Speaker A
[Música] Isso aqui é incrível, né? Muito legal. [Música] Ah, esse livro é lindo. Olá, o Trilha de Letras desta semana começa com Nara Vidal, uma autora muito incrível, radicada em Londres, que escreveu um livro romanceado sobre um tema muito pouco explorado no Brasil e que muita gente não sabe. Ela fala sobre eugenia. Você sabe o que é eugenia? Vamos conversar com Nara Vidal sobre este tema tão importante e presente na vida brasileira. Nara, seja muito bem-vinda ao Trilha de Letras. Obrigada, Eliana, obrigada por me receber. Eh, o livro Puro ele se baseia, né? Tem como pano de fundo esse recorte histórico que são os anos 30 no Brasil, governo Getúlio Vargas, e que ali parece que prolifera um pouco essa ideia do eugenismo, né? Que já era um flirt ali, já vinha desde João Batista La Serda, né, num encontro em Londres onde se discute esse tema. Então é um tema isso aí antes, né, do governo Getúlio Vargas, mas é um tema que começa a se alimentar no Brasil. Eh, e é mesmo tão absurdo quanto parece, né? Quanto soa. E esse tema ele surgiu para mim, eu escrevo muito a partir de coisas que me espantam e coisas que me incomodam, alguma coisa que eu vejo ou que eu leio e que eu não consigo esquecer sobre, né? Eu fico pensando naquilo. E eu acho que esse tema primeiro ele apareceu para mim porque eu ouvi falar sobre isso muito tardiamente, como a maioria dos brasileiros, porque eu acho é uma coisa mesmo escandalosa que nas escolas a gente passe pelo tal governo Getúlio Vargas e isso não é sequer mencionado. Eu, enquanto eu cresci, isso não era mencionado. Então eh, é um tema muito forte e claro a gente passa aí pelas narrativas históricas que são muito selecionadas e tudo mais, portanto eugenismo é mesmo escondido. E eu me lembro de ver um filme, eh, Menino 23, esse documentário me emocionou muito porque para quem não sabe, né, só pra gente contextualizar, é um documentário que acompanha uma pesquisa histórica do Sidney Aguilar, se eu não tô errada, não me equivoco aqui, eh, que ele então vai pesquisar o, o, ele encontra numa fazenda no interior de São Paulo, que eu não me lembro o nome da cidade agora, e ele encontra vários tijolos que têm aquele, aquela coisa nazista, né? E ali a gente então descobre que tinha uma espécie de cativeiro de meninos negros e, e claro, com esse símbolo nazista a gente então pressupõe que existia ali todo um incentivo, né, a essa, a essa eugenia, a esse tipo de ideia. E a partir daquele filme eu comecei então a pesquisar um pouco sobre eugenismo. Eu não sou historiadora, eu não pesquiso profundamente, eu pesquiso mesmo por curiosidade e como eu queria fazer ficção com esse recorte histórico eu comecei então a brar um pouquinho sobre o tema. E eu acho que o meu maior espanto, além do tema em si que é de fato espantoso, foi eu me dar conta de que eu não sabia sobre isso, sabe? E todos os desdobramentos que isso tem, né? É incrível como a gente não sabe nada sobre o nosso país, não sabe nada sobre as coisas que nos formaram, né? Eh, eu me lembro que eu fiquei um pouco, eu sempre vi isso reproduzido na internet, aquele quadro, o famoso quadro do Brocos que é a Redenção, que é uma avó negra retinta com uma filha já negra de pele clara, casada com um homem branco, e avó da graças a Deus porque o neto nasceu branco. Eh, isso é um clássico sim do eugenismo e foi apresentado no Congresso das Raças, né, em Londres. E segundo os cálculos era para em 2011 a população negra já estar extinta no Brasil, ou seja, estamos aqui vivendo 20 anos depois da extinção das pessoas negras no Brasil. Gente, isso é muito, muito estarrecedor, né? E você é de uma cidade pequena, né? E o livro se passa numa cidade pequena. Tem algum paralelo? Sim, o livro se passa numa cidade fictícia chamada Santa Graça. O nome, claro, é muito sugestivo, né? Esse Santa Graça é uma cidade como, bom, eu sou de Minas Gerais, a cidade de onde eu venho é muito pequenininha, são 8.000 habitantes e eu percebo vindo de lá depois de ter saído de lá, né, porque acho que quando a gente tá lá a gente às vezes não percebe tanto isso, mas saindo de lá você tem um, um, é sair da ilha para ver a ilha, né? A gente começa a entender então um pouco melhor de algumas dinâmicas, alguns comportamentos. E em Minas Gerais, eu falo da minha cidade, eh, a gente percebe muito uma dinâmica que acontece na narrativa do livro que é o que tá no subterrâneo assim, o que não é, os silêncios. Isso por si já me interessa muito na literatura, né? Eu me atraio muito pelo que as pessoas não falam, principalmente pelo que elas tentam esconder, né? Então a gente, como escritora, a gente especula sobre aquilo, a gente forma narrativas através disso. E eu acho que o silêncio, aquilo que é, que às vezes as pessoas tentam com tanto afinco esconder, né, e que às vezes é tão evidente, isso me interessa muito, muito. Eu gosto muito de observar essas coisas assim nas pessoas. E eu acho que o Puro traz essa cidade como, né, como local ali onde tudo acontece e pela forma narrativa isso é enaltecido, a coisa da hipocrisia, o que que um pensa, o que que um fala, né? Isso é bem comum dessas cidadezinhas e também essa ambição dessa cidadezinha de Santa Graça querer ser um exemplo de eugenia no Brasil. E é um tema muito atual, né? A gente teve agora, a gente tá aí com eleições na Europa, na França, extrema direita, uau, né? Num crescimento vertiginoso. E a gente foi assombrado agora essa semana com aquele cartaz, aquela propaganda de Lorine, você viu? Eh, para que as crianças brancas tenham futuro, né? Sim, isso chega a ser um, nossa, num país que não dominou tantos povos e escravizou tanta gente, enfim. Eh, é um tema muito atual, tá aí na ordem do dia, eh, políticas públicas, né? A gente tem um país que teve isso na Constituição, eu acho que quase ninguém sabe isso, né? Na Constituição de 1934 a eugenia estava lá, né? Tão perto da gente. 34 foi ontem, né, na linha da história. Sim, exatamente. E isso é muito, é estarrecedor, como você diz, mas me espanta muito, sabe, essa falta de avanço nas coisas, né? Eu moro na Inglaterra e eu me lembro quando Brexit aconteceu lá, né? Eh, é muito interessante a gente notar, identificar as narrativas são sempre as mesmas, as mesmas da extrema direita, né, que são narrativas muito frequentemente racistas e preconceituosas. Então eh, é muito interessante a gente notar, né, que a gente tem um pensamento democrático, enfim, humanista, e você nota esse tipo de volta, né? Mas eu às vezes penso que não é volta, eu acho que a história é cíclica mesmo. Então a isso faz com que a gente precise estar sempre muito atento, né? E as lutas nunca estão ganhas, as batalhas nunca estão ganhas, a gente precisa estar sempre consciente disso, né, para protestar e, enfim. E o Brexit, eu me lembro que era muito pautado nessa questão da imigração, que por consequência fala sobre pessoas negras ou pessoas asiáticas, enfim, era uma mistura muito perigosa, né, de um suposto perigo para a sociedade, a presença dessas pessoas. Então, aliás, o tema Puro, essa palavra, né? Eu brinco muito com isso porque essa ideia de pureza ela não é necessariamente boa, né? A pureza ela exclui, né? Então quando a gente pensa em miscigenação, a pureza não existe, né? Então é isso. Então quando eu vejo a riqueza dos vários, né, então uma coisa única ela é muito empobrecida se você for pensar uma coisa pura, né? O que que é aquilo? É muito absoluto, né? Uma coisa única. Então essa questão da miscigenação, eu acho que tudo isso, Eliana, é muito consequência de uma narrativa que a gente esteve acostumado, não estamos mais, ainda bem, né? Protestamos, mas uma narrativa que a gente teve muito acostumado a ouvir da história, né? A história tem essa responsabilidade, esse poder, né? Nós nos informamos sobre o nosso país através dessa narrativa completamente louca, né? Assim, é muito estranha, é muito triste pensar nisso. E aí eu quero te fazer uma provocação que é a seguinte, né? Eu detesto a palavra provocação porque a gente sempre fala.