Luiz Hanns comenta sobre o tema ‘Os perfis psicológicos… — Transcript

Luiz Hanns analisa os perfis psicológicos de eleitores de direita e esquerda, destacando fatores emocionais e morais que influenciam suas escolhas políticas.

Key Takeaways

  • Preferências políticas têm raízes profundas em traços psicológicos e morais universais.
  • Eleitores de esquerda e direita valorizam diferentes aspectos morais que moldam suas visões políticas.
  • A compaixão e justiça são interpretadas de formas distintas entre os dois grupos.
  • A identidade e autoridade são pilares centrais para eleitores conservadores.
  • A manutenção ou ruptura de tabus e normas sociais é um ponto de divergência crucial.

Summary

  • Eleitores de centro-esquerda e centro-direita têm tendências psicológicas distintas, não considerando os extremos.
  • Fatores como crises políticas e histórico de governos influenciam escolhas eleitorais, mas há uma base visceral e quase genética nas preferências.
  • Jonathan Haidt identificou cinco fontes morais que influenciam as escolhas políticas: compaixão, justiça, identidade, ordem/autoridade e virtude/pureza.
  • Eleitores de esquerda priorizam compaixão, justiça social baseada no esforço, diversidade e inovação, rejeitando hierarquias rígidas e tabus.
  • Eleitores de direita valorizam identidade grupal, autoridade, regras sociais, meritocracia e preservação de tabus para evitar decadência social.
  • A compaixão para eleitores de direita é mais restrita ao seu grupo, enquanto a justiça é vista como merecimento pelo que se produz.
  • A identidade pode gerar exclusão ou rejeição do diferente, especialmente entre eleitores de direita.
  • A autoridade é vista como essencial para evitar anarquia e manter a ordem social, principalmente por eleitores conservadores.
  • A virtude e pureza são associadas à manutenção de costumes e restrições, com receio de que a ruptura leve ao caos social.
  • As diferenças psicológicas foram confirmadas em pesquisas multicontinentais e cruzadas com outros testes comportamentais.

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00:00
Speaker A
O que é que leva as pessoas a votar por partidos mais à esquerda ou mais à direita?
00:14
Speaker A
Há muitos fatores. Eu vou estar me referindo aqui não aos extremos, aos eleitores fanáticos de extrema direita, de extrema esquerda.
00:22
Speaker A
Mas à maioria dos eleitores, aqueles que têm uma simpatia maior, uma tendência a votar por partidos de centro-esquerda, mais à esquerda, mais socialista, social-democrata, ou os que preferem os partidos mais conservadores, mais tradicionalistas, um pouco mais à direita, cristãos-democratas, etc.
00:43
Speaker A
Há vários motivos que levam as pessoas a fazer suas opções na hora do voto, por exemplo, se o país está numa crise, a tendência dos eleitores é atribuir a crise ao governo de plantão, e o governo de oposição vai ter uma chance melhor, dependendo se é mais de esquerda, mais de direita.
00:58
Speaker A
Outro fator importante é se houve durante muito tempo um governo de uma direção ou de outra, que acabou sendo corrupto ou negligente ou incompetente, e, digamos assim, se queimou com a população, e junto com aquele governo, a ideologia que ele abraça se queimou durante um tempo, então as pessoas vão sair mais da esquerda ou mais da direita e voltar para outro partido.
02:01
Speaker A
Mas o que as pesquisas em psicologia e neurociências têm mostrado é que, independente dessas circunstâncias e de raciocínios econômicos, etc.
02:26
Speaker A
As pessoas têm uma simpatia visceral, praticamente genética, por partidos mais à esquerda ou mais à direita, né?
02:40
Speaker A
E sobre isso fizeram pesquisas muito elucidativas.
02:49
Speaker A
Uma primeira pesquisa, feita por Jonathan Haidt, e trabalhando com cinco continentes diferentes e países e culturas diferentes, deu sempre o mesmo resultado, e é baseado em psicologia evolutiva, psicologia animal e em psicologia social.
03:25
Speaker A
E o resultado mostra o seguinte: as pessoas têm uma preferência, uma simpatia.
03:33
Speaker A
Que deriva de cinco fontes diferentes: a primeira fonte é a noção que a pessoa tem de compaixão, imagina uma vida tribal, isso também tem em psicologia animal, você vê uma criança precisando de ajuda, uma pessoa ferida, um idoso, a tendência a ir lá ajudar.
04:00
Speaker A
E junto com essa tendência à compaixão, vem como polaridade, eventualmente, o ódio àquele que causou esse mal, que feriu o outro, etc.
04:15
Speaker A
Uma segunda fonte de moralidade, emoções e opções é a polaridade ligada à justiça, não é?
04:40
Speaker A
As pessoas, e inclusive animais, macacos, reagem muito mal à injustiça, imagina numa tribo uma cooperação, por que que eu vou me esforçar em preparar flechas, por exemplo, para os caçadores caçarem depois lá na minha tribo, se eu depois não recebo um quinhão adequado de comida ou de atenção ou de prestígio?
05:12
Speaker A
Então, vai diminuir minha vontade de cooperar, e a justiça, ela pode ser entendida como cada um merece aquilo que produziu, uma meritocracia pelo resultado.
05:26
Speaker A
Ou cada um merece aquilo que foi o seu esforço, a sua dedicação, que é um outro jeito de pensar a justiça.
05:31
Speaker A
Uma terceira fonte, então eu falei na compaixão e na justiça, reciprocidade, uma terceira fonte de moralidade, de empenho é a questão da pertinência, a questão da identidade.
05:57
Speaker A
É uma tendência em animais e seres humanos a se agrupar, não é, em tribos, em grupos, eu sou palmeirense, eu sou fluminense, nós somos brancos, negros, somos os velhos, os jovens, os hackers, somos de direita, de esquerda, ou nossa tribo, ou somos cristãos, essa tendência a formar uma identidade, ela pode se polarizar no sentido de odiar ou rejeitar o outro grupo.
07:05
Speaker A
E querer não ter contato com o outro grupo, ou pode se polarizar com a curiosidade, o forasteiro, além de ser fonte de temor, também é fonte de curiosidade.
07:14
Speaker A
Às vezes até de tesão do diferente, né, que me excita e me leva a buscar, né, o diferente.
07:40
Speaker A
Uma quarta polaridade muito importante, então eu falei em compaixão, eu falei no senso de justiça e na identidade, e nessas simpatias por esquerda e direita, as pesquisas mostram que uma quarta fonte importante é a questão da ordem, da autoridade, do respeito, né?
08:36
Speaker A
Mesmo animais, novamente, tribos e sociedades contemporâneas, precisam de algum grau de regras, de autoridade, às vezes isso deriva para um culto, né, ao respeito e à hierarquia, isso pode ter diferentes incidências, e ao mesmo tempo isso polariza com a sensação de sufocamento, de impedir a sua liberdade, de você estar submetido a um outro que é mais que você, mas essa é uma fonte muito importante também nas opções que as pessoas depois farão.
09:15
Speaker A
E a quinta e última se refere à virtude, à pureza, né, que está ligado, por exemplo, nas tribos, você tem tabus, você não pode comer uma certa comida, fazer sexo de certa maneira, ou com certas pessoas, ou ter certas práticas, nas sociedades também, você tem a ideia da restrição, da autocontenção.
09:55
Speaker A
Ou a ideia, não é, de eliminar tabus, a ideia de experimentação, de uma maior liberdade.
10:00
Speaker A
Talvez, eh, de, eh, orgias, eh, de promiscuidade, eh, de alimentação desenfreada, do hedonismo, da curtição, ou o contrário, não é?
10:06
Speaker A
Essas polaridades, como é que elas vão incidir?
10:10
Speaker A
O que que as pesquisas mostraram nesses cinco continentes, que os eleitores mais à esquerda, eles costumam priorizar a ideia da compaixão.
10:24
Speaker A
Da justiça social, do da ajuda, do governo que protege os fracos, dos subsídios, etc.
10:40
Speaker A
E muito a questão da justiça como algo não ligado por merecer em função do que você produziu.
10:54
Speaker A
Mas merecer em função do seu empenho, não é?
11:00
Speaker A
Enquanto que a questão da autoridade é vista por esses eleitores, em geral.
11:10
Speaker A
Como algo que pode levar a hierarquias rígidas, ao desprestígio dos grupos que estão abaixo nessas hierarquias.
11:24
Speaker A
E como algo negativo, também a questão do pertencimento, a questão de formar grupos, novamente, aí, os eleitores mais à esquerda.
11:43
Speaker A
Gostam da diversidade, de ter raças diferentes, preferências sexuais, orientações sexuais diferentes, do colorido, do cosmopolita.
11:57
Speaker A
Enquanto os eleitores mais à direita têm uma outra percepção disso.
12:04
Speaker A
E finalmente, a questão, eh, da virtude, do comedimento.
12:10
Speaker A
É percebido pelos eleitores mais à esquerda como um sufocamento da experimentação, da inovação, da ruptura com usos e costumes, etc.
12:25
Speaker A
O que acontece com os eleitores mais conservadores, mais cristãos-democratas ou mais à direita?
12:39
Speaker A
Eles têm uma inversão em relação a essa escala, eles enxergam como muito importante a identidade.
12:54
Speaker A
Estamos entre nós, formamos o nosso grupo, e eles até aceitam eventualmente conviver com o diferente, mas não se sentem confortáveis em integrar o diferente, né, e de fato compartilhar muito com o diferente.
13:19
Speaker A
Ainda que admitam que o diferente tem direito a existir, a votar, etc.
13:26
Speaker A
Né, e é uma tendência maior a enxergar o outro como algo que tem que ser excluído ou viver em paralelo.
13:42
Speaker A
Às vezes isso deriva também no ódio ao outro, ao forasteiro.
13:52
Speaker A
Uma outra questão é a importância que eles dão à autoridade, à organização, à regra, porque eles pensam que isso é uma grande conquista difícil, né, da cultura.
14:12
Speaker A
De se escapar da anarquia, do desentendimento, se organizar uma sociedade, e enxergam um grande valor nessa harmonia que se conquista com o ordenamento da sociedade.
14:30
Speaker A
E a questão da virtude também é percebido por eles como muito perigoso você abrir mão dos tabus, das regras, da santidade, da pureza, e aceitar coisas que são devassas, que são promíscuas, que é o hedonismo desabregado, as orgias, a infidelidade.
15:00
Speaker A
Romper com usos e costumes, porque tem o temor de que isso leve à decadência e desagregação social e ao caos e a grandes problemas sociais.
15:13
Speaker A
A percepção dos eleitores mais à direita com relação à compaixão.
15:20
Speaker A
Ela é também importante, mas é mais restrita à compaixão dentro do seu próprio grupo, não é?
15:32
Speaker A
E ela tem nessa escala um outro nível de prioridade, e a justiça, como mencionei, é percebida mais como uma meritocracia.
15:40
Speaker A
Você receberá em função do que você contribuiu.
15:46
Speaker A
Essas diferenças, elas foram testadas em vários continentes.
15:52
Speaker A
E depois foram cruzadas com outros testes, tem o teste, por exemplo, do cachorrinho.
16:00
Speaker A
Em que você submete essas, esses eleitores à opção, você pode adotar um cachorro para a sua família.
16:14
Speaker A
Que é um cachorro que é um cachorro para ficar com crianças, um cachorro brincalhão, um cachorro que gosta de todo mundo, mas muito independente, não é?
16:24
Speaker A
Ou você pode adotar um cachorro que é quase um cão de guarda, um cachorro leal à sua família.
16:34
Speaker A
Um cachorro que vai proteger a sua família e que obedece.
16:40
Speaker A
Previsivelmente, os eleitores mais à esquerda, na sua maioria, têm preferido o primeiro cãozinho, mais brincalhão, mas que vai com todo mundo, não protege coisa nenhuma.
16:52
Speaker A
E os eleitores mais à direita, os estudos mostram que eles sistematicamente optam pelo cachorro leal, né?
17:00
Speaker A
A questão da lealdade ao grupo, ao clã, eh, e mais hostil um pouco aos outros.
17:06
Speaker A
Mais ligado à proteção, aos perigos do mundo.
17:10
Speaker A
Ligado a isso, há um teste que se fez também de correlação em neurociências e com neuroimagem.
17:19
Speaker A
Tem uma área do cérebro que é a amígdala, que é uma área ligada à percepção do perigo ou medo e a proteção ao medo.
17:30
Speaker A
E se olhou, se verificou que os eleitores mais à direita têm uma área da amígdala, uma amígdala mais desenvolvida, maior, não é?
17:45
Speaker A
Enquanto os eleitores de esquerda têm uma amígdala menor, são mais relaxados, têm menos medo e menos reação intensa à ameaça e interpretação da ameaça é mais variada, mais frouxa.
18:00
Speaker A
O que ajuda também a explicar que o medo tem um papel importante nessas simpatias e antipatias que nós fazemos nas opções.
18:12
Speaker A
E finalmente, se fez testes, que é o teste do nojo, submetendo pessoas a cheiros desagradáveis.
18:22
Speaker A
A aparências desagradáveis e a reação intensa dos eleitores de direita ou mais à direita é superior às dos de esquerda.
18:32
Speaker A
Com relação à rejeição aos odores ruins, ao nojo e a coisas novas meio gosmentas, esquisitas, etc.
18:43
Speaker A
O que que isso nos leva a concluir?
18:45
Speaker A
Que ainda que você vote num partido contrário às suas simpatias, porque você achou que no seu país o governo da sua simpatia, que seria mais à esquerda, foi corrupto e ineficiente, não significa que essa simpatia não exista.
19:03
Speaker A
A sua simpatia é uma coisa, o seu voto é outra.
19:09
Speaker A
Que mais isso nos mostra?
19:12
Speaker A
Isso nos mostra que esses repertórios, ambos, mais à direita, mais à esquerda.
19:20
Speaker A
São fundamentais para a sociedade.
19:24
Speaker A
Há momentos em que os grupos de animais ou tribos vão sobreviver privilegiando essas tendências mais à direita, mais conservadoras.
19:37
Speaker A
Elas é que vão salvar a tribo.
19:40
Speaker A
Uma certa autoridade, uma certa virtude.
19:45
Speaker A
Uma certa coesão.
19:48
Speaker A
E há momentos em que essa tribo vai progredir, vai florescer, porque vai privilegiar uma cooperação baseada mais na compaixão.
20:00
Speaker A
Baseada mais numa reciprocidade por empenho, etc.
20:05
Speaker A
Mesmo quando você discute economia, você vai ter prêmio Nobel com grande capacidade argumentativa.
20:15
Speaker A
E economia, usando cálculos, matemática, etc., com modelos mais à esquerda ou mais à direita.
20:24
Speaker A
A conclusão é, ambos os modelos são importantes.
20:29
Speaker A
Se alternam e fazem sentido.
20:32
Speaker A
Talvez a sua opção vá se guiar por outras experiências.
20:40
Speaker A
E o ciclo de vida em que você está.
20:47
Speaker A
Mas percebendo essas coisas, as pessoas costumam ter uma relação com o outro que tem uma outra visão.
20:59
Speaker A
Como o seu eventual adversário, com o qual você tem divergências.
21:06
Speaker A
Mas não necessariamente você precisa enxergá-lo como o seu inimigo e nem demonizá-lo.
21:11
Speaker B
Gostou desse vídeo?
21:13
Speaker B
Então aproveite.
Topics:perfis psicológicosdireitaesquerdapsicologia políticamoralidadeJonathan Haidtcompaixãojustiça socialautoridadeidentidade política

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