Speaker A
A criança que vive plenamente a sua infância chega a um momento em que ela sabe que tem que abandonar o seu ser criança, assumir a sua formação como adulto. E aí, é claro, a banda, quando digo assim, ela vai ser plenamente criança, ela vai ver tudo aquilo que uma criança precisa ver, essas diferenças que a criança vê exatamente na escola, mas onde a educação começa é em casa, no brincar, é com os pais, com os irmãos, com os conselhos, as pessoas que ele visualiza como importantes na formação dele como ser daquele povo. Como disse antes, o indígena cresce de forma integrada, em uma integração. Contudo, a criança indígena, criança Munduruku, ela participa de todos os espaços, porque numa comunidade indígena tudo é educativo, né? É uma comunidade educativa, é uma sociedade educativa comum como um todo. O velho tempo, minha preocupação com a criança, do que tem a mãe dela, do que o tio tem que ter a mesma preocupação para todo mundo, observando o que as crianças estão fazendo, é como elas estão brincando. E chegam aqueles momentos, digamos que são os momentos que, sim, porque a gente poderia chamar de momentos didáticos, em que o velho senta e conta histórias, em que a mãe chama a criança e puxa a orelha dela no modo simbólico, não dizer, chama a atenção dela por alguma coisa que ela fez ou deixou de fazer, por alguma intriga, alguma coisa que ela fez. Nesse momento é um momento educativo, que é aquele momento quando a mãe pega a criança no colo. A criança, que eu falo, coronelzinho de cinco, seis, sete, oito, nove anos, mais ou menos, que ela pega no colo e fica catando piolho. O ato de catar piolho é um ato didático pedagógico, porque enquanto a mãe está ali, mesmo disfarçadamente, que na verdade ela não está ali para tirar o piolho da cabeça da criança, ela está ali para fazer carinho daquela criança. Enquanto faz esse carinho, ela vai destrinchar um pouco no ouvido dela, carinhosamente, como é que ela deve se comportar, como deve ser, o que ela deve brincar, como ela pode brincar, não como uma imposição, mas sabendo que ela está naquele momento jogando uma semente naquela criança, através de uma história, através de uma reclamação, nem através de uma chamada de atenção ali, exercendo seu papel de educadora. Esse é o papel da mãe, é o papel do pai que leva o menino para o mato brincar, brincar de caçar no mato. Esse momento é o momento de 15 anos dentro da pedagogia dos nossos povos. E é claro que jogos e brincadeiras são fundamentais. A criança que não brinca não cresce equilibrada. A brincadeira faz parte da educação integral do ser humano, e esse ser humano pequenininho não é um adulto em miniatura, como às vezes na cidade se diz que a criança é um adulto em miniatura. Não é. A criança não pode ser tratada como adulto em nenhum momento. Então, quando ela brinca, ela tem que brincar plenamente, ela tem que se entregar. Esses jogos às vezes são disputa, às vezes competição com um amigo, que não é uma competição como se dá na cidade, obviamente, mas é naquele momento ele vai tocando o corpo dele, está educando a mente. Quando as crianças se reúnem para discutir uma brincadeira, eles estão treinando a sua capacidade de negociação. Portanto, tudo é um processo educativo que a criança vai vivenciando e que os adultos estão muito atentos para poder estabelecer um limite, para poder dar um conselho, para poder dizer como fazer esse tipo de negociação. Ou seja, cada povo tem, obviamente, a sua didática, cada povo tem a sua maneira de desenvolver nas crianças o jeito delas conviverem com as outras crianças. Entre os indígenas, eu creio que um caminho que a gente tem percebido no cotidiano deles, né, é de que a criança precisa, ela precisa se sentir segura naquele momento que está vivenciando, que só ela pode vivenciar e que pode e que deve, né, com isso colocar para fora todo o seu ser criança para que ela cresça assim integralmente. Daí a gente não... não...