A ELITE DOS RELATOS: Os 10 contos mais bem escritos de … — Transcript

Top 10 contos originais de terror de 2025 selecionados por Karol Kaepstick, destacando criatividade e qualidade literária.

Key Takeaways

  • A originalidade é valorizada acima de adaptações ou histórias baseadas em outras mídias.
  • O gênero terror está em crescimento, com autores cada vez mais criativos e produzindo conteúdo de alta qualidade.
  • O vídeo serve como uma curadoria e incentivo para escritores amadores e profissionais.
  • Histórias de terror podem abordar temas sociais relevantes, como padrões de beleza e saúde mental.
  • A interação direta com o público e o formato de maratonas são estratégias para engajamento no canal.

Summary

  • Karol Kaepstick apresenta o top 10 melhores contos de terror de 2025 no quadro Terror e Make.
  • O foco é em histórias originais, sem base em creepypastas, lendas urbanas, crimes reais ou filmes.
  • O vídeo destaca a criatividade crescente dos autores e o aumento do número de episódios em relação aos anos anteriores.
  • As histórias são apresentadas em ordem cronológica de postagem, sem comentários entre elas.
  • O primeiro conto apresentado é 'A Metamorfose de Jennifer', que aborda temas como beleza, superficialidade e transformação.
  • A narrativa do conto explora a obsessão pela aparência perfeita e as consequências de uma picada de aranha que desencadeia uma reação física e psicológica.
  • O conto mistura elementos de horror corporal com críticas sociais sobre padrões estéticos e comportamento humano.
  • Karol menciona a intenção de realizar mais maratonas de terror no canal, incentivando a produção de conteúdo original.
  • O vídeo é uma celebração da originalidade e da qualidade da escrita no gênero terror em 2025.
  • O tom do vídeo é informal e próximo, com Karol interagindo diretamente com o público.

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Speaker A
Acho. Oi, pessoas, aqui é Carol. Sejam bem-vindos ao Top 10 melhores histórias de terror de 2025. Esse ano foi extra difícil escolher as histórias porque, além de vocês estarem se superando, escrevendo coisas cada vez melhores, também tivemos mais episódios que nos
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Speaker A
outros anos. Sinceramente, eu não me arrependo. Eu pretendo fazer, inclusive, mais maratonas de sete dias de terror aqui no canal no futuro. E vocês estão ficando cada vez mais criativos, porque olha só, pelo que eu vi, esse ano eu só
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Speaker A
li uma creepypasta e uma história baseada em filme. O resto foram todas histórias originais. Então, eu escolhi 10 histórias que eu amei, que foram contadas esse ano aqui no quadro Terror e Make. Vamos relembrar os requisitos.
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Speaker A
Não pode ser creepypasta ou lenda urbana e nem pode ser baseada em outras histórias, crimes reais, filmes e coisas assim. São apenas histórias originais que saíram de dentro da cabeça de quem escreveu. Coisas que as pessoas criaram
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Speaker A
usando apenas a imaginação e a boa escrita. As histórias vão aparecer aqui apenas em ordem cronológica do que foi postado, tá? E sem comentário entre uma e outra. É isso. Vamos começar. Então, A Metamorfose de Jennifer. Muito se diz
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Speaker A
sobre a aparência, que ela é de acordo com os olhos daqueles que a veem.
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Speaker A
Sinceramente, essa conversa não passa de balela para pessoas feias se sentirem melhor, ao invés de motivo de pena. A beleza é o centro da nossa existência. É o que traz glamour, dinheiro e amor.
01:26
Speaker A
Ninguém gosta de pessoas feias, gente que tem pele cheia de acne ou um cabelo no mínimo apresentável. Você pensa mesmo que as músicas de cinema chegaram onde estão só por causa do talento e personalidade? Você acha mesmo que My
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Speaker A
Mor virou estrela de cinema apenas por sua atuação? Pessoas gostam de beleza, de cabelos lisos e sedosos e corpos magros. Pessoas feias só são reconhecidas por um traço que as torna ainda mais abomináveis. A perfeição sempre foi o centro da minha existência.
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Speaker A
Tudo que me proponho a fazer tem que ser bem feito. E com a minha aparência não podia ser diferente. Mesmo sendo dona de uma beleza admirável desde criança, o que me rendeu algumas premiações em concursos de beleza infantis, não pensei
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Speaker A
duas vezes ao afinar meu nariz e seguir as dietas à risca, assim como correr todos os dias no parque em frente ao meu condomínio todas as manhãs. Além da academia, que é o meu santuário, os meus esforços me proporcionaram um corpo
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Speaker A
perfeito, isto é, magro, sem curvas, sem estrias. Assim que mais um dia começou, levantei da cama e olhei as horas do meu celular. Era 5:30 e o sol começava a surgir no horizonte. Preparei o café que a nutricionista havia me passado na nova
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Speaker A
dieta e troquei de roupa, colocando minha calça e regata de corrida. Fiz alguns exercícios de alongamento e saí de casa às 6:25. Encontrei as mesmas barangas de sempre na pista de corrida, como se seus esforços fossem valer para
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Speaker A
alguma coisa. Quanto mais o tempo passava, mais seus corpos ficavam gordos e flácidos. Quando uma delas passou por mim e me cumprimentou, tratei logo de virar a cara e aumentar a música nos meus fones de ouvido. Deus me livre elas
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Speaker A
pensarem que sou uma delas. Estava na minha terceira volta quando senti uma fisgada extremamente forte no meu tornozelo direito, o que me fez parar na hora. Ao levantar a barra da minha calça, encontrei uma aranha pequenina de cor avermelhada e cheia de pelinhos. Bati a
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Speaker A
minha mão com força nela e a esmaguei contra minha pele. Senti um misto de nojo e ardência no local, porém continuei com a minha corrida. Não podia deixar a no idiota acabar com a minha perda de calorias. A volta para casa foi
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Speaker A
tranquila, porém ao tirar o meu tênis, percebi que o lugar onde havia sido picada estava vermelho e começava a inchar. Tomei um banho e coloquei uma bolsa de gelo no lugar antes de terminar de me preparar para o trabalho. Tirei
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Speaker A
algumas fotos no espelho do elevador, pensei em postar todas, já que eu estava linda de qualquer ângulo, porém tive que fazer o sacrifício de escolher apenas uma. Atualizei as minhas redes sociais enquanto estava no táxi e dei a mei na
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Speaker A
publicação sobre suicídio e baixa autoestima de uma psicóloga famosa, mas não consegui segurar a risada ao ver uma ex-amiga de faculdade, Susana, e uma foto ridícula na praia. Como ela tinha coragem de postar uma foto de biquíni com um corpo desses? Simplesmente
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Speaker A
horrorosa. Eu sou modelo de uma agência conceitual de Belo Horizonte e, diga-se de passagem, no meu tempo por lá era mais requisitada. Estava tirando algumas fotos para uma capa de revista extremamente famosa no Brasil, quando comecei a sentir fisgadas fortes no
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Speaker A
local da picada, acompanhadas por uma onda de coceira. Tive que ir ao banheiro diversas vezes para coçar o bendito caroço. Na academia foi pior, nem mesmo consegui terminar o meu circuito de exercícios. Tive que passar em uma farmácia na volta para casa. E o
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Speaker A
farmacêutico deu uma olhada na picada e disse que não passava de uma reação alérgica. Acabou me receitando um antialérgico e uma pomada, orientando-me a procurar um médico caso os sintomas não passassem. Tomei banho e tomei logo dois comprimidos antialérgicos e passei
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Speaker A
a pomada no caroço, que do centro saía uma espécie de água transparente. Tentei jantar, mas me senti enjoada com o tofu da minha salada. Acabei indo dormir mais cedo, pensando que o dia seguinte poderia ser melhor. Porém, as poucas
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Speaker A
horas de sono que tive foram tomadas por imagens terríveis, de insetos gigantescos e terrivelmente mutilados, de carne apodrecida de animais e desconhecidos. Sonhei que mastigava a cabeça da mesma ex-amiga da foto mais cedo e me deliciava com os pedaços do
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Speaker A
seu corpo mutilado. Acordei de madrugada suando frio e vomitei no tapete do quarto tudo que havia comido no dia. O resto da noite fiquei limpando meu quarto enquanto meu tornozelo não parava de coçar. Quando terminei, do lado de
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Speaker A
fora estava claro novamente. Pensei em sair correr, porém senti-me extremamente cansada e deprimida. Tentei comer alguma coisa, porém a salada de fruta que fiz me causou nojo. Acabei jogando tudo fora e me arrumei para sair. Tentei de tudo
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Speaker A
para fazer o meu dia produtivo e me enchi de atividades para tentar esquecer a coceira insistente desgraçada. E mesmo com os meus esforços, em alguns momentos de fraqueza, terminava no banheiro coçando e coçando, passando as minhas unhas sobre o maldito caroço. No almoço,
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Speaker A
acabei comendo um bife mal passado no restaurante que tinha o hábito de ir todos os dias. O garçom olhou em minha direção com uma expressão de interrogação e estranheza quando colocou o prato na minha frente. Eu sou vegetariana, sabe? Pelo bem dos animais,
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Speaker A
blá blá blá, assim como as grandes influências digitais pelo mundo afora, mas não conseguia pensar em outra coisa do que em carne. Precisava sentir o gosto metálico e adocicado de sangue no meu paladar, mas o tempero atrapalhou e acabei matando apenas 1/3 do meu desejo.
06:20
Speaker A
Ainda estava com fome e sede, uma terrível sede. Ao chegar em casa, joguei as sapatilhas que usava longe e me joguei no sofá, apanhando meu pé no lugar vazio ao meu lado. O caroço havia multiplicado de tamanho. Agora tomava
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Speaker A
conta de boa parte do meu tornozelo. Estava extremamente vermelho e cheio de pus. Pensei em procurar um médico, porém tive receio de ter que tomar medicamentos e eles de alguma forma alterar minha dieta. Só de pensar na possibilidade de ganhar peso, meu
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Speaker A
estômago rodopiava e o farmacêutico estava certo. Era apenas uma alergia, só precisava passar a pomada e tomar um antialérgico. Vai passar logo. Logo estarei em Paris. Não parava de repetir para mim mesma enquanto exprimia aquela coisa. Era só uma reação alérgica
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Speaker A
causada por uma aranha idiota. Tudo que precisava fazer era espremer e passar remédio por cima. Apertei o caroço com força, de onde começou a sair o líquido amarelado e de cheiro forte. O pus escorreu por meu tornozelo e começou a
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Speaker A
derramar sobre a almofada. Mesmo sentindo uma dor beirando insuportável, continuei apertando e apertando até o amarelo ser tomado por vermelho escuro e que
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Speaker A
de suco de cereja com morango. Mas à medida que esfregava minha mão no caroço e lambia o sangue meus dedos, meu paladar foi tomado por um gosto azedo, enferrujado, extremamente forte, o gosto que imaginava ter a cança de um animal
07:41
Speaker A
morto. Acabei correndo pro banheiro e vomitei até desmaiar no chão. Acordei, porém não consegui abrir meus olhos.
07:47
Speaker A
Eles estavam pregados por algo pegajoso e frio. Sentei em pânico e tentei tirar aquilo do meu rosto com as mãos, mas todos os meus esforços foram em vão.
07:56
Speaker A
Quanto mais tentava tirar, mais aquela coisa parecia sair dos meus olhos. Tatii minhas mãos pelo ar até encontrar a pia e com cuidado para não cair, me coloquei de pé e liguei a torneira. Lavei o meu rosto pelo que pareceu uma eternidade,
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Speaker A
passando água e um pouco de sabonete que normalmente usava para as mãos. Quando finalmente consegui ter minha visão de volta, fixei o olhar no espelho e fiquei horrorizada no que encontrei. Verrugas marrons pequenas espalhadas em torno dos meus olhos e por ela saiu líquido
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Speaker A
esquisito. Mas não acabou por aí. Os meus olhos maravilhosos e chamativos olhos azuis agora possuíam manchas marrons como se estivesse mudando de cor. Horrorizada, dei um passo para trás, como se afastar do espelho fosse mudar minha aparência, e corri pro meu
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Speaker A
quarto, onde escondi-me em meus cobertores como uma covarde. O que estava acontecendo comigo? Chorei até dormir. Acordei no que parecia ser de tarde. Meus olhos não estavam doendo e a coceira irritante do meu tornozelo havia parado. Por alguns minutos, imaginei que
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Speaker A
tudo não havia passado de um pesadelo. Contudo, ao afastar o cobertor do meu corpo, entrei em desespero. Estava crescendo nas minhas pernas uma pelugem avermelhada. fina e ao mesmo tempo firme. Sempre tomei bastante cuidado com pelos, pois para mim são sinônimos de
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Speaker A
desleixo e ver todos aqueles pelos tomando conta, não só da minha perna, mas como do restante do meu corpo, me fez surtar. Peguei meu celular e liguei os prantos pra emergência. Porém, a telefonista não acreditou na minha história e acabou desligando na minha
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Speaker A
cara. Então, liguei pra minha mãe, contei tudo que estava ocorrendo e mesmo achando tudo muito esquisito, ela prometeu que até o final do dia iria me visitar. Ela estava no trabalho e não conseguia sair. Eu teria que aguentar
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Speaker A
até às 7, no máximo às 8 da noite. Quando mamãe chegasse, tudo ficaria bem.
09:39
Speaker A
Ela sempre sabe o que fazer. Levantei meio cambaliante. Estava hora sem comer nada e meu estômago parecia estar começando a me sugar de fora para dentro. Tentei comer uma torrada com café, mas acabei vomitando tudo. Nem mesmo água parecia se segurar dentro de
09:54
Speaker A
mim. Experimentei uma maçã e ela teve o mesmo fim dos outros alimentos no vaso.
09:58
Speaker A
Senti uma tremenda repulsa de tudo que estava em minha cozinha, até mesmo dos bombons que havia comprado em momento de fraqueza e que depois escondi no fundo da minha geladeira como forma de evitar uma bomba calórica. Não consegui nem
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Speaker A
mesmo encostar um na língua sem sentir uma onda de enjoo. Uma fisgada forte e dolorida no meu estômago me fez curvar de dor. Estava faminta e desesperada.
10:19
Speaker A
Comecei a chorar e me questionar mais uma vez o motivo disso tudo está acontecendo comigo. Será que era uma praga? Uma maldição por ser simplesmente melhor do que os outros? Um castigo de Deus, ou seja lá o que existe nessa
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Speaker A
merda de universo? A minha cabeça estava girando, o meu estômago roncava sem parar e a dor Deus como estava me matando, como se tivesse me corroendo por dentro. Em meio da minha agonia, ouvi um som seco vindo da varanda do meu
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Speaker A
apartamento, como se algo tivesse acabado de pousar no chão. Minha memória demorou alguns segundos para associar aquele som ao dono e quando finalmente eu fiz, minha boca começou a salivar quase que imediatamente.
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Speaker A
O gato, o vizinho ao lado tinha um gato cinza tigrado e o maldito não parava de sujar minha varanda. já havia reclamado várias vezes com o dono do bichano, um homem de meia idade, arrogante e asqueroso. Porém, todas as minhas
11:07
Speaker A
tentativas foram em vão. Ele se recusava a ter lá sua varanda e ainda por cima colocava toda sua responsabilidade sobre as minhas costas. Nunca consegui pegar aquele bicho no ato, mas parecia que o universo estava sorrindo para mim pela
11:19
Speaker A
primeira vez na minha maldita existência. Aproximei da porta da varanda sorreteiramente, controlando até mesmo a minha respiração. Sei muito bem como os gatos são ariscos e qualquer movimento brusco poderia colocar tudo a perder. Era estranho como eu conseguia
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Speaker A
sentir o cheiro do seu pelo, sua respiração e até mesmo o som das suas unhas batendo contra a cerâmica. Até mesmo o som do seu coração pequenino na caixa torácica. Não conseguia pensar mais como antes. Estava sendo movida
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Speaker A
apenas pelo desejo e uma fome animalesca e nunca antes sentida. Não sei como, mas em um pescar de olhos. estava dentro do apartamento e em outro afundava minhas mãos nos pelos macios do gato. O bichano grunhiu e debateu-se em minhas mãos. Me
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Speaker A
ando desesperado enquanto levava para dentro. Com uma força até então desconhecida por mim, apertei o pescoço do bichano e em questão de segundos ele parou de se mexer. Sem pensar duas vezes, comecei a rasgá-lo e comer sua carne, seus órgãos internos e ruer os
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Speaker A
seus ossos pequeninos. No final, tudo que restou foi um bolo de pele e pelo. A sensação de saciedade durou poucos minutos e quando ela se foi, junto com a fome surgiu uma culpa terrível e avaçaladora. Afinal, havia matado e
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Speaker A
devorado um ser inocente em um colapso de loucura e bizarrice. Olhei pras minhas mãos sujas de sangue e caí em lágrimas. Como iria conviver com isso?
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Speaker A
Quantas calorias havia ganhado com esse banquete maldito? Desliguei as luzes do apartamento, a claridade estava incomodando os meus olhos e sentei-me no chão do banheiro. Pequenos sons começaram a ganhar minha audição com mais clareza, como do motor da minha
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Speaker A
geladeira até os passos dos vizinhos dos outros andares e das pessoas da rua. Conseguia ouvir respirações, senti as batidas de seus corações e sangue fresco, quente, passando por suas veias.
13:02
Speaker A
Farejei o ar à procura daquilo, então uma dor terrível aposou do meu maxilar, fazendo com que deitasse no chão e gritasse de dor. A pele do meu rosto foi rasgada, os ossos partindo e tomando uma forma desconhecida. Coloquei minhas mãos
13:15
Speaker A
no rosto, sentindo minha boca se partir em duas partes iguais. Sangue escuro e espesso jorrou por toda parte, enquanto as partes ficavam rígidas e mais grossas. As verrugas marrons do meu rosto duplicaram de tamanho e delas surgiram olhos escuros e capazes. Não
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Speaker A
consegui segurar um grito de dor quando os dedos das minhas mãos e pés começaram a se retorcer como gravetos enquanto minhas unhas caíram, dando lugar a garras afiadas. Os meus ossos se quebraram e reconstruíram-se, e acabei ganhando o dobro do meu tamanho
13:44
Speaker A
original. Quando tudo terminou, não sentia mais nada. A dor, a coceira e pensamentos desconexos, tudo se foi como espuma no mar. Pela primeira vez na minha vida, a minha aparência e o meu peso não eram mais um problema. Agora
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Speaker A
tinha um propósito. Isso inclui acabar com a fome que ainda me rondava. Batidas na porta, acompanhadas pela voz preocupada do síndico do prédio, chamaram minha atenção. Posso sentir as ondas sonoras e seus batimentos cardíacos. Fui pra sala de estar e me
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Speaker A
escondi atrás do sofá, camuflando-me em minha escuridão. Ele bateu na porta mais algumas vezes e depois que não teve retorno, a destrancou. O síndico tem acesso às chaves extras de todos os apartamentos do prédio para casa de emergência. Ele entrou. Era um homem de
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Speaker A
meia idade. Aparentava ter 1,80 m e corpo lento. Podia vê-lo perfeitamente, mesmo em meia escuridão. Jennifer chamou enquanto tentava acender a luz. Os vizinhos ouviram gritos. Está tudo bem?
14:39
Speaker A
Depois de alguns segundos, o síndico pegou o celular no bolso da sua calça e ligou, caminhando calmamente pelo corredor, tentando ouvir alguma coisa.
14:46
Speaker A
Sorrete me esguierei para fora do meu escondere e continuei a observá-lo. Podia ouvir cada batimento do seu coração, o sangue bombeando e sendo enviado para suas veias. Minha boca encheu de saliva. Sentia com perfeição o gosto do sangue dele na minha boca. Ele
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Speaker A
entrou no meu quarto e ficou no máximo um minuto nele. Quando saiu, já carregava consigo uma expressão de preocupação. Era um homem bom, mas seria melhor ainda na minha barriga. Jennifer chamou novamente, parando em frente ao banheiro. A porta estava entreaberta,
15:15
Speaker A
terminou de ser empurrada por ele, que ao mirar a luz no interior do cômodo pareceu horrorizado. Sabia bem o cenário que estava vendo. Toda aquela sujeira de sangue e resíduos corporais esquisitos.
15:25
Speaker A
Com misto de horror e repulsa, ele virou pro corredor novamente, com o intuito de sair do apartamento. Porém, a luz da lanterna mirou em mim. Senhor, sua face foi tomada pelo mais puro terror enquanto dava alguns passos para trás,
15:38
Speaker A
como se isso fosse o suficiente para salvá-lo. Pálido como se tivesse acabado de ver o próprio diabo, o síndico virou-se e correu pra cozinha. O medo era tanto que ultrapassava os seus pensamentos lógicos, já que ao fazer isso estava entrando ainda mais em meu
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Speaker A
território. Ele tentou ir pra área de serviço, mas não conseguiu nem mesmo chegar na porta. Avancei sobre ele rapidamente e o derrubei no chão, fazendo com que caísse de barriga para cima. Pude ver em seus olhos esverdeados vários sentimentos distintos, como medo,
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Speaker A
desespero e ansiedade. Seus lábios se moveram em lamúria e clamências. Contudo, qualquer resíduo de humanidade em mim se desfez quando rasguei a sua camisa social e afundei minhas unhas em seu peitoral, rasgando a carne até o seu intestino. Ele berrou e debateu-se
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Speaker A
embaixo de mim, mas acabei vomitando meu veneno em sua face, derretendo a carne e os seus olhos. Gradualmente, enquanto mastigava suas víceras e bebia o seu sangue, ele ficou imóvel. Havia finalmente encontrado a paz absoluta. Ao terminar, olhei a figura desfigurada e
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Speaker A
cinzenta no chão da cozinha, saciada e contente. Tirei a blusa do meu pijama e comecei a puxar a seda de dois buracos entre minhas costelas para enrolá-lo.
16:46
Speaker A
Seria de grande utilidade para mais tarde. Enquanto mastigava o resto da cabeça do meu síndico, ouvi passos no corredor e então uma voz masculina e familiar na minha sala de estar. Era o meu vizinho procurando por seu gato.
16:58
Speaker A
Sorri. Agora não precisava mais me preocupar com o jantar. Parasita. Sempre fui uma daquelas meninas doidas para ser mãe. Ficava horas brincando de boneca quando criança. Fazia listas de nome de bebês quando era adolescente. E quando fiquei mais velha decidi fazer cartas pro meu
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Speaker A
futuro filho. Consigo me lembrar exatamente do que sentia enquanto fazia cada carta. A felicidade que eu deixava transparecer por palavras simples feitas com alguma caneta velha e alguns papéis coloridos. A quantidade de amor que eu sentia por alguém que nem sequer
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Speaker A
existia. Sempre quis ter um menino. Não que eu não quisesse ter uma menina. Muito pelo contrário, adoraria ter minha própria garotinha preencher de acessórios, roupas bonitas e perfumes, mas ter meu garotinho era o meu grande desejo. Nas cartas eu falava sobre
17:45
Speaker A
coisas da minha própria infância, sobre as minhas músicas favoritas, sobre como eu me sentia em relação a ele e, principalmente perguntas. Fazia todo tipo de pergunta pro meu bebê. Se fui uma boa mãe, o que fazia ele lembrar de
17:57
Speaker A
mim? Se fiz algumas coisas que sempre quis, etc. Além das cartas, eu também sempre adorei fazer presentinhos feitos à mão. Algumas florzinhas, corações de papel, desenhos e besteiras desse tipo.
18:08
Speaker A
E depois de um tempo, guardei todas em uma pequena caixinha que eu iria dar para meu filho um dia. Carreguei essa caixa comigo por todas as minhas casas.
18:16
Speaker A
Perder ela seria anos perdidos, então nunca quis arriscar isso. Pense só na felicidade que senti quando engravidei.
18:24
Speaker A
Foi num dia qualquer e eu soube. Apenas soube que estava grávida. Comprei alguns testes e chorei de felicidade nos braços do meu marido quando todos deram positivo. Alguns dias depois, fomos ao hospital fazer os exames adequados para ter certeza e logo tivemos a
18:39
Speaker A
confirmação. Sim, eu estava gerando a minha vidinha. Tudo parecia perfeito. Tudo sobre a gravidez me deixava radiante. Os enjoos matinais, os exames constantes, as compras de roupas e brinquedos, os desejos, até mesmo as dores de estar gerando um corpo dentro
18:54
Speaker A
de mim. Tudo parecia perfeito. Depois de alguns meses, finalmente fomos descobrir o sexo. Eu, ansiosa, como sempre, nunca a ideia de ser uma surpresa. Precisava logo saber qual seria o sexo do amor da minha vida. E pra minha grande
19:08
Speaker A
felicidade era um garoto. Nunca estive tão feliz em toda a minha vida. O meu menininho, o garoto que tanto esperei, estava finalmente confirmado para mim.
19:17
Speaker A
Meu garoto logo estaria em meus braços. Todos os dias pareciam melhores. Saíamos para comprar roupas para ele, mais brinquedinhos e, por fim, uma mantinha personalizada com o seu nome, Antônio.
19:29
Speaker A
Assim que vi o nome escrito em verde na manta, que parecia tanto com a minha antiga, senti as lágrimas vindo. Não conseguia me segurar, meu Antônio. O dia do parto foi o mais fora do ideal possível. Ele só devia nascer dois meses
19:42
Speaker A
depois, mas não. Lá estava eu, quase expulsando do meu corpo. Fomos ao hospital às pressas. Fiquei lá 37 horas agonizantes, sofrendo de tudo para conseguir ter meu filho, que parecia não querer de jeito nenhum sair do meu útero. Quando finalmente conseguem tirar
19:58
Speaker A
ele de lá, meus olhos se arregalam. Ele não chorava. Tentavam dar pequenos tapas, trazer para perto de mim, mas nada. Ele simplesmente não chorava. Meu coração ficou pesado no peito enquanto eu implorava para ele chorar. Vamos, Antônio. Mamãe precisa que você chore.
20:14
Speaker A
Vamos. Faça isso por mim. Vamos, meu filho. Você é forte. você consegue. Eu repetia como se fosse quase um mantra, mas nada adiantava. Horas depois, foi decretado. Meu bebê estava morto. Os médicos entraram de forma triste no meu
20:28
Speaker A
quarto, depois de horas examinando o corpinho pequeno e magro que havia saído de mim. Meu desespero transparecia no meu tom de voz. perguntava o que estava acontecendo com ele, se estava bem, onde estava o meu filho. Sinto muito. O
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Speaker A
doutor falou e logo eu entendi o que tinha acontecido. Meu filho não havia aguentado. Eu não consegui cuidar dele, proteger ele. A depressão após a morte dele foi talvez a coisa mais forte que eu já senti. Eu não conseguia me
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Speaker A
levantar. Todos os dias parecia um grande pesadelo de uma hora para outra. Minha família estava constantemente preocupada. Meu marido estava me apoiando, mas nada, nada estava me ajudando. Meu filho havia sido levado de mim depois de tantas noites pensando
21:05
Speaker A
apenas nele, tantos anos o esperando. Nada poderia me ajudar. Apenas um ano depois, percebi que fazia tempos que eu não menstruava, além de muitos enjoos.
21:14
Speaker A
Nunca pensei que estaria grávida. Afinal, eu e meu marido fazíamos as coisas com bem menos frequência. Eu estava em um momento complicado demais para ter qualquer energia. Meus exames mostravam apenas uma coisa: grávida. Eu chorei muito quando eu descobri, não
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Speaker A
porque estava feliz, mas porque estava assustada, com medo de passar pelo mesmo terror que havia passado com o meu primeiro anjo. Todos os dias pareciam piores do que antes, porque agora tudo que me deixava feliz apenas me lembrava
21:41
Speaker A
do meu antigo sonho que tinha acabado. Eu não queria aquele bebê, aquela lembrança de como fui fraca e como não consegui salvar meu próprio filho, meu verdadeiro. Nada conseguia me convencer de que aquilo que crescia dentro de mim
21:52
Speaker A
era realmente uma criança. Parecia um parasita que estava consumindo tudo que era para meu filho ter consumido, tirando-me energia, me fazendo gorda.
22:00
Speaker A
Sempre que eu vomitava, sentia que estava tirando a verdadeira eu de mim. E sempre que aquela coisa se mexia, me sentia agredida. Aquele parasita estava me agredindo. Tudo ficou pro meu marido cuidar. Eu não gostava nem de ir pros
22:13
Speaker A
exames. E no dia de descobrir o sexo, não quis ouvir o que seria. Pouco me importava com o que aquele demônio seria. Só queria ele o mais rápido possível, longe de mim. Mas pro meu desencanto, ele passou os nove longos
22:24
Speaker A
meses dentro de mim, me consumindo, tentando tomar o lugar do meu anjo, que jamais conseguiu aproveitar a vida de verdade. O parto foi rápido pro meu alívio. Em menos de uma hora, aquilo saiu de mim, como um pedaço de sangue. E
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Speaker A
diferente de Antônio, chorava mais que tudo naquele mundo, como se quisesse esfregar em minha cara que ele conseguia. Era uma menina. Meu esposo decidiu chamá-la de Lúcia. Eu aceitei.
22:47
Speaker A
Não me importava o suficiente para ter alguma opinião. Desde o primeiro dia daquela coisa comigo, eu não podia odiar mais. Aquela parasita me deixava sem dormir e nem ao menos aceitava o meu peito, como se tivesse me rejeitando, me
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Speaker A
desprezando. Meu marido tentou me dizer diversas vezes que um bebê nunca pensaria em fazer algo assim, mas eu sabia que aquela coisa apenas queria me magoar, me mostrar que ela estava lá e Antônio não, que ela não precisava de
23:11
Speaker A
mim e que ela não me queria. Quanto mais aquela menina crescia, mais desgosto por ela sentia. Ela era maligna, vomitava em mim, chorava sempre que eu a pegava e quebrava tudo que eu tentava dar para ela. Enquanto com o seu pai, era o maior
23:24
Speaker A
anjo visto na terra, uma garota educada, calma e amorosa, eu havia abraçando meu marido e me olhando de forma maldosa, como se falasse que estava roubando mais de mim. Meu marido a cada dia ficava mais magoado comigo por eu não gostar
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Speaker A
dela, mas não era minha culpa. Eu não precisava gostar de algo que não era meu, nem mesmo uma célula dela era minha. Lúcia é uma ótima criança. Eu não vou aceitar você destratando-a por causa de Antônio", ele gritou para mim uma
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Speaker A
noite depois dela chorar para ele que eu a odiava. Nunca fale o nome do meu filho quando estiver falando desse demônio.
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Speaker A
Ele não merece tal desaforo. Eu grito de volta e ele apenas sai de nosso quarto com olhar decepcionado. Numa tarde sozinha com ela, percebi que não havia em lugar algum e nem ao menos ouvia sua respiração. Por alguns instantes, senti
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Speaker A
um alívio, como se ela estivesse desaparecido, mas sabia que não. Então, logo fui procurá-la. Quando abro a porta de meu escritório, a vejo e logo ao seu lado a caixa com as cartas para Antônio.
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Speaker A
Meus olhos se arregalam quando percebo que do outro lado haviam pedaços de papéis repicados. Sem conseguir pensar nas minhas ações, a agarro pelo braço e arremesso pro outro lado da sala, chorando desesperadamente quando vejo que ela destruiu quase todas as cartas e
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Speaker A
presentes pro meu filho. Pego todas elas em desespero e tento ver se alguma estava intacta, mas não. Ela destruiu tudo que estava na caixa. Me viro para olhá-la e aquele demônio me olhava com um sorriso maligno enquanto segurava o
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Speaker A
braço que havia batido na parede. Nunca havia sentido tamanha raiva por alguém quanto senti naquela hora. Ela sabia o que tinha feito e ela tinha feito apenas para me magoar. Antes que eu pudesse ir lá e matar aquela praga, meu marido
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Speaker A
chega antes que eu perceba. Parado na porta, vendo a cena, ele dá um grito e assim que Lúcia percebe que ele estava lá, começa a chorar incontrolavelmente.
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Speaker A
Ele apega as pressas e começa a me chamar de maluca. E juro que consigo ver um sorriso no meio das lágrimas da menina enquanto o pai dela me xinga.
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Speaker A
Quando ele volta do hospital, me manda embora. Diz que não conseguia mais viver com alguém louca igual a mim. Não, depois de eu quebrar o braço da filha dele. Eu apenas olho para ele enquanto percebo que toda a minha vida havia
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Speaker A
acabado. Enquanto arrumo as minhas coisas, consigo ver pela minha visão periférica a menina parada me observando. E quando vou embora, ela me dá tchau com o braço não quebrado. Me afasto com o meu carro, deixando minha casa com o demônio que a havia
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Speaker A
destruído. Lembranças de uma vida feliz. A arte tem várias formas, várias maneiras de ser feita ou criada. E os artistas são como mágicos. Eles criem a perfeição com coisas do dia a dia. Os pintores usam suas lembranças e passam por uma tela em
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Speaker A
branco. Os cantores usam suas emoções para transmitir essas sensações para nós. E os escritores, há várias maneiras de se achar inspiração para transformar histórias, vivências pessoais, amores compreendidos e até mesmo atrocidades vividas por eles. Hoje, meus caros ouvintes, contarei algumas das histórias
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Speaker A
de um dos mais geniais escritores que já tiveram prazer de pisar nessa terra. Seus contos não eram meras palavras escritas em um papel, mas sim pedaços de sua alma, ou melhor, um pedaço de sua vida, de suas memórias, que não poderiam
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Speaker A
ser faladas abertamente. Então, ele criou um universo para contá-las. Então, vamos começar agora. Sente-se e se acomode. Isso pode demorar um pouco.
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Speaker A
Primeiro conto, lembranças de uma vida feliz. A vida na infância pode ser tão bela e enjoativamente doce. Lembro-me pouco sobre minha infância, pois as lembranças podem se perder na imensidão da nossa mente, no oceano profundo em que vivemos. Mas mesmo me esquecendo de
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Speaker A
algumas memórias, há pequenas coisas que jamais esquecerei. Mesmo com o passar dos anos, levarei essas lembranças até o túmulo frio, onde meu corpo residirá.
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Speaker A
Lembro-me de escalar as imensas árvores perto da minha casa, de nadar no rio Barroso e voltar cheio de lama, correndo da minha mãe para não tomar banho.
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Speaker A
Lembro-me do meu cachorro chamado Void. Sim, parece um nome estranho, mas eu gostava. E lembro-me do meu melhor amigo, o Oliver. Oliver era bastante alto. Seu corpo era magro, tão magro que suas costelas marcavam sua pele sempre que seus pulmões se enchiam de ar. Seus
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Speaker A
braços eram longos, assim como seus dedos. Lembro-me de suas roupas velhas e rasgadas, mas algo que não lembro é do seu rosto. Foi no dia do meu aniversário de 7 anos que nos conhecemos. Eu estava sentada à beira do lago, olhando o sol
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Speaker A
se esconder entre as árvores, quando senti uma mão fria tocar no meu ombro. Ao virar-me para ver quem era, vi pela primeira vez meu melhor amigo. Só hoje percebo quão frias eram suas mãos. Não fiquei muito tempo conversando com ele,
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Speaker A
pois a noite estava chegando e lembro-me de que tinha um medo quase racional do escuro, uma marca da infância que carrego até hoje. Voltei para casa assim que o céu começou a escurecer. Lembro-me do cheiro da sopa de abóbora, da madeira
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Speaker A
úmida, do sorriso no rosto da minha mãe e de ver pela janela Oliver ainda na beira do rio. Seu corpo esguio virado para minha casa. Minha mãe trabalhava muito para manter comida em nossa mesa, por isso sempre saía no começo da tarde
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Speaker A
e chegava no início da noite. Naquela época não tínhamos condições de me matricular em uma escola, então eu ficava sozinho em casa. Bom, não ficava mais sozinho. Agora tinha Oliver me vigiando. Ainda lembro um pouco da nossa primeira aventura. No início da nossa
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Speaker A
ligação. Minha mãe tinha saído cedo pro trabalho naquele dia e eu estava arrumando a casa quando vi uma batida pesada na porta. Sei que minha mãe falava para nunca confiar em estranhos, mas algo dentro de mim me mandava abrir
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Speaker A
a porta e assim fez. Oliver estava de pé na frente da porta e pude notar sua respiração acelerada. Fomos para perto das árvores e lembro-me pouco desse momento. Sempre que tento restaurar essas lembranças, algo me impede. Os fragmentos que ainda restam são de
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Speaker A
Oliver pegando um pássaro em suas mãos e fazendo uma espécie de mágica. O pássaro adormeceu com seu toque, um sono tão pesado que ele caiu no chão. Oliver começou a andar em direção à minha casa.
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Speaker A
Eu o segui. Posso lembrar claramente da nossa volta para casa, do caminho barroso que seguimos, de como Oliver, mesmo sendo alto, sempre andava devagar, da maneira como eu não parava de falar e de como Oliver nunca dizia nada. E
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Speaker A
lembro-me do som dos seus ossos instalando a cada passo que ele dava. O som era de como um galho se quebrando.
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Speaker A
Esse som era alto, tão alto quanto ele. Naquela noite, minha mãe me deu um presente de aniversário atrasado. Ainda lembro do sorriso que dei quando ela me entregou um livro de colorir com uma pequena caixa de lápis de cor. Eu não
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Speaker A
sabia ler. Bom, não frequentava a escola e não tinha tido contato com outras crianças. Então, pedi para minha mãe ler o nome do livro, Oliver e seus amigos.
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Speaker A
Foi aí que dei esse nome para ele, Oliver. Os dias passavam calmamente. Nunca consegui me lembrar de todos esses dias, mas sempre me recordava de como Oliver estava presente em todos os momentos. Quando minha mãe aparecia, ele desaparecia sem fazer o típico barulho
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Speaker A
de galhos quebrando. Eu também deixava a janela do meu quarto aberta, porque Oliver gostava de me ver dormir, de me ver calmo e inocente. Um dia ainda muito presente em minha memória foi quando Oliver não apareceu em nenhum momento.
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Speaker A
Eu estava esperando por ele na beira do lago Barroso. No nosso ponto de encontro, eu chorava muito. Ele era meu amigo. Ele me abandonou. Um tempo depois voltei para casa e o vi. Oliver estava na janela do meu quarto, não do lado de
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Speaker A
fora, mas sim dentro da casa. Pude ver suas unhas arrancando lascas de madeira da janela, suas costelas completamente marcadas em sua pele quase translúcida.
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Speaker A
Corri pro meu quarto. Eu queria abraçá-lo. Senti o toque gélido de sua pele na minha, conversar com ele sobre tudo. Mas tão rápido quanto esses pensamentos surgiram, ele já tinha ido embora. Meu quarto estava vazio, sem um pingo de presença, mas algo me deixou
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Speaker A
feliz. O presente que Oliver deixou para mim. Uma pequena sangue suga sobre a janela. Aquele não era o meu primeiro presente. Ele sempre me dava algumas coisas como lembranças dele. Uma pena de pássaro, pele trocada de cobras, sangue
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Speaker A
sugas, aranhas do rio e até mesmo arranhões em meus braços, rochidões em minhas pernas. Minha mãe achava que eram minhas frequentes quedas das árvores.
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Speaker A
Lembro-me de que foi a partir desse momento que minha relação com Oliver começou a crescer. Agora ele estava sempre comigo, mesmo quando minha mãe também estava. Ela parecia não vê-lo, mas eu lembro de vê-lo tocando seus ombros, sua cintura e até mesmo entrando
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Speaker A
no quarto dela. Oliver, eu vivíamos brincando na chuva. Eu sempre ficava todo sujo, mas meu sorriso permanecia no rosto. Oliver, por outro lado, nunca sorria, eu acho. Ele nunca gostava das brincadeiras que eu gostava. Ele preferia ficar no lago, na floresta ou
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Speaker A
no meu quarto. E eu sempre o acompanhava. Lembro vagamente do dia que ele me levou pro meio da floresta novamente. Dessa vez, seus passos estavam rápidos e o som dos galhos quebrando se misturava com os troncos mais altos e distantes. A mão dele fria
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Speaker A
e sem carne tocou meu braço com força. Não consigo lembrar do resto. As memórias se perderam. Após isso, adoeci por alguns dias. Meu corpo estava dolorido. Meus ossos pareciam se partir a cada respiração. E minha pele estava quente, como a chama das velas que
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Speaker A
iluminavam o meu quarto. Lembro de ver Oliver parado na janela, segurando uma sangue suga morta. Minha doença só foi embora quando Oliver me tocou. Suas unhas arranharam minha pele não muito profundamente, mas foi suficiente para fazer o sangue escorrer entre seus
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Speaker A
dedos. As lágrimas desciam pelas minhas bochechas e a doença, como um pesadelo, se foi rapidamente. Em menos de três dias já estava brincando com Oliver novamente. Minha mãe sorria me ver saudável, mas ela nunca soube que Oliver me curou. Pensando bem, talvez ele tenha
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Speaker A
me curado de uma doença que ele mesmo me deu. Era mais um dos seus presentes macabros. Às vezes eu contava paraa minha mãe sobre Oliver, mas acho que ela nunca acreditou em nada que eu disse sobre ele. Todas as noites, quando
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Speaker A
fechava os olhos para dormir, senti o toque dos dedos frios de Oliver nos meus braços. Nunca pedi para ele parar. Acho que tinha medo do que ele faria se eu repreendesse. Com o tempo, minha relação com Oliver começou a esfriar, assim como
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Speaker A
sua pele. Ele não aparecia mais tanto em minha casa. Demorávamos mais para nos encontrar no rio ou na floresta. Ele estava desaparecendo, mas ainda lembro de como ele brincava comigo com intensidade quando aparecia. Às vezes ele me acordava durante a noite e
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Speaker A
apertava meus braços, minhas pernas e minha barriga. Esses apertos doíam muito e eu não podia gritar. Ele não deixava.
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Speaker A
Então as lágrimas faziam o trabalho por mim. Elas escorriam tanto que até hoje meus olhos são inchados. Não consigo me lembrar do que acontecia depois disso.
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Speaker A
Eu queria, mas não conseguia. Com o tempo, Oliver nunca mais apareceu. Lembro de chorar todas as noites de saudade dele, de brincar com ele, até mesmo nas brincadeiras dolorosas que ele fazia. Ele era meu único amigo, eu também ia ficar sozinho novamente.
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Speaker A
Alguns anos depois, nos mudamos para uma cidade grande. Minha vida mudou completamente. Era estranho não poder subir em árvores, não tomar banho no rio todos os dias ou casa vagalumes para iluminar meu quarto. Mas agora eu tinha amigos. Amigos de verdade, mas todas as
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Speaker A
noites quando dormia na minha casa nova sentia muita saudade de Oliver. Ele ainda era o meu amigo. Todas as noites ele estava comigo, mesmo sem falar uma palavra. Passei minha infância e adolescência inteira pensando que Oliver era apenas um amigo imaginário, fruto da
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Speaker A
solidão que vivi na infância. Mas algo dentro de mim não me deixava acreditar que ele fosse apenas fruto da minha imaginação. Ele parecia tão real, mas tudo mudou quando eu completei 18 anos.
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Speaker A
Era meu aniversário de 18 anos e muitos amigos estavam comemorando comigo. Foi quando minha mãe trouxe um convidado especial, Marcos, seu ex-namorado.
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Speaker A
Lembro-me de olhar nos olhos dele e só consegui pensar em uma coisa. Ele era o Oliver, a boneca. A garota nunca conseguiu gostar de verdade daquele objeto, mesmo que tenha sido o último presente de sua avó. Bastava olhar para aquele sorriso
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Speaker A
pintado sob madeira para se sentir encurralada. Ansiosa e se encarasse por muito tempo, podia até sentir suas mãos tremerem. Até tentou algumas vezes se livrar da boneca, mas sempre que estava prestes a fazê-lo, a voz da sua avó
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Speaker A
vinha à tona. Guarde-a com carinho e eu sempre estarei com você. E mesmo assim sua mãe insistia que a lembrança fosse guardada. Quando recebia suas amigas em casa, Olívia fazia questão de esconder o presente dentro do guarda-roupa. Apenas
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Speaker A
algumas delas, as mais aventureiras eusadas, acabavam conseguindo ver as feições em tinta e as articulações da boneca, e todas elas ficavam encantadas, sem sentir nenhum pingo do desconforto de sua dona. Alguns anos se passaram e Olívia, que outra hora era apenas uma
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Speaker A
garotinha, agora havia se tornado uma bela mulher, ousada e independente. Suas mechas de cabelo tingul refletiam muito bem isso. Nessa transição, deixara tudo de sua infância para trás para morar em uma casa na cidade ou quase tudo. Sua
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Speaker A
mãe insistiu muitíssimo para que levasse consigo a tal boneca e não havia argumento nem explicação que a fizesse mudar de ideia. E com isso, logo o objeto estava lá sob a cômoda. O mesmo sorriso, a mesma aparência. Tudo estava
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Speaker A
ali junto com ela, inclusive o medo e os calafrios. Mas como dito antes, Olívia tinha mudado e não conseguia mais viver a sombra de um medo tão irracional.
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Speaker A
Porém, diferente do que acontece naturalmente, a apreensão da garota não cedeu lugar à calmaria, mas sim a raiva.
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Speaker A
Tão devastadora e acumulada que Olívia passou a maltratar a boneca. Afinal, sua avó havia morrido há muito tempo e com toda a certeza não se importaria com o que iria fazer. Nos primeiros dias, apenas xingou o objeto. Ofensas bobas
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Speaker A
era como se ainda não tivesse certeza do que estava fazendo, mas bastou um pouco mais de confiança para que começasse a chutar e jogá-la contra o chão e paredes. Mas até isso só serviu para inflamar ainda mais a raiva da garota,
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Speaker A
porque qualquer brinquedo que fosse tratado assim, até os mais resistentes, apresentaria algum arranhado, mas aquela maldita boneca não. Continuava perfeita, nenhuma lasca sequer. Era hora de pôr um fim naquilo. Algumas pessoas que passavam na rua olhavam com estranheza a
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Speaker A
cena que se desenvolvia naquele quintal, mas agora a garota se sentia satisfeita. Vê aquela boneca ser reduzida a tóas carbonizadas era gratificante. E quanto mais o fogo queimava, mais Olívia se sentia liberta. Ela só saiu de lá quando
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Speaker A
não havia mais nada a ser consumido. Essa seria a primeira vez em tanto tempo que dormiria em paz. Porém, durante a madrugada, uma sensação de nervosismo atrapalhou os sonhos da garota de maneira tão repentina que ela precisou respirar profundamente várias vezes para
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Speaker A
que seus batimentos se acalmassem. "Ela nem está mais aqui", disse para si mesma. Mal terminou a frase quando se ouviu um barulho na casa, um bac no chão queou até os ouvidos de Olívia. Não sabia o porquê, mas isso foi o
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Speaker A
suficiente para que um enorme arrepio percorresse sua espinha. Logo em seguida, outro barulho foi ouvido. Dessa vez mais suave, como um passo, e depois outro e mais outro. Poderia ser alguma coisa boba, um animal sorreteiro, mas isso não acalmava nem um pouco a garota.
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Speaker A
Seu corpo senti o medo cada vez maior. Suas mãos tremiam e seu coração batia tão rápido que quase podia ser ouvido.
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Speaker A
Sob a luz do abajur, ela procurava o que poderia ser, mas a escuridão além da porta de seu quarto não revelava o dono dos passos, que ficavam cada vez mais próximos. Olívia se encolheu na cama, assim como faria uma criança. O barulho
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Speaker A
cessou, mas ela sabia que o que quer que fosse estava ali, a espreita. Podia sentir seu olhar tão ameaçador e cruel.
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Speaker A
Não teve coragem de levantar. Ao invés disso, ligou a lanterna do celular e apontou de uma vez pra porta. Nada. Sua respiração estava pesada. Talvez fosse algo da sua cabeça. Se acalmou com gole d'água. Sempre deixava um copo na
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Speaker A
cômoda. Foi quando sentiu o algo tocar seu rosto frio e suave. Seus dedos se esfregaram no local e ficaram negros.
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Speaker A
Olhou atentamente Fuligem, mas nem Mas nem fazia sentido. De onde veio? Foi quando a imagem de horas antes lhe invadiu a mente, o corpo pequenino da boneca sendo consumido pelo fogo, deixando no lugar apenas carvão. Não poderia ser isso. Olhou para cima com os
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Speaker A
olhos vacilantes e encontrou ali seu assombro, o medo infantil, a boneca que logo caiu em cima da garota manchando tudo de preto. Olívia gritou com todo o seu fôlego por socorro e isso bastou para alertar os vizinhos que chamaram a
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Speaker A
polícia. Mas esse alarde não afastou a boneca ou que restou dela se contorcia raquiticamente e agarrava com força o rosto da garota que só conseguia se debater para tirá-la dali. Foi quando ela falou. A boneca falou sua voz grave
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Speaker A
é como se saía de uma caverna. Você só tinha que me tratar bem. E assim beijou Olívia na bochecha, o que fez ela gritar mais uma vez por socorro. Em um ato de desespero, conseguiu atirá-la contra o chão e correr, ou menos tentar. Algo
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Speaker A
estava errado. Suas pernas não respondiam como deviam. Olhou para elas e viu riscos amadeirados se formando sobre a pele, endurecendo cada movimento. Mesmo assim, continuava se arrastando. Seu corpo não produzia mais o barulho que deveria. Eram apenas baques surdos no chão e barulhos secos
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Speaker A
de articulação. Alguém batia na porta, a polícia, mas nem mais sua boca respondia. Também estava dura. Bateu com a mão ainda boa sobre a bochecha e o som foi perturbador. Madeira não conseguia mais se mexer e gritar por ajuda. Nem
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Speaker A
seus olhos funcionavam mais. Se tornaram feitos de vidro. A última coisa que viu foi a boneca sorrir. Quando os policiais finalmente arrombaram a porta, não encontraram nada. Nenhum sinal de roubo, sangue, nada. Os cômodos pareciam em ordem. No quarto, a mesma coisa. Tudo no
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Speaker A
lugar, cama arrumada, inclusive a boneca de cabelos azulados em cima da cômoda. Mas, estranhamente a dona da casa não estava lá. A maldição da casa Halloween.
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Speaker A
Em uma cidade esquecida pelo tempo, podre por dentro, ergue-se a casa Halloween, um túmulo de tijolos e madeira apodrecida. Os moradores falam dela em murmúrios, temando que a simples menção de seu nome atraia a sua ira.
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Speaker A
Dizem que algo vive lá dentro, algo que sente fome, que aqueles que cruzam seus portões nunca voltam. Mas os que se atrevem olhar para as janelas poerentas vem rostos pálidos e móveis, olhos fundos, negros como buracos no próprio
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Speaker A
tecido da realidade. Os tolos a chamam de lenda, mas naquela noite quatro jovens desafiaram a lenda. Ana, Lucas, Pedro e Júlia, universitários em busca de adrenalina, cruzaram os portões de ferro enferrujados. O vento cortante sussurrava palavras distorcidas ao redor
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Speaker A
deles, como vozes antigas que nunca foram silenciadas. A casa os esperava. Ao empurrarem a porta, um cheiro púrido de carne morta os atingiu. O ar era espesso, pesado, como se estivessem entrando no ventre de um cadáver gigantesco. No saguão, o relógio de
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Speaker A
pêndulo parado às 3 da manhã te limpou sozinho. Então algo raspou as unhas pela parede. Lucas, sempre o estúpido destemido, sugeriu que se separassem.
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Speaker A
Foi um erro. Foi a pior decisão de suas vidas. Júlia subiu os pequenos degraus cobertos de poeira e ossos de pequenos animais quebrados, sem perceber os olhos que se abriam nas paredes, observando cada passo seu. No canto mais sombrio,
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Speaker A
havia um espelho imenso, a moldura enegrecida como carne queimada. Ela viu seu reflexo, mas ele não a seguiu. Seus próprios olhos brilharam com um ódio que não era dela. A boca do reflexo se abriu num sorriso podre, a mandíbula se
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Speaker A
deslocando, estalando, como se algo estivesse tentando sair. Então, mãos esqueléticas emergiram do vidro, movendo-se como aranhas, os dedos longos e deformados estalando ao se dobrar.
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Speaker A
Antes que pudesse correr, as mãos agarraram sua carne, rasgando-a para dentro do espelho. Seu reflexo saiu do lugar, mas não era Júlia. Seu rosto estava ali, mas seus olhos eram negros como óleo, vazios, famintos. Ela virou-se e sorriu. Ana sentiu um frio
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Speaker A
rastejar por sua pele. Cada quadro ao longo do corredor seguiu seus movimentos. As pinturas agora de rostos contorcidos de dor, bocas costuradas com arame enferrujado. Uma porta se abriu sozinha. Dentro algo a esperava. Dentes brilhando na escuridão, mastigando algo
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Speaker A
úmido. A coisa saiu rastejando. Um corpo humano, mas sem pele, um músculo exposto pulsando, os olhos presos apenas por nervos pendurados. Ana! Ana era a voz da mãe dela, mas sua mãe estava morta havia anos. O corredor encolheu, fechando-se
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Speaker A
ao redor dela. Mãos saíram das paredes, dedos longos esqueléticos, unhas quebradas e sujos de carne. Ela gritou.
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Speaker A
A coisa rasgou seu estômago e enfiou as mãos quentes e molhadas dentro dela. Sentiu seu próprio intestino ser puxado para fora enquanto ainda estava viva.
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Speaker A
Pedro encontrou pratos sujos com carne apodrecida ainda mastigada sobre eles. Na pia, dentes humanos em uma poça de sangue escuro. Quando abriu a geladeira, algo caiu de dentro. Era um corpo de criança costurado grosseiramente como uma boneca de retalhos. A boca aberta
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Speaker A
num grito congelado. O cheiro fez vomitar. Atrás dele, alguém ria. Virando-se, encontrou uma mulher esquelética, os ossos quase perfurando a pele esticada, os olhos negros e mortos.
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Speaker A
A boca dela se abriu e não havia fim dentro dela, apenas escuridão infinita e dentes, milhares de dentes. Pedro tentou correr, mas ela o pegou pelo rosto, fincando as unhas em sua pele e arrancando sua mandíbula inteira. Seu
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Speaker A
último sombulhar nojento enquanto o sangue quente espirrava pelo chão. Lucas desceu as escadas. Sou lanterna piscando freneticamente. Havia filas de bonecas de porcelana, todas olhando diretamente para ele. Então elas piscaram, uma delas sorriu. O som de pés descalços correndo
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Speaker A
pelo chão encheu escuridão. Ele tentou subir, mas algo agarrou seu tornozelo. Uma mão fina e pegajosa o puxou para baixo. Então ele viu. A coisa que o segurava não tinha olhos, apenas buracos onde deviam estar. A pele era
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Speaker A
transparente, mostrando veias pulsantes e órgãos se contorcendo como cobras vivas. Lucas, Lucas, ela sussurrava com a voz de sua irmã morta. Antes que pudesse reagir, ela arrancou sua pele inteira num único movimento. Seu grito foi abafado pelo som molhado do sangue
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Speaker A
batendo no chão. Os gritos ecoaram pela casa, mas ninguém estava vivo para correr. A casa se moldou ao redor deles, devorando seus corpos e almas. Quando amanheceu, os moradores souberam que algo estava errado. Foram até a casa Holloway, mas ninguém voltou. Naquela
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Speaker A
noite, quem ousou olhar para as janelas da mansão, viu quatro rostos pálidos, os olhos sem vida, encarando quem passava.
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Speaker A
O relógio de pêndulo quebrado há décadas voltou a se mover, marcando 3 da manhã.
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Speaker A
A casa Holloway estava satisfeita, mas não por muito tempo. Ela sempre quer mais. Rua subiu de gerações. Abre os olhos. O quarto está escuro demais, como se a noite tivesse engolido todas as luzes da rua. Sinto minha garganta seca,
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Speaker A
tão seca, que quase dói. Juntando um pouco de coragem, ligo a lanterna do celular e ando até a cozinha em silêncio absoluto, já que meu terror mesmo seria acordar minha avó de madrugada. Pego um copo de vidro no armário e encho de
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Speaker A
água. Quando o líquido escorre pela minha garganta, sinto um frio em comum. De repente, minha pele está arrepiada e o copo parecia carregar gelo. Engulo em seco com a sensação de que algo está errado, muito errado. Ou estalas de
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Speaker A
madeira como se algo muito pesado andasse sobre chão velho. Ou talvez pareça mais com o som de ossos sendo quebrados. Minha respiração acelera tanto que me sinto tonta. Meus dedos ficam gelados e mesmo com o frio doloroso, uma gota de suor escorre da
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Speaker A
minha testa. Me viro pra porta da cozinha, mas tudo o que há lá é só escuridão e mais breu, porém não sei se pelo medo criando imagens irreais. Vejo dois pares de olhos brancos naquele ponto de escuridão. Eu não sei o que é
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Speaker A
aquilo, mas a única coisa que me separa dele é o balcão no meio da cozinha. Com um pouco de coragem que tenho, coloco o celular no chão e o jogo até o corredor.
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Speaker A
Suspiro de alívio quando flash revela nada. Me sentindo completamente patética. Corro até o celular e o pego novamente. Sorrio para mim mesma por ter deixado minha imaginação me enganar assim. É então que eu ouço com a subir o
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Speaker A
fino prolongado que corta o silêncio como uma lâmina. Meu corpo reage antes de mim. Sinto os pelos do meu braço se arrepiando, a garganta seca, um arrepio correndo pela espinha. Respirar se tornou insuportável. É como se o ar
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Speaker A
trouxesse pequenos pedaços de vidro e o cheiro, algo que cheira podre e cítrico. É indescritível. Logo em seguida, uma música começa a tocar. Não sei de onde vem. Parece sair de um rádio velho, esquecido em um canto, com chiados e
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Speaker A
vozes arrastadas. O som é tão estranho que dói ouvir, como se fosse feito para enlouquecer. Me viro devagar e ele está lá. A criatura. A cabeça de crânio de bode, os enormes chifres quase arranhando o teto. Da boca escorre um
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Speaker A
líquido espesso escuro que pinga no chão com um estalo molhado, os dentes longos, afiados demais para caber dentro daquela boca. Ele é alto demais, magro demais, coberto de pelos desgrenhados, as pernas de gado. O pior é vê-lo se curvar para
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Speaker A
atravessar a porta da cozinha pro corredor, como se o espaço humano fosse pequeno demais para conter aquilo. Quero gritar, mas minha voz morre dentro da garganta. Fecho os olhos com força.
47:50
Speaker A
Quando os abro, estou acordada. Estou no carro. Minha avó sentada no banco do passageiro e minha mãe dirigindo. Isso mesmo. Eu estava indo visitar o vovô.
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Speaker A
Foi só um sonho. Tá tudo bem, querida. A voz calma da minha mãe me traz de volta à terra. Está pálida? Tudo bem, mãe. Só tive um pesadelo ruim. Ela desvia do volante e passa a mão pelos meus
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Speaker A
cabelos. Me permito relaxar agora. Longos minutos se passaram e eu continuo olhando pela janela entediada até que algo me chama atenção. Um pouco mais à frente, na estrada de chão, cercada por uma densa floresta, algo pendurado.
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Speaker A
Quando o carro finalmente chega perto, meu corpo congela mais uma vez. No meio das árvores, eu mesma enforcada, o rosto inchado, a língua roxa, os olhos esbugalhados. Meu corpo balança no ar como um boneco podre. Mais à frente,
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Speaker A
outra versão de mim e outra e outra, todas penduradas, todas mortas, até que uma delas abre os olhos e sorri. Ela aponta pro carro, então percebo. Como não lembrei disso. Minha mãe está morta faz três semanas. Ela se jogou do sétimo
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Speaker A
andar. Eu vi o corpo dela estourado no concreto. Eu lembro do sangue no chão.
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Speaker A
Sinto o coração parar. Os olhos dela são negros, fundos. Vê saltadas correndo pela pele cinzenta. Os lábios desapareceram. Só dentes afiados aparecem em sorrisos largos. A carne apodrecida escorreem fiapos do rosto delas. Quando tento gritar, elas falam juntas. A voz grave, como se fosse a
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Speaker A
mesma garganta. Abrimos a porta. Agora sua vez. Elas repetem e repetem mais uma vez. As lágrimas são incontroláveis a esse ponto. Aperto meus olhos mais uma vez e quando finalmente abro estou de volta no quarto ofegante. Me levanto,
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Speaker A
vou até a janela. Lá fora está escuro, mas silencioso. Talvez enfim tenha acordado de verdade. Massagei o meu peito dolorido por todo o terror que senti. Tento respirar fundo, me acalmando. Olho pra foto da minha mãe ao lado da cama e sinto uma lágrima pesada
49:50
Speaker A
escorrendo. Desde que ela se foi, desde que eu encontrei com o crânio partido em dois, eu nunca mais estive em paz. Mas o pior é que as coisas que ela dizia agora parecem fazer sentido. Eu realmente sentia que minha mãe tinha ficado louca.
50:03
Speaker A
Ela ficava repetindo o tempo todo algo como: "Ele não me deixa dormir, a música não para". Um dia, antes dela cometer suicídio, sentou comigo numa varanda clara e me abraçou como se fosse a última vez. E realmente era. Minha mãe
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Speaker A
sussurrou no meu ouvido. Vou levá-la para longe. Eu não entendo o que ela quis dizer, mas agora talvez não tenha sido apenas um sonho qualquer. Talvez a minha mãe também tenha visto ele. Minha linha de raciocínio é quebrada quando
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Speaker A
meus pelos ceriçam. O assubio adentro meus ouvidos mais uma vez e eu percebo que nunca acordei. O assubil se alonga arranhando os meus ossos por dentro. Os olhos vermelhos ardem na escuridão e quando piscam sinto que ele já está
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Speaker A
dentro do quarto. Não escuto passos, não escuto portas abrindo, apenas o som viscoso da baba negra pingando no chão.
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Speaker A
Tento correr, mas as minhas pernas não respondem. É como se estivessem presas em areia movediça. O ar fica denso, pesado e o cheiro ferroso, como sangue antigo derramado em ferro quente. Ele se aproxima, a respiração é profunda, como
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Speaker A
um mugido de gado morrendo. Os dentes te lentam uns contra os outros, ansiosos, quando a sua mão esquelética coberta de pelos úmidos me toca, sinto como se milhares de agulhas atravessassem a pele de uma vez. Ele me ergue com facilidade
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Speaker A
e minhas costas estalam. Quero gritar, mas só sai um chiado. Ele abre a boca e deixa a baba escorrer no meu rosto. É quente, espessa, tem o gosto de carne podre misturada com ferrugem. O líquido desliza pela minha boca sem que eu
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Speaker A
consiga fechar os lábios. Quase engasgo. Num segundo, ele enfia os dentes no meu ombro. Ouço o som da carne rasgando, um estalo úmido, um rasgo quente. O sangue jorra e encascata. Esperrando pelo quarto, pingando nas paredes, respingando no teto. Ele mastiga
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Speaker A
devagar, como se saboreasse, e sinto os dentes raspando direto no osso. Eu me debato, mas ele aperta mais forte, então arranca um pedaço inteiro do meu braço com a boca, puxando com violência. O som do músculo se desprendendo ecoa como
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Speaker A
tecido sendo rasgado. Meu grito finalmente explode, mas engolido pela música bizarra que volta a tocar. Agora altíssima, quase enlouquecedora. Ele larga meu corpo só para me ver cair no chão, tremendo, escorregando no próprio sangue. Enquanto tento engatinhar, percebo que meus dedos estão quebrados,
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Speaker A
dobrados para trás. Não tenho mais controle sobre eles. Levanto os olhos e vejo que nas paredes do quarto agora pena inversões de mim mesma, todas mutiladas de formas diferentes, algumas sem olhos, outras abertas do pescoço ao ventre, os órgãos balançando como sinos
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Speaker A
vermelhos. Todas sorriem, todas me encaram. Ele volta a se curvar sobre mim. O crânio de bod range, os chifres quase atravessando o teto. Ele abre a boca e deixa a língua escura deslizar até o meu pescoço. Sinto o calor da
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Speaker A
respiração. Então, com um único movimento, ele crava os dentes na minha garganta. O mundo explode em sangue.
52:54
Speaker A
Tudo escorre, tudo pinga. A música acelera, o assovil grita. Eu tento me agarrar à vida, mas já estou afundando.
53:00
Speaker A
Me vejo de fora, agora, pendurada ao lado das outras, morta, mas sorrindo. E antes que a escuridão me leve, abre os olhos dentro do pesadelo. Mais uma vez, o assubil recomeça para sempre contigo. Eu te conheci e no
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Speaker A
mesmo momento eu sabia que você seria a mulher da minha vida e que para todo sempre seria nós dois. Hoje, ao olhar pro teu corpo frio e pálido ao meu lado, tenho total certeza disso. Há cerca de 5
53:27
Speaker A
meses, estávamos vivendo o nosso amor, felizes e completamente apaixonados, quando vi as mensagens no seu celular conversando com o cara, falando sobre como você pretendia me deixar para ficar com ele. Eu senti meu coração revirar no peito e minha visão escurecer. Parecia
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Speaker A
que a minha alma tinha saído da minha carne e que eu não era mais eu. Sentindo uma fúria enlouquecedora, saí por aí às 2as da madrugada. determinado a fazer você ser minha pelo resto da vida. Eu saí e pensei o ar livre milhares de
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Speaker A
coisas que eu poderia fazer para te tornar minha sem mais preocupações, porque mesmo depois de ser traído, eu não conseguia sentir raiva de ti, apenas um medo de te perder para outro alguém.
54:06
Speaker A
Eu não seria capaz de te ver ser feliz sem mim. Finalmente tomei minha decisão.
54:10
Speaker A
Era o certo se fazer. Entrei em casa com os olhos cheios de lágrimas e avermelhados e com uma mistura de fúria e medo apertando meu peito. Passei na cozinha e peguei uma faca na gaveta.
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Speaker A
Fiquei segurando ali parado na cozinha, me olhando no reflexo da lâmina enquanto chorava desesperadamente. Meu rosto começou a se distorcer. Minha face ficou demoníaca, sem cor, olhos vazios. Saí do transe e entrei no quarto. Você dormia lindamente, tão bela e encantadora. Te
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Speaker A
admirei pela última vez com vida. Eu não poderia deixar ninguém além de mim ter essa visão. Cessei meus pensamentos de que aquilo era errado com a defesa de que a culpa era toda sua. Passei a faca em seu pescoço com a mão pesada e firme.
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Speaker A
Ouvi o som dos tecidos da tua pele se rasgando camada por camada. O sangue jorrô, sujando toda a coxa da cama em minha camisa branca. Você abriu os olhos assustada e com um olhar de desespero.
55:03
Speaker A
As mãos foram de encontro ao pescoço na tentativa falha de estancar o sangue. Você tentou falar algo, mas já era tarde. Sua garganta já havia sido tapada pelo próprio sangue. Agora você vai ser só minha para sempre, meu bem. Foi a
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Speaker A
última coisa que se ouviu naquela madrugada escura e fria. Eu limpei tudo, troquei as roupas de cama, te limpei do sangue, mantive teu corpo deitado na cama para que todas as noites pudéssemos dormir juntos e desfrutar de belos
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Speaker A
sonhos. Eu te abraçava e cuidava de ti. Afinal, tudo que fiz foi para te proteger. Ele não ia te amar tanto quanto eu. Nosso amor ultrapassou as linhas da vida. Coisas simples como tomar café da manhã juntos, mesmo que o
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Speaker A
seu sempre esfrie, conversar contigo, dormir ao teu lado, sem a preocupação de te perder para outro alguém, faziam da minha vida menos sofrida e decadente. Eu achei que a sensação de que eu te teria comigo por toda a eternidade me faria
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Speaker A
sentir finalmente completo. Mas isso não aconteceu. Todas as noites, sem falta às 2as da manhã, eu despertava de um sonho macabro. Eu queimando no inferno enquanto ouvi a sua voz vinda de todos os lados falando: "Você me matou". E o
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Speaker A
mais assustador é que depois de acordar, a voz continuava lá gritando. Eu ainda sentia minha pele queimar no fogo. Eu ainda sentia aquele calafrio percorrer todo o meu corpo. Quando acordei, parecia que minha consciência havia voltado. Aquela mensagem realmente
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Speaker A
existiu? Você realmente tinha a intenção de me deixar? As vozes na minha cabeça começaram a falar todas ao mesmo tempo, gritando dentro da minha alma, quase me deixando surdo. Eu realmente te matei?
56:34
Speaker A
Me torturei procurando as mensagens e não existia mensagem. Eu sonhei, eu criei tudo, nada aquilo aconteceu. As lembranças passaram a se fazer mais presentes. Eu comecei a ver os teus olhos em qualquer lugar. Eu conseguia ouvir a tua voz me chamar. O som da sua
56:48
Speaker A
risada coando pelos cantos. Se passaram 5co meses. Minha casa está lotada de naftalina e incensos. Meu rosto estava fino e deformado. Meu corpo estava magro e minha barba estava grande. Os vizinhos começaram a reclamar do cheiro de carne
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Speaker A
estragada. Eu não sentia cheiro nenhum, apenas o cheiro doce do perfume dela passeando pelo ambiente. Eu ainda conseguia vê-la andando pela casa com seu vestidinho amarelo sorrindo para mim. As lembranças assombravam a minha mente, as vozes sussurravam. Dormia
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Speaker A
havia se tornado uma tortura. Elas falavam todas ao mesmo tempo. A queimação, tua voz. Fui até a polícia e confessei, já que não havia mais o que fazer, minha alma já havia sido condenada a queimar no inferno. Ter meu
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Speaker A
corpo jogado em uma cela não era nada. Ao entrar em minha casa, muitos deles vomitaram com o cheiro e ao ver a cena de minha amada deitada, eles falaram: "Ela está completamente podre". Eu também não entendi. Para mim, ela estava
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Speaker A
perfeitamente bela, como quando estava viva. Fui condenado e levado a uma clínica psiquiátrica. Eu não era louco, eu só queria tê-la só para mim. Eu não era doente. Eu só não arriscaria te perder. Passo boa parte do meu tempo
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Speaker A
aqui relembrando-te da nossa primeira noite de amor, dos passeios no parque, dos teus beijos cheios de carinho. Quase 9 anos depois da minha condenação, estou aqui nesse quarto vazio e sombrio. Sinto que minha voz foi sufocada dentro de
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Speaker A
mim. Sei que não estou sozinho aqui. Algo me chama o tempo todo. O cheiro do teu perfume doce ainda é sentido, mas agora misturado enxofre, naftalina e carne podre. Escrevo essa carta para te dizer que tudo que fiz foi por amor a ti
58:24
Speaker A
e que sinto sua falta. Agora estou prestes a me encontrar contigo. Noite passada, as vozes dos sonhos me disseram que você está ao meu aguardo.
58:33
Speaker A
O necrotério. Desde pequena sempre foi o meu sonho ser enfermeira. Eu me lembro de colocar meus brinquedos em cima do sofá e fingir que eles estavam doentes para eu avaliá-los. Mas as pessoas crescem e os sonhos mudam. Bom, nem
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Speaker A
todos os sonhos, porque assim que eu terminei o ensino médio, logo em seguida ingressei na faculdade de enfermagem.
58:52
Speaker A
Meu curso foi de 6 anos e como na maioria dos cursos tínhamos os estágios.
58:57
Speaker A
Eu morava no interior e nesse interior só tínhamos quatro postos de saúde e um hospital muito precário, nada mais que isso. Eu fazia o curso em outra cidade que ficava 2 horas da minha. Como não era possível fazer estágio na minha
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Speaker A
cidade, resolvi fazer no hospital que ficava uma hora da faculdade. E por serem uma cidade grande, era um hospital com muita demanda. Chegavam muitos pacientes super machucados, alguns com os ossos para fora, outros com queimaduras de segundo grau, outros
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Speaker A
acidentados. Eu nunca senti medo ou agonia nisso, muito pelo contrário, eu gostava de ver e ajudar. E não tinha nada demais em trabalhar no hospital, nada que me assustasse. Eu estava realizando meu sonho, então estava tudo indo bem. Mais uma quinta-feira, mais um
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Speaker A
estágio pra madrugada. Eu e minha turma ficávamos divididos. Sete ficavam na sala de medicamentos com os pacientes que precisavam ser medicados e os outros sete ficavam na sala de intubação. O último a avaliar os dois pacientes restantes ficava responsável por fazer
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Speaker A
as fichas e mandá-las pra sala dos enformeiros formados. E nesse dia eu fui a última. Terminávamos os estágios umas 22:30 por aí. Eu pegava uma carona com meu amigo Benício até o ponto de ônibus, mas por eu ter muitas fichas para fazer,
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Speaker A
ele não pôde me esperar. Então preferi ir no ônibus da 1:30. Terminei minhas fichas, coloquei na sala dos enfermeiros e por lá mesmo resolvi tomar um café antes de ir embora. Fui até a mesa, peguei uma xícara e o telefone tocou.
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Speaker A
Atendi e era recepcionista e disse que tinha acabado de chegar um corpo e foi levado direto pro necrotério. Eu acredito que ela não sabia que eu era estagiária porque ela não falou em tom de pedido. Ela me deu uma ordem, tomei
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Speaker A
meu café e desci. Confesso que achei muito estranho. Geralmente quando um corpo chega, ligamos a luz vermelha do corredor do próprio necrotério. E quando eu ia ao local, percebi que não havia luz alguma ligada, mas ignorei e segui.
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Speaker A
Hoje não era dia de avaliar corpos. Eu já havia feito isso sete vezes, mas já que eu havia atendido aquele telefone, não iria me custar nada só dar uma olhada, já que o corpo iria ficar lá por horas até a próxima equipe de
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Speaker A
enfermeiros chegar. O necrotério era o último lugar do último corredor do hospital. Era muito gelado, mais do que de costume. A energia costumava cair muito lá. Antes de levar qualquer corpo paraa funerária, aqueles que acabavam morrendo no caminho para hospital,
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Speaker A
avaliávamos, colocávamos em um saco preto e mandávamos paraa funerária. Entrei e me deparei com o corpo de uma jovem e de longe percebi que seu pulmão havia sido amassado. Fui até a maca e vi que suas costelas estavam quebradas. Vi
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Speaker A
também que não havia ficha, não tinha o nome dela, não tinha sua idade, não tinha nada. Olhei em volta para ver se tinha caído. Fui até a mesa e nada de ficha, mas segui com o meu roteiro.
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Speaker A
Depois iria ligar pra recepção e perguntar onde estavam os registros dessa moça. Olhei seu peito e haviam pedaços de vidro dentro do oco que tinha sido feito. Seus braços estavam roxos e seus dedos das mãos estavam arrancados.
61:47
Speaker A
Minha dedução foi acidente. Coloquei minhas luvas e virei a cabeça dela com cuidado para olhar se eu vi algum corte.
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Speaker A
Logo em seguida, meu telefone tocou. Eu atendi e virei as costas pro corpo. Não havia barulho algum do outro lado da linha. Era um silêncio total. Perguntei quem estava falando e nada. Esperei um pouco. Perguntei novamente quem estava
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Speaker A
falando e continuou o silêncio múo. Olhei e percebi que era um número desconhecido. Desliguei e me virei pro corpo. E meu corpo gelou. A cabeça da moça estava virada para mim. Estava olhando para mim. Seus olhos estavam arregalados mais que o normal. Eram
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Speaker A
vermelhos, muito vermelhos. Eu queria muito acreditar que talvez coloquei a cabeça dela de malu jeito e acabou virando. Ou talvez eu a tivesse deixado mesmo com a cabeça pro meu lado e não me lembrava. Acreditei nisso e segui como
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Speaker A
de costume. Reparei que ela havia sofrido um corte muito profundo do lado esquerdo da sua cabeça. Resolvi fechar com os pontos. Fui até o armário pegar a agulha em linha e de repente a sensação de ser observada começou e eu estranhei.
62:46
Speaker A
Mexi com sete corpos durante o meu curso, mas nunca me senti observada. Então, me virando pra maca, mais uma vez a moça estava me olhando, porém dessa vez sua boca estava aberta e sangue começou a jorrar dela. Deixei a agulha e
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Speaker A
a linha caírem. Isso nunca me havia acontecido. Fui correndo até ela e virei sua cabeça para cima, na esperança de que o sangue parasse de descer da sua boca. Fiz pressão com a mão entre os lábios e o sangue parou. Mas olhei pro
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Speaker A
meu jaleco estava sujo de sangue, bastante sujo. Enquanto eu limpava aquele líquido extremamente vermelho dela, eu pensava: "Por que resolvi ver até esse lugar? Porque não só desliguei o telefone e fui pegar minhas coisas para ir embora. Dizem que tudo que está
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Speaker A
ruim não pode piorar. Então piorou. Assim que terminei de limpar ela, a luz do necrotério caiu. Tentei não entrar em nervosismo. Respirei fundo e peguei meu celular do bolso. Liguei a lanterna e fui até o interruptor, mas escutei o
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Speaker A
bisturi cair. Um leve barulho caindo no chão. Resolvi me virar e ela estava lá em pé com suas costelas saindo para fora, seu tórax para dentro, sua boca cuspindo sangue, [música] seus dedos decepados vindo em minha direção. Eu podia gritar, correr, tentar
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Speaker A
jogar tudo que tivesse ao meu alcance nela, mas eu só sabia ficar parada ali e ver ela vindo lentamente em minha direção, vomitando pedaços de ossos do seu peito amassado. Fui andando para trás lentamente, encostei na parede e me
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Speaker A
agai. Coloquei minhas mãos entre os joelhos e só fechei meus olhos. De repente, escutei a porta abrir, mas não ousei levantar a cabeça. Escutei alguém vindo em minha direção e senti uma mão gelada em minha cabeça. Moça, está tudo
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Speaker A
bem? Olhei e vi que era a senhora da limpeza. Pisquei meus olhos e a luz estava acesa. Levantei lentamente, me apoiando na parede. Respirei fundo e perguntei para ela se ela sabia da onde veio aquele corpo, mas escutei algo que
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Speaker A
me fez vomitar logo em seguida. Que corpo, meu bem? O desejo de Amy. Quando Amy tinha 4 anos, eu ensinei a ela o jogo dos cílios. Você sabe qual? Aquele em que você encontra um cílio, fecha os olhos, faz um pedido, respira bem fundo
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Speaker A
e sópra ele é o vento. Se você tiver sorte, eu disse a ela, seu desejo se tornará a realidade. E me considerou por um momento, então disse que era um jogo estúpido. Eu ri e pedi a ela que não
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Speaker A
dissesse novamente a palavra estúpido. Eu lembro de ser grato por ela pensar que Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Fada do Dente eram estúpidos. Isso teria sido um problema. Próximo ao aniversário de 7 anos de Amy, ela ganhou um presente
65:13
Speaker A
especial, um irmãozinho chamado Michael. Amy adorou Michael desde o instante em que o viu. Ela sempre pedia para segurá-lo e nós permitimos assim que tivemos a certeza de que ela seria gentil. Ela foi. Michael adorava sua irmã. E se Don D ou eu não
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Speaker A
conseguíssemos fazer com que ele parasse de chorar, nós o colocávamos nos braços de Amy e ele instantaneamente ficava calmo. Não é necessário dizer que ficamos gratos. Quando Michael tinha um ano, ele desenvolveu uma febre alta.
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Speaker A
Corremos com ele paraa sala de emergência, onde conseguiram baixar a temperatura, porém havia algo de errado.
65:47
Speaker A
Testes revelaram o pior cenário possível, leucemia. Ele tinha de começar o tratamento quanto antes. Nós não contamos a Emy a história completa da doença de seu irmão, mas ela era capaz de perceber que era sério. Eu fiz o meu
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Speaker A
melhor para colocar em meu rosto uma expressão corajosa. Assim, Emy não ficaria tão triste. Funcionou por um tempinho, mas alguns meses depois as emoções dela apanharam. Ela caiu em uma tristeza que nunca havia visto antes em sua jovem vida. Uma noite no jantar, Emy
66:17
Speaker A
começou a chorar. Michael acha que não amo mais ele", ela me informou enquanto as lágrimas desciam em trilhas irregulares pelo seu rosto. "Não era uma pergunta, ela estava certa disso. Eu me senti um péssimo pai. Preso no inferno
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Speaker A
do dia a dia, de lidar com a doença do meu filho, eu negligenciei a ajuda quem me precisava para lidar com os sentimentos que ela tinha sido forçada a lhe dar. Aos 39 anos, eu estava tendo sérios problemas para lidar com tudo
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Speaker A
aquilo. Eu não podia imaginar como era isso para alguém tão jovem quanto Amy. Depois que ela foi pra cama, eu liguei pra D no hospital e nós pensamos em algo que pudesse ajudar. Nós decidimos que ela deveria visitar o irmão para ver que
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Speaker A
os médicos e enfermeiras estavam fazendo o seu melhor para ajudá-la a melhorar. Nós estávamos relutantes em levá-la ao hospital por causa da aparência de Michael. Ele não parecia muito bem. Nós não sabíamos como ela lhe daria com a
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Speaker A
visão de seu irmão entado e ligado a monitores, mas nós sabíamos que muito tempo havia se passado. Era importante para M ver seu irmão. Quando chegamos, ela só foi autorizada a olhar para Michael através do vidro. Pra nossa
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Speaker A
surpresa, ela ficou animada. Ela acenou e falou com ele, mesmo sabendo que ele não poderia ouvi-la, mas ela queria fazer o esforço. Eu a peguei sorrindo pela primeira vez em muito tempo. Eu notei dois cílios na bochecha de Amy,
67:34
Speaker A
esperando adicionar força em seu senso de positividade. E não me importando se ela achava estúpido, eu recolhi os cílios de sua bochecha e coloquei em meu polegar. Então pedi para que ela fizesse um desejo, meio que esperando que ela
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Speaker A
rolasse os olhos e voltasse sua atenção a Michael. Para minha surpresa, ela sorriu novamente, fechou os olhos, pensou por um instante e então soprou o mais forte que podia. Então ela olhou pro irmão e sorriu. Eu não precisava
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Speaker A
perguntar qual havia sido o desejo. Algumas semanas passaram e o estado de Michael melhorou. Foi completamente inesperado e inexplicável. Ele simplesmente começou a ficar melhor, mas o alívio trazido pela melhora foi curto.
68:13
Speaker A
Seu estado se deteriorou logo depois. Era o que D e eu sabíamos que iria acontecer. Mas mesmo assim, mesmo assim não estávamos preparados para aquilo.
68:22
Speaker A
Nosso filho faleceu no dia 3 de maio de 2015. Eu e Don estávamos devastados, obviamente, mas Amy estava inconsolável.
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Speaker A
Quando ela soube da breve melhora do irmão, ela colocou na cabeça que ele continuaria melhorando. Ela se recusava a acreditar que tudo havia mudado para pior. Então, quando nós explicamos que ele havia falecido, tudo que ela fez foi
68:43
Speaker A
gritar. Ela gritou e chorou por dias. Depois de um mês, quando a realidade da vida sem Michael se fez presente e nós três fomos gradualmente retornando para as nossas rotinas habituais, eu fiz de meu objetivo ser mais presente na vida
68:56
Speaker A
de Emy. Eu não era ausente ou sequer distante, mas eu queria ser uma força de positividade na vida da minha filha.
69:03
Speaker A
Depois de tal trauma, era o que ela precisava. Eu me assegurei de que ela estava indo ao psicólogo da escola e agendei uma sessão de terapia familiar pra semana seguinte. Eu estava determinado a evitar que a tragédia familiar deixasse marcas mais profundas
69:16
Speaker A
que o necessário em Amy. Na noite anterior da nossa sessão de terapia, muito depois que eu tinha caído no sono, eu acordei com Emo lado da cama. Eu podia ver ela chorando. Eu perguntei se ela queria dormir conosco na cama pelo
69:28
Speaker A
restante da noite, mas ela não respondeu. No meio de seus soluços, ela estava fazendo um som de sopro. Eu podia sentir a respiração dela no meu peito e rosto. O choro continuava. Você está bem, querida. O choro e os ruídos de
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Speaker A
sopro se intensificaram. Finalmente encontrei o interruptor e liguei a lâmpada. Meu estômago revirou. O rosto de Amxarcado de sangue. Ela me encarou com os olhos arregalados, com uma combinação de terror e ódio. Ela estava com a mão em frente à boca e estava
69:57
Speaker A
soprando. Assim que meus olhos se ajustaram à claridade, eu gritei para acordar D e ela começou a gritar. Nas mãos de Amy viam dois pedaços de pele com pelos erriçados neles. Pânico floresceu no meu peito e eu tive
70:09
Speaker A
dificuldade para respirar. Carne esfarrapada pingava sangue nos olhos de Em enquanto ela soprava em pânico. Ar quente nas pálpebras amputadas na palma de sua mão. Os cílios balançavam no vento úmido. Eu continuei desejando que o Michael voltasse.
70:25
Speaker A
Quatro moedas entre os dedos. A síndrorme do pânico é talvez a única doença capaz de fundir em o mesmo instante a experiência da quase morte e o delírio da mais pura psicose. É como se tendões e sinapses se torcessem ao
70:39
Speaker A
ponto de colapso, vertendo toda a lógica do corpo humano para dentro de um cataclismo invisível, o indecifrável labirinto da mente. E então tudo desaba.
70:48
Speaker A
Um só golpe nominável. Poptações de lacerante sobetes de pele rubra. Gotjos de suários correndo como cera derretida.
70:55
Speaker A
O chão afunda, os pulmões pesam como se fossem de pedra e galhos imaginários começam a brotar e se cutorcer ao redor deles, sufocando, enlaçando, tornando a busca por oxigênio uma luta desesperada, não consensual, de tudo ou nada. Então
71:09
Speaker A
ela surge a escuridão, não apenas ausência de luz, mas um manto magnífico de negritude ofuscante, sem falhas, sem frestas, sem pontos brancos sobre um fundo de veludo, um preto tão profundo que engole o próprio conceito de preto.
71:24
Speaker A
Até que não sobra nada, apenas o mais sereno, absoluto e implacável, nada. É assim que a crise começa e só termina quando mãos, mãos humanas, quentes, reais, seguram seus pulsos e lembram que você não está morrendo.
71:39
Speaker A
Calma, respira, você não está morto. Tudo vai passar. Tudo vai passar. No final é simples. A cura. Se é que existe algo que mereça esse nome, deixe de ser inalcançável e começa a se tornar possível quando um ser humano, apenas
71:54
Speaker A
um, segura você no mundo real e te lembra. A escuridão não é um buraco negro. É uma condenação, não é a morte comprimindo seus pulmões. Ela é só um transe, uma dobra passageira, um momento qualquer entre tantos outros, tão
72:08
Speaker A
irrelevante que ao final do dia se mistura as memórias apagadas como um sonho mal lembrado que escorre pelos dedos. Era isso. Não era uma cura, mas um lembrete, alguém de verdade que garantisse que a escuridão iria se dissipar. E para mim, esse alguém era
72:22
Speaker A
minha avó. No entanto, embora grande parte do quadro de eventos da minha infância e adolescência seja pincelada por preto e respingos de cinza, sinto alívio ao perceber que os traços brancos, esgaçados e regulares frágeis ainda assim foram pintados por ela. Era
72:37
Speaker A
ela quem preenchiu os espaços de luz, ela, minha avó. Mas a vida tem um modo cruel de desbotar até a cor mais viva. E conforme foi amadurecendo agora aos 19 anos, percebo que as certezas da sua presença se tornaram apenas vestígios.
72:52
Speaker A
Pedacinhos de tinta seca que se soltaram da tela com o tempo, rachando entre os vinculos da memória e se desfazendo antes mesmo de eu poder recolher. Talvez parte disso seja porque fui eu quem encontrei morta no meu aniversário de 9
73:04
Speaker A
anos. E agora que penso nisso, a maior parte das minhas lembranças envolvendo minha avó não são as histórias de Niná que me embalavam às noites insônias, não são as torta salgadas sobre a bancada reluzente, nem o cheiro de rosas
73:16
Speaker A
torradas que exalava das roupas tricotadas, muito menos os olhos cor de cé sem nuvens. O que resta, o que mais persiste é aquele dia. Eu corri. Corri pelo bairro, desviando de carros e calçadas quebradas, como se o mundo
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Speaker A
fosse um obstáculo feito para me retardar. Minha avó não tinha aparecido no meu aniversário, 9 anos. E ela era tudo que eu sabia sobre segurança, sobre amor e sobre calor humano. Quando cheguei à casa dela, a porta estava
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Speaker A
entreaberta. O ar frio entrou antes de mim, carregando cheiro metálico que eu ainda não sabia nomear. O chão do corredor estava manchado, vermelho escuro, espesso, grudando nos meus sapatos. Cada passo fazia instalar algo que não deveria. Então eu a vi. Minha
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Speaker A
avó caída, o corpo orqueado como se o mundo tivesse torcido cada osso dela de propósito. O sangue havia escorrido por toda a cama, saturando os lençóis, tapetes, crochê até as paredes. Um rio de ferro líquido, frio e vivo, como se
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Speaker A
tivesse consciência. Ao lado dela as quatro moedas que eu tanto conhecia, alinhada entre os dedos dela, agora manchadas, deformadas pelo peso do sangue. Eu as reconheci instantaneamente. Elas haviam sido o símbolo do nosso pequeno ritual da calma, do controle. Agora era um
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Speaker A
monumento de morte. Os policiais chegaram logo depois. Um deles tentou colocar limites, falar algo sobre suicídio, mas cada palavra que saía da boca deles soava como mentira. Eu os encarei e em meus olhos de criança só havia revolta. Não foi suicídio, isso
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Speaker A
não é possível. Mas eles se afastaram, frios, oficiais, indiferentes. E foi nesse momento que algo mudou. A pequena Alissa desapareceu. No lugar dela surgiu alguém que jurou se distanciar da morte.
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Speaker A
De toda a escuridão que podia sufocar os pulmões, de toda ansiedade que podia virar veneno, de sangue, de horror, de silêncio cruel, mas não da memória, não das moedas. Alissa, me passa suas natações do último período? Eu dormi a
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Speaker A
aula inteira. Os pensamentos são cortados por uma voz tediosa e feminina. E olha por cima do ombro. É Helena, minha colega de turma do penúltimo semestre de enfermagem, ou melhor, do curso técnico. Minhas mãos pairam sobre os rabiscos feitos com
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Speaker A
caneta azul. O professor está atrás de sua mesa, os olhos deslizando lentamente sobre uma pilha de prova sendo corrigidas. Mas há poucos papéis para analisar, muito menos do que o número verdadeiro de alunos presente na sala.
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Speaker A
Limpo a garganta tentando manter o foco enquanto Elena bate com a ponta da Starl Sento na base da minha cadeira. Passo o caderno e recebo um beijinho rápido de agradecimento. Nem todo mundo entregou a prova ainda? Pergunto com o tom mais
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Speaker A
blazer que consigo. Ela dá de ombros, um gesto pequeno que parece carregar uma relutância que não consegue esconder.
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Speaker A
Sei lá, vai veram. Volta paraa sua posição. Mas o gesto não é totalmente natural. Nada ali é totalmente natural.
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Speaker A
É assim que estamos, todos nós, tentando sobreviver a meses que mais parecem um labirinto sem saída, muitos sem outras perspectivas. A maioria porque, querendo ou não, esse é o curso mais disputado da cidade. As vagas com menos procura eram
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Speaker A
as do turno da noite, mas eu não me importava. Nunca fui entusiasta do universo acadêmico e quando surgiu a chance agarrei com força. Arrastei Helena comigo quase como um gesto de alta preservação. E agora estamos aqui beando às 22 horas da noite, esperando o
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Speaker A
último ônibus no ponto em frente à instituição. Era bom demais para ser real, exceto por aquilo. Havia um aluno na nossa turma, um garoto meio velho, meio novo, meio feio, meio bonito, meio alto, meio baixo, meio nada, meio quase
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Speaker A
tudo. Todos levantavam a mão quando seu nome era lido para marcar a presença, mas seu nome nunca chegava. Eu me perguntava, será que ele existia de fato ou era apenas coisa da minha cabeça? Até que um dia um colega do primeiro
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Speaker A
semestre, um homem mais velho, com barba comprida, bateu na mesa dele e só disse: "Desculpa aí, parceiro". No dia seguinte, o homem foi encontrado em seu apartamento, sufocado, um pedaço da própria perna enfiado na boca, olhos arregalados, boca rasgada. Desde então
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Speaker A
sei que ele existe. Sei que ele é real. Sinto uma dor tremenda nas têmporas e forço os olhos a abrirem e fecharem, girando os calcanhares. Dou de cara com Priscila, linda, ruiva alta, impossível de ignorar. Um sorriso angelical e uma
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Speaker A
mão estendida em minha direção, segurando uma moeda. Aqui, Ali, você deixou cair. Um pequeno objeto metálico pousa na palma da minha mão e um fio de eletricidade percorre meu corpo.
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Speaker A
Agradeço tentando racionalizar. Talvez seja apenas inveja feminina ou um susto passageiro, mas algo naquele rosto perfeito é perfeito demais. Perfeito, perfeito, perfeito demais. Sério, não sei porque guarda essas moedas. Helena, salta da cadeira quando vimos o último sinal passando o braço no meu. Você
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Speaker A
nunca paga o motorista com dinheiro. Se essa técnica de controle de ansiedade fosse testada cientificamente, eu usaria. Mas desculpa, mas parece algo pr te fazer sentir burra. Equilibrar quatro moedas sem deixar cair. Missão impossível. Sorrio sem conseguir evitar.
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Speaker A
Até que percebo o garoto meio nada nos encara a sair pela sala. Ei, você viu aquilo? Digo pra Helena, que continua andando quase me arrastando pelos corredores, que acendem e apagam conforme notam o nosso movimento. Viu o quê? Ai, seja o que for. Se não for um
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Speaker A
dos gatos da nossa turma, melhor ignorar. Quero chegar em casa rápido. Essa era outra característica marcante do turno da noite. Uma quantidade exagerada, quase absurda de pessoas bonitas. Homens e mulheres esculpidos por Deus ou por um cirurgião perversamente habilidoso. Peles pálidas
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Speaker A
sem poros, sorrisos perfeitos, proporções quase matemáticas que te lintavam em cada canto abafado da sala, mesmo nas noites gálidas. Às vezes conversavam entre si, em vozes sussurrantes, risos contidos, em harmonia tão perfeitas quanto seus rostos, quase como cantigas de nená,
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Speaker A
embalavam suavemente só para acordar a gente em um tranco no instante seguinte. eram tão bonitos que era impossível encará-los por muito tempo. Não que eu e Helena fôssemos feias, apenas era difícil processar uma beleza que parecia não pertencer a esse mundo. Alguns
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Speaker A
simplesmente saíam da sala quando queriam, outros faziam ruídos estranhos no fundo, imperceptíveis para quase todos, mas que ficaram gravados na minha pele. Todas essas ações eram ignoradas pelos professores, mas os alunos comuns, nós, as proporções normais, recebíamos atenção minuciosa e um a um começaram a
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Speaker A
desaparecer. Carteiras vazias, faltas seguidas, nomes apagados do registro escolar. Alguns sumiram de repente, como a garota baixinha que pediu para ir ao banheiro no meio de uma apresentação e nunca mais voltou. Outros, como barbudo, foram encontrados mortos em casa ou na
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Speaker A
rua, sempre de forma grotesca, doentia inexplicável. E agora restavam apenas nós duas. O ponto de ônibus era bem iluminado, ficava na frente do instituto e era terrivelmente extenso. Sempre que saía nesse horário e o vento gelado balançava meus cabelos longos, eu sentia
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Speaker A
a crise se aproximar. A escuridão me cercava como predadora espreita. Rapidamente retirei as moedas do bolso e iniciei o ritual. Era simples, quase infantil. alinhar quatro moedas no dedo anelar, prendendo-as com o dedo médio, sem mover e sem deixar cair. Minha avó
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Speaker A
me ensinou uma semana antes de morrer e talvez fosse a única lembrança nítida que eu realmente tinha dela. Com os anos, me tornei uma especialista. Fazia de olhos fechados, até com a mão menos dominante, até com a menor moeda. Aquilo
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Speaker A
me salvava, sempre me salvava. Helena, como sempre, revirou os olhos e se encostou no banco comprido ao lado da lixeira de restos vegetais. Eu me sentei ao seu lado, esperando que o suor frio e as palpitações evaporassem pouco a
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Speaker A
pouco. Não falávamos nesses momentos. Ficávamos em silêncio, olhando pro chão. De dia o ponto era comum, cheio de gente, barulho, ônibus que iam e vinham, mas à noite, à noite ele se transformava. O silêncio era tão absoluto que podíamos ouvir o atrito das
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Speaker A
nossas roupas quando mexíamos os braços ou estalar de ossos cansados ao cruzar as pernas. Tínhamos medo de assaltos, é verdade, mas no fundo eu sabia, assaltos era o menor dos problemas. No fim do ponto, moravam sem teto. Ele não parecia
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Speaker A
um homem, parecia a sobra de um. A pele era cinzenta, fina demais, esticada sobre os ossos ponteagudos, como o papel de arroz molhado. A barba se acumulava em tufos endurecidos, cheio de crostas.
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Speaker A
E, às vezes, eu jurava ver uma larva se debatendo entre os fios antes de desaparecer. Ao lado dele sempre estava o cachorro. Sei que aquele bicho ainda podia ser chamado assim. O dorço era arqueado em ângulo grotesco, como se
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Speaker A
tivessem quebrado a espinha e ela tivesse cicatrizado torta. A boca ficava permanentemente aberta, dentes gastos e rachados até gengiva, a língua grossa e roxa arrastando no chão imundo. O som que saía dele não era respiração, era um sopro regular, como o vento escapando de
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Speaker A
um pulmão perfurado. Eles nunca se moviam, nunca, de forma evidente. Mas cada vez que eu ajustava as moedas nos dedos, o homem parecia piscar logo em seguida. Cada vez que eu trocava a posição da perna, o cachorro arrastava a
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Speaker A
pata um segundo depois, como se fossem marionetes presas ao meu corpo, como se eu fosse a música deles, a dança. Não olhe Al. Helena sussurrou sem mover os lábios, os olhos fixos à frente, a perna balançando em espasmos. Se você olhar,
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Speaker A
eles vêm. As moedas tremeram na minha mão. Apertei-as até marcar a pele. O silêncio virou líquido, denso, grudando nas nossas gargantas. Então o cachorro ergueu a cabeça e piscou, não de cima para baixo, mas de lado, com uma
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Speaker A
pálpebra vertical. Foi nesse instante que o ronco grave do motor cortou a noite. O ônibus vinha chegando. Ele parou com um rangido metálico e eu e Helena subimos sem trocar uma palavra.
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Speaker A
Motorista era o mesmo de sempre, um homem gordo, de uniforme amarrotado e olhar morto, que evitava nos encarar como se carregar duas passageiras fosse uma maldição pessoal. Ele sempre parecia saber mais do que deveria, sempre parecia com medo. As portas se fecharam
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Speaker A
e seguimos. O interior do ônibus estava vazio, exceto por nós duas. O neon amarelado das lâmpadas vibrava com um zumbi do baixo, iluminando fileiras de assentos gastos com marcas que pareciam arranhões. Às vezes, jurava ver algo se mexendo naquelas marcas, como se a
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Speaker A
espuma do estofado respirasse. Helena não estava normal. Seus ombros, geralmente relaxados, estavam rígidos, encolhedos. E ela mordia a própria boca até sangrar, mas não parecia perceber. O sangue escorria pelo canto da boca e desaparecia no colarinho, como se fosse
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Speaker A
sugado pelo tecido. Eu olhava de relance, mas logo voltava as moedas equilibradas no meu dedo. Era tudo que eu tinha, o meu escudo. De repente, ela falou: "Eu vou descer". O quê? Engasguei apertando as moedas até que o metal
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Speaker A
gelado queimasse minha pele. Mas ainda falta muito para sua casa. Ela não respondeu, apenas se levantou e caminhou até a frente, seus passos secos eando no corredor vazio. O motorista não perguntou nada, não olhou, apenas puxou a alavanca com os olhos fixos no vidro
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Speaker A
embaçado. O ônibus parou em um lugar que eu não reconheci. Uma esquina qualquer, sem casa, sem luzes, só montuado de árvores retorcidas como colunas de fumaça. Helena, não espera? Levantei, as moedas te chando na minha mão. Ela se
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Speaker A
virou apenas por um instante. Seu sorriso era largo demais, branco demais, uma rachadura perfeita. Eu tenho que ir.
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Speaker A
E saiu. As portas se fecharam atrás dela com um baque seco, e o ônibus arrancou de novo. Meu coração batia no mesmo ritmo das moedas que eu forçava a manter em equilíbrio. Não podia deixar cair, não podia. Até que, contra o meu próprio
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Speaker A
instinto, virei o rosto para trás. E lá na última fileira ele estava sentado. O garoto meio nada, meio tudo, os olhos fixos em mim. As moedas escorregaram dos meus dedos. As moedas caíram no chão com estrondo tão alto que pareceu um
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Speaker A
relâmpago cortando o céu noturno. O som reverberou pelo ônibus vazio, como um trovão particular.
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Speaker A
Abaixei-me depressa, mãos trêmulas, sentindo o coração arrebentar as costelas e quase saltar pela garganta.
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Speaker A
Juro que eu senti sei de mim por um segundo. Caí bater no chão e pulsar ali mesmo, bombeando sangue quente que escorria e inundava o piso imundo do ônibus. Um solavanco brutal que mais parecia o veículo dando ré e se chocando
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Speaker A
contra algo invisível me trouxe de volta. As moedas estavam ali frias, espalhadas e eu as recolhi uma a uma, forçando-as de volta no lugar ao único equilíbrio possível. Levantei o rosto e tentando provar para mim mesma que ele
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Speaker A
ainda estava no fundo do ônibus. O garoto meio nada, meio tudo, ainda lá, ainda me olhando. Foi então que senti uma respiração quente tão perto do meu ouvido que mexeu os fios do meu cabelo como vento no ponto de ônibus. E a voz
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Speaker A
veio sem pressa corroendo por dentro. Que pena, Alissa, ele sempre está sobre você. Não sei como cheguei em casa. Não lembro da descida nem do caminho. Só lembro do grito da minha mãe ao me sacudir com o celular tremendo nas mãos.
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Speaker A
Tinham encontrado Helena, esmagada em uma rua deserta. Parecia um acidente de ônibus. Na mesma noite, a aula de enfermagem pegou fogo. O incêndio consumiu tudo. Professores, colegas, cada rosto perfeito e vazio daquelas salas. Todos morreram. Todos menos eu.
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Speaker A
Me ofereceram uma vaga no turno do dia. Me ofereceram dinheiro para silêncio, mas nada compra o que ficou. E também hoje em dia, eu nunca mais solto as moedas. Sei que vou cansar, sei que elas vão se fundir na minha pele e eu vou
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Speaker A
fraquejar e acabarei como minha avó. Porque eu vi. Eu finalmente o vi acima de mim. Ele não era um homem, não era um animal. Ele estava grudado no teto do meu quarto, como uma aranha invertida, com ossos quebrados em ângulos que não
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Speaker A
deveriam existir e ainda assim se movendo, cada fratura funcionando como uma nova junta. A pele era branca demais, quase transparente, um tecido flácido que deixava ver as veias negras pulsando como verme sobre a superfície.
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Speaker A
O rosto se movia às vezes no ombro, às vezes no abdômen, às vezes entre as pernas dobradas, como se não tivesse lugar fixo. E quando a boca surgia, ela não falava, rasgava. Abriu-se na testa e dentro dela moedas caíam e um tinentar
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Speaker A
sem fim, dentes de metal oxidado roçando um noutro, como um cofre que engole tudo. Os olhos estavam espalhados no braço, outro no tornozelo, outro no meio da mão que me apontava, todos olhando para mim, sempre para mim. Fui que
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Speaker A
percebi, ele não estava sob o teto. O teto era ele. E eu, pequena, frágil, equilibrando minhas moedas como quem equilibra a própria vida. Estava presa debaixo dele e agora não posso soltar as moedas porque quem sabe ele pode descer.
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Speaker A
Essas foram as minhas histórias escolhidas esse ano. Realmente foi difícil, gente. Eu queria sinceramente fazer um top 30, isso sim. E teve um momento que eu fiz a lista e que eu cheguei em 14 histórias e eu tive
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Speaker A
vontade de chorar porque eu não conseguia tirar as outras histórias. Ai, eu amo a criatividade de vocês. Eu amo saber que vocês estão sentindo cada vez mais confortáveis para escrever as coisas mais absurdas do mundo. É bom encontrar um cantinho onde a gente não é
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Speaker A
julgado por ser estranho, né? Continuem escrevendo, por favor, e continuem me dando novos pesadelos. Muitíssimo obrigada a todas que enviaram suas histórias por se dedicar a essa paixão estranha por terror. E para quem não escreve e só assiste os vídeos, muito
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Speaker A
obrigada por fazer companhia pra gente. Terror é para todo mundo. Mas me conta dessas 10 histórias que apareceram aqui, qual que é a tua preferida? E se a tua favorita do ano não apareceu aqui, me conta também. Quem sabe a tua favorita
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Speaker A
também é a favorita de outras pessoas. Se você quer mais vídeos assim, mais episódios de Terrorem make, não esquece de se inscrever aqui no canal para não perder os próximos episódios. E se você clicar naquele sininho que aparece ao
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Speaker A
lado, isso ativa as notificações, assim, o YouTube te avisa quando ter vídeo novo por aqui quando ele tá de bom humor. Me segue no Insta se você quer atualizações aleatórias. Quando eu lembro também aviso quando tem vídeo novo por aqui. E
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Speaker A
agora a gente se vê de novo só ano que vem. Feliz ano novo, tudo de bom pr vocês. Eu espero que 2026 de vocês seja incrível e cheio de terror, mas só em forma de contos. É isso aí. Então a
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Speaker A
gente se vê na próxima. Bons sonhos. The falling clovers in my
Topics:contos de terrorhistórias originaisterror 2025Karol KaepstickTerror e Makemaratona de terrorcontos bem escritosliteratura de terrorcriatividadeYouTube Brasil

Frequently Asked Questions

Quais são os critérios para a escolha dos contos apresentados no vídeo?

Os contos escolhidos são originais, sem base em creepypastas, lendas urbanas, crimes reais, filmes ou outras histórias. A seleção valoriza a criatividade e a qualidade da escrita.

Qual é o tema do primeiro conto apresentado, 'A Metamorfose de Jennifer'?

O conto aborda a obsessão pela beleza e perfeição física, e como uma picada de aranha desencadeia uma transformação assustadora, misturando horror corporal com críticas sociais.

Karol Kaepstick pretende fazer mais vídeos semelhantes no futuro?

Sim, Karol menciona a intenção de realizar mais maratonas de terror de sete dias no canal, incentivando a produção e divulgação de histórias originais.

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