DVD TORQUATO NETO O ANJO TORTO TV CLUBE II — Transcript

Documentário sobre a vida e obra de Torquato Neto, poeta e letrista brasileiro, destacando sua infância, juventude e influência cultural.

Key Takeaways

  • Torquato Neto foi uma figura central no Tropicalismo e na cultura brasileira dos anos 1960.
  • Sua obra é profundamente influenciada por suas raízes no Piauí e sua vivência em Salvador.
  • A relação familiar e o ambiente cultural foram fundamentais para sua formação artística.
  • Sua inquietação e busca por novos horizontes refletem-se em sua poesia e letras de música.
  • O documentário valoriza a memória afetiva e histórica para compreender a trajetória do poeta.

Summary

  • Torquato Neto nasceu em Teresina, Piauí, em 9 de novembro de 1944, em uma família tradicional.
  • Durante a infância e adolescência, viveu em Teresina, estudando em colégios tradicionais e cultivando amizades duradouras.
  • Desde jovem, demonstrou interesse pela literatura, escrevendo poesias e lendo autores como Edgar Allan Poe e Jorge Amado.
  • Mudou-se para Salvador para continuar os estudos, inicialmente pensando em ser diplomata, mas se dedicou à música e poesia.
  • Em Salvador, integrou-se ao movimento cultural que daria origem ao Tropicalismo, junto a figuras como Caetano Veloso e Gilberto Gil.
  • Sua relação com a família, especialmente com o pai Eli, foi marcada por afeto e confiança, apesar da sua inquietação juvenil.
  • O vídeo destaca locais históricos e culturais importantes para sua formação, como o Hospital Getúlio Vargas e o Colégio Nossa Senhora da Vitória.
  • Torquato Neto é retratado como uma figura singular, o 'Anjo Torto', cuja obra e vida influenciaram a cultura brasileira.
  • O documentário utiliza depoimentos de familiares e amigos para construir uma narrativa íntima e detalhada.
  • O Rio Parnaíba e a cidade de Teresina aparecem como elementos simbólicos presentes em sua poesia e memórias.

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00:01
Speaker A
Torquato Neto, o Anjo Torto.
00:11
Speaker A
Torquato Neto, o Anjo Torto.
00:27
Speaker B
Quando eu morava no Piauí e depois quando eu fui morar na Bahia, quer dizer, eu tinha 15 anos, por aí assim, 14, 15 anos nessa época.
00:39
Speaker B
Bom, aí eu, eu escrevia poesias aquela época, aqueles poemas de adolescentes, que a maior parte dos adolescentes escrevem e tudo.
00:49
Speaker B
Mas depois parei. Quando vim morar no Rio, quando o Caetano que eu já conhecia e tudo, Gil, todos vieram para cá, foi aí nessa época que eu comecei a fazer letra de música.
01:03
Speaker C
A voz mansa é um registro raro do anjo que nasceu torto, uma história que começa bem antes das letras e poemas, eternizados ao longo dos anos. Quando eu nasci um anjo louco, um anjo torto, um anjo doido, veio, veio ler a minha mão.
01:43
Speaker C
Teresina, 9 de novembro de 1944. Era uma quinta-feira, o céu estava azul, o sol brilhava. No Hospital Getúlio Vargas, o mesmo fincado até hoje no coração da capital do Piauí, uma família aguardava ansiosa a chegada do primogênito. A página de valor histórico e retirada do livrinho guardado pela mãe, assinala com precisão o horário e o local. Às 12 para as 5 da tarde, nascia Torquato, filho de Salomé e Eli.
02:36
Speaker D
Os anos passaram, claro que o cenário físico não é mais o mesmo, mas foi aqui no Hospital Getúlio Vargas que o menino, primeiro neto de uma família de 12 irmãos, chegava ao mundo. Trouxe no nome a responsabilidade de carregar a herança moral do avô. Assim, os pais o batizaram de Torquato Pereira de Araújo Neto.
03:36
Speaker C
A infância de Torquato se desenhou por uma Teresina ainda bastante pequena, não eram nem 60 mil habitantes. Estudou em alguns dos mais tradicionais colégios da capital.
03:52
Speaker D
No Leão 13, fez os primeiros amigos. Antônio de Noronha foi um deles, e com quem Torquato teve uma intensa relação de proximidade. A parceria dos tempos de menino, que na ocasião tinham 11, 12 anos de idade, deixou lembranças que atravessaram décadas.
04:06
Speaker D
Foi nesta casa centenária que o Torquato adolescente conviveu com alguns dos amigos que o acompanharam pelo resto da vida. Aqui ele passava férias e experimentava uma fase em que não havia muito com que se preocupar.
05:00
Speaker C
Os detalhes da velha casa da fazenda permanecem intocáveis, das paredes ao piso ladrilhado, quase nada mudou. Voltar a este lugar é fazer um mergulho no tempo e nas recordações da juventude.
05:14
Speaker E
Nós curtimos o quê? Ao areal, lua cheia, é, brincar noite, brincar de guerra de mamona, mas naquela época a gente lia muito. Lia livros, por exemplo, o Torquato me deu de presente as obras completas do Edgar Allan Poe, livros sobre Somerset Maugham, quer dizer, que naquela época a gente lia, e a Bíblia continua, me lembro desse livro assim, Jorge Amado, é, lia escondido A Carne do Júlio Ribeiro, porque não se podia, era tido pornográfico. Então a gente lia muito.
05:42
Speaker C
Torquato não teve irmãos, e entre os familiares, era descrito como uma figura querida, lembrado com uma ternura especial.
05:51
Speaker C
Da convivência de 4 anos com o jovem, ainda na adolescência, o tio Jonathas lembra muito, mas nada ficou tão marcado quanto a relação de Torquato com Eli, irmão de Jonathas.
06:02
Speaker C
Um pai amoroso que dedicou ao filho mais que um elo de confiança.
06:09
Speaker F
Não era uma relação conflituosa, muito ao contrário, era uma, o Eli, ele adorava o filho. O Eli sempre se referia a ele com um tom assim, realmente extremamente paternal.
06:30
Speaker F
Então, o Eli era, era tão bondoso com o, com o filho, que eu acho que ele até deve ter pecado por esse excesso de bondade com o filho.
06:40
Speaker F
Confiava demais em tudo que o filho dissesse.
06:50
Speaker D
Apesar da inquietação juvenil, Torquato sempre demonstrou carinho e apego pelo lugar onde viveu.
07:00
Speaker D
Em uma dessas casas que ficam no centro, perto do Rio Parnaíba, ele escreveu um poema, lembrando da infância inocente pelas ruas de Teresina.
07:10
Speaker C
Toda rua tem seu curso, tem seu leito de água clara, por onde passa a memória, lembrando histórias de um tempo que não acaba.
07:20
Speaker D
Morador antigo da velha Pacatuba, seu Abel descreve os cenários contemplados por Torquato na época.
07:30
Speaker D
Da casa onde o poeta nasceu, à rua quase às margens do Parnaíba, que virou poema.
07:38
Speaker G
O Rio Parnaíba passava solto ali no fim da rua, certo? E o Torquato talvez tenha se deslumbrado com isso, que o tema é a rua e fala do rio e fala do Barroco, que não é essa rua.
07:50
Speaker G
Barroco é a Zé de Sousa e Silva.
07:52
Speaker C
É, São João, é, Pacatuba, é, rua do Barroco, é, Parnaíba passando, separando a minha rua.
07:59
Speaker G
Creio que o Parnaíba era, era o que mais chamava a atenção. Volta a dizer, era caudaloso, passava solto em 1960.
08:10
Speaker G
A enchente de 60 trouxe o Rio Parnaíba à esquina da Rua Riachuelo.
08:16
Speaker G
Ela veio, o rio veio solto até ali.
08:19
Speaker G
As canoas ficaram amarradas ali.
08:21
Speaker C
Torquato viveu em Teresina até a adolescência, foi quando pediu ao pai que o mandasse estudar fora do Piauí.
08:30
Speaker C
A despedida foi contada em um poema, assinado por ele e destinado à mãe.
08:38
Speaker C
Mamãe, mamãe não chore, a vida é assim mesmo, eu quero mesmo é isso aqui. Mamãe, mamãe não chore, pegue uns panos para lavar, leia um romance.
08:50
Speaker C
Veja as contas do mercado, pague as prestações.
08:57
Speaker D
Dina é uma das primas mais novas de Torquato. A convivência entre os dois foi curta.
09:06
Speaker D
Ela adolescente, ele já homem feito, muitos anos depois de deixar Teresina.
09:16
Speaker D
Do contato entre primos, ficou a impressão que Dina conserva até hoje.
09:22
Speaker H
Claro que nessa época eu não tinha uma relação que permitisse ser companheira dele, naquilo que ele estava fazendo.
09:32
Speaker H
Eu era uma menina que estava no internato.
09:34
Speaker H
Mas tínhamos, tínhamos essa identidade de dois que estávamos saindo, dos dois que tínhamos saído de, da nossa terra, da nossa casa, do convívio da nossa família.
09:42
Speaker H
Numa expectativa de estudar, de, enfim, de fazer outras coisas.
09:46
Speaker D
George, também primo de Torquato e hoje responsável pelo acervo deixado pelo poeta, ouviu muitas histórias ao longo da vida e que revelavam o desejo do garoto de 16 anos.
10:00
Speaker I
Por ansiedade dele de querer encontrar outros caminhos para a sua vida.
10:09
Speaker I
Quer dizer, o Torquato não, não era um provinciano, não era uma pessoa da cidade pequena.
10:16
Speaker I
Ele queria outros horizontes, ele queria, eh,
10:20
Speaker I
percorrer caminhos novos, amplos e diferentes.
10:26
Speaker C
A partida de Torquato não chegou a encerrar a relação dele com a terra natal. Afinal, era comum que os jovens da época buscassem em outros estados o conhecimento que a capital do Piauí ainda não oferecia.
10:36
Speaker D
Mas no caso de Torquato, uma viagem serviria para mostrar que tamanha inquietação buscava propósitos bem maiores.
10:46
Speaker A
Torquato Neto, o Anjo Torto.
10:54
Speaker C
Muitos dos prédios históricos que enfeitavam as ladeiras e becos de Salvador, no início da década de 1960, ainda estão lá.
11:04
Speaker C
Basta um passeio pelos arredores da metrópole baiana para sentir passado e presente se encontrando em cada esquina da primeira capital do Brasil.
11:17
Speaker C
Há 40 anos, Salvador já despontava como uma cidade de vanguarda, apesar disso, nem de longe lembra a capital agitada, com quase 3 milhões de habitantes que existe hoje.
11:32
Speaker C
Na época, os movimentos culturais nasciam e ganhavam espaço, dentro das universidades, das escolas secundaristas e seduziam os jovens dispostos a enxergar o mundo por um outro ângulo.
11:47
Speaker J
Glauber Rocha, Tom Zé, eu acho que estudavam, né?
11:56
Speaker J
Caetano fez Filosofia, Gilberto Gil fez Administração, Glauber Rocha fez Direito.
12:06
Speaker J
Então, trocaram figurinhas e eles criaram esse movimento.
12:10
Speaker J
O tropicalismo.
12:11
Speaker C
Na leva de jovens que chegavam à capital baiana para estudar, estava Torquato, um garoto com mais ou menos 16 anos, com um caminho a ser traçado a partir do dia em que deixou a casa dos pais para seguir uma profissão.
12:25
Speaker D
Torquato até pensou em ser diplomata, mas ao chegar aqui em Salvador, se deu conta que sua paixão pelas letras e suas ideias revolucionárias falavam mais alto.
12:39
Speaker D
E tudo isso ficou ainda mais evidente quando ele conheceu alguns parceiros desconhecidos na época, mas que tempos depois mudariam os rumos do atual conceito de arte que prevalecia naquela ocasião.
12:50
Speaker C
No prédio com traços de arquitetura barroca, funcionou a partir de 1904, o Colégio Nossa Senhora da Vitória, instalado no bairro do Canela, no entorno do centro histórico baiano.
13:02
Speaker C
Aqui Torquato veio estudar depois que saiu de Teresina.
13:10
Speaker C
Na época, a instituição criada pelos irmãos maristas era uma espécie de internato e que recebia jovens vindos de várias partes do Brasil.
13:20
Speaker K
O principal objetivo do colégio era fazer o aluno fugir da mesmice e pensar.
13:28
Speaker K
Pensar abrindo a mente.
13:30
Speaker K
Então ele usava essas ferramentas todas para isso. Então era um colégio católico, mas que não ficava dentro de um bitolamento daquela mensagem tradicional na época da Igreja Católica.
13:40
Speaker K
Ele colocava textos de grandes pensadores para que a gente analisasse, discutisse livremente em sala de aula.
13:45
Speaker D
Conta a história que Torquato passava quase todo o tempo rabiscando poesias pelos corredores do colégio. Chegou a colaborar com um jornalzinho que circulava entre os colegas.
13:56
Speaker D
Foi nessa época, aqui no antigo Marista, que ele conheceu Caetano Veloso, em seguida, Gilberto Gil, alguns dos seus principais parceiros do movimento que ficou conhecido como o Tropicalia.
14:06
Speaker C
Era uma época em que as questões ideológicas quase sempre se tornavam um assunto entre os jovens que buscavam uma nova visão para um país dominado pela rigidez artística e política.
14:17
Speaker C
A veia poética que nascia na fase adolescente do Torquato, dos tempos de Marista, chamou a atenção de pesquisadores.
14:30
Speaker C
A doutoranda em literatura e cultura, Esmeralda Cravansolla, observa no perfil de Torquato, um jovem disposto a criar em forma de poesia um manifesto contra os modelos literários convencionais para a época.
14:43
Speaker L
Um dos motes de, de Torquato era ocupar espaço, então por meio da poesia seria possível essa ocupação da, do espaço, né?
14:54
Speaker L
Essa mudança a partir do agir, não uma poesia como utopia de futuro, mas uma poesia no, do presente.
15:00
Speaker L
Nesse momento, Gilberto Gil é uma grande influência, não é? E depois isso vai ser, eh, vai ultrapassar.
15:09
Speaker L
Então essa relação com o Gil, depois é ultrapassada, porque Torquato também foge das amarras de um movimento.
15:15
Speaker D
O historiador Manoel Passos conta que os anos de ensino secundarista serviram para que Torquato e os novos colegas pudessem ampliar um discurso filosófico, que mais tarde se tornaria um movimento artístico questionador.
15:26
Speaker J
Tinha essa inquietação, né, de rupturas, né?
15:31
Speaker J
Mas tinha a questão também política e ideológica, sabe, do nacionalismo.
15:39
Speaker J
É não se afastar da identidade brasileira.
15:43
Speaker D
Quatro décadas depois, ex-alunos da antiga escola secundarista lembram que naquela época era comum jovens, como Torquato, encontrarem no ambiente escolar a abertura necessária para exercitar uma consciência crítica e usar a arte para expressar toda e qualquer forma de liberdade.
15:59
Speaker C
Então, no Rio, essas referências eram comuns, no sentido assim, de que Torquato era também um emergente rebelde, um emergente, eh,
16:09
Speaker C
com a visão de futuro diferenciada, né? E como poetas, como criadores, nós pensávamos muito na liberdade, na questão da liberdade.
16:18
Speaker C
Descrito por Capinam como um poeta inquieto, Torquato usava a arte como forma de manifesto.
16:24
Speaker M
Ele desejava uma sociedade mais aberta, mais aberta às escolhas pessoais.
16:31
Speaker M
As proposições estéticas, então tudo isso, eh,
16:37
Speaker M
estava desde o início, eh, visualizado na figura de Torquato, como suas características principais.
16:47
Speaker M
Um artista, com um autor, com assinando a contemporaneidade.
16:56
Speaker C
A fase baiana de Torquato soou quase como um ensaio para os desafios que viriam no futuro.
17:05
Speaker C
Assim como o sol que se despede no final de cada dia, a ousadia do poeta dava sinais de que um recomeço estava perto de surgir.
17:13
Speaker C
Você me chama, quer ir para o cinema, agora é tarde, sem nenhuma espécie de pedido.
17:21
Speaker A
Torquato Neto, o Anjo Torto.
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Frequently Asked Questions

Quem foi Torquato Neto?

Torquato Neto foi um poeta, letrista e figura importante do movimento Tropicalista brasileiro, conhecido por sua obra inovadora e influência cultural nos anos 1960.

Qual a relação de Torquato Neto com o Piauí?

Torquato Neto nasceu em Teresina, Piauí, onde passou sua infância e adolescência, e essa região influenciou profundamente sua poesia e identidade cultural.

Como Torquato Neto se envolveu com o Tropicalismo?

Ao se mudar para Salvador para estudar, Torquato conheceu artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil, participando do movimento cultural que deu origem ao Tropicalismo.

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