É o seu também? É bom, né, menino? É que dá um prazerzinho da vingança ali. É, não que
26:55
Speaker A
eu seja violenta, mas às vezes é a história. É o seguinte, tem um dentista, ele tá, ele chama Aurélio, não, não vou lembrar os nomes, tá? E ele recebe o Alqaid, que é esse prefeito, esse poder local, que tá com muito dor de dente.
27:12
Speaker A
Ele quer resolver a dor de dente dele. E primeiro ele se nega, eu não vou atender esse homem. Eu não vou atender esse homem. Aí a filha fala, ele diz que se você não atender, né, terá consequências. Aí ele atende esse homem.
27:25
Speaker A
Aí ele fala: "Ah, é, vai arrancar o dente, tá bom? Sem anestesia". E o cara vai fazer o quê? Ele tá com dor de dente, o dentista não vai dar anestesia. Aí o o conto é o o cara que é
27:37
Speaker A
o símbolo do poder sofrendo na mão do dentista que tá arrancando. E na hora que ele tira o dente, ele fala para ele: "Esse aqui valeu por 20 mortos que você matou". Só que assim, não vamos aqui, né, falar: "Uh, né, revolução
27:54
Speaker A
também não, tá? Por quê? A gente tem ali alguns símbolos importantes. Quem que é o dente estragado?" O que que o dente estragado na boca é? É um pedaço da boca que apodrece tudo. Um dente estragado te impede de comer. É um pouco o símbolo
28:09
Speaker A
dessa poder local. Um homem é capaz de acabar com o vilarejo inteiro se ele for muito podre. Primeiro ponto aí, tá?
28:17
Speaker A
Segundo ponto, quem é a autoridade? O alcaide, mas não ali. Lembra da inversão de valores que eu falei que conto esses livros trabalha muito ali.
28:28
Speaker A
Não, ali quem tem o poder é o dentista. Quem vai inflingir a dor é o dentista.
28:33
Speaker A
Então tem uma inversão interessante. E por fim, ele tá falando de uma vingança que é individual, claro, né, sentidor do dentista, mas que é coletiva, porque ele tá se referindo à guerra civil que matou um monte de gente na época, né? Uma
28:47
Speaker A
referência, claro que é uma referência mágica, assim, indireta, mas a ideia de que os governadores locais não t problema algum de matar a população se for para servir aos fins que eles desejam. Então, pelo menos tirar um dente
29:02
Speaker A
sem anestesia vai ser minha pequena resposta diante da impotência que eu tenho desse sofrimento. Só que o final eu tenho que ler com vocês.
29:12
Speaker A
Ele pergunta assim: "Mande-me a conta, né, ao senhor ou ao município?" O Alqaide não olhou, fechou a porta e disse através da tela metálica, dá no mesmo, porque ele, a corrupção é óbvia e ele se entende como a, o município, ele é o
29:33
Speaker A
grande poder, ele faz essa metonímia. Então, a conta que, então assim, agora pensa nessa expressão, ela tá traduzida, mas pensa em português. Quem paga a conta?
29:44
Speaker A
Pensaram sobre como é policêmico? Quem paga a conta? do dinheiro, mas quem paga conta do das decisões políticas? O povo.
29:53
Speaker A
Pergunto, já tô no segundo conto. Vocês estão entendendo minha ideia de analisar eh polissemamente as estruturas? Tá fazendo sentido? Sucesso.
30:02
Speaker A
Nesta terra não há ladrões. Aqui a gente vai ler esse conto na chave da ironia, tá? De partida. Como que não tem ladrão se é a história de um roubo?
30:11
Speaker A
Nesta terra não há ladrões, porque os verdadeiros ladrões são quem dominam o lugar, né? poder local. A história é um casal, uma mulher mais velha, um menino novinho de tudo. Ela tá grávida e ele decide roubar porque eles estão passando
30:27
Speaker A
fome e ela grávida já tá, né, trabalhando um monte, mas ela não tá dando conta demais. Ele chega para roubar uma espécie de clube local, cassino, bar, mais um lugar assim, e não encontra dinheiro, só encontra 25 centavos.
30:43
Speaker A
E aí, num momento de doideira, ele rouba três bolas de bilhar que ele achou que poderia vender. Só que isso vai gerando um problema, um efeito cascata muito agressivo, porque sem a bola de bilhar tirou-se o único divertimento que aquela
31:00
Speaker A
aquele lugarejo tinha, aquela aquele vilarejo tinha. E aí começa a gerar um problema social, porque começa a se constatar o tamanho do sofrimento da população sem o único divertimento que eles tinham. E aí, quem substitui o divertimento coletivo do bilhar? Um
31:17
Speaker A
campeonato de beisebol externo, né, pela televisionado. E quando acabar esse campeonato de beisebol, o que que eles vão fazer? Até aí a gente tem um problema coletivo, mas a gente também tem um outro problema.
31:30
Speaker A
Quem que vai ser acusado desse roubo? um rapaz negro forasteiro, porque aqui não tem ladrão, só pode ser quem chegou de fora e que é negro. Vocês percebem que em certa medida os contos eles contam quase sempre a mesma estrutura,
31:46
Speaker A
né? Só que esse esse personagem, né, que rouba, ele é o a típica construção, né, um personagem tipo, se eu quiser trabalhar assim, ele é uma metáfora da falta de perspectiva. Ele é chamado de burro por todo mundo. Ele é chamado pelo
32:04
Speaker A
cara que depois ele vai devolver a bola. Ele é chamado pela mulher com quem ele convive, ele é chamado pelos amigos. É a ideia que ele tem entranhas de burro. A burrice. Ela tá presa nele de tal maneira que ele não dá conta de agir de
32:17
Speaker A
uma maneira maior. Gente, não existe burrice, né? O que existe é perspectiva. É uma péssima decisão roubar três bolas de bilhar, mas passando fome, achando 25 centavos, que que você faria? Essa que é a pergunta que eles fazem. Em seguida,
32:32
Speaker A
tem uma ação, falei para vocês, né, que impacta, né, todo povoado vai ficar muito mal com esse fim da da bola de bilhar, que demoraria um mês pra bola de bilhar chegar.
32:42
Speaker A
E por fim, as mulheres desse conto são personagens bem interessantes, elas tutelam, ele vai ser bancado pela companheira, esposa ou qualquer coisa do gênero, e no meio do conto ele se envolve com uma mulher que é uma prostituta, que também alimenta ele, dá
32:59
Speaker A
comida para ele, tenta ajudar ele, porque percebe que ele é esse menino, menino grande que não sabe o que tá fazendo, mas determinado momento bate a culpa e ele fala assim: "Eu vou ter que devolver essa bola e ele é pego no
33:14
Speaker A
momento que ele tá tentando devolver a bola. E ele conta com a compreensão do dono do bar, porque o dono do bar desabafava para ele a falta de clientela. Aí ele falou: "Olha, trouxe de volta, eu errei, mas eu precisava de
33:27
Speaker A
dinheiro, não tinha dinheiro". Só que o dono do bar tinha acusado o homem negro de ter roubado 200 contos, réis, sei lá, dinheiros, não lembro os dinheiros do Tá traduzido por reais, pesos, tá? Pesos.
33:40
Speaker A
Tá bom. que eu li esse livro primeiro espanhol, depois português, já me perdi. Então ele ele tá por 200, ele fala que tem 200 pesos que foram roubados. Aí ele fala, aí ele fala: "Você sabe que não tinha esses 200 aqui, só tinha 25". E
33:56
Speaker A
ele chama a polícia, ele sabe quem que é o verdadeiro ladrão, o dono do lugar, que se aproveitou do roubo do bilhar para conseguir um dinheiro que ele não tinha. Inversão de valores, o tempo todo. Inversão de valores.
34:14
Speaker A
Deixei o trechinho aqui. Aí ele fala nessa frase fatídica: "Você ainda mais burro do que ladrão".
34:22
Speaker A
No é esse aqui. Esse aqui me pega aqui dentro, ó. A prodigiosa tarde de Baltazar. Esse aqui é a metáfora do da história da América Latina. é um cara super talentoso, super maravilhoso, que faz gaiolas e aí o filho do do cara mais
34:39
Speaker A
rico da cidade encomenda uma gaiola. Ele faz uma gaiola perfeita, linda, maravilhosa para o pássaro mais lindo do mundo. Aí vem um outro cara, fala: "Por favor, me vende essa gaiola. Minha esposa quer muito essa gaiola. Eu pago o
34:50
Speaker A
que você quiser." E ele fala: "Porque ele tem muito brio ético. Eu não posso vender o que foi uma encomenda". Aí ele chega para vender, o cara ricaço diz: "Não, não quero, muito caro. Meu filho inventou moda de querer isso daí". Só
35:03
Speaker A
que o o trabalhador que passou semanas fazendo isso e perdendo dinheiro, deixou de vender esse negócio para alguém que tinha dinheiro para pagar, não vai sofrer porque ele ficou sem grana. Ele vai ficar mal porque a criança entra em
35:17
Speaker A
sofrimento e ele dá a gaiola de presente. Só que ele não tem coragem de dizer que deu a gaiola de presente. A cidade inteira, Maconda inteira, tá comemorando que ele vai ganhar o maior dinheiro da vida dele. Ele sai dali e dá
35:31
Speaker A
uma festa e enche a cara com o dinheiro que ele ganhou. E aí fica aquele final aberto se ele sobreviveu o final dessa festa, né? aqui fica aquela coisa meio acabado, mas ele não ficou com dinheiro, ele não conseguiu vender a gaiola, mas
35:46
Speaker A
ele tem o brio moral, ética, ele tem o lugar da ética diferente do cara que encomenda e não paga. Então, mais uma vez, a lógica da inversão de valores.
35:58
Speaker A
Aí o trechinho que eu acho muito bonito. E a viúva Montiel, que é a esposa desse cara rico do conto anterior, tá? Os contos tem algumas ligações. Então o o Montiel no conto do Baltazar é o cara rico que não paga. A viúva dele aparece
36:16
Speaker A
no próximo conto. Uma mulher que viveu completamente alienada de quem o marido era. Foi um casamento basicamente por encomenda. Ele morre e quando ele morre ela descobre o que ele era e o sofrimento que ele causou e qual foi o
36:34
Speaker A
custo do enriquecimento desse homem. O custo para ele enriquecer foi roubar, mentir, matar e todo mundo odeia ele. E ela vai ter que lidar com a herança polissêmica. Aqui o símbolo é a herança.
36:50
Speaker A
De um lado, o dinheiro dele que todo mundo vai tentar pegar de volta, de outro, a fama dele, que impede sobrema, dela conseguir ter uma vida digna, porque ele é odiado. E, portanto, por deslocamento de sentido, ela também é
37:04
Speaker A
odiada. Então, dois pontos fundamentais. Ele é o símbolo máximo do gamonalismo. Não vou dizer que é o máximo porque tem a figura da mamãe grande, né, que é o grande símbolo da dona da terra. Mas ele é esse típico coronel. E aí,
37:18
Speaker A
mesmo jeito que no último capítulo Macondo inteira suspira aliviada quando morre mamãe grande, a morte dele foi motivo de festa. A cidade inteira assistindo a missa da morte dele, feliz da vida. E olha a descrição, ele deitado ali era o mesmo homem, só que no lugar
37:37
Speaker A
do chicote tinha um crucifixo entre as mãos. E aí tem uma crítica que atravessa esse conto, que é o fato de que as pessoas elas são facilmente romantizadas depois do momento da sua morte e que manter viva a memória de quem é agressor
37:57
Speaker A
é uma conquista coletiva importante. A gente não pode esquecer só porque alguém morreu do que aquela pessoa fez em vida.
38:06
Speaker A
A morte não santifica, a morte não perdoa. Tudo bem? Isso é um é um recado desse conto social, assim, coletivo. E ela termina a vida definhando, empobrecendo com o único funcionário que ajuda ela e com os próprios filhos, inclusive o
38:23
Speaker A
menino da gaiola, vivendo na Europa e mandando cartas dizendo: "Não dá pra gente voltar para aí que é perigoso".
38:29
Speaker A
Abandonada. No final desse conto, o realismo mágico tem um impacto especialmente interessante. Vou, esse vídeo aqui eu vou parar e vou ler para vocês virem comigo. Logo começou a rezar, é a viúva.
38:44
Speaker A
Mas o segundo mistério passou o rosário paraa mão esquerda, pois não sentia as contas através do esparadrapo.
38:51
Speaker A
Ouviu por um momento a trepidação de trovões remotos, depois adormeceu com a cabeça dobrada sobre o peito. A mão com rosário tombou ao longo do corpo e então ela viu a mamãe grande no pátio com um lençol branco e um pente no colo
39:07
Speaker A
estalando piolhos com os polegares. Perguntou-lhe: "Quando vou morrer?" A mamãe grande levantou a cabeça. Quando o seu braço ficar dormente, esse final é muito difícil. Ponto número um, a mamãe grande, num último conto, é uma mulher, não é uma entidade, mas a
39:26
Speaker A
possibilidade, o poder dela é tão grande que ela se transforma para os cidadãos numa espécie de entidade. Ponto número um. Ponto número dois, ela tá com esparadrapo nos dedos de tanto roer as carnes das mãos.
39:43
Speaker A
Ela literalmente come os próprios dedos de desespero. Então essa ideia de que o poder roi a si mesmo e vai de dentro para fora matando todo mundo. Terceiro ponto, o braço fica dormente enquanto você reza. Quando o braço fica dor, porque ela tá segurando
40:00
Speaker A
um terço, né, um rosário, quando o braço parar de rezar, ela morre. que o não vai mais conseguir sentir é a ideia de que assim não adianta a gente segurar o rosário no crucifixo na morte. Os nossos pegados serão cobrados de alguma maneira
40:17
Speaker A
vai ver. Eu acho um dos finais mais legais desse livro. Em seguida, temos o conto um dia depois de sábado. Qual que é o dia depois de sábado? Domingo. Domingo nas tradições religiosas é o dia do descanso, né? O
40:32
Speaker A
dia do em que o Senhor descansou, etc. Aqui é o seguinte, aqui o realismo mágico bota as asinhas de fora, literalmente. Começam a cair pássaro morto no vilarejo inteiro. Pássaro morto, pássaro, os pássaros morrem. E um uma personagem, inclusive, se incomoda
40:51
Speaker A
muito com isso e vai buscar o padre. Só que esse padre, que é o símbolo do poder da religião e não qualquer religião, gente, a Igreja Católica é a religião do colonizador tá?
41:03
Speaker A
Ele é uma figura muito ambivalente. Primeiro, ele é querido pela população, mas ao mesmo tempo ele já tá descreditado porque ele tem 94 anos e ele fala que viu o diabo várias vezes. E aí é muito, é uma ironia fina, né? Tudo
41:20
Speaker A
bem, caiu um monte de pássaro morto, isso não é um problema, mas falar que viu o diabo, aí não dá para acreditar no padre, né? E eu eu pelo menos leio dessa forma, o padre que é símbolo da Igreja
41:32
Speaker A
Católica, vinculado ao poder local, um padre que a gente descobre no último conto, que só morre depois que a mamãe grande morre, porque é como se ele não pudesse morrer antes, porque ele tinha que dar a extrema unção dela. Claro que
41:44
Speaker A
ele viu o diabo, né? Óbvio, não precisa ser o diabo de fato. Ele viu o mal encarnado inúmeras vezes, porque quem abre mão lá no início do primeiro conto tem um padre. A gente não sabe se é o
41:56
Speaker A
mesmo, mas a gente pode pressupor que sim. Quem abre mão do dever moral de alimentar a população mais pobre e defende a população mais rica, tá vendo o diabo o tempo todo, né? Não precisa ser o capiroto, de fato, né? Ele aparece
42:10
Speaker A
encarnado em pessoas bem interessantes às vezes. É brincadeira, tá? precisa sair daqui para uma igreja, não, tá tudo bem. E aí ele não consegue não encontrar uma explicação pros pássaros caindo. Ele sofre com isso. Coincidentemente, um menino jovem
42:30
Speaker A
de de classe baixa que tá passando por Macondo perde o trem e desce porque ele perdeu o trem para comer alguma coisa, para tentar pegar um hotel para seguir viagem no dia seguinte. Quando ele olha esse homem, ele encontra quem ele
42:44
Speaker A
precisa culpar. Ele vai dizer que é o judeu errante. O judeu errante é uma uma tradição da mitologia cristã bem do princípio, que dizia que um judeu que desacreditou em Deus, em em Cristo durante o processo, né, do do
43:00
Speaker A
cristianismo, teria sido amaldiçoada com nunca mais parar de andar por aí. Errante é a pessoa que anda por aí.
43:07
Speaker A
virar um andarilho como castigo por não ter acreditado que Cristo era ressurreição divina. E aí ele fala que esse menino que tá de fato o andarilho andando para cá e para lá, maltrapile e pobre é o judeu errante. E ele vai ser a base do grande
43:24
Speaker A
sermão que ele vai dar naquele dia, num sermão para uma igreja que não ia quase ninguém porque as pessoas não acreditavam mais nesse padre. Mas o ponto mais interessante é a tomadinha de consciência que ele dá, porque o conto
43:36
Speaker A
se constrói de tal maneira que a gente fica o tempo todo numa estrutura meio anedótica, né, desse padre meio maluco.
43:42
Speaker A
Mas no final ele tem uma compreensão e ele passa, ele faz o melhor sermão da vida dele, né? Porque ele tá super tomado pela certeza de que aquele é o judau errante. E depois de fazer esse super sermão, ele passa o dízimo,
43:57
Speaker A
recolhe bastante dinheiro. Ele pega esse dinheiro e dá pro menino. Como? Porque em algum momento ele percebe que esse menino não tem como voltar para casa, tá desesperado. Ele tem um lapso de consciência. Então, lembra, os personagens são omivalentes. Esse cara
44:11
Speaker A
que vê o diabo também vê a face de Deus em certa medida. Finalzinho tão bonito, vou ler para vocês. Então, procure uma sacola grande na sacristia e recolha o mais que puder, disse o padre. E o que que eu digo?
44:27
Speaker A
Disse o menino. O padre olhou pensativo, o crânio pelado e azul. Tá falando dos pássaros mortos. As articulações pronunciadas. Dessa vez foi ele quem piscou. Diga que é para desterrar o judeu errante. Disse sentiu que ao dizê-lo, suportava o grande peso no
44:43
Speaker A
coração. Por um momento, não ouviam nada além do crepitar dos sírios. Sírios é uma vela, tá? No templo silencioso e sua própria respiração excitada e difícil.
44:54
Speaker A
Depois, pondo a mão no ambro do sacristão, que olhava com olhos redondos e espantados, disse: "Depois pegue o dinheiro, leve pro rapaz que estava sozinho no começo e diga ali que o padre mandou para ele comprar um chapéu novo
45:06
Speaker A
para ele ter um pouquinho mais de dignidade." Chapéu também é um símbolo de poder, tá? Tem um conto inclusive do machado que é só sobre chapéus e quem pode usar e quais chapéus pode usar.
45:17
Speaker A
Eh, esse conto ele faz um diálogo muito bonito com uma história da uma, eu tô sem óculos, 10, tá bom? Com uma peça do Sófoclis que chama Antígona.
45:29
Speaker A
Eh, quer dizer, não sei se o Gabo pensou nisso, não posso afirmar, mas eu acho que a gente fazer esse paralelo é bonito. Nessa história, um líder tirano, como mamãe grande, que é o Creonte, ele quer matar, ele manda matar Antígona. Porque
45:46
Speaker A
Antígona teria feito o sepultamento do irmão que era considerado um criminoso. Você tá juntando as histórias comigo?
45:53
Speaker A
Tem um poder local tirânico, tem uma irmã querendo enterrar o irmão e tem um ditador dizendo: "Não pode". Em antígona, quem prevalece é a lei dos deuses, né? E os deuses, eles dizem que você precisa fazer os funerais dos
46:08
Speaker A
mortos, porque o direito à memória é um dos direitos mais importantes da nossa cultura, independente de qual seja, ocidental, oriental, todas elas, independente de religião, culto aos mortos é muito importante.
46:23
Speaker A
E aí em Antígona desrespeita creonte, enterra o irmão. Os deuses se vingam de Creonte.
46:31
Speaker A
E como que ele descobre que os deuses vão se vingar? Porque Tirésias, que é a figura do profeta na no oráculo grego, um profeta cego, velho, meio lido como doido, como esse padre, ele ele fala com pássaros e os
46:48
Speaker A
pássaros começam a cair mortos um sobre o outro. E os pássaros caem mortos porque eles comeram o cadáver do irmão dela. Como abutres comem cadáver e era um corpo que não podia ter sido comido porque não tinha passado pela ilibação
47:03
Speaker A
do ritual fúnebre. Resumo da ópera. Não deixar enterrar seus mortos. Primeiro conto, um poder instituído que decide acima da lei dos deuses e das leis dos humanos. Uma mãe grande, uma figura idosa que vê no padre os nos pássaros. Um sinal de mau agouro.
47:24
Speaker A
Pássaros mortos. A pássaros são sinais de agouro de maneira geral. Se você vai paraa tradição grecolatina, eles caindo mortos é sinal de mau agoro. Que que acontece com Creonte? O filho mais velho dele morre em guerra, filho mais novo
47:38
Speaker A
dele se suicida, esposa dele se suicida, ele se entrega pro exílio. Ele não pode sobreviver no mundo em que ele lida com o próprio mal. Porque nas tragédias gregas existe a úbres e a catarse, né? A importância de você purificar os seus
47:52
Speaker A
erros. Deixa um gancho pro pró último conto, que é nada mais nada menos que dar nome pro livro Os funerais da mamãe grande.
48:04
Speaker A
Ah, não, mentira, é um antes, que são as rosas artificiais, mas ele vai dar um gancho da criação dessas flores.
48:11
Speaker A
As rosas artificiais, ele é um conto curto, ele é um conto muito polissêmico e ele é um conto que o jovem mais vai odiar porque não tem resposta para nada, não entendeu nada, né? É isso mesmo. Mas eu explico. É a história de uma menina
48:25
Speaker A
que não pode ir à missa, diz ela. Porque avó, e aí eu lembrei porque que eu que eu quis fazer essa relação com o Tiras.
48:32
Speaker A
Aó cega, mas que entende tudo que tá acontecendo com ela, essa mesma figura do profeta, tá? Ela percebe que a menina não é por isso que ela não quer ir na missa, não é porque a roupa dela não secou a roupa a
48:45
Speaker A
roupa certa de na missa. Só que essa menina tá irritada, tá brava, tá mentindo, tá. Ela chega em casa, a avó escuta ela jogar fora um monte de carta pela privada e da descarga e ela vai entender, né, deixa de de entender que
48:59
Speaker A
essa menina foi enganada por alguém, provavelmente um parceiro ou uma parceira romântica, né, cartas, etc. Mas o mais interessante aqui é a metáfora desse conto, porque eh a filha, a neta fala pra avó: "Você é uma adivinha?" E vou passar 5 minutos, aí a gente faz
49:18
Speaker A
uma pergunta menos. Eu preciso te contar por que é tão interessante essa história, senão você não vai entender. O Tires, vocês sabem como ele vira um profeta?
49:26
Speaker A
Estava ele caminhando pelos pros verdejantes da Grécia, quando ele vê duas cobras copulando. Vocês sabem o que é copulando ou vocês vão me obrigar a explicar? Sabem, né? Obrigada. E agora, por que ele faz isso? Pergunte pro, para
49:39
Speaker A
quem escreveu o mito grego. Não sei. Ele separa as cobras. Ai, que tô se divertindo, não pode. Não quero. Era o ritual mágico. Naquele exato momento, ele se transforma em mulher.
49:50
Speaker A
E ele passa a vida sendo mulher a partir de então. Aí certo dia ele está de novo passeando pelos bosques verdejantes da Grécia. Ele vê de novo duas cobras copulando. Que que ele pensa? Bom, se eu separar de novo, quem sabe elas voltam,
50:03
Speaker A
eu volto a ser homem. Dito e feito, separou, voltou a ser homem e seguiu a vida sendo homem na vida. Então, Tireses foi um personagem mitológico, aparece nas metamorfoses do Virgílio como alguém que foi homem e mulher. Certo dia, Zeus
50:18
Speaker A
pega a era transando, eh, copulando com o Deus mais feio de todos, Efesto. Aíus fala: "Ah, não, você quer me pegar outro, você pega". Mas o Efesto, bicho, o Efesto era tão feio que reza a lenda que a mãe dele jogou ele embora quando
50:31
Speaker A
ele nasceu. É muito feio, vai embora. É o deus da forja, né? Aí o Zeus fica muito bravo. Aí a era que é um argumento bem bom pr pros não monogames, que pensem sobre isso. Diz assim: "Ah, mas é
50:44
Speaker A
que mulher sente menos prazer". Eu preciso ter mais parceiros. Aí os falam: "Homem sente menos prazer, eu preciso ter mais parceiras". Aí fica nessa. Não, mulher, não. Quem pode resolver?
50:57
Speaker A
Tirezes, né? Foi homem e foi mulher. Chama o pobre do Tires. Se deuses te chamarem para decidir alguma coisa, foge. Parece ferrou. Todo mundo se ferra. Não, não dá certo. Aí ele chega lá e Zeus pergunta: "Tirésias, quem
51:10
Speaker A
sente mais prazer, o homem ou a mulher?" O homem. Não, desculpa, a mulher. Então o homem pode ter mais parceiros.
51:17
Speaker A
Aí era fica, né? Cega ele de raiva. Só que um Deus não pode desfazer o que outro Deus fez. Zeus olha pro homem, segue e fala: "Que que eu vou fazer com você? Dom da vidência. Pronto, você não
51:30
Speaker A
enxerga, mas você é um adivinho." Então, essa figura do adivinho cego, já viram Matrix?
51:37
Speaker A
Também tem? Não tem? É, é um, é um um ponto cultural que nasce na mitologia grega. Então, é o símbolo de eu não enxergo com os olhos, eu enxergo de outra forma, né? A sabedoria da figura cega vem dessa história entre nós. Um
51:51
Speaker A
parênteses, se mulher sente mais prazer, por que que ele voltou ser homem? Será que ele já reconheceu que é mais fácil? A ver, né? A gente pode discutir isso outro momento. Mas enfim, essa figura do Tireses, ela tá parecendo
52:03
Speaker A
escondida. Marcelo, você tá dizendo que ele tá citando Sófocles? Não, não tô dizendo que ele tá citando Sófocles e Virgílio. Eu tô dizendo que o Gabo trabalha com elementos culturais muito ricos e símbolos. Nada é qualquer coisa.
52:15
Speaker A
E as rosas artificiais também não. Qual que é o trabalho dessa menina que tá sofrendo de amor? Construir a mão rosas de plástico. E ela tem que fazer um tanto lá até o dia da Páscoa. E ela se
52:29
Speaker A
empenha nisso. E aí a gente tem uma coisa importante, né? As rosas artificiais. Rosa é símbolo de quê? Geralmente quando a gente pensa em dar um buquê de rosas, amor, né? Ela sobrou para ela o quê? As falsas. Ela constrói rosas falsas. Ela
52:47
Speaker A
vive um amor falso. Tudo bem? E a avó, uma mulher, a figura da mulher é muito interessante nesse livro. As mulheres tutelam os homens nesse livro. As mulheres são o que é ao mesmo tempo elogioso e um fardo, né? A gente não vai
53:00
Speaker A
discutir isso hoje, mas é colocar a mulher como tutela tem lá suas ambiguidades. Aí sim vamos pro funerais da Mamãe Grande, que é a história do funeral dessa líder. Só que essa líder, ela é uma líder hiperbólica, completamente hiperbólica. Hipérbole
53:22
Speaker A
lembra? Figura de linguagem do exagero absoluto. Ela é tudo. Ela é dona de tudo. Isso é escrito de um jeito muito curioso. Isso eu não vou conseguir não ler para vocês.
53:31
Speaker A
Vamos ler. Já volto aqui. a riqueza do subsolo, as águas territoriais, as cores da bandeira, a soberania nacional, os partidos tradicionais, os direitos do homem, as liberdades do cidadão, o primeiro magistrado, a segunda instância, a terceira discussão, as cartas de
53:50
Speaker A
recomendação, as contingências históricas, as eleições livres, as rainhas de beleza, os discursos transcendentais, as grandiosas manifestações, as distintas senhoritas, os corretos cavalheiros, os pundonosos militares, sua senhoria ilustríssima, a Corte Suprema de Justiça, os artigos de importação proibida, as damas liberais,
54:12
Speaker A
o problema da carne, a pureza da linguagem, os exemplos pro mundo, a ordem jurídica, a imprensa livre, mas responsável, o Attenas Sul-Americana, opinião pública, as lições democráticas, a moral cristã, a escassez de divisas, o direito de asilo, o perigo comunista, a
54:31
Speaker A
nave do estado, a coestia da vida, as tradições republicanas, as classes desfavorecidas as mensagens de adesão.
54:38
Speaker A
Tudo é ela. Tudo é ela. Tudo que você conseguir pensar para um lado ou pro outro é ela. Consigo. Alô, Conveste.
54:46
Speaker A
Imagina uma questão de sintasse aqui que te perguntasse o que que essa estratégia sintática nos traz. Gente, isso é justa posição. Tem conectivo, tem nem verbo.
55:00
Speaker A
É uma sobreposição para o quê? para enumerar a grandiosidade desse poder. Uma linda questão que pega sintasse semântica, né? Como o jeito que eu escrevo faz um efeito de sentido no texto. Mamãe grande é tudo e ao mesmo tempo é antitética.
55:20
Speaker A
Ela é uma mãe sem filhos. Não tem filhos. Ela tem sobrinhos, mas filhos não. Ela amamenta com tetas gigantescas.
55:31
Speaker A
Mas será que ela amamenta no sentido físico? Não, né? Ela simbolicamente provê. Ela ela é o símbolo daquele poder que é local, que será que vocês já conhecem algum assim? Um poder que favorece a família acima da nação.
55:50
Speaker A
Talvez você já tenham visto passar por aí em alguns governos, né? Mas essa coisa do a família, a minha família vai conseguir tudo a despeito de ninguém conseguir nada. E aí esse conto tem três passagens que são sensacionais. A
56:06
Speaker A
primeira é essa daqui. E começar a contar desde princípios pormenores desta comoção nacional antes que os historiadores tenham tempo de chegar.
56:17
Speaker A
Nós precisamos contar a história, porque quando vierem os historiadores, quem vai saber a história? A história dos vencidos. Eu não vou nem me deolhar, demorar muito nessa passagem porque eu tô sem tempo, mas porque o Felipe fez uma consideração incrível disso na aula
56:32
Speaker A
dele. Eu vou recomendar que você assista, tá? Ele é historiador, vai fazer melhor que eu. E a ideia de que depois que ela morreu, ouviu-se um único suspiro estrondoso de descanso que a multidão exalou junta.
56:52
Speaker A
Morreu. Uma nova época pode começar. Abre-se a possibilidade quando esse poder que tudo é, esse poder que tem braços para todo lado, sobrinhos para todo lado, um poder tão grande que o corpo começou a feder porque estavam esperando o presidente, o
57:10
Speaker A
papa virem pro enterro da mamãe grande. E o padre, aquele padre do judeu errante, já com mais de 100 anos, finalmente ia poder morrer. Porque um poder autoritário, um poder agressivo, não permite nem a morte.
57:26
Speaker A
Nem a vida, nem a morte. Ditaduras não permitem que a gente viva, nem que a gente morra. E uma vez mortos não permitam que a gente enterre.
57:35
Speaker A
Essa é a grande lembrança desse livro. Decidir quem vive, quem morre, como morre e se morre, porque ela não, né? Ela vai, ela vai ser tudo.
57:48
Speaker A
Mais um pouquinho. Vamos ou não? Vamos aí o final. Agora o sumo pontífice podia subir ao céu, finalmente ele pode morrer, né? Em corpo e alma, cumprida sua missão na Terra. E o presidente da República podia sentar-se a governar segundo bom
58:05
Speaker A
critério. Então agora ele pode definir o que é bom e o que é mau. Claro que tem uma ironia aqui, né? E as rainhas de tudo que existe, por existir, podiam casar-se e ser felizes e conceber e parir muitos filhos. E as multidões
58:18
Speaker A
podiam erguer suas tendas, segundo o seu leal, modo de ver, e entender nos nmenesurados domínios da mamãe grande.
58:24
Speaker A
Porque a única pessoa que poderia opor-se a isso e tinha suficiente poder para fazê-lo começar a apodrecer sobo, do tipo, aqui ela não sai mais, né?
58:34
Speaker A
selaram com chumbo. Só faltava então que alguém encostasse um tamborete na porta para contar essa história e o escamento das gerações futuras e que nenhum dos incrédulos do mundo ficasse sem conhecer a notícia da morte da mamãe grande. Porque amanhã,
58:50
Speaker A
quarta-feira, virão os varredores e varrerão o lixo de seus funerais por todos os séculos e séculos.
58:57
Speaker A
É um jeito de terminar um livro para dizer a literatura às vezes vai ser quem vai contar o que a história finge que não aconteceu.
59:06
Speaker A
Eu comecei dizendo, né, queria que a literatura devolvesse vocês a noção de futuro. E curiosamente a literatura é tão sensacional que ela também nos devolve nosso passado.
59:18
Speaker A
Ele termina com a esperança que a revolução cubana deixou para ele, né? Esse é um livro muito pautado no tempo.
59:25
Speaker A
Mas acreditar que a gente pode sair de um governo opressor, que a gente pode viver um espaço de decisões em que as pessoas julguem pelo bom critério, tem que ser um jeito de viver. Do contrário, eles decidirão não só a nossa morte, não
59:39
Speaker A
só a nossa vida, mas o jeito que a gente leva essa vida. Dito isso, muito obrigada.
59:48
Speaker A
เฮ
Topics:literatura latino-americanaGabriel García Márquezrealismo mágicoOs Funerais da Mamãe GrandeUnicampanálise literáriafuturo e esperançacontoseducaçãodiferença cultural

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