O mais famoso argumento de Tomás de Aquino para provar … — Transcript

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00:00
Speaker A
Se alguém me provar esse argumento errado, eu não preciso acreditar.
00:05
Speaker A
Aí você tá tentando.
00:06
Speaker A
Eu tô há 32 anos esperando alguém me provar esse argumento como errado.
00:11
Speaker A
Eu sou muito aberto, se alguém provar que eu tô errado, eu renuncio a crença em Deus facilmente se alguém demonstrar que o que eu acabei de falar tá errado.
00:18
Speaker A
Eu realmente renuncio.
00:22
Speaker A
No vídeo de hoje, vou explicar por completo, sem deixar de lado os contra-argumentos, o primeiro e mais famoso argumento de Tomás de Aquino para provar a existência de Deus.
00:30
Speaker A
Esse vídeo vai ser o primeiro de uma sequência que farei analisando as famosas cinco vias, que tem como objetivo mostrar que é possível crer em Deus sem fé.
00:38
Speaker A
Mas como sempre faço no canal, não vou poupar nos contra-argumentos.
00:42
Speaker A
E sem mais enrolação, vamos pro vídeo.
00:45
Speaker A
A primeira via de Tomás de Aquino se chama Via do Movimento, ela é um argumento inspirado no primeiro argumento racional para a existência de Deus, o conhecido Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles.
00:55
Speaker A
Essa via pode ser considerada simples quando olhamos para sua ideia central, mas ela se torna complexa quando entramos nos conceitos filosóficos que formam sua base.
01:44
Speaker A
E é por isso que antes de partirmos para a análise do argumento, você precisa conhecer os três conceitos fundamentais que Tomás pegou de Aristóteles: Ato, Potência e Movimento.
01:55
Speaker A
Potência é a capacidade que algo tem de ser ou de mudar, mas que ainda não aconteceu, é a possibilidade de se tornar algo que ainda não foi realizado.
02:04
Speaker A
Por exemplo, uma semente tem a potência de se tornar uma árvore, mas ainda não é.
02:09
Speaker A
Um bloco de mármore tem a potência de se tornar uma estátua, ele tem dentro de si a possibilidade de se tornar escultura, mas ainda não se transformou.
02:21
Speaker A
Já o ato é o resultado dessa possibilidade, é a realização daquilo que estava em potência.
02:27
Speaker A
É quando a semente se torna a árvore e quando o mármore se torna estátua.
02:33
Speaker A
Já o terceiro conceito vem da percepção de Aristóteles de que toda mudança no mundo não ocorre de forma aleatória.
02:39
Speaker A
Issaí né aleatório não man.
03:19
Speaker A
Para ele, toda mudança é sempre uma passagem de potência ao ato, e é exatamente isso que tanto Aristóteles quanto Tomás chamam de movimento.
03:30
Speaker A
Mas é importante deixar claro que aqui movimento não significa apenas algo andando ou se deslocando, movimento aqui é qualquer atualização de uma possibilidade em realidade.
03:41
Speaker A
Por exemplo:
03:42
Speaker A
Um carro andando é movimento físico, mas o crescimento de uma criança, nessa filosofia, também é movimento, assim como uma madeira que queima e se transforma em cinzas.
03:52
Speaker A
Em todos esses casos, havia uma possibilidade, uma potência, e ela se atualizou, ou seja, houve movimento.
04:01
Speaker A
Em resumo, potência é a capacidade que algo tem de mudar, mas que ainda não se realizou, ato é o que podia ter se realizado e já se realizou, e movimento é o processo onde a potência se transforma em ato.
04:14
Speaker A
E é justamente esse último conceito que vai permitir a Tomás elaborar a sua primeira via.
05:00
Speaker A
Agora que você já sabe o que esses conceitos significam, podemos ir para o argumento.
05:05
Speaker A
A primeira via se inicia com Tomás escrevendo que é certo e verificado pelos sentidos que alguns seres são movidos neste mundo.
05:12
Speaker A
Bom, a observação inicial é super simples.
05:14
Speaker A
Tudo ao nosso redor está em transformação, desde a passagem entre as quatro estações até uma pedra que cai.
05:20
Speaker A
E lembrando, o movimento do qual Tomás fala aqui é toda passagem de potência ao ato, não somente o movimento físico.
05:29
Speaker A
É bem aqui que entra o primeiro ponto do argumento: nada que está apenas em potência pode atualizar a si mesmo.
05:36
Speaker A
Tomás afirma: Ora, todo o movido por outro é.
05:40
Speaker A
Por exemplo, imagine uma madeira fria, ela está em potência para ser quente, mas não pode se tornar quente sozinha.
05:49
Speaker A
É preciso então que algo já em ato de calor a aqueça, como o fogo.
05:54
Speaker A
E isso vale para todos os casos.
05:56
Speaker A
Tudo que passa de potência a ato depende de algo já em ato para atualizá-lo.
06:03
Speaker A
Desta forma, não é possível que algo seja ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto aquilo que move e aquilo que é movido.
06:11
Speaker A
Calma que eu vou traduzir.
06:12
Speaker A
Pensa, se a madeira fosse capaz de se aquecer sozinha, ela teria que ser ao mesmo tempo fria para estar em potência pro calor e quente para poder atualizar essa potência.
06:21
Speaker A
Ou seja, ela teria que estar em ato e potência ao mesmo tempo.
06:27
Speaker A
Mas isso é contraditório.
06:29
Speaker A
Logo, para passar da potência ser fria ao ato ficar quente, ela precisa de algo que já esteja em ato de calor, como o fogo.
06:37
Speaker A
Mas, ó, presta atenção que o ponto chave aqui é esse no mesmo aspecto.
06:43
Speaker A
A madeira pode ser quente em um lugar e fria em outro, ou seja, aspectos diferentes.
06:49
Speaker A
Mas ela não pode ser fria e quente na mesma parte e no mesmo sentido ao mesmo tempo.
06:55
Speaker A
Bom, e a partir da resposta do questionamento do nosso coleguinha, surge a grande questão.
07:02
Speaker A
Se tudo que se move é movido por outro, e esse outro, por sua vez, também foi movido, temos então uma cadeia de motores, uma coisa que move outra, outra que move essa outra e assim por diante.
07:13
Speaker A
O problema é que, para Tomás, essa cadeia não pode ser infinita.
07:19
Speaker A
Ele argumenta: Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por consequência, outro qualquer.
07:28
Speaker A
Ou seja, se não houvesse um início, nenhum movimento existiria agora, se cada coisa dependesse de outra eternamente, nada se atualizaria.
07:39
Speaker A
É como imaginar uma fila de dominós, cada peça só cai porque outra derruba, mas se não houvesse a primeira peça a iniciar a série, nenhuma cairia.
07:47
Speaker A
E se essa cadeia de motores fosse infinita, nenhum deles estaria em ato por si próprio, ou seja, nenhum estaria plenamente realizado.
07:55
Speaker A
Porque cada um dependeria de outro para atualizar sua potência.
08:03
Speaker A
Só que desta forma, nenhum motor poderia iniciar o movimento sozinho, porque todos estariam esperando que outro motor o mova primeiro.
08:11
Speaker A
Para ficar mais fácil de entender, imagine uma fileira de lâmpadas conectadas por circuitos.
08:17
Speaker A
Cada lâmpada só acende se a anterior enviar energia, mas se todas dependessem da lâmpada anterior para acender, nenhuma lâmpada acenderia.
08:24
Speaker A
Porque não há lâmpada inicial enviando energia.
08:28
Speaker A
Portanto, se existissem infinitos motores, nenhum movimento poderia ocorrer.
08:34
Speaker A
Mas como movimentos ocorrem, para Tomás, a conclusão mais lógica é a necessidade de um primeiro motor em ato puro.
08:40
Speaker A
Que esteja plenamente realizado e ativo por si mesmo, pois, como vimos, sem esse motor, qualquer outro movimento seria impossível.
08:49
Speaker A
Tomás, a partir disso, escreve: Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos dão o nome de Deus.
08:56
Speaker A
Também é importante dizer que, para Tomás, esse motor imóvel que ele chamou de Deus não é apenas o início de movimento no tempo.
09:05
Speaker A
Como se Deus tivesse dado um único peteleco numa peça de dominós e, depois disso, todas as outras continuaram a cair sem ele.
09:14
Speaker A
Tomás afirma que cada calor, crescimento, mudança ou vida que vemos agora depende desse motor imóvel agora.
09:22
Speaker A
Que sustenta a atualização de todas as coisas em cada instante.
09:28
Speaker A
Resumindo a argumentação, a primeira via mostra que toda mudança exige um atualizador, mostra que não se pode ter uma cadeia infinita de atualizações sem fundamento e que, necessariamente, deve existir um primeiro motor imóvel, um ser em ato puro que, por Tomás, foi identificado como Deus.
09:40
Speaker A
Mas, como sempre digo, nem tudo são flores.
09:43
Speaker A
Agora chegamos na parte que vocês tanto gostam: as contra-argumentações.
09:49
Speaker A
Mas antes de prosseguirmos, vou explicar como que vai funcionar essa parte do vídeo.
09:56
Speaker A
Eu vou começar com os questionamentos que já foram respondidos de forma relativamente boa.
10:02
Speaker A
E depois prosseguir com as contrapropostas para o fundamento último da realidade.
10:10
Speaker A
Eu chamo de contraproposta, pois quando se discute a existência de Deus a partir da origem da realidade, é difícil achar argumento, entre os que são levados a sério, onde é possível achar muitas falhas lógicas.
10:18
Speaker A
Tanto no lado ateísta quanto no lado teísta, porque imagina que eu digo que o motor imóvel é um cachorro onipotente que estruturou toda a realidade e a lógica.
10:26
Speaker A
Determinando que não seríamos enganados ao tentar descobrir o fundamento último da realidade.
10:31
Speaker A
Esse tipo de ideia, assim como todo argumento sobre a origem do universo, não pode ser testado diretamente segundo os critérios científicos.
10:39
Speaker A
Ou seja, não é algo que se possa refutar de forma definitiva.
10:44
Speaker A
Mas dizer que essa ideia do cachorro não pode ser refutada, nesse caso, não seria dizer que ela é a melhor proposta para o fundamento último da realidade?
10:53
Speaker A
Porque, obviamente, há propostas melhores.
10:56
Speaker A
E pelo jeito tô enganando bem kk bobocas.
11:00
Speaker A
Então, o que eu vou fazer é o seguinte: vou tentar apontar falhas no argumento de Tomás.
11:08
Speaker A
Vou ouvir as justificativas tomistas, tanto do próprio Tomás, tanto de seus sucessores.
11:16
Speaker A
E apresentar outras propostas para a origem do universo que podem ser consideradas, por alguns, como respostas mais prováveis diante da proposta de Tomás.
11:27
Speaker A
A primeira objeção que costuma ser levantada contra a primeira via de Tomás está ligada ao avanço da ciência desde que o argumento foi proposto.
11:37
Speaker A
Em sua formulação original, Tomás parte da ideia de que todo movimento precisa de um motor contínuo.
11:45
Speaker A
Porque, segundo a física aristotélica, o movimento de um objeto só poderia continuar enquanto houvesse algo o impulsionando.
11:54
Speaker A
E seria por isso que ele escreveu na Suma Teológica que tudo que se move é movido por outro.
12:00
Speaker A
Para ele, não existia movimento sem que houvesse um agente que atualizasse constantemente a potência daquele objeto.
12:07
Speaker A
E não foi um erro dele.
12:09
Speaker A
Em sua época.
12:10
Speaker A
A física moderna, a partir de Galileu e consolidada em Newton, mostrou algo diferente.
12:15
Speaker A
Segundo a primeira lei da inércia, um objeto em repouso permanece em repouso e um objeto em movimento permanece em movimento.
12:22
Speaker A
A não ser que uma força externa atue sobre ele.
12:25
Speaker A
Bom, isso significa que não é preciso imaginar um motor sustentando o movimento a cada instante.
12:30
Speaker A
Basta a ausência de forças contrárias, como o atrito.
12:33
Speaker A
Um exemplo simples é uma bola deslizando no gelo.
12:36
Speaker A
Para Aristóteles, Tomás e para 99% dos estudiosos de suas épocas, seria necessário que algo a impulsionasse o tempo todo.
12:44
Speaker A
Mas com o avanço científico.
12:46
Speaker A
Basta entender que ela continua se movendo porque não há atrito suficiente para pará-la.
12:52
Speaker A
E para muitas pessoas, apesar de não ter sido culpa de Tomás, este contraste enfraquece a parte inicial do argumento tomista.
12:59
Speaker A
Que toma como óbvio que todo movimento requer uma causa ativa constante.
13:04
Speaker A
O segundo ponto crítico é sobre a noção de causas físicas.
13:10
Speaker A
Tomás afirma que o movimento é sempre a atualização de uma potência feito por algo já em ato.
13:16
Speaker A
E que, portanto, nada pode mover-se por si mesmo.
13:20
Speaker A
No entanto, muitos filósofos e cientistas modernos observam que não precisamos recorrer a um motor metafísico para explicar simples mudanças físicas.
13:26
Speaker A
Uma pedra não cai porque algo metafisicamente atualiza sua potência de cair.
13:30
Speaker A
Mas porque, simplesmente, a gravidade atua sobre ela.
13:34
Speaker A
Uma panela não ferve porque sua potência de ferver é atualizada, mas porque as moléculas de água recebem energia do fogo e atingem o ponto de ebulição.
13:41
Speaker A
Ou seja, aquilo que Tomás interpreta como ato atualizando potência pode ser completamente entendido com leis físicas, forças e interações de partículas.
13:51
Speaker A
A crítica aqui não é que Tomás esteja logicamente errado, a relação entre ato e potência é coerente dentro da filosofia dele e da física de sua época.
13:58
Speaker A
Mas sim que, para explicar fenômenos naturais de forma objetiva, a intervenção metafísica é desnecessária.
14:06
Speaker A
Resumindo, Tomás fornece uma explicação filosófica profunda.
14:11
Speaker A
Mas, do ponto de vista físico, as causas naturais são mais que suficientes.
14:17
Speaker A
O terceiro contra-argumento toca justamente na virada de chave da primeira via: a rejeição da regressão infinita.
14:25
Speaker A
Tomás escreve: Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por consequência, outro qualquer.
14:34
Speaker A
Para ele, se a cadeia de motores fosse infinita, nenhum movimento existiria agora.
14:41
Speaker A
Pois todos dependeriam de outro motor para serem atualizados.
14:47
Speaker A
Porém, muitos dizem que aqui Tomás comete a falácia da petição de princípio.
14:54
Speaker A
Que é quando alguém afirma algo como premissa sem fornecer justificativa e assume que a conclusão é verdadeira porque a própria premissa já supõe a conclusão.
15:01
Speaker A
Voltando pra rejeição da regressão infinita, filósofos posteriores, desde Duns Scotus, que inclusive era padre assim como Tomás.
15:08
Speaker A
Até pensadores modernos como Bertrand Russell, sugerem que não há contradição lógica em imaginar uma série infinita de causas.
15:16
Speaker A
Duns Scotus, apesar de não negar Deus, questiona se o raciocínio de Tomás prova, necessariamente, a existência de um primeiro motor absoluto.
15:24
Speaker A
Já Bertrand Russell e David Hume defendem que o próprio conceito de infinito não é absurdo.
15:31
Speaker A
O espaço, o tempo e até a série dos números são compreendidos como infinitos.
15:37
Speaker A
E se é assim, por que que não devemos aceitar que sempre houve uma sucessão de movimentos sem que haja um primeiro motor absoluto?
15:44
Speaker A
Ora, não existe um primeiro número negativo, mas ainda assim a série funciona perfeitamente.
15:51
Speaker A
Do mesmo jeito, talvez o tempo e o que Tomás chama de movimento possa se seguir infinitamente sem que seja necessário um início absoluto.
16:00
Speaker A
Por fim, mesmo que aceitemos a conclusão de Tomás de que deve existir um primeiro motor imóvel.
16:07
Speaker A
Resta uma crítica importante: por que identificar esse motor com o Deus do teísmo cristão?
16:14
Speaker A
Tomás escreve: Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos dão o nome de Deus.
16:20
Speaker A
Mas, como todos os ateus apontam, o argumento prova, no máximo, a existência de um fundamento último imóvel.
16:26
Speaker A
Algo que está em ato puro.
16:29
Speaker A
Mas isso não implica automaticamente que esse ser seja consciente, inteligente ou pessoal.
16:38
Speaker A
Poderia, simplesmente, ser uma realidade impessoal.
16:42
Speaker A
Como uma energia bruta do universo ou um princípio metafísico sem vontade.
16:49
Speaker A
Que foi o que o próprio Aristóteles descreveu em sua metafísica.
16:56
Speaker A
David Hume, séculos depois, faria exatamente essa mesma crítica.
17:02
Speaker A
Ainda que houvesse uma causa primeira, não há motivo lógico para concluir que ela se pareça com o Deus do cristianismo, dotado de bondade, inteligência e vontade.
17:11
Speaker A
Nos Diálogos sobre a Religião Natural, ele argumenta que mesmo que deduzamos um criador a partir da ordem do mundo.
17:19
Speaker A
Isso não nos dá motivo para atribuir onipotência, onisciência ou bondade perfeita.
17:26
Speaker A
Para ele, essas qualidades não acompanham de forma lógica a simples inferência de causa por analogia.
17:33
Speaker A
Caso não saiba, essa inferência de causa.
17:35
Speaker A
É quando a gente tenta descobrir a causa de algo comparando com outra coisa parecida que a gente já conhece.
17:43
Speaker A
Em resumo, Hume diz que mesmo que o universo tenha uma causa, só podemos dizer que ela é causa.
17:50
Speaker A
Nada nos autoriza a concluir que seja o Deus cristão com atributos infinitos.
17:57
Speaker A
Desta forma, o salto de Tomás de motor imóvel para Deus é interpretado por muitos como um salto que precisa de justificativas adicionais.
18:06
Speaker A
Resumindo tudo, os críticos levantam quatro objeções.
18:13
Speaker A
Primeiro, que a física moderna já não exige um motor contínuo para manter o movimento.
18:20
Speaker A
Segundo, que bastam leis naturais para explicar mudanças, então não haveria necessidade de recorrer a categorias metafísicas de ato e potência.
18:27
Speaker A
E terceiro, que a regressão infinita de causas não é logicamente impossível.
18:30
Speaker A
E quarto, mesmo que houvesse um primeiro motor, isso não prova que ele seja um Deus consciente.
18:37
Speaker A
Mas nem tudo são flores.
18:40
Speaker A
Agora vou apresentar cada justificativa tomista, seja de Tomás ou de seus intérpretes atuais, para cada contra-argumento apresentado.
18:49
Speaker A
A primeira objeção que aparece contra a primeira via de Tomás de Aquino vem da física moderna, especialmente da lei da inércia, que diz que um objeto em repouso continua em repouso e um objeto em movimento segue em movimento, a menos que uma força externa atue sobre ele.
18:59
Speaker A
E para muitos, isso parece derrubar a ideia central de Tomás.
19:04
Speaker A
De que seria necessário um motor contínuo para sustentar o movimento.
19:11
Speaker A
Afinal.
19:12
Speaker A
A física aristotélica que ele sistematizou na Suma Teológica já foi refutada pela ciência.
19:19
Speaker A
Mas aqui entra o pulo do gato.
19:21
Speaker A
Confundir descrição física com fundamento metafísico é um erro.
19:27
Speaker A
Tomás de Aquino não tenta explicar como os corpos se movem no sentido experimental.
19:34
Speaker A
Ele queria saber por que o movimento existe.
19:40
Speaker A
Ele queria saber qual é o fundamento último que garante que qualquer passagem de potência a ato seja possível.
19:47
Speaker A
Na visão aristotélica, todo movimento é atualização de uma potência por algo que já está em ato.
19:55
Speaker A
Ou seja, algo que tem potencial de mudar só muda por intermédio de algo que já está em ato.
20:01
Speaker A
E mesmo na física moderna, esse princípio não é derrubado.
20:05
Speaker A
A ciência descreve fenômenos, mas não explica o que torna possível qualquer movimento em primeiro lugar.
20:12
Speaker A
A lei da inércia mostra que o movimento, uma vez iniciado, tende a continuar.
20:17
Speaker A
De fato, mas ela não explica por que que ele existe.
20:23
Speaker A
Não explica por que que a bola pode se mover ou por que que as leis físicas existem de forma consistente.
20:29
Speaker A
E até dentro da inércia, se tu parar pra pensar, para que um corpo acelere e continue em movimento, é necessário uma força.
20:35
Speaker A
O movimento não surge do nada.
20:38
Speaker A
Outro argumento que tem uma certa relação com a inércia vem da física quântica.
20:43
Speaker A
Onde certos eventos parecem ocorrer espontaneamente, sem causa aparente.
20:49
Speaker A
Como decaimento radioativo ou flutuações quânticas.
20:53
Speaker A
O problema é que essas auto-atualizações não acontecem do absoluto nada.
20:59
Speaker A
Elas dependem de leis físicas e condições de fundo que regulam probabilidades.
21:05
Speaker A
Então, há sempre algo em funcionamento.
21:09
Speaker A
Neste caso, a ordem quântica e as constantes físicas.
21:13
Speaker A
Mas isso é contingente.
21:16
Speaker A
Poderia ser diferente.
21:18
Speaker A
Portanto, depende de um fundamento maior.
21:22
Speaker A
Além disso, descrever como algo acontece não explica por que que há movimento.
21:28
Speaker A
Que é a questão central do motor imóvel.
21:33
Speaker A
E Tomás reforça em obras como De Potentia Dei que a distinção entre potência e ato não é física, é metafísica.
21:41
Speaker A
Em resumo, a física moderna pode explicar a trajetória de uma bola no gelo, mas não explica por que que a própria realidade do movimento existe.
21:50
Speaker A
Portanto, mesmo aceitando todas as descobertas científicas, a primeira via continuaria válida.
22:00
Speaker A
Newton explica como os corpos se movem.
22:03
Speaker A
Mas a primeira via nos lembra, ainda assim, que isso não substitui a necessidade de um fundamento último que torne possível a passagem de potência a ato.
22:13
Speaker A
A segunda objeção que costuma surgir é de que a primeira via seria desnecessária, porque, segundo a ciência moderna, todos os movimentos e mudanças podem ser explicados por causas físicas.
22:23
Speaker A
A partir disso, os críticos afirmam que se uma pedra cai, não precisamos invocar um motor metafísico, ela simplesmente responde à gravidade.
22:34
Speaker A
E de fato, do ponto de vista da física experimental, essas descrições são suficientes para prever e compreender o comportamento dos corpos.
22:42
Speaker A
No entanto, como vimos anteriormente, o argumento de Tomás não precisa de uma explicação específica de como ocorre cada movimento, pois seu argumento é metafísico.
22:51
Speaker A
Ele se baseia no questionamento do por que que cada movimento ou mudança seja possível.
23:00
Speaker A
E como ele expõe na Suma Contra os Gentios, afirmar que todo movimento requer um agente que atualiza a potência não é negar que as forças naturais existem.
23:11
Speaker A
Mas reconhecer que essas forças e leis físicas não se explicam por si mesmas.
23:17
Speaker A
Então, a primeira via questiona as coisas mais ou menos assim: a gravidade funciona, mas por que que ela funciona de forma consistente?
23:24
Speaker A
Por que que existe matéria capaz de responder a ela?
23:29
Speaker A
Por que que o universo sustenta interações de forma ordenada?
23:34
Speaker A
Estes que são os tipos de questionamentos que guiam seu argumento.
23:38
Speaker A
Portanto, a crítica de que não precisamos de um motor metafísico para explicar movimentos físicos falha em compreender a profundidade da metafísica tomista.
23:48
Speaker A
A primeira via não busca substituir a física.
23:52
Speaker A
Ela busca mostrar o que que permitiu que o movimento exista, independentemente das leis que o regem.
24:00
Speaker A
O terceiro ponto levantado, principalmente por Russell e David Hume, é a ideia de que uma cadeia infinita de motores poderia existir sem problema.
24:09
Speaker A
E que Tomás estaria assumindo, sem provas, que isso é impossível.
24:15
Speaker A
Muitos tomistas poderiam retrucar essa explicação com a Navalha de Ockham.
24:22
Speaker A
Pois se aceitamos que toda cadeia de movimento precisa terminar em algum atualizador não atualizado.
24:30
Speaker A
A hipótese mais simples é que haja apenas um.
24:34
Speaker A
Multiplicar motores imóveis seria uma complicação desnecessária.
24:41
Speaker A
Além disso, Tomás diria que a unidade do motor imóvel explica de forma mais elegante a unidade da ordem do universo.
24:50
Speaker A
Contudo, Schmidt contra-ataca mostrando que a Navalha de Ockham pode, na verdade, funcionar contra Tomás.
24:58
Speaker A
Ele distingue dois tipos de simplicidade: a quantitativa, menos entidades, e a categórica, menos tipos diferentes de entidades.
25:06
Speaker A
Tomás reduz a quantidade ao postular apenas um motor imóvel.
25:12
Speaker A
Mas paga o preço de aumentar a complexidade categórica.
25:18
Speaker A
Pois introduz uma entidade radicalmente diferente, sobrenatural e imaterial.
25:25
Speaker A
Já admitir múltiplos atualizadores não atualizados, mas todos dentro da mesma categoria natural.
25:32
Speaker A
Como campos quânticos ou elementos fundamentais da realidade física, preservaria a simplicidade categórica.
25:39
Speaker A
Ou seja, não fica claro que a explicação tomista seja, de fato, a mais simples.
25:47
Speaker A
Por fim, Schmidt levanta ainda o problema da lacuna.
25:50
Speaker A
Mesmo que aceitássemos que existe um atualizador não atualizado, isso não implica que ele seja o Deus do teísmo clássico.
25:59
Speaker A
Tomás responderia que sua análise não para na primeira via.
26:05
Speaker A
E uma vez que o motor imóvel é identificado como ato puro, disso já se segue sua simplicidade absoluta, imaterialidade, unicidade, eternidade e necessidade.
26:14
Speaker A
A partir destes atributos, Tomás desenvolve em outras partes de suas obras como este ser também seria inteligência pura e bondade perfeita.
26:23
Speaker A
Desta forma, para Tomás, o motor imóvel não seria apenas um ponto de partida abstrato, mas que, por uma análise filosófica, é possível o identificar como o próprio Deus do teísmo clássico.
26:31
Speaker A
Ato puro, eterno, necessário, inteligente, pessoal e fundamento último da realidade.
26:39
Speaker A
No entanto, o impasse permanece.
26:42
Speaker A
Será inevitável seguir esse raciocínio até o Deus descrito por Tomás ou já seria possível encerrar a análise antes?
26:49
Speaker A
Tratando o motor imóvel apenas como uma explicação impessoal e inconsciente da realidade.
26:55
Speaker A
No fim das contas.
26:57
Speaker A
Essa discussão revela muito mais do que apenas uma divergência técnica de lógica ou metafísica.
27:06
Speaker A
O debate indireto entre Tomás de Aquino e Joseph Schmidt mostra uma questão interessante da filosofia da religião.
27:13
Speaker A
Até onde a razão pode nos levar na discussão sobre a existência de Deus antes que comece a interpretação pessoal de o que faz mais sentido?
27:21
Speaker A
Comenta aí embaixo que eu quero saber como que vocês interpretam essa questão.
27:26
Speaker A
De qualquer forma.
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Speaker A
Obrigado por assistir.

Frequently Asked Questions

Qual é o argumento mais famoso de Tomás de Aquino para provar a existência de Deus que será abordado no vídeo?

O vídeo abordará o primeiro e mais famoso argumento de Tomás de Aquino para provar a existência de Deus, conhecido como a Via do Movimento. Este argumento é inspirado no Primeiro Motor Imóvel de Aristóteles.

Quais são os três conceitos fundamentais de Aristóteles que Tomás de Aquino utiliza na Via do Movimento?

Os três conceitos fundamentais são Ato, Potência e Movimento. Potência é a capacidade de algo ser ou mudar, Ato é a realização dessa possibilidade, e Movimento é a passagem da potência ao ato.

O que significa 'movimento' no contexto da filosofia de Aristóteles e Tomás de Aquino?

No contexto dessa filosofia, movimento não se refere apenas a deslocamento físico, mas a qualquer atualização de uma possibilidade em realidade. Exemplos incluem o crescimento de uma criança ou a transformação da madeira em cinzas.

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