Exploração da luta interior contra o ego, simbolizada pela batalha com o dragão, segundo tradições espirituais e filosóficas.
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Key Takeaways
- A luta interior contra o ego é fundamental para a liberdade e felicidade verdadeira.
- A espiritualidade é frequentemente descrita em termos de combate e estratégia militar.
- O herói interior simboliza a força e coragem necessárias para vencer as forças negativas internas.
- O corpo é o instrumento que possibilita a prática e a vivência dessa luta espiritual.
- A extinção do ego falso é o passo essencial para a realização plena do ser humano.
What the video covers
- A luta contra o dragão simboliza a guerra interior contra o ego e os obstáculos internos.
- Essa batalha é essencial para conquistar liberdade, dignidade e felicidade em sentido superior.
- Textos budistas, como o Dhammapada, usam terminologia militar para descrever a via espiritual como uma guerra santa.
- O guerreiro interior é descrito como um herói, firme e corajoso, que vence as forças negativas internas.
- O dragão representa o falso eu, a alma carnal e irracional que se opõe ao espírito e à razão superior.
- A morte do dragão simboliza a extinção do ego falso e a realização do ser integral.
- O corpo humano é o campo de batalha onde ocorre essa luta espiritual, permitindo a libertação da alma.
- A analogia do centauro representa a união entre a parte animal e a parte espiritual do ser humano.
- Tradições orientais e ocidentais convergem na ideia da batalha interior como caminho para a realização espiritual.
- A virtude de Viria, ou energia combativa, é fundamental para perseverar nessa luta interna.
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Speaker A
Antonio Medrano, A Luta com o Dragão: A Tirania do Ego e a Gesta Heroica Interior (1999).
Speaker A
Viver é guerrear. Se desejas ser águia, e não suas cartas.
Speaker A
Falamos deste guerrear, o mito da luta contra o dragão.
Speaker A
Nele, a luta tem toda uma projeção interior, a guerra contra si mesmo, o combate contra os obstáculos presentes no próprio ser, luta sem quartel contra o ego.
Speaker A
Trata-se de uma guerra intestina, na qual está em jogo aquilo que mais importa, ou que, pelo menos, que mais deveria importar.
Speaker A
A saber, nossa liberdade, dignidade e felicidade.
Speaker A
Felicidade em sentido superior.
Speaker A
Um combate interno será tanto mais intenso, quanto maior seja a nobreza da pessoa.
Speaker A
Quanto mais altas, nobres, sejam suas aspirações.
Speaker A
Quem não combate internamente, perde sua vida, desperdiça, quem não queira lutar, estará condenado a viver como um despojo vivente, como um derrotado perpétuo.
Speaker A
Como uma coisa inerte, arrastada pelos acontecimentos, pela fatalidade do destino.
Speaker A
O Damapada é abundante de sentenças alusivas ao sentido combativo da via espiritual.
Speaker A
Neste antigo texto sagrado budista,
Speaker A
a terminologia militar aparece em toda parte.
Speaker A
Referências à arte da guerra.
Speaker A
O que constitui um indício claro daquela dimensão de guerra santa que a marcha pelo caminho do Dharma adquire.
Speaker A
Conceito este de marcha que, aliás, também apresenta inegáveis conotações marciais, assim como a de disciplina, por exemplo.
Speaker A
Em parágrafo dirigido ao homem que se esforça no caminho, Buda aconselha:
Speaker A
Fazendo sua mente permanecer firme como uma fortaleza, lute contra Mara com a arma da sabedoria, projeta sua conquista e não se desvie dela.
Speaker A
E, mais adiante, louvando o poder espiritual do sábio que sabe guiar-se retamente em vida, afirma:
Speaker A
Os sábios escapam deste mundo,
Speaker A
derrotando a Mara e seu exército.
Speaker A
Em outro momento, em traça o perfil do Brâmane, isto é, do homem religioso,
Speaker A
autenticamente sacerdotal, é admirada sua capacidade de perseverar
Speaker A
como um bom soldado no caminho empreendido e suportar impaciente todos os padecimentos de sabores que nele encontre.
Speaker A
Da força interior do Brâmane, que permite sofrer com serenidade toda classe de ataques e ofensas,
Speaker A
se diz que essa força
Speaker A
é seu exército.
Speaker A
As forças espirituais que conseguiu reunir e forjar dentro de si, dentro de si mesmo,
Speaker A
constituem o exército com o qual vence as hordas de Mara.
Speaker A
No Majhimanikaya, fala-se da batalha contra o grande exército da morte,
Speaker A
e se chama o Nirvana, assim como a doutrina que permite alcançá-lo, como o supremo triunfo da batalha.
Speaker A
O homem que segue a via traçada por Buda, o qual recebe os epítetos de herói, vencedor, ou leão rugente,
Speaker A
é definido como um guerreiro ou combatente.
Speaker A
Combatente ário.
Speaker A
Mais exatamente.
Speaker A
Dele se diz, Maravaga, que é firme, vigoroso, bem estabelecido, equilibrado, apto para vencer na batalha.
Speaker A
E em outros textos canônicos, se o qualifica como o acerta lutador de peito de aço, audaz, desconhece a vacilação.
Speaker A
Herói vencedor da batalha.
Speaker A
Um guerreiro que é bom para o rei, digno do rei,
Speaker A
que é um ornamento do rei.
Speaker A
Daí a importância que se outorga a virtude de Viria, ou seja, a virilidade,
Speaker A
a energia combativa,
Speaker A
o ânimo lutador, o vigor e a coragem, a força interior,
Speaker A
a valentia, paciente e tenaz.
Speaker A
Por isso, muitos textos orientais, de caráter eminentemente espiritual, sapiencial, com uma mensagem sobretudo interior,
Speaker A
de realização humana ou sobre-humana, estão repletas de recorrentes alusões
Speaker A
a táticas de combate e de terminologia guerreira.
Speaker A
Até o ponto de alguns estudiosos defenderem que seriam, na verdade, tratados de estratégia militar.
Speaker A
O Tao Te Ching, por exemplo, seria um deles.
Speaker A
E eu, particularmente, considero que o oposto também poderia ser igualmente real.
Speaker A
Ou seja, livros que interpretamos como sendo de estratégia militar, poderiam muito bem ser, originariamente, livros de estratégia espiritual.
Speaker A
O guerreiro que luta ereto e com as armas na mão, sem se deixar abater pelas vicissitudes bélicas que enfrenta,
Speaker A
é o piloto, ou chefe interior,
Speaker A
o enviado do céu, o filho do sol, ou o rei supremo,
Speaker A
que aniquila qualquer forma de tumulto ou rebelião titânica que pode surgir em nosso próprio ser.
Speaker A
Protegido pelos deuses, montado em seu cavalo branco,
Speaker A
encoberto com sua armadura reluzente, ele irrompe
Speaker A
como um mensageiro da divindade,
Speaker A
derrubando os obstáculos que se interpõem no caminho que leva ao seu objetivo final.
Speaker A
O cavaleiro, o combatente solar, se apresenta como o lutador contra o dragão e como vencedor do dragão.
Speaker A
Encarna, portanto, o herói interior que nos impulsiona a ser o que devemos ser.
Speaker A
Que nos estimula a permanecer fiéis ao nosso mais alto destino, à nossa mais nobre missão.
Speaker A
Nele se encontra representado o princípio heroico que, como amigo íntimo, como o Mitra matador do touro,
Speaker A
personificação divina da amizade e lealdade, nos transforma
Speaker A
desde nossas mais profundas raízes para nos permitir chegar ao que somos em essência.
Speaker A
E alcançar, assim, o fim supremo da vida, de acordo com o mote tradicional que aconselha: sê o que és.
Speaker A
Segundo Filon de Alexandria, a Dracomaquia é o combate que, no interior do ser humano,
Speaker A
liberta o núcleo viril, que é o espírito, pneuma, ruach, ou nous, o logos, o intelecto, ou razão em sentido superior,
Speaker A
contra a entidade feminina que é a alma, psique, o nefesh, a qual, sendo irracional e terrena,
Speaker A
vê-se facilmente aprisionada pelo prazer que se enrosca como uma serpente em torno dela.
Speaker A
É uma batalha implacável, uma guerra sem trégua contra a intemperança e o prazer.
Speaker A
O dragão, a serpente é, na opinião do helenista,
Speaker A
a hedoné, a concupiscência ou sensualidade, a irracional rebeldia da alma,
Speaker A
que leva em si mesma o veneno.
Speaker A
Se o cavaleiro ou herói solar representa a personalidade metafísica,
Speaker A
o homem interior, o eu real, o grande eu,
Speaker A
o dragão, pelo contrário, simboliza a individualidade contingente,
Speaker A
o homem exterior, o eu psicofísico, o eu pequeno, ou falso ego,
Speaker A
o eu efêmero, condicionado.
Speaker A
Este último é a alma individual.
Speaker A
Kirumi chama de alma carnal obscura, a qual, no homem ordinário,
Speaker A
se lança contra o intelecto e o espírito, com a intenção de asfixiá-lo e ocupar seu posto.
Speaker A
É o tirano que impõe violenta e arbitrariamente sua lei em nossa vida,
Speaker A
nos fazendo crer, erroneamente, que nele está o nosso autêntico ser.
Speaker A
Por isso, a morte do dragão significa a extinção da alma individual.
Speaker A
Passo prévio para o triunfo do espírito, para a realização integral do ser humano.
Speaker A
Esta guerra contra o antigo dragão é, segundo Hildegarda de Bingen, a guerra das guerras, ou o combate dos combates.
Speaker A
Como o corpo participa dessa guerra?
Speaker A
Ora, vemos em muitas tradições que todas as almas, aprisionadas nessa roda de renascimentos,
Speaker A
anseiam por um corpo humano.
Speaker A
Principalmente através dele,
Speaker A
elas podem se libertar.
Speaker A
Essa comunidade física, corporal, formada por mãos, pés, peito, costas, braços, pernas, olhos, boca, etc.
Speaker A
E também pelos órgãos, condutos e fluidos internos, cérebro, pulmões, coração, vísceras, sangue, nervos, veias, artérias.
Speaker A
Enfim,
Speaker A
essa comunidade física, corporal, é graças a ela que o indivíduo pode lançar-se ao combate espiritual.
Speaker A
São os olhos humanos que permitem olhar as imagens, letras, signos, símbolos sagrados.
Speaker A
São os ouvidos humanos que permitem escutar a palavra revelada, o ensinamento veiculador da sabedoria,
Speaker A
ou os ritmos da música sacra.
Speaker A
É a língua humana que permite pronunciar o nome divino, realizar as orações,
Speaker A
repetir os mantras e cantar os hinos sagrados.
Speaker A
São as mãos humanas que permitem fazer os gestos rituais, da súplica,
Speaker A
da saudação à divindade.
Speaker A
E a respiração que permite absorver o prana, ajudando a concentração, a meditação,
Speaker A
e a purificação da mente.
Speaker A
Foi dito muitas vezes que o homem
Speaker A
é um centauro.
Speaker A
Com uma parte inferior animal e com uma parte superior propriamente humana, racional, espiritual, intelectiva.
Speaker A
E este centauro é o que simboliza a estreita união entre o cavaleiro e seu cavalo.
Speaker A
União entre o cavalo e o cavaleiro que é vivida com especial intensidade nos povos de cultura guerreira.
Speaker A
Desde pele vermelha até o samurai ou o cavaleiro mongol.
Speaker A
Nos quais o homem vive e luta montado em seu cavalo, contemplando o mundo de uma altura proporcionada por seu inseparável e fiel corcel.
Speaker A
Assim também viveu a relação com sua montaria, o cavaleiro cristão da Idade Média,
Speaker A
que tinha justamente como patrono e arquétipo ideal São Jorge, montado no cavalo branco.
Speaker A
O cavaleiro tradicional vê no cavalo, com o qual está fundido por completo,
Speaker A
não apenas um companheiro leal, ao que se unem laços de afeto e múltiplas experiências vividas juntos,
Speaker A
vivência de numerosas batalhas, viagens e aventuras.
Speaker A
Mas uma projeção do seu próprio ser.
Speaker A
Quase como um outro eu.
Speaker A
Com o qual até mantém um diálogo amigável.
Speaker A
Existe uma continuidade estabelecida entre o homem e este animal.
Speaker A
Entre a animalidade que o cavalo representa,
Speaker A
que serve como suporte ou veículo,
Speaker A
e a humanidade do guerreiro que segura as rédeas, que dirige o nobre bruto e se vale dele para atingir o seu objetivo.
Speaker A
Como exemplo disso, se poderia recordar os casos de Alexandre Magno e Bucéfalo, de Rolando e Vigilante,
Speaker A
de Dom Quixote e Rocinante,
Speaker A
e do Cid e seu fiel cavalo Babieca, sobre o qual venceu a batalha, inclusive morto,
Speaker A
cujos restos repousam próximo da primitiva tumba de seu amo, chefe e companheiro.
Speaker A
Não poderíamos deixar de mencionar o príncipe Sidarta, que posteriormente seria o Buda,
Speaker A
e seu cavalo Cantaca, do qual a lenda conta que relinchou de alegria ao ver que estava sendo selado para que seu mestre pudesse empreender a longa jornada em direção à iluminação sobre suas costas.
Speaker A
Depois que Sidarta decidiu deixar o palácio em que vivia, cercado até então de pompa e prazeres.
Speaker A
A lenda de Buda também relata como ele se despediu de seu cavalo antes de se retirar para a floresta para meditar,
Speaker A
falando com ele como alguém falaria com um bom amigo, dirigindo palavras de conforto e afeto.
Speaker A
Cantaca morreu de tristeza,
Speaker A
pensando que não veria seu mestre novamente.
Speaker A
Mas como recompensa, seus fiéis serviços,
Speaker A
renasceu no céu, tal como Sidarta havia prometido.
Speaker A
Todos esses significados simbólicos do cavalo se veem acentuados nos casos em que ele aparece dotado de asas.
Speaker A
Como ocorre, por exemplo, com Pégaso, o célebre cavalo voador,
Speaker A
montado por Belerofonte, vencedor da Quimera.
Speaker A
E é extremamente significativo que Pégaso também é o portador do raio de Zeus, e que é Atena quem ensina a encontrá-lo e domá-lo.
Speaker A
Essas asas põem em relevo a função elevadora e enaltecedora que desempenha a realidade corpórea,
Speaker A
irracional e sentimental, que o herói toma como apoio para levar a cabo sua gesta interior.
Speaker A
É um suporte vivo do espírito.
Speaker A
O qual o herói, para cavalgar, precisa purificar, enobrecer e elevar.
Speaker A
É o que lhe dá asas para aceder até níveis superiores,
Speaker A
para observar as formações inimigas e, então, planejar o combate contra o monstro abissal,
Speaker A
e lhe desferir um golpe fatal.
Speaker A
Graças a essas asas, símbolo do voo espiritual, pode o herói elevar-se acima do vulgar,
Speaker A
do horizontal,
Speaker A
do rasteiramente material.
Speaker A
Escapando assim das garras do dragão que ruge ameaçador lá embaixo.
Speaker A
Todo este simbolismo seria incompleto se não fizéssemos referências à arma.
Speaker A
Materialização simbólica do raio, quer seja o raio do sol,
Speaker A
ou o raio que descarrega a tormenta.
Speaker A
A arma que trespassa a massa informe constituída pelo corpo do dragão, não é outra coisa que o raio luminoso da sabedoria,
Speaker A
cravando-se na carne do monstro egoico, abrindo o caminho através da noite escura e tormentosa do ego.
Speaker A
Com a mesma força com que o raio rompe a negrura do céu nublado, a lança ou flecha sapiencial rasga o véu das negras nuvens,
Speaker A
com que a ilusória consciência ególatra envolve o ser humano.
Speaker A
O poder invencível da lança ou espada que o herói solar empunha, nos fala, pois, da força vitoriosa da verdade,
Speaker A
de sua invicta potência que não pode ser resistida pela mentira e pelo erro,
Speaker A
substâncias que nutrem o dragão.
Speaker A
Ao rasgar a carne do monstro egocêntrico, a arma da verdade põe em evidência sua falsidade e inconsistência.
Speaker A
Mostra que este não é senão mera ilusão,
Speaker A
produto do autoengano.
Speaker A
E desarma, e o anula de maneira definitiva.
Speaker A
Destrói o suporte ilusório sobre o qual se baseia a falsa crença em um eu independente,
Speaker A
separado de seu princípio transcendente e soberano.
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