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Speaker A
Se alguém me provar esse argumento errado, eu não preciso acreditar.
Speaker A
Aí você tá tentando.
Speaker A
Eu tô há 32 anos esperando alguém me provar esse argumento como errado.
Speaker A
Eu sou muito aberto, se alguém provar que eu tô errado, eu renuncio a crença em Deus facilmente se alguém demonstrar que o que eu acabei de falar tá errado.
Speaker A
Eu realmente renuncio.
Speaker A
No vídeo de hoje, vou explicar por completo, sem deixar de lado os contra-argumentos, o primeiro e mais famoso argumento de Tomás de Aquino para provar a existência de Deus.
Speaker A
Esse vídeo vai ser o primeiro de uma sequência que farei analisando as famosas cinco vias, que tem como objetivo mostrar que é possível crer em Deus sem fé.
Speaker A
Mas como sempre faço no canal, não vou poupar nos contra-argumentos.
Speaker A
E sem mais enrolação, vamos pro vídeo.
Speaker A
A primeira via de Tomás de Aquino se chama Via do Movimento, ela é um argumento inspirado no primeiro argumento racional para a existência de Deus, o conhecido Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles.
Speaker A
Essa via pode ser considerada simples quando olhamos para sua ideia central, mas ela se torna complexa quando entramos nos conceitos filosóficos que formam sua base.
Speaker A
E é por isso que antes de partirmos para a análise do argumento, você precisa conhecer os três conceitos fundamentais que Tomás pegou de Aristóteles: Ato, Potência e Movimento.
Speaker A
Potência é a capacidade que algo tem de ser ou de mudar, mas que ainda não aconteceu, é a possibilidade de se tornar algo que ainda não foi realizado.
Speaker A
Por exemplo, uma semente tem a potência de se tornar uma árvore, mas ainda não é.
Speaker A
Um bloco de mármore tem a potência de se tornar uma estátua, ele tem dentro de si a possibilidade de se tornar escultura, mas ainda não se transformou.
Speaker A
Já o ato é o resultado dessa possibilidade, é a realização daquilo que estava em potência.
Speaker A
É quando a semente se torna a árvore e quando o mármore se torna estátua.
Speaker A
Já o terceiro conceito vem da percepção de Aristóteles de que toda mudança no mundo não ocorre de forma aleatória.
Speaker A
Issaí né aleatório não man.
Speaker A
Para ele, toda mudança é sempre uma passagem de potência ao ato, e é exatamente isso que tanto Aristóteles quanto Tomás chamam de movimento.
Speaker A
Mas é importante deixar claro que aqui movimento não significa apenas algo andando ou se deslocando, movimento aqui é qualquer atualização de uma possibilidade em realidade.
Speaker A
Por exemplo:
Speaker A
Um carro andando é movimento físico, mas o crescimento de uma criança, nessa filosofia, também é movimento, assim como uma madeira que queima e se transforma em cinzas.
Speaker A
Em todos esses casos, havia uma possibilidade, uma potência, e ela se atualizou, ou seja, houve movimento.
Speaker A
Em resumo, potência é a capacidade que algo tem de mudar, mas que ainda não se realizou, ato é o que podia ter se realizado e já se realizou, e movimento é o processo onde a potência se transforma em ato.
Speaker A
E é justamente esse último conceito que vai permitir a Tomás elaborar a sua primeira via.
Speaker A
Agora que você já sabe o que esses conceitos significam, podemos ir para o argumento.
Speaker A
A primeira via se inicia com Tomás escrevendo que é certo e verificado pelos sentidos que alguns seres são movidos neste mundo.
Speaker A
Bom, a observação inicial é super simples.
Speaker A
Tudo ao nosso redor está em transformação, desde a passagem entre as quatro estações até uma pedra que cai.
Speaker A
E lembrando, o movimento do qual Tomás fala aqui é toda passagem de potência ao ato, não somente o movimento físico.
Speaker A
É bem aqui que entra o primeiro ponto do argumento: nada que está apenas em potência pode atualizar a si mesmo.
Speaker A
Tomás afirma: Ora, todo o movido por outro é.
Speaker A
Por exemplo, imagine uma madeira fria, ela está em potência para ser quente, mas não pode se tornar quente sozinha.
Speaker A
É preciso então que algo já em ato de calor a aqueça, como o fogo.
Speaker A
E isso vale para todos os casos.
Speaker A
Tudo que passa de potência a ato depende de algo já em ato para atualizá-lo.
Speaker A
Desta forma, não é possível que algo seja ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto aquilo que move e aquilo que é movido.
Speaker A
Calma que eu vou traduzir.
Speaker A
Pensa, se a madeira fosse capaz de se aquecer sozinha, ela teria que ser ao mesmo tempo fria para estar em potência pro calor e quente para poder atualizar essa potência.
Speaker A
Ou seja, ela teria que estar em ato e potência ao mesmo tempo.
Speaker A
Mas isso é contraditório.
Speaker A
Logo, para passar da potência ser fria ao ato ficar quente, ela precisa de algo que já esteja em ato de calor, como o fogo.
Speaker A
Mas, ó, presta atenção que o ponto chave aqui é esse no mesmo aspecto.
Speaker A
A madeira pode ser quente em um lugar e fria em outro, ou seja, aspectos diferentes.
Speaker A
Mas ela não pode ser fria e quente na mesma parte e no mesmo sentido ao mesmo tempo.
Speaker A
Bom, e a partir da resposta do questionamento do nosso coleguinha, surge a grande questão.
Speaker A
Se tudo que se move é movido por outro, e esse outro, por sua vez, também foi movido, temos então uma cadeia de motores, uma coisa que move outra, outra que move essa outra e assim por diante.
Speaker A
O problema é que, para Tomás, essa cadeia não pode ser infinita.
Speaker A
Ele argumenta: Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por consequência, outro qualquer.
Speaker A
Ou seja, se não houvesse um início, nenhum movimento existiria agora, se cada coisa dependesse de outra eternamente, nada se atualizaria.
Speaker A
É como imaginar uma fila de dominós, cada peça só cai porque outra derruba, mas se não houvesse a primeira peça a iniciar a série, nenhuma cairia.
Speaker A
E se essa cadeia de motores fosse infinita, nenhum deles estaria em ato por si próprio, ou seja, nenhum estaria plenamente realizado.
Speaker A
Porque cada um dependeria de outro para atualizar sua potência.
Speaker A
Só que desta forma, nenhum motor poderia iniciar o movimento sozinho, porque todos estariam esperando que outro motor o mova primeiro.
Speaker A
Para ficar mais fácil de entender, imagine uma fileira de lâmpadas conectadas por circuitos.
Speaker A
Cada lâmpada só acende se a anterior enviar energia, mas se todas dependessem da lâmpada anterior para acender, nenhuma lâmpada acenderia.
Speaker A
Porque não há lâmpada inicial enviando energia.
Speaker A
Portanto, se existissem infinitos motores, nenhum movimento poderia ocorrer.
Speaker A
Mas como movimentos ocorrem, para Tomás, a conclusão mais lógica é a necessidade de um primeiro motor em ato puro.
Speaker A
Que esteja plenamente realizado e ativo por si mesmo, pois, como vimos, sem esse motor, qualquer outro movimento seria impossível.
Speaker A
Tomás, a partir disso, escreve: Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos dão o nome de Deus.
Speaker A
Também é importante dizer que, para Tomás, esse motor imóvel que ele chamou de Deus não é apenas o início de movimento no tempo.
Speaker A
Como se Deus tivesse dado um único peteleco numa peça de dominós e, depois disso, todas as outras continuaram a cair sem ele.
Speaker A
Tomás afirma que cada calor, crescimento, mudança ou vida que vemos agora depende desse motor imóvel agora.
Speaker A
Que sustenta a atualização de todas as coisas em cada instante.
Speaker A
Resumindo a argumentação, a primeira via mostra que toda mudança exige um atualizador, mostra que não se pode ter uma cadeia infinita de atualizações sem fundamento e que, necessariamente, deve existir um primeiro motor imóvel, um ser em ato puro que, por Tomás, foi identificado como Deus.
Speaker A
Mas, como sempre digo, nem tudo são flores.
Speaker A
Agora chegamos na parte que vocês tanto gostam: as contra-argumentações.
Speaker A
Mas antes de prosseguirmos, vou explicar como que vai funcionar essa parte do vídeo.
Speaker A
Eu vou começar com os questionamentos que já foram respondidos de forma relativamente boa.
Speaker A
E depois prosseguir com as contrapropostas para o fundamento último da realidade.
Speaker A
Eu chamo de contraproposta, pois quando se discute a existência de Deus a partir da origem da realidade, é difícil achar argumento, entre os que são levados a sério, onde é possível achar muitas falhas lógicas.
Speaker A
Tanto no lado ateísta quanto no lado teísta, porque imagina que eu digo que o motor imóvel é um cachorro onipotente que estruturou toda a realidade e a lógica.
Speaker A
Determinando que não seríamos enganados ao tentar descobrir o fundamento último da realidade.
Speaker A
Esse tipo de ideia, assim como todo argumento sobre a origem do universo, não pode ser testado diretamente segundo os critérios científicos.
Speaker A
Ou seja, não é algo que se possa refutar de forma definitiva.
Speaker A
Mas dizer que essa ideia do cachorro não pode ser refutada, nesse caso, não seria dizer que ela é a melhor proposta para o fundamento último da realidade?
Speaker A
Porque, obviamente, há propostas melhores.
Speaker A
E pelo jeito tô enganando bem kk bobocas.
Speaker A
Então, o que eu vou fazer é o seguinte: vou tentar apontar falhas no argumento de Tomás.
Speaker A
Vou ouvir as justificativas tomistas, tanto do próprio Tomás, tanto de seus sucessores.
Speaker A
E apresentar outras propostas para a origem do universo que podem ser consideradas, por alguns, como respostas mais prováveis diante da proposta de Tomás.
Speaker A
A primeira objeção que costuma ser levantada contra a primeira via de Tomás está ligada ao avanço da ciência desde que o argumento foi proposto.
Speaker A
Em sua formulação original, Tomás parte da ideia de que todo movimento precisa de um motor contínuo.
Speaker A
Porque, segundo a física aristotélica, o movimento de um objeto só poderia continuar enquanto houvesse algo o impulsionando.
Speaker A
E seria por isso que ele escreveu na Suma Teológica que tudo que se move é movido por outro.
Speaker A
Para ele, não existia movimento sem que houvesse um agente que atualizasse constantemente a potência daquele objeto.
Speaker A
E não foi um erro dele.
Speaker A
Em sua época.
Speaker A
A física moderna, a partir de Galileu e consolidada em Newton, mostrou algo diferente.
Speaker A
Segundo a primeira lei da inércia, um objeto em repouso permanece em repouso e um objeto em movimento permanece em movimento.
Speaker A
A não ser que uma força externa atue sobre ele.
Speaker A
Bom, isso significa que não é preciso imaginar um motor sustentando o movimento a cada instante.
Speaker A
Basta a ausência de forças contrárias, como o atrito.
Speaker A
Um exemplo simples é uma bola deslizando no gelo.
Speaker A
Para Aristóteles, Tomás e para 99% dos estudiosos de suas épocas, seria necessário que algo a impulsionasse o tempo todo.
Speaker A
Mas com o avanço científico.
Speaker A
Basta entender que ela continua se movendo porque não há atrito suficiente para pará-la.
Speaker A
E para muitas pessoas, apesar de não ter sido culpa de Tomás, este contraste enfraquece a parte inicial do argumento tomista.
Speaker A
Que toma como óbvio que todo movimento requer uma causa ativa constante.
Speaker A
O segundo ponto crítico é sobre a noção de causas físicas.
Speaker A
Tomás afirma que o movimento é sempre a atualização de uma potência feito por algo já em ato.
Speaker A
E que, portanto, nada pode mover-se por si mesmo.
Speaker A
No entanto, muitos filósofos e cientistas modernos observam que não precisamos recorrer a um motor metafísico para explicar simples mudanças físicas.
Speaker A
Uma pedra não cai porque algo metafisicamente atualiza sua potência de cair.
Speaker A
Mas porque, simplesmente, a gravidade atua sobre ela.
Speaker A
Uma panela não ferve porque sua potência de ferver é atualizada, mas porque as moléculas de água recebem energia do fogo e atingem o ponto de ebulição.
Speaker A
Ou seja, aquilo que Tomás interpreta como ato atualizando potência pode ser completamente entendido com leis físicas, forças e interações de partículas.
Speaker A
A crítica aqui não é que Tomás esteja logicamente errado, a relação entre ato e potência é coerente dentro da filosofia dele e da física de sua época.
Speaker A
Mas sim que, para explicar fenômenos naturais de forma objetiva, a intervenção metafísica é desnecessária.
Speaker A
Resumindo, Tomás fornece uma explicação filosófica profunda.
Speaker A
Mas, do ponto de vista físico, as causas naturais são mais que suficientes.
Speaker A
O terceiro contra-argumento toca justamente na virada de chave da primeira via: a rejeição da regressão infinita.
Speaker A
Tomás escreve: Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por consequência, outro qualquer.
Speaker A
Para ele, se a cadeia de motores fosse infinita, nenhum movimento existiria agora.
Speaker A
Pois todos dependeriam de outro motor para serem atualizados.
Speaker A
Porém, muitos dizem que aqui Tomás comete a falácia da petição de princípio.
Speaker A
Que é quando alguém afirma algo como premissa sem fornecer justificativa e assume que a conclusão é verdadeira porque a própria premissa já supõe a conclusão.
Speaker A
Voltando pra rejeição da regressão infinita, filósofos posteriores, desde Duns Scotus, que inclusive era padre assim como Tomás.
Speaker A
Até pensadores modernos como Bertrand Russell, sugerem que não há contradição lógica em imaginar uma série infinita de causas.
Speaker A
Duns Scotus, apesar de não negar Deus, questiona se o raciocínio de Tomás prova, necessariamente, a existência de um primeiro motor absoluto.
Speaker A
Já Bertrand Russell e David Hume defendem que o próprio conceito de infinito não é absurdo.
Speaker A
O espaço, o tempo e até a série dos números são compreendidos como infinitos.
Speaker A
E se é assim, por que que não devemos aceitar que sempre houve uma sucessão de movimentos sem que haja um primeiro motor absoluto?
Speaker A
Ora, não existe um primeiro número negativo, mas ainda assim a série funciona perfeitamente.
Speaker A
Do mesmo jeito, talvez o tempo e o que Tomás chama de movimento possa se seguir infinitamente sem que seja necessário um início absoluto.
Speaker A
Por fim, mesmo que aceitemos a conclusão de Tomás de que deve existir um primeiro motor imóvel.
Speaker A
Resta uma crítica importante: por que identificar esse motor com o Deus do teísmo cristão?
Speaker A
Tomás escreve: Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos dão o nome de Deus.
Speaker A
Mas, como todos os ateus apontam, o argumento prova, no máximo, a existência de um fundamento último imóvel.
Speaker A
Algo que está em ato puro.
Speaker A
Mas isso não implica automaticamente que esse ser seja consciente, inteligente ou pessoal.
Speaker A
Poderia, simplesmente, ser uma realidade impessoal.
Speaker A
Como uma energia bruta do universo ou um princípio metafísico sem vontade.
Speaker A
Que foi o que o próprio Aristóteles descreveu em sua metafísica.
Speaker A
David Hume, séculos depois, faria exatamente essa mesma crítica.
Speaker A
Ainda que houvesse uma causa primeira, não há motivo lógico para concluir que ela se pareça com o Deus do cristianismo, dotado de bondade, inteligência e vontade.
Speaker A
Nos Diálogos sobre a Religião Natural, ele argumenta que mesmo que deduzamos um criador a partir da ordem do mundo.
Speaker A
Isso não nos dá motivo para atribuir onipotência, onisciência ou bondade perfeita.
Speaker A
Para ele, essas qualidades não acompanham de forma lógica a simples inferência de causa por analogia.
Speaker A
Caso não saiba, essa inferência de causa.
Speaker A
É quando a gente tenta descobrir a causa de algo comparando com outra coisa parecida que a gente já conhece.
Speaker A
Em resumo, Hume diz que mesmo que o universo tenha uma causa, só podemos dizer que ela é causa.
Speaker A
Nada nos autoriza a concluir que seja o Deus cristão com atributos infinitos.
Speaker A
Desta forma, o salto de Tomás de motor imóvel para Deus é interpretado por muitos como um salto que precisa de justificativas adicionais.
Speaker A
Resumindo tudo, os críticos levantam quatro objeções.
Speaker A
Primeiro, que a física moderna já não exige um motor contínuo para manter o movimento.
Speaker A
Segundo, que bastam leis naturais para explicar mudanças, então não haveria necessidade de recorrer a categorias metafísicas de ato e potência.
Speaker A
E terceiro, que a regressão infinita de causas não é logicamente impossível.
Speaker A
E quarto, mesmo que houvesse um primeiro motor, isso não prova que ele seja um Deus consciente.
Speaker A
Mas nem tudo são flores.
Speaker A
Agora vou apresentar cada justificativa tomista, seja de Tomás ou de seus intérpretes atuais, para cada contra-argumento apresentado.
Speaker A
A primeira objeção que aparece contra a primeira via de Tomás de Aquino vem da física moderna, especialmente da lei da inércia, que diz que um objeto em repouso continua em repouso e um objeto em movimento segue em movimento, a menos que uma força externa atue sobre ele.
Speaker A
E para muitos, isso parece derrubar a ideia central de Tomás.
Speaker A
De que seria necessário um motor contínuo para sustentar o movimento.
Speaker A
Afinal.
Speaker A
A física aristotélica que ele sistematizou na Suma Teológica já foi refutada pela ciência.
Speaker A
Mas aqui entra o pulo do gato.
Speaker A
Confundir descrição física com fundamento metafísico é um erro.
Speaker A
Tomás de Aquino não tenta explicar como os corpos se movem no sentido experimental.
Speaker A
Ele queria saber por que o movimento existe.
Speaker A
Ele queria saber qual é o fundamento último que garante que qualquer passagem de potência a ato seja possível.
Speaker A
Na visão aristotélica, todo movimento é atualização de uma potência por algo que já está em ato.
Speaker A
Ou seja, algo que tem potencial de mudar só muda por intermédio de algo que já está em ato.
Speaker A
E mesmo na física moderna, esse princípio não é derrubado.
Speaker A
A ciência descreve fenômenos, mas não explica o que torna possível qualquer movimento em primeiro lugar.
Speaker A
A lei da inércia mostra que o movimento, uma vez iniciado, tende a continuar.
Speaker A
De fato, mas ela não explica por que que ele existe.
Speaker A
Não explica por que que a bola pode se mover ou por que que as leis físicas existem de forma consistente.
Speaker A
E até dentro da inércia, se tu parar pra pensar, para que um corpo acelere e continue em movimento, é necessário uma força.
Speaker A
O movimento não surge do nada.
Speaker A
Outro argumento que tem uma certa relação com a inércia vem da física quântica.
Speaker A
Onde certos eventos parecem ocorrer espontaneamente, sem causa aparente.
Speaker A
Como decaimento radioativo ou flutuações quânticas.
Speaker A
O problema é que essas auto-atualizações não acontecem do absoluto nada.
Speaker A
Elas dependem de leis físicas e condições de fundo que regulam probabilidades.
Speaker A
Então, há sempre algo em funcionamento.
Speaker A
Neste caso, a ordem quântica e as constantes físicas.
Speaker A
Mas isso é contingente.
Speaker A
Poderia ser diferente.
Speaker A
Portanto, depende de um fundamento maior.
Speaker A
Além disso, descrever como algo acontece não explica por que que há movimento.
Speaker A
Que é a questão central do motor imóvel.
Speaker A
E Tomás reforça em obras como De Potentia Dei que a distinção entre potência e ato não é física, é metafísica.
Speaker A
Em resumo, a física moderna pode explicar a trajetória de uma bola no gelo, mas não explica por que que a própria realidade do movimento existe.
Speaker A
Portanto, mesmo aceitando todas as descobertas científicas, a primeira via continuaria válida.
Speaker A
Newton explica como os corpos se movem.
Speaker A
Mas a primeira via nos lembra, ainda assim, que isso não substitui a necessidade de um fundamento último que torne possível a passagem de potência a ato.
Speaker A
A segunda objeção que costuma surgir é de que a primeira via seria desnecessária, porque, segundo a ciência moderna, todos os movimentos e mudanças podem ser explicados por causas físicas.
Speaker A
A partir disso, os críticos afirmam que se uma pedra cai, não precisamos invocar um motor metafísico, ela simplesmente responde à gravidade.
Speaker A
E de fato, do ponto de vista da física experimental, essas descrições são suficientes para prever e compreender o comportamento dos corpos.
Speaker A
No entanto, como vimos anteriormente, o argumento de Tomás não precisa de uma explicação específica de como ocorre cada movimento, pois seu argumento é metafísico.
Speaker A
Ele se baseia no questionamento do por que que cada movimento ou mudança seja possível.
Speaker A
E como ele expõe na Suma Contra os Gentios, afirmar que todo movimento requer um agente que atualiza a potência não é negar que as forças naturais existem.
Speaker A
Mas reconhecer que essas forças e leis físicas não se explicam por si mesmas.
Speaker A
Então, a primeira via questiona as coisas mais ou menos assim: a gravidade funciona, mas por que que ela funciona de forma consistente?
Speaker A
Por que que existe matéria capaz de responder a ela?
Speaker A
Por que que o universo sustenta interações de forma ordenada?
Speaker A
Estes que são os tipos de questionamentos que guiam seu argumento.
Speaker A
Portanto, a crítica de que não precisamos de um motor metafísico para explicar movimentos físicos falha em compreender a profundidade da metafísica tomista.
Speaker A
A primeira via não busca substituir a física.
Speaker A
Ela busca mostrar o que que permitiu que o movimento exista, independentemente das leis que o regem.
Speaker A
O terceiro ponto levantado, principalmente por Russell e David Hume, é a ideia de que uma cadeia infinita de motores poderia existir sem problema.
Speaker A
E que Tomás estaria assumindo, sem provas, que isso é impossível.
Speaker A
Muitos tomistas poderiam retrucar essa explicação com a Navalha de Ockham.
Speaker A
Pois se aceitamos que toda cadeia de movimento precisa terminar em algum atualizador não atualizado.
Speaker A
A hipótese mais simples é que haja apenas um.
Speaker A
Multiplicar motores imóveis seria uma complicação desnecessária.
Speaker A
Além disso, Tomás diria que a unidade do motor imóvel explica de forma mais elegante a unidade da ordem do universo.
Speaker A
Contudo, Schmidt contra-ataca mostrando que a Navalha de Ockham pode, na verdade, funcionar contra Tomás.
Speaker A
Ele distingue dois tipos de simplicidade: a quantitativa, menos entidades, e a categórica, menos tipos diferentes de entidades.
Speaker A
Tomás reduz a quantidade ao postular apenas um motor imóvel.
Speaker A
Mas paga o preço de aumentar a complexidade categórica.
Speaker A
Pois introduz uma entidade radicalmente diferente, sobrenatural e imaterial.
Speaker A
Já admitir múltiplos atualizadores não atualizados, mas todos dentro da mesma categoria natural.
Speaker A
Como campos quânticos ou elementos fundamentais da realidade física, preservaria a simplicidade categórica.
Speaker A
Ou seja, não fica claro que a explicação tomista seja, de fato, a mais simples.
Speaker A
Por fim, Schmidt levanta ainda o problema da lacuna.
Speaker A
Mesmo que aceitássemos que existe um atualizador não atualizado, isso não implica que ele seja o Deus do teísmo clássico.
Speaker A
Tomás responderia que sua análise não para na primeira via.
Speaker A
E uma vez que o motor imóvel é identificado como ato puro, disso já se segue sua simplicidade absoluta, imaterialidade, unicidade, eternidade e necessidade.
Speaker A
A partir destes atributos, Tomás desenvolve em outras partes de suas obras como este ser também seria inteligência pura e bondade perfeita.
Speaker A
Desta forma, para Tomás, o motor imóvel não seria apenas um ponto de partida abstrato, mas que, por uma análise filosófica, é possível o identificar como o próprio Deus do teísmo clássico.
Speaker A
Ato puro, eterno, necessário, inteligente, pessoal e fundamento último da realidade.
Speaker A
No entanto, o impasse permanece.
Speaker A
Será inevitável seguir esse raciocínio até o Deus descrito por Tomás ou já seria possível encerrar a análise antes?
Speaker A
Tratando o motor imóvel apenas como uma explicação impessoal e inconsciente da realidade.
Speaker A
No fim das contas.
Speaker A
Essa discussão revela muito mais do que apenas uma divergência técnica de lógica ou metafísica.
Speaker A
O debate indireto entre Tomás de Aquino e Joseph Schmidt mostra uma questão interessante da filosofia da religião.
Speaker A
Até onde a razão pode nos levar na discussão sobre a existência de Deus antes que comece a interpretação pessoal de o que faz mais sentido?
Speaker A
Comenta aí embaixo que eu quero saber como que vocês interpretam essa questão.
Speaker A
De qualquer forma.
Speaker A
Obrigado por assistir.











