Grandes Livros: Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco

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Speaker A
Aos 35 anos, Camilo Castelo Branco vive o maior dilema da sua vida. Perseguido pela justiça, hesita entre fugir e entregar-se à prisão. O seu amor proibido com Ana Plácido já pôs a mulher que ama atrás das grades e Camilo sabe que é o próximo. É já conhecido como escritor e está em risco de ser enviado para o exílio. Com medo, tenta escapar à justiça.
00:59
Speaker A
Esconde-se em casas de amigos, de terra em terra, adiando o inevitável. Quando desiste de fugir e se entrega, abre caminho para a grande mudança da sua vida. O ano que passa na cadeia da relação é decisivo. Como se fosse uma questão de vida ou de morte, Camilo Castelo Branco escreve sem parar. Em 15 dias, termina aquilo que será o seu livro mais célebre: O Amor de Perdição chega ao público em 1862 e torna-se um tremendo êxito. Os leitores choram as desventuras do amor puro que se confronta com a tragédia. Vivem como seus os amores trágicos de Simão, Teresa e Mariana.
01:56
Speaker A
Amou, perdeu-se e morreu amando. É a história. História assim poderá ouvi-la a olhos enxutos, a mulher, a criatura mais bem formada das branduras da piedade, a que por vezes traz consigo do céu um reflexo da divina misericórdia. Essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos os infelizes, não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdera a honra, reabilitação, pátria, liberdade, irmãs, mãe, vida, tudo, por amor da primeira mulher que o despertou do seu dormir de inocentes desejos.
03:00
Speaker A
Alguém poderia dizer, não há coincidências. E não há, de facto. Camilo Castelo Branco está preso na cadeia da Relação do Porto por causa de um amor impossível. Para passar o tempo, escreve um romance genial sobre o amor trágico que leva o seu protagonista à cadeia da Relação no Porto.
04:07
Speaker A
De alguma maneira, quando Camilo escolheu o subtítulo de Amor de Perdição, Memórias de uma Família, está a estabelecer uma identificação. Quando abrimos a novela, na introdução, encontramos logo a figura de Simão, através de um registo das cadeias da Relação do Porto, em que Simão aparece com a indicação da sua filiação.
05:14
Speaker B
Nós verificamos que ele, sujeito, eh, narrador que se assume como autor que escreve, eh, aquele texto, eh, e que escreve nas circunstâncias em que um seu antepassado também, eh, eh, enfim, da, da, da, da perseguição, eh, e de, da, da injustiça, e ao, reivindicar o direito ao amor e à paixão e à concretização disso, ele está a defender-se a si próprio.
05:50
Speaker C
Porque ele confessa-se. Aquela narrativa é uma autoconfissão. E é uma autoconfissão de desespero. E qualquer homem, qualquer mulher sente nesse desespero do amor, nesse desespero do desejo, nesse desespero do, do ter e não ter, do sonhar que tem, mas não vai ter, da impossibilidade, da possibilidade de tocar e não tocar.
06:42
Speaker A
Em 1849, num baile de carnaval, Camilo Castelo Branco conhece o amor de uma vida.
06:54
Speaker B
Ana Plácido, inocente de 17 anos, solteira ainda. Camilo apaixona-se nesse momento. Mas de pouco vale. Um ano depois, Ana Plácido casa com Manuel Pinheiro Alves, imigrante que fizera fortuna no Brasil.
07:13
Speaker A
Camilo vai para Lisboa determinado a fazer-se escritor, mas os planos não correm como previsto. Volta ao Porto, muda de vida, ingressa num seminário. A vocação religiosa também falha. Fica no Porto e regressa à escrita. Vai publicando furiosamente. Torna-se conhecido a partir de 1856 com a edição de Onde Está a Felicidade?
07:35
Speaker D
Onde está a felicidade? Camilo captou alguns dos ingredientes mais importantes na sociedade portuguesa do século XIX. E particularmente a importância do dinheiro como motor da sociedade. No que estará também alguma presença do endinheiramento introduzido na província portuguesa pelo, pelos brasileiros de torna-viagem.
08:22
Speaker A
Sou o homem mais feliz do mundo. Com a fama, vem finalmente a concretização da paixão. Em 1858, a relação de Camilo e Ana Plácido é comentada da Foz até à Campanhã e torna-se no escândalo preferido das boas famílias.
08:35
Speaker E
Isso é mesmo verdade? Verdade? Sim, essa história da Ana Plácido e do Camilo.
08:41
Speaker A
Eu acho que sim. Eu acho que ela saiu de casa abandonando o marido. Ai, meu Deus. Em dezembro de 1859, o marido enganado leva o caso à justiça.
08:52
Speaker B
Ana Plácido é acusada de crime de adultério e Camilo de copular com mulher casada.
09:00
Speaker A
Ana é presa em junho e Camilo, depois de uma breve fuga, entrega-se a 1 de outubro. É uma novela seguida com avidez pelo povo.
09:10
Speaker C
Toda a gente conhecia o que tinha acontecido com, ah, os amores, ah, difíceis do Camilo com a Ana Plácido. A cidade do Porto, que nessa altura era um meio literário muito forte, muito importante, acompanhou isso, não é? Com, com muita curiosidade, com muito interesse, às vezes de uma forma um pouco doentia até. E, portanto, isso também teria contribuído para o, o sucesso do romance.
10:00
Speaker D
Mas no fim de contas, Camilo tinha uma coisa, quer dizer, extraordinária. Era um, antes de haver publicitários, era um publicitário extraordinário. Ele estava na cadeia por causa de um amor infeliz. Ah, o que é que fez a, a promoção do, do Amor de Perdição? Foi o amor infeliz, foi o facto de a Helena Plácido estar na cadeia naquele momento. O, o Camilo nisso tinha um sentido de oportunidade notável.
10:22
Speaker C
Criou-se em torno do, do julgamento de Camilo Castelo Branco e da Ana Plácido, uma, uma espécie de, de fações, não é? Umas que eram a favor de Camilo, outras que eram a favor de, de Pinheiro Alves. A verdade é que mesmo nos jornais, e mesmo em termos públicos, Pinheiro Alves encarregou-se de fazer alguma publicitação do escândalo, ah, desta relação. A verdade é que Camilo Castelo Branco, ah, acabou por conseguir dar a volta a isto tudo.
10:59
Speaker C
E, e o escrever o Amor de Perdição não é tão inocente assim. Independentemente do aspeto literário da obra, eu creio que provavelmente também há aqui um fator muito forte de tentar convencer os 12 jurados de que ele se perdera por amor. E a melhor forma de convencer os 12 jurados era convencer as 12 mulheres dos 12 jurados. E, e ele conseguiria isso através de uma obra como, como foi o Amor de Perdição.
11:46
Speaker A
Escreveu o romance em 15 dias, os mais atormentados da minha vida. Tão horrorizados tenho deles memória que nunca mais abrirei o Amor de Perdição, nem passarei a lima sobre os defeitos em edições futuras. Em 1861, ah, Camilo está realmente, ah, entrar no auge da maturidade e, ah, Amor de Perdição, ah, foi, ah, desde o momento da sua publicação, uma obra reconhecida como uma grande novela.
12:39
Speaker A
Penso que na construção das personagens, ah, na, ah, verosimilhança que, de facto, o Camilo conseguiu, ah, num realismo que não é de escola, mas que, ah, surge nas falas, ah, na apresentação, na mímica, na apresentação das personagens, ah, está, possivelmente, uma das chaves do êxito desta obra. O desenlace é, ah, extremamente conseguido, ah, é, de facto, uma obra prima camiliana.
13:22
Speaker B
O Amor de Perdição é uma obra magnífica, mas é também uma obra de emoções muito, muito fortes. E, portanto, mesmo pessoas que não tinham grande preparação ou instrução para poder apreciar a qualidade literária do texto, aderiam apaixonadamente àquelas personagens, àquele enredo.
13:42
Speaker B
Liam na esperança que as coisas se resolvessem, que afinal o desfecho não fosse tão trágico. O ritmo da história, o desenho das personagens, tão nítido, aqueles que o Camilo construiu para que nós os amássemos e aqueles que construiu para que os odiássemos.

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