Reflexão sobre a importância de estar presente no momento, inspirada no filme Questão de Tempo e na filosofia de Kierkegaard e Nietzsche.
Key Takeaways
- A verdadeira perda não é o tempo que passa, mas a ausência de presença durante ele.
- A segunda chance é uma ilusão que pode impedir o aproveitamento do presente.
- Distração é um estado mental comum e natural, mas estar presente exige esforço.
- A mente vagante está associada à infelicidade, independentemente da atividade realizada.
- Valorizar e estar consciente dos momentos presentes é fundamental para uma vida plena.
What the video covers
- O vídeo discute a sensação de perder momentos importantes da vida por distração e ausência mental.
- Usa o filme Questão de Tempo para ilustrar a ilusão da segunda chance e o desejo de voltar no tempo.
- Apresenta a filosofia de Kierkegaard sobre a vida ser compreendida olhando para trás, mas vivida olhando para frente.
- Critica a crença na segunda chance como um vício emocional que impede o compromisso com o presente.
- Explora o experimento mental do eterno retorno de Nietzsche para questionar o valor das escolhas atuais.
- Compartilha experiências pessoais do narrador sobre a perda de momentos importantes por esperar o momento certo.
- Destaca que a distração é um estado mental, não apenas causado por tecnologia ou falta de tempo.
- Cita pesquisas de Harvard que mostram que a mente humana vagueia quase metade do tempo e isso gera infelicidade.
- Enfatiza que a presença plena gera satisfação, enquanto a ausência cria um vazio difícil de nomear.
- Conclui que estar presente no agora é um esforço consciente e essencial para uma vida significativa.
Full Transcript — Download SRT & Markdown
Speaker A
O dia que eu perdi e não sabia.
Speaker A
Tem um dia que eu não consigo parar de pensar.
Speaker A
Não foi o dia que alguém morreu, não foi o dia que eu tomei uma decisão errada enorme.
Speaker A
Foi um dia normal, um dia que eu atravessei sem perceber que estava atravessando e esse dia foi embora.
Speaker A
Sabe aquela sensação de estar numa conversa com alguém e perceber lá pela metade que você não ouviu nada do que a pessoa falou, você estava presente fisicamente, mas estava em outro lugar completamente.
Speaker A
Pensando no trabalho, numa conta e em absolutamente nada importante, é essa sensação, só que com dias inteiros, com meses, com pessoas.
Speaker A
É exatamente isso que o Tim vive no filme Questão de Tempo, só que ele tem o que você e eu não temos, a chance de voltar lá.
Speaker A
Fechar o punho, lembrar do momento e estar lá de novo, parece o maior presente do mundo, né, muita gente faria muita coisa por isso.
Speaker A
Mas o filme vai te mostrando aos poucos, sem pressa, que isso não resolve e isso daí dói mais do que qualquer coisa.
Speaker A
Porque o problema nunca foi que o tempo passou rápido demais, o problema foi que você não estava lá enquanto ele passava.
Speaker A
Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX, o cara que basicamente inventou a angústia como tema filosófico.
Speaker A
Disse que a vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas só pode ser vivida olhando para frente, parece frase de caneca.
Speaker A
Mas tira a caneca da frente e olha de novo, ele está dizendo que você está condenado, sem apelação.
Speaker A
A só entender o que aconteceu depois que acabou.
Speaker A
Eu entendi algumas coisas tarde demais, aposto que você também.
Speaker A
Aquela última vez que você viu alguém que você amava, você sabia que era a última vez?
Speaker A
Provavelmente não sabia, ninguém sabe, a gente age como se as pessoas fossem ficar, como se o momento fosse esperar, como se você pudesse apertar pause e voltar quando estivesse mais disponível emocionalmente.
Speaker A
Não pode.
Speaker A
Ninguém pode.
Speaker A
E olha, eu não estou aqui para te culpar, culpa não serve para nada, é só sofrimento que não gera aprendizado nenhum.
Speaker A
Mas clareza sim.
Speaker A
Clareza dói de um jeito útil.
Speaker A
A clareza de que tinha uma versão de mim, há alguns anos, que vivia cercado de coisas boas e ficava olhando para o lado tentando achar o que estava faltando.
Speaker A
E estava faltando nada.
Speaker A
Eu é que estava faltando.
Speaker A
Ausente dentro da minha própria vida.
Speaker A
O Tim tem a máquina do tempo, você tem a memória e a memória não muda nada.
Speaker A
Ela só mostra em alta definição o que você deixou passar.
Speaker A
O dia mais importante da sua vida provavelmente já aconteceu e você estava no celular.
Speaker A
A ilusão da segunda chance.
Speaker A
Deixa eu te fazer uma pergunta que vai ser um pouco desconfortável.
Speaker A
Quantas vezes você já disse, quando eu tiver tempo eu faço isso.
Speaker A
Ou ano que vem eu mudo.
Speaker A
Ou a minha favorita, quando as coisas se acalmarem eu vou estar mais presente.
Speaker A
As coisas não se acalmam.
Speaker A
A gente sabe disso.
Speaker A
E mesmo assim, a gente continua usando essa frase como se fosse um plano real.
Speaker A
A segunda chance é o vício emocional mais socialmente aceito que existe.
Speaker A
Ninguém te julga por isso.
Speaker A
Pelo contrário, tem gente que acha bonito.
Speaker A
Ah, ele acredita em recomeços.
Speaker A
Não, na realidade ele está com medo de encarar que o momento já foi e que ele não estava lá.
Speaker A
O Tim faz isso no filme de um jeito quase cômico.
Speaker A
Ele volta no tempo, conserta uma coisa, cria outro problema.
Speaker A
Volta de novo, conserta o segundo problema, aparece um terceiro.
Speaker A
É uma bola de neve.
Speaker A
E tem uma hora que você assiste e pensa, cara, para.
Speaker A
Para de voltar e começa a prestar atenção.
Speaker A
Mas ele não consegue parar, porque segunda chance vicia.
Speaker A
Nietzsche tinha um experimento mental que, sinceramente, eu acho que é o mais legal da filosofia.
Speaker A
O famoso eterno retorno.
Speaker A
Que é basicamente, e se você tivesse que viver essa vida exatamente igual, infinitas vezes, para sempre, sem mudar nada, sem cortar nada.
Speaker A
Com todas as escolhas que você faz agora.
Speaker A
Todas as perdas, todas as vergonhas.
Speaker A
Tudo.
Speaker A
Você viveria?
Speaker A
A maioria das pessoas hesita e essa hesitação já diz tudo.
Speaker A
Porque se você não viveria essa vida de novo, o que exatamente você está fazendo nela agora?
Speaker A
Esperando uma versão melhor aparecer, esperando a segunda chance que vai fazer tudo fazer sentido?
Speaker A
Eu passei anos esperando o momento certo para ter certas conversas com pessoas que eu amava.
Speaker A
Conversas que eu ensaiava na minha cabeça no banho, que eu sabia que precisavam acontecer.
Speaker A
Mas que eu empurrava para frente porque ainda não era a hora.
Speaker A
Sabe quantas dessas conversas eu tive?
Speaker A
Faz nenhuma.
Speaker A
Sabe o que aconteceu com algumas dessas pessoas enquanto eu esperava a hora certa?
Speaker A
A vida aconteceu, cara.
Speaker A
E a conversa nunca rolou.
Speaker A
Não tem segunda chance para isso.
Speaker A
E olha, eu entendo a lógica, a segunda chance é confortante porque ela transforma o presente num rascunho.
Speaker A
Você não precisa se comprometer totalmente com nada porque tudo ainda pode ser refeito.
Speaker A
É uma proteção emocional.
Speaker A
Faz tudo sentido.
Speaker A
Só que rascunho não vira obra se você nunca parar de rabiscar.
Speaker A
O Tim aprende isso da forma mais dolorosa possível.
Speaker A
Descobrindo que tem coisas que nem com a máquina do tempo você conserta.
Speaker A
Que tem danos que são permanentes, que tem pessoas que saem da sua vida e não voltam, independente do que você faz.
Speaker A
E você vai aprender isso também, já aprendeu provavelmente.
Speaker A
Em alguma medida.
Speaker A
A questão não é se a segunda chance existe, às vezes existe.
Speaker A
A questão é o que você está fazendo agora enquanto está esperando por ela.
Speaker A
Você estava lá, mas não estava presente.
Speaker A
Eu vou te contar de uma coisa pessoal que aconteceu comigo.
Speaker A
Eu estava num jantar, numa mesa cheia, comida boa para caramba, pessoas que eu gosto de verdade.
Speaker A
E em algum momento eu percebi que estava com o celular na mão, há não sei quanto tempo.
Speaker A
Não lembro nem o que eu estava olhando, feed, notificação.
Speaker A
Nada importante, nada que fosse mudar minha vida.
Speaker A
Quando eu levantei os olhos, a conversa tinha mudado de assunto, tinha tido uma gargalhada geral que eu não peguei.
Speaker A
Tinha tido um momento, um daqueles momentos pequenos que fazem uma noite ser boa e eu tinha perdido.
Speaker A
Por nada.
Speaker A
Isso é o que me assusta no Tim.
Speaker A
Não a cena dramática, não a morte do pai.
Speaker A
Não o acidente da irmã.
Speaker A
O que me assusta é ele no começo do filme, cheio de capacidade, cheio de recurso.
Speaker A
Podendo literalmente voltar no tempo e mesmo assim vivendo distraído.
Speaker A
Porque a distração não é falta de tecnologia ou falta de tempo.
Speaker A
É um estado mental.
Speaker A
E estado mental você carrega para qualquer era.
Speaker A
Para qualquer situação.
Speaker A
Marco Aurélio, o homem mais poderoso do mundo do seu tempo, sempre escrevia no seu diário para estar presente.
Speaker A
Ele repetia isso nas meditações de formas diferentes, em páginas diferentes, porque sabia que ia esquecer.
Speaker A
Porque a distração é o padrão.
Speaker A
É o estado natural.
Speaker A
Presença é o esforço.
Speaker A
E tem dado para isso, não é só filosofia não.
Speaker A
Tem uma pesquisa de Harvard, dois pesquisadores, um chamado Killingsworth e o Gilbert.
Speaker A
Descobriram que a mente humana fica vagando, pensando em outra coisa.
Speaker A
Em quase metade do tempo acordado.
Speaker A
47% do tempo você não está onde você está.
Speaker A
Quase metade da sua vida você está em outro lugar.
Speaker A
E o mais pesado, eles descobriram que quando a mente vaga, a pessoa fica mais infeliz.
Speaker A
Independente do que ela está fazendo.
Speaker A
Independente se a atividade é chata ou boa.
Speaker A
Presença gera satisfação.
Speaker A
Ausência gera um vazio que você não consegue nem nomear direito.
Speaker A
Sabe aquela sensação de chegar no fim do dia exausto, sem ter feito nada de especial?
Speaker A
É isso.
Speaker A
Você gastou energia existindo em vários lugares ao mesmo tempo e não esteve completamente em nenhum.
Speaker A
E eu reconheço isso em mim mesmo.
Speaker A
Reconheço nos jantares, nas conversas, nas vezes que alguém estava me contando algo importante e eu estava formulando minha resposta antes da pessoa terminar de falar e eu terminar de ouvir.
Speaker A
Estava presente no corpo e ausente em tudo o que importava.
Speaker A
E o filme mostra isso de um jeito que me pegou, cara.
Speaker A
Tem uma cena que o Tim está com os filhos, brincando, e ele fala que tem momentos que ele nem sente vontade de voltar no tempo, porque ele está lá de verdade, inteiro.
Speaker A
E aquilo ali basta.
Speaker A
Aquilo basta mesmo.
Speaker A
Três palavras que eu precisei de anos para entender o peso.
Speaker A
Não precisa ser extraordinário.
Speaker A
Não precisa ser o melhor dia da sua vida.
Speaker A
Não precisa ter significado cósmico, só precisa de você inteiro, sem o celular na mão.
Speaker A
Sem planejar o próximo momento enquanto esse ainda está acontecendo.
Speaker A
Isso é tudo.
Speaker A
E é mais difícil do que qualquer meta que você já colocou para si mesmo.
Speaker A
O que a morte do pai te ensina sobre terça-feira.
Speaker A
Eu preciso te falar sobre uma terça-feira.
Speaker A
Não uma terça-feira especial.
Speaker A
Uma terça-feira comum, daquelas que você nem lembra que viveu.
Speaker A
Sem data marcada, sem foto tirada.
Speaker A
Sem nada que justifique guardar na memória.
Speaker A
O tipo de dia que some no meio de todos os outros dias iguais.
Speaker A
Meu avô morreu numa quinta-feira.
Speaker A
E quando eu fui tentar lembrar da última vez que eu tinha sentado com ele de verdade, sem pressa.
Speaker A
Sem um pé já na porta, sem o pensamento já no próximo compromisso.
Speaker A
Eu não consegui.
Speaker A
Eu não lembrava.
Speaker A
Provavelmente foi numa terça-feira qualquer que eu atravessei sem perceber.
Speaker A
Essa é a cena que mais me quebra nesse filme.
Speaker A
O pai do Tim está morrendo.
Speaker A
Câncer.
Speaker A
E o Tim tem a opção de voltar no tempo.
Speaker A
Ele ainda consegue voltar e visitar o pai, roubar horas extras, fabricar despedidas.
Speaker A
Mas tem um dia que é o último e ele sabe que é o último.
Speaker A
E mesmo assim, quando chega a hora de ir embora de verdade, você percebe que não existe preparação para isso, nenhuma.
Speaker A
Voltar no tempo não resolve porque o problema não é a quantidade de tempo.
Speaker A
É o peso do tempo que acabou.
Speaker A
Sêneca, que era romano, estoico e conselheiro do Nero.
Speaker A
O que por si só já é uma história de estresse existencial.
Speaker A
Escreveu uma frase em latim que traduzida significa, enquanto adiamos, a vida passa.
Speaker A
Ele escreveu isso há 2000 anos.
Speaker A
2000 anos.
Speaker A
E a gente ainda está aqui, adiando as mesmas coisas.
Speaker A
A ligação para o pai que você vai fazer no fim de semana.
Speaker A
Visita para a mãe que vai acontecer quando as coisas se acalmarem.
Speaker A
Conversa com o amigo que você não vê faz meses que vai rolar qualquer hora dessas.
Speaker A
Qualquer hora dessas.
Speaker A
Pois isso parece clichê para caramba, né?
Speaker A
Parece aquele papo de que a vida é curta, que todo mundo concorda na teoria e ignora na prática.
Speaker A
E é exatamente esse o problema.
Speaker A
Virou clichê, virou coisa que você ouve e balança a cabeça.
Speaker A
E sente por 30 segundos e volta a ficar vendo vídeo no Instagram.
Speaker A
Mas eu quero que você tente uma coisa agora.
Speaker A
Pensa numa pessoa que você ama e que ainda está aqui.
Speaker A
Alguém que você não vê com a frequência que deveria.
Speaker A
Alguém com quem você tem uma conversa pendente, um abraço atrasado.
Speaker A
Uma presença que você foi adiando.
Speaker A
Agora imagina que essa pessoa tem seis meses de vida.
Speaker A
Não como exercício motivacional, como realidade possível.
Speaker A
Porque é uma realidade possível.
Speaker A
Você sabe que é.
Speaker A
O que você faria diferente nessa terça-feira?
Speaker A
Essa pergunta me incomoda porque eu sei minha resposta.
Speaker A
E minha resposta me envergonha um pouco, porque a lista do que eu faria diferente é grande demais para justificar que eu continuo não fazendo.
Speaker A
O pai do Tim deixa um ensinamento para o filho antes de morrer.
Speaker A
Ele fala, vive seus dias como qualquer pessoa, depois volta no tempo e revive esse mesmo dia.
Speaker A
Só que dessa vez, sem o peso, sem a pressa.
Speaker A
Sem a névoa que nos separa do momento.
Speaker A
E o Tim faz isso e descobre que a vida é extraordinária quando você para de atravessá-la correndo.
Speaker A
Mas você não precisa de uma máquina do tempo para testar isso.
Speaker A
Você só precisa da terça-feira.
Speaker A
Aquela terça-feira comum, sem graça, que você ia atravessar no piloto automático mais uma vez.
Speaker A
O almoço que você ia comer olhando para o celular.
Speaker A
A ligação que você ia atender com metade da atenção.
Speaker A
A pessoa do seu lado que você ia ignorar porque ela sempre vai estar lá.
Speaker A
Ela não vai estar sempre lá.
Speaker A
Você sabe que não vai, cara.
Speaker A
Você não muda porque você não quer.
Speaker A
Tá, eu vou ser seu amigo chato agora.
Speaker A
Você já sabe tudo o que eu falei antes.
Speaker A
Você já sabia disso antes de eu falar, eu sei disso.
Speaker A
Já ouviu versões disso em outros lugares.
Speaker A
Em outros formatos, em outras vozes.
Speaker A
Já teve um momento de clareza, já sentiu aquele aperto no peito, já fez a promessa silenciosa para você mesmo de que ia mudar e não mudou.
Speaker A
Calma, eu não estou te atacando.
Speaker A
Eu estou me incluindo.
Speaker A
Mas preciso que a gente pare de fingir que o problema é a falta de informação, porque não é.
Speaker A
Tem um estudo que me perturbou quando eu li.
Speaker A
Pesquisadores acompanharam pacientes que tinham sofrido ataques cardíacos graves.
Speaker A
Pessoas que o médico sentou na frente, olhou nos olhos e disse, se você não mudar seu estilo de vida, você morre.
Speaker A
Sem metáfora.
Speaker A
Sem filosofia.
Speaker A
Morte mesmo, concreta, com data marcada no horizonte.
Speaker A
Sabe quantos mudaram de verdade depois de dois anos?
Speaker A
Um em cada sete.
Speaker A
O médico falou que ia morrer e mesmo assim, seis em cada sete voltaram para a mesma rotina, mesmo cigarro, mesma comida, mesmo sedentarismo.
Speaker A
Com a morte comprovada como consequência.
Speaker A
Se a ameaça de morte não muda seu comportamento, o que faz você achar que um vídeo vai mudar?
Speaker A
Aristóteles, que era grego.
Speaker A
Ensinava numa escola chamada Liceu e provavelmente era o homem mais inteligente da sala, em qualquer sala que entrasse.
Speaker A
Dizia que caráter não é o que você pensa sobre si mesmo.
Speaker A
É o que você faz repetidamente.
Speaker A
Ethos.
Speaker A
Hábito.
Speaker A
A sua identidade real não é a versão que você descreve para as pessoas.
Speaker A
Não é o que você posta.
Speaker A
Não é quem você pretende ser.
Speaker A
É o que você faz quando ninguém está te olhando.
Speaker A
É o que você faz quando está cansado.
Speaker A
É o que você faz naquela terça-feira sem graça que a gente acabou de falar.
Speaker A
E é aí que eu preciso te fazer a pergunta mais desconfortável desse vídeo todo.
Speaker A
Você já teve a insight?
Speaker A
Já teve a virada?
Speaker A
Já teve um momento que você assistiu um filme, ou leu um livro, ou perdeu alguém e sentiu com clareza o que precisava mudar?
Speaker A
A sua emoção era real.
Speaker A
O compromisso parecia real.
Speaker A
Quanto tempo isso durou, semanas, dias, ou até o fim do fim de semana?
Speaker A
O Tim, no filme, tem uma vantagem absurda sobre você.
Speaker A
Ele pode voltar e literalmente testar a mudança, refazer a cena.
Speaker A
Ver o resultado diferente em tempo real e mesmo assim ele demora para mudar de verdade.
Speaker A
Mesmo com a opção de voltar no tempo na mão.
Speaker A
Ele continua caindo nos mesmos padrões, tomando as mesmas decisões.
Speaker A
Esperando que a próxima volta no tempo resolva o que a anterior não resolveu.
Speaker A
Porque o problema não era o momento.
Speaker A
Era ele.
Speaker A
Assim como o problema não é a sua circunstância, é você.
Speaker A
Não no sentido de culpa.
Speaker A
Já falei que culpa é inútil.
Speaker A
Mas no sentido de responsabilidade, que é diferente.
Speaker A
Culpa, olha para o passado e se flagela.
Speaker A
Responsabilidade, olha para o agora e pergunta, o que que eu faço com isso?
Speaker A
E a resposta honesta, que eu aprendi da forma mais difícil possível, é que mudar é entediante.
Speaker A
Mudar não tem trilha sonora.
Speaker A
Mudar é fazer a coisa certa numa terça-feira sem graça quando você está cansado e ninguém vai aplaudir e você nem vai sentir que fez algo importante.
Speaker A
É exatamente aí que a maioria desiste.
Speaker A
Porque a mudança real não parece mudança.
Speaker A
Parece só mais um dia chato.
Speaker A
Você queria que eu te desse um método, um sistema, cinco passos.
Speaker A
Eu sei.
Speaker A
E você também sabe que eu não tenho e quem tem esses cinco passos está te vendendo alguma coisa.
Speaker A
O que eu tenho é isso.
Speaker A
A próxima vez que você sentir aquele insight, aquela clareza, aquela vontade genuína de fazer diferente, não espera a emoção passar para agir.
Speaker A
Porque ela vai passar, sempre passa.
Speaker A
Você tem uma janela pequena entre entender e voltar para o automático.
Speaker A
Usa ela.
Speaker A
Viver sem a opção de voltar.
Speaker A
Chegamos no fim e eu não vou te dar uma conclusão arrumada.
Speaker A
Sabe por quê?
Speaker A
Porque a minha vida não tem conclusão arrumada.
Speaker A
A sua também não tem.
Speaker A
E fingir que tem é exatamente o tipo de mentira confortável que a gente veio aqui desmontar.
Speaker A
Eu ainda me distraio.
Speaker A
Ainda pego o celular no meio de conversas que importam.
Speaker A
Ainda adio ligações.
Speaker A
Ainda atravesso dias inteiros sem estar presente de verdade.
Speaker A
Eu não virei outra pessoa porque assisti um filme ou li um filósofo ou tive uma perda que deveria ter mudado tudo.
Speaker A
Eu mudei em partes.
Speaker A
Lentamente, com recaída, com vergonha às vezes.
Speaker A
E é isso, é assim que funciona para todo mundo que não está te vendendo um curso.
Speaker A
Albert Camus, o francês, existencialista, morreu num acidente de carro idiota aos 46 anos.
Speaker A
Com um bilhete de trem não usado no bolso.
Speaker A
O que por si só já é uma ironia cruel demais.
Speaker A
Camus dizia que a única questão filosófica séria é o suicídio.
Speaker A
Não no sentido mórbido.
Speaker A
No sentido de, dado que a vida não tem sentido garantido, dado que tudo passa e nada dura, dado que você vai perder tudo o que ama.
Speaker A
Vale a pena continuar?
Speaker A
E a resposta dele era sim.
Speaker A
Não porque vai ficar tudo bem.
Speaker A
Não porque existe recompensa no fim.
Speaker A
Mas porque a revolta contra o absurdo, a decisão de viver plenamente, mesmo sabendo que acaba, é a única forma de dignidade real que temos.
Speaker A
Ah, ele também dizia que a gente precisa imaginar o Sísifo feliz.
Speaker A
É, o Sísifo, aquele cara da mitologia grega condenado a empurrar aquela pedra na montanha para sempre.
Speaker A
Subir até lá em cima com a pedra, carregando ela e vê ela rolar de volta e descer de novo para empurrar ela de novo eternamente.
Speaker A
Sem propósito e sem fim.
Speaker A
Feliz, não porque a pedra chegou ao topo, mas porque ele escolheu estar inteiro no esforço.
Speaker A
O Tim, no fim do filme, larga a opção de voltar no tempo.
Speaker A
Não porque não funciona.
Speaker A
Mas porque ele não precisa mais.
Speaker A
Porque ele aprendeu a estar presente sem a rede de segurança da segunda chance.
Speaker A
E isso, viver sem a opção de voltar, não é resignação.
Speaker A
É a única forma de levar a própria vida a sério.
Speaker A
Porque quando você sabe que você pode refazer, você nunca está completamente lá.
Speaker A
Sempre com um pé de fora, sempre com um plano B na manga.
Speaker A
Sempre meio comprometido, meio presente, meio vivo.
Speaker A
Sem a opção de voltar, você chega inteiro.
Speaker A
Eu não sei o que você perdeu.
Speaker A
Não sei para quem você não ligou.
Speaker A
Quem você não abraçou, qual versão de você mesmo você deixou passar sem reconhecer.
Speaker A
Não sei qual dia comum foi, na verdade, o dia mais importante que você registrou.
Speaker A
Mas eu sei que você ainda tem hoje.
Speaker A
Não como frase motivacional.
Speaker A
Por favor, me poupe.
Speaker A
Como fato bruto.
Speaker A
Você acordou, esse dia existe, tem pessoas nele.
Speaker A
Tem momentos nele que vão virar memória ou vão virar nada.
Speaker A
Dependendo de onde você colocar sua atenção.
Speaker A
E você não vai acertar tudo, vai se distrair, vai pegar o celular, vai planejar o amanhã enquanto hoje passa.
Speaker A
Vai ser humano.
Speaker A
Com tudo o que isso tem de limitado e bagunçado e inconsistente.
Speaker A
Mas talvez, em uma cena, numa conversa, num jantar, numa ligação que você ia deixar para depois.
Speaker A
Talvez você apareça de verdade.
Speaker A
Sem o punho fechado, sem máquina do tempo, sem segunda chance.
Speaker A
Só você inteiro num dia que não volta.
Speaker A
Você não pode voltar.
Speaker A
Mas você ainda pode chegar.
Speaker A
Esteja presente.
Topics:presençatempofilosofiaQuestão de Temposegunda chancedistraçãoKierkegaardNietzschemindfulnessvida plena











