**1 Hora Desmentindo Mitos e Coisas que todo brasileiro acredita mas são mentira — Transcript & Summary | SozAI**
Source: https://sozai.app/transcript/desmentindo-mitos-brasileiros-mentira/

Desmistificação de mitos populares brasileiros e internacionais, revelando verdades históricas e científicas por trás de crenças comuns.

## Key Takeaways

- A Grande Muralha da China não é visível do espaço a olho nu, sendo um mito originado em 1932 por Robert Ripley.
- Os julgamentos de bruxas em Salém não envolveram queimadas na fogueira, e muitas vítimas foram executadas por enforcamento ou prensadas.
- Mitos populares muitas vezes têm origem em informações não verificadas e são perpetuados por repetição e marketing.
- A honestidade científica e a revisão crítica são essenciais para corrigir erros históricos e culturais.
- É importante questionar informações herdadas para evitar a propagação de falsidades.

## What the video covers

- O vídeo desmente o mito de que a Grande Muralha da China é visível do espaço a olho nu, explicando sua origem e a realidade científica.
- Explica o episódio histórico dos julgamentos de bruxas em Salém, corrigindo equívocos sobre execuções e práticas da época.
- Aborda outras crenças populares e mitos relacionados a fatos históricos, científicos e culturais, mostrando como surgiram e foram perpetuados.
- Mostra como erros e informações falsas foram incorporados em livros, escolas e cultura popular, como o caso do astronauta chinês Yang Liwei.
- Apresenta relatos de astronautas que confirmam a impossibilidade de ver a muralha do espaço, destacando a honestidade científica.
- Descreve o funcionamento do sistema judicial e social durante os julgamentos de Salém, incluindo detalhes sobre procedimentos legais e vítimas.
- Discute a influência da repetição e do marketing na consolidação de mitos e informações erradas na cultura popular.
- Explica a importância de questionar e revisar informações que são tidas como verdades absolutas, incentivando o pensamento crítico.
- O vídeo utiliza exemplos históricos e científicos para desmistificar crenças populares, promovendo conhecimento baseado em evidências.
- Enfatiza a necessidade de corrigir livros didáticos e conteúdos educacionais quando erros são identificados.

## Chapters

1. 00:00 Mito da Grande Muralha da China visível do espaço
2. 04:00 Execução e julgamento de Giles Corey em 1692
3. 08:18 Julgamentos de bruxas em Salém e suas verdades
4. 11:38 Testes sensoriais e desmistificação de crenças
5. 15:48 Lendas e fatos sobre animais e fenômenos naturais
6. 19:27 Apneia e problemas respiratórios explicados
7. 23:10 Análise de comportamentos e mitos culturais
8. 26:10 História das medidas e padrões antigos
9. 37:40 Mitos sobre alimentação e tradições brasileiras
10. 44:30 Conclusões e reflexões sobre mitos e verdades

Answers

## Questions about this video

A Grande Muralha da China pode ser vista do espaço a olho nu?

Não, a Grande Muralha da China não é visível do espaço a olho nu. Esse mito foi criado em 1932 por Robert Ripley e perpetuado por repetição, mas astronautas confirmam que não é possível vê-la devido à sua largura, cor e altitude da órbita.

O que realmente aconteceu nos julgamentos de bruxas em Salém?

Nos julgamentos de Salém, as vítimas não foram queimadas na fogueira, mas sim enforcadas ou prensadas até a morte. O processo premiava a mentira e punia a integridade, resultando em 20 mortes em nove meses, incluindo homens e crianças.

Quem foi Yang Liwei e qual sua importância?

Yang Liwei foi o primeiro chinês a ir ao espaço, em 2003, completando 14 voltas na Terra em 21 horas. Sua missão gerou grande orgulho nacional na China, mas também desmistificou crenças erradas, como a ideia de que a Grande Muralha seria visível do espaço.

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00:00

Speaker A

Em 16 de outubro de 2003, um caminhão do exército chinês parou no meio do nada na Mongólia ao interior e tirou de dentro de uma cápsula chamuscada um piloto de 38 anos chamado Yang Liwei. 21 horas no espaço, 14 voltas na Terra. Primeiro chinês a sair do planeta. Quando ele pisou no chão, o país já tinha um desfile montado, a medalha gravada, o busto encomendado e o selo comemorativo.

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Speaker A

chinês a sair do planeta. Quando ele pisou no chão, o país já tinha um desfile montado, a medalha gravada, o busto encomendado e o selo comemorativo.

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Speaker A

Aí veio a entrevista na televisão com 1 bilhão 300 milhões de pessoas assistindo e alguém fez a única pergunta que importava: se ele tinha visto a muralha lá de cima. O Yang disse que não. Para você medir o tamanho desse silêncio, você precisa saber que na China aquilo ali não era curiosidade de Almanak, não era conteúdo de prova. As crianças aprendiam na escola que a Grande Muralha era a única obra humana que dava para enxergar do espaço. Com aquele orgulho

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Speaker A

você precisa saber que na China aquilo ali não era curiosidade de Almanak, não era conteúdo de prova. As crianças aprendiam na escola que a Grande Muralha era a única obra humana que dava para enxergar do espaço. Com aquele orgulho

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Speaker A

que todo o país tem de alguma coisa que é só dele, o herói nacional acabou de subir, procurar e não achar. Os livros didáticos foram corrigidos depois disso, que é um jeito muito educado de dizer que uma nação inteira estudou errado por décadas. A parte que ninguém conta é que essa mentira tem autor e tem data. O sujeito se chamava Robert Ripley e ele ganhava a vida vendendo espanto. Ele desenhava uma tirinha de jornal que no Brasil chegou como: "Acredite se quiser". E o modelo de negócio era exatamente esse, uma frase curta e nenhuma fonte. Em 1932, ele publicou que a Grande Muralha da China era a maior obra já feita por mãos humanas e a única visível a olho nu da lua. Da lua, cara.

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Speaker A

décadas. A parte que ninguém conta é que essa mentira tem autor e tem data. O sujeito se chamava Robert Hipley e ele ganhava a vida vendendo espanto. Ele desenhava uma tirinha de jornal que no Brasil chegou como: "Acredite se

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Speaker A

384.000 quilômetros daqui. Replay nunca tinha saído do chão, ninguém tinha. E o Gagarin só ia subir 29 anos depois. O cara chutou um fato sobre um lugar onde a espécie humana ainda não tinha posto o pé e esse chute pegou. Em 1938, um escritor de viagem americano chamado Richard Halliburton repetiu a mesma coisa num livro de maravilhas do mundo que vendeu horrores. Repetição: num livro grosso daqueles viram uma verdade. Provavelmente tu conhece esse processo. Quando a humanidade finalmente subiu, veio a parte constrangedora. Um

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Speaker A

384.000 1000 km daqui. Replay nunca tinha saído do chão, ninguém tinha. E o Gagarin só ia subir 29 anos depois. O cara chutou um fato sobre um lugar onde a espécie humana ainda não tinha posto o pé e esse chute pegou. Em 1938, um

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Speaker A

certo astronauta passou 84 dias na Skylab nos anos 70 e voltou dizendo que tinha visto a muralha. Depois foi conferir as coordenadas e descobriu que estava olhando para o grande canal da China, uma via de água. Ele mesmo contou isso em livro, o que exige um tipo de honestidade que a internet perdeu. Os números explicam: "A muralha tem entre 4 e 7 m de largura na maior parte dos trechos. A estação espacial passa a 400 km de altitude. Enxergar aquilo dali é

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Speaker A

certo astronauta passou 84 dias na Skylab nos anos 70 e voltou dizendo que tinha visto a muralha. Depois foi conferir as coordenadas e descobriu que estava olhando pro grande canal da China, uma via de água. Ele mesmo contou

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Speaker A

enxergar um fio de cabelo a 2,5 km de distância. E piorou, porque ela foi construída com a terra e as pedras que estavam do lado. Então tem exatamente a cor do chão em volta. Cinza no cinza, marrom no marrom. Pista de aeroporto. Isso daí dá para enxergar sem esforço. 45, 60 m de asfalto preto em cima de terra clara e reta. Linha reta não acontece na natureza. Rodovia aparece, estufa aparece. A obra mais famosa do planeta perde de longe para o pátio de

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Speaker A

enxergar um fio de cabelo a 2,5 k de distância. E piorou, porque ela foi construída com a terra e as pedras que estavam do lado. Então tem exatamente a cor do chão em volta. Cinza no cinza, marrom no marrom. Pista de aeroporto.

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Speaker A

manobra de um aeroporto qualquer. Marcos Pontes passou dias na estação em 2006, o único brasileiro que subiu até hoje. E a lista de coisas que dá para ver a olho nu de lá é sempre a mesma. Cidade grande à noite, rio, deserto, queimada da lua. Então esquece. De lá, a Terra tem um tamanho de uma bolinha de gude com um braço esticado assim, olhando de longe.

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Speaker A

manobra de um aeroporto qualquer. Marcos Pontes passou dias na estação em 2006, o único brasileiro que subiu até hoje. E a lista de coisas que dá para ver a olho nu de lá é sempre a mesma. Cidade grande

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Speaker A

Não tem muralha, não tem cidade, não tem pirâmide, não tem represa, tem uma bola azul com nuvem em cima. A tirinha do Ripley continua sendo reimpressa.

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Speaker A

Não tem muralha, não tem cidade, não tem pirâmide, não tem represa, tem uma bola azul com nuvem em cima. A tirinha do Replay continua sendo reimpressa.

03:44

Speaker A

Ninguém nunca voltou lá para corrigir. Setembro de 1692, Massachusetts. Um fazendeiro de 81 anos chamado Giles Corey está deitado num descampado com uma tábua de madeira sobre o peito. E os homens da vila vão empilhando pedra em cima dele. Ninguém

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Speaker A

ali estava chamando aquilo de execução. Era procedimento. Corey tinha se recusado a se declarar culpado ou inocente. E a lei inglesa da época previa isso. Daí para quem travava o processo, peso até a pessoa falar dois dias. O que ele falou, segundo o relato

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Speaker A

ali estava chamando aquilo de execução. Era procedimento. Corey tinha se recusado a se declarar culpado ou inocente. E a lei inglesa da época previa isso. Daí para quem travava o processo, peso até a pessoa falar dois dias. O que ele falou, segundo o relato

04:32

Speaker A

pirar no meio da praça com o pastor segurando a Bíblia. 19 pessoas foram enforcadas numa encosta de pedra. O Cory morreu prensado e pelo menos cinco morreram na cadeia esperando julgamento, incluindo um bebê de colo que nasceu preso e não saiu. Também não eram só

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Speaker A

que sobrou, foi mais peso. Morreu no dia 19. Três dias depois enforcaram oito pessoas de uma vez e aquilo encerrou a temporada. Agora, o que você acha que sabe sobre Salém? Ninguém foi queimado ali. Nenhuma bruxa, nenhuma vai

05:04

Speaker A

cadafalo, sem errar uma palavra. Isso pesava porque a crença popular dizia que bruxa trava no Pai Nosso. A multidão hesitou. Coton Metzer, que era o teólogo mais respeitado da colônia, desfez a hesitação em cima de um cavalo, explicando que o demônio sabe muito bem

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Speaker A

pirar no meio da praça com o pastor segurando a Bíblia. 19 pessoas foram enforcadas numa encosta de pedra. O Corey morreu prensado e pelo menos cinco morreram na cadeia esperando julgamento, incluindo um bebê de colo que nasceu preso e não saiu. Também não eram só

05:37

Speaker A

morreu foi exatamente quem se recusou a mentir. O tribunal montou uma máquina que premiava a mentira e matava a integridade sem nenhum sadismo, só por eficiência processual. Ah, e eles mataram dois cachorros. Um levou tiro na vila, o outro em Andover, os dois

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Speaker A

mulheres. Seis dos 20 mortos eram homens. Um deles, George Burroughs, tinha sido pastor daquela mesma vila. O relato que sobrou, escrito por um comerciante de Boston chamado Robert Calef, diz que George recitou o Pai Nosso inteiro em cima do

06:11

Speaker A

territórios alemães da frente com folga. Salve 20 mortos em 9 meses e emprestou o nome pro fenômeno inteiro, um sucesso de marketing involuntário difícil de superar. E aqui, ó, aqui também não teve fogueira, mas por um motivo mais sujo, o

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Speaker A

cadafalso, sem errar uma palavra. Isso pesava porque a crença popular dizia que bruxa trava no Pai Nosso. A multidão hesitou. Cotton Mather, que era o teólogo mais respeitado da colônia, desfez a hesitação em cima de um cavalo, explicando que o demônio sabe muito bem

06:44

Speaker A

velha de família, mesma engrenagem de Salém, 100 anos antes. Só que o condenado grave era embarcado para Lisboa e a fogueira ficava lá. Isaque de Castro Tartas morava no Brasil holandês, foi preso na Bahia, mandado para Lisboa e queimado vivo em 1647

07:03

Speaker A

imitar anjo. Enforcaram a si mesmo. E tenho dado que me tira o sono. Confessar salvava. Mais de 50 pessoas confessaram ser bruxas em Salém e nenhuma delas foi executada porque serviam melhor vivas como testemunha contra os outros. Quem

07:08

Speaker A

E o processo de Salen só terminou de verdade em 2022. A última condenada da lista, Elizabeth Johnson Júnior, nunca tinha sido inocentada e ela passou 329 anos com o nome sujo, porque não teve descendente vivo para reclamar por ela.

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Speaker A

morreu foi exatamente quem se recusou a mentir. O tribunal montou uma máquina que premiava a mentira e matava a integridade sem nenhum sadismo, só por eficiência processual. Ah, e eles mataram dois cachorros. Um levou tiro na vila, o outro em Andover, os dois

07:38

Speaker A

aparecia se a luz batesse de lado, uns quatro fiozinhos de cada lado, clarinho, ridículos. Meu tio olhou aquilo no almoço de domingo, riu de boca cheia e me deu o conselho que todo moleque brasileiro recebe de algum homem mais

07:51

Speaker A

acusados de estar sob influência de bruxaria. Cachorro não confessa. A fogueira que você tem na cabeça é europeia, entre 1000 e meados de 1700. A conta que os historiadores fecham hoje fica entre 40 e 60 mil execuções por bruxaria no continente, com os

08:04

Speaker A

cirurgião. Cortei meu lábio, fui pra escola na segunda com papel higiênico grudado na cara e a certeza absoluta de que dali há uma semana eu ia ter costeleta. Não tive. Raspei de novo. Não tive. Raspei uns do anos, sangrei

08:18

Speaker A

territórios alemães na frente com folga. Salém teve 20 mortos em 9 meses e emprestou o nome para o fenômeno inteiro, um sucesso de marketing involuntário difícil de superar. E aqui, ó, aqui também não teve fogueira, mas por um motivo mais sujo, o

08:31

Speaker A

anatomista americana chamada Mildre Trutter publicou um estudo simples e cruel. Fez os voluntários rasparem uma área do corpo e deixarem outra em paz.

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Speaker A

Brasil não tinha tribunal próprio. Em 1591, desembarcou em Salvador um visitador do Santo Ofício chamado Heitor Furtado de Mendonça. Ele abriu prazo para denúncia e a Bahia se denunciou inteira. Vizinho entregando o vizinho por causa de terra, de dívida, de richa

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Speaker A

criou as fórmulas que a antropologia forense usa até hoje para estimar a altura de uma pessoa a partir de um fêmor. A mulher que passou meses medindo o pelo raspado virou a mulher que devolveu o nome para caixão sem

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Speaker A

velha de família, mesma engrenagem de Salém, 100 anos antes. Só que o condenado grave era embarcado para Lisboa e a fogueira ficava lá. Isaque de Castro Tartas morava no Brasil holandês, foi preso na Bahia, mandado para Lisboa e queimado vivo em 1647

09:29

Speaker A

tanta vida quanto unha cortada. A fábrica fica embaixo no folículo, a milímetros de profundidade e ela não faz ideia de que passou uma lâmina lá em cima. O que muda é o formato da ponta.

09:40

Speaker A

com 20 e poucos anos. Ele podia ter se convertido e ficado vivo. Ele não quis.

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Speaker A

E quando ele empurra para fora de novo, você passa a mão e sente áspero. Toda mulher que já raspou a perna um dia conhece essa sensação. É o mesmo pelo, perdeu a pontinha. Tem isso e tem também que o recém cortado ainda não tomou sol

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Speaker A

E o processo de Salém só terminou de verdade em 2022. A última condenada da lista, Elizabeth Johnson Júnior, nunca tinha sido inocentada e ela passou 329 anos com o nome sujo, porque não teve descendente vivo para reclamar por ela.

10:06

Speaker A

Uma ilusão diótica que dura uns 4 dias. O motor de verdade dessa mentira é outro e é o mais humano de todos. A idade em que você começa a raspar é exatamente a idade em que a testosterona está

10:18

Speaker A

Quem resolveu foi uma turma de oitava série de uma escola pública de North Andover que estudou o caso, redigiu o texto e empurrou o projeto de lei até o governador assinar. Eu era adolescente e tinha um bigode que só

10:31

Speaker A

É a mesma lógica do galo que acha que faz o sol nascer. Se raspar engrossasse o pelo, a calvice teria acabado em 1900 e alguma coisa com o barbeador de R$ 10.

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Speaker A

aparecia se a luz batesse de lado, uns quatro fiozinhos de cada lado, clarinho, ridículos. Meu tio olhou aquilo no almoço de domingo, riu de boca cheia e me deu o conselho que todo moleque brasileiro recebe de algum homem mais

10:52

Speaker A

Quinta série, aula de ciências. aquele livro de capa dura que a professora mandava encapar com plástico transparente e etiqueta com o nomezinho.

11:00

Speaker A

velho da família. Raspa isso, raspa que volta grosso. Peguei o barbeador do meu pai escondido sem espuma, porque espuma era detalhe de gente que sabia o que estava fazendo. Passei a lâmina naqueles quatro fiozinhos com uma seriedade de

11:15

Speaker A

o amargo lá no fundo, quase perto da garganta. Esse desenho tem nome: Mapa da Língua. E ele veio com experimento junto porque a professora mandava molhar o dedo no açucareiro, encortar na ponta da língua e comprovar que dava doce.

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Speaker A

cirurgião. Cortei meu lábio, fui para a escola na segunda com papel higiênico grudado na cara e a certeza absoluta de que dali a uma semana eu ia ter costeleta. Não tive. Raspei de novo. Não tive. Raspei uns dois anos, sangrei

11:38

Speaker A

Depois você testa. Se tiver um café aí do lado, testa aí. Encosta no meio da língua, encosta na lateral, encosta lá atrás. vai ficar amargo em todo canto e você acabou de derrubar um desenho que sobreviveu a umas quatro gerações de

11:51

Speaker A

bastante e a única coisa que cresceu naquele período foi minha capacidade de me enganar. Um detalhezinho que me irrita até hoje é que essa dúvida já estava resolvida havia 60 anos quando meu tio abriu a boca. Em 1928, uma

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Speaker A

concentração mínima em que a pessoa acusa o gosto. Ele achou diferença de verdade. A ponta acusa doce com um tiquinho menos de açúcar. O fundo acusa amargo com um tiquinho menos de quino.

12:19

Speaker A

anatomista americana chamada Mildred Trotter publicou um estudo simples e cruel. Fez

12:37

Speaker A

Área, o sujeito que escreveu a história oficial da psicologia experimental num calhamaço que virou leitura obrigatória em universidade do mundo inteiro. Em 1942, Edwin pegou os números do Higuo, sem avisar que a escala era relativa.

12:53

Speaker A

Diferença de tiquinho plotada em gráfico vira uma montanha. E aí acontece a parte que ninguém pensa que é como um livro didático é feito de verdade. O ilustrador não vai atrás de uma revista alemã de 1901 e escrita em gótico. Ele

13:08

Speaker A

abre o livro mais respeitado que tem em cima da mesa, que era o do Buring. Olha a montanha e desenha uma fronteira em volta dela. A fronteira é a mentira. Ela transformou um pouco mais sensível aqui em só aqui. Cada edição nova copiou a

13:23

Speaker A

anterior e a linha foi ficando mais grossa. Em 1974, uma pesquisadora americana chamada Virgínia Collins fez a medição direito, língua e céu da boca e confirmou que já estava lá em 1901. Você sente tudo em todo lugar. Meio século

13:39

Speaker A

depois dessa correção, o desenho continua rodando na internet como curiosidade de perfil de ciências. Tem outra coisa que entrega o desenho e ela é anterior a ele. Em 1908, em Tóquio, um químico chamado Kikuna Keda ficou incomodado porque o caldo de alga a

13:56

Speaker A

mulher dele fazia tinha um gosto que não cabia em nenhuma das quatro caixinhas. Ele isolou o glutamato e batizou de o mami. Patenteou no ano seguinte e o pozinho branco que saiu daquilo acabou no armário da sua avó. Quer dizer que o

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Speaker A

mapa da língua já nasceu com uma casa faltando e o receptor do umame só foi confirmado nos anos 2000. A anatomia acaba com o que sobrou. Você tem entre 8.000 botões gustativos e dentro de cada botão tem célula respondendo a mais de

14:25

Speaker A

um gosto ao mesmo tempo. Ainda tem receptor no céu da boca, na garganta, na epíglote. Território é uma ideia que não se aplica ali dentro. O fiapo de verdade que sobra é o fundo da língua com um amargo. Ali a sensibilidade é mesmo um

14:39

Speaker A

pouco maior. E a explicação é de sobrevivência. Amargo é o sabor da maior parte das plantas que te matam. E o último posto de fiscalização antes de você engolir fica exatamente onde mora o reflexo de vômito. O quintal também

14:52

Speaker A

tinha as mentiras dele e essa aqui eu levei até bem depois de adulto. Tem um filhote no chão. Do lado do tanque, cinza gordinho, penugem em pé na cabeça, rabo que ainda não existe e o canto do bico amarelo molinho. Ele pula sem sair

15:06

Speaker A

do lugar e abre a boca para qualquer sombra que passe. Você tem uns 7 anos e a sua mão já está a meio caminho quando alguém que gosta de você grita do outro lado: "Não pega. Se você pegar, a mãe

15:18

Speaker A

sente o cheiro de gente e abandona". Não existe estudo que sustente isso, nenhum. Os laboratórios de ornitologia passam décadas enfiando a mão em ninho para aninhar filhote, pesar, medir bico e devolver. E os pais voltam para alimentar sempre. Quem trabalha com

15:33

Speaker A

resgate de fauna manda exatamente o contrário do que o seu quintal mandava. Pega com a mão mesmo e põe de volta. A justificativa que costuma vir grudada no mito também tá errada. Dizem que passarinho não tem olfato. Tem. Urubu

15:48

Speaker A

acha a carcaça escondida embaixo de mato fechado pelo cheiro de longe. E Albatrozarejou o óleo de peixe no meio do oceano aberto. A lenda se apoia em duas pernas quebradas. Agora a parte que muda o que você faz no domingo de manhã.

16:01

Speaker A

Porque o mito te impede de enxergar uma diferença que é simples. Filhote no chão vem em dois tipos. Se ele tá pelado ou com um penuja em rala, olho fechado, sem firmeza para ficar em pé, esse caiu.

16:13

Speaker A

Procura o ninho num galho perto, põe de volta, se afasta e observa de longe por uma hora. Ninho quebrado se resolve com uma vasilha furada no fundo, forrada com folha seca e amarrada no mesmo galho. Se ele tá empumado, rabo curto, pulando e

16:28

Speaker A

batendo asa desengonçado no chão, esse não caiu. Esse saiu por conta própria. É a fase em que passarinho aprende a voar caindo e leva dias. Os pais estão a poucos metros de você calados esperando você sumir para descer com a comida no

16:42

Speaker A

bico. Levar esse para casa é sequestro. E no Brasil tem nome e artigo na lei de crimes ambientais. Onde o seu cheiro pesa é numa direção que ninguém te contou. Ele não afasta a mãe. Ele chama gato, cachorro e gambá que caçam pelo

16:56

Speaker A

faro e adoram um rastro humano fresco, levando direto para um ninho baixo. Ficar rondando o lugar faz mais estrago do que encostar. Intervir vale quando tem gato de olho, quando ele tá no meio da rua, quando tem sangue, mosca ou asa

17:10

Speaker A

pendurada torta. Aí você liga pros setas da sua região ou pra linha verde do Ibama. E a única coisa que você faz enquanto espera é uma caixa de papelão furada com um paninho no fundo num canto escuro e sem barulho. Nada de água na

17:22

Speaker A

boca, nada de pão com leite, nada de alpiste, nada de mamadeira de contagotas. Isso mata mais filhote no Brasil do que gato de vizinho. E o mito, no fundo, foi um bom pai. Ele existe porque adulto nenhum consegue explicar

17:35

Speaker A

carrapato, piolho de pombo e salmonela para uma criança de 7 anos no meio do quintal com a mão suja. E a mãe abandona. Resolve em quatro palavras e funciona na hora. Isso funcionou tão bem que atravessou o século e virou o motivo

17:49

Speaker A

pelo qual adulta hoje passa reto por um bicho que dava para salvar em 2 minutos.

17:53

Speaker A

Passarinho gasta três semanas construindo ninho, chocando e voando de 15 em 15 minutos com larva no bico.

18:00

Speaker A

Abandono quando acontece é quase sempre lá atrás, na fase do ovo, antes de todo esse investimento. Aquela do passarinho no máximo, faz você passar reto. Essa outra faz gente enfiar a mão dentro da boca de um desconhecido. Copenhagen, 12

18:14

Speaker A

de junho de 2021. 43 minutos do primeiro tempo de Dinamarca e Finlândia pela Eurocopa. Christian Eringsen, 29 anos, meiocampista, vai receber um lateral e cai sozinho no gramado. Ninguém tinha encostado nele e metade do planeta que estava vendo aquilo ao vivo pensou a

18:33

Speaker A

mesma frase ao mesmo tempo, a frase que todo mundo aprendeu na vársia, segura a língua dele. O que devolveu o Eriksen pro futebol profissional foi massagem cardíaca e um desfibrilador que estava dentro do estádio. A língua dele nunca

18:47

Speaker A

esteve em risco porque ninguém engole a própria língua. Isso é anatomia de primeiro semestre. Tem um freio embaixo da sua língua, o frenulo, e você consegue enxergar ele agora se você levantar a ponta na frente do espelho. O

19:00

Speaker A

músculo principal dela nasce grudado na sua mandíbula por dentro do queixo. Pra língua descer pela garganta, ela teria que se soltar de dois pontos de ancoragem e sair inteira do lugar. Um desmaio não faz isso. Isso é amputação.

19:13

Speaker A

O mito nasceu de uma coisa real e é por isso que ele resiste tanto. Quando a pessoa desmaia mesmo, a musculatura relaxa toda e a base da língua, que é uma peça grossa e pisada, cai para trás e encorta na parede da garganta. O ar

19:27

Speaker A

para de passar. Você deve conhecer a versão leve disso, que chama ronco. A versão grave chama apneia. Então, alguém em algum século vê um sujeito desacordado parando de respirar com a boca cheia de língua e deu o nome errado

19:42

Speaker A

pro fenômeno certo. Na convulsão, a história inverte. Ali a musculatura não relaxa, ela contrai inteira ao mesmo tempo. Mandíbula inclusa. A mordida na língua acontece nos primeiros segundos antes de você atravessar a sala. Quando a sua carteira, a colher de pau ou o seu

19:58

Speaker A

dedo entram naquela boca, o estrago já aconteceu. E o que você está acrescentando é dente quebrado, caco solto descendo pra traqueia e a sua falange no chão. Entre 1 e 2% dos brasileiros vivem com epilepsia. Isso é gente suficiente para você presenciar

20:14

Speaker A

uma crise na fila do mercado, no pátio da escola do seu filho ou dentro de um ônibus lotado com alguém do lado gritando para segurar a língua. O que fazer é mais curto do que parece. Não segura a pessoa, não põe nada na boca,

20:26

Speaker A

põe alguma coisa macia embaixo da cabeça, tira o óculos dela, afrocha a gola e olha no relógio, porque o tempo é a primeira informação que o socorrista vai pedir. Quando os movimentos pararem, vira ela de lado na posição lateral de

20:40

Speaker A

segurança pra saliva e o vômito escorrerem para fora em vez de descerem. e liga o 192. Se a crise passar de 5 minutos, se emendar uma na outra, se ela não acordar depois, se estiver na água, se estiver grávida, se tiver se

20:54

Speaker A

machucado na queda, ou se foi a primeira vez na vida dela. Se for como no gramado de Copenhag, a pessoa apagada e sem respirar, sem convulsão nenhuma, o roteiro é outro, 192 e compreensão no meio do peito, forte e rápido, sem parar

21:09

Speaker A

até chegar à ajuda ou aparecer um desfibrilador. Os manuais de primeiros socorros precisaram escrever com todas as letras. Não coloque nada na boca.

21:18

Speaker A

Manuel só escreve uma frase dessas depois que muita gente já colocou. Barritos. Arena lotada. Um peão de 20 e poucos anos amarrado em cima de um touro de quase 1000 kg dentro do bret. Abre o portão. 8 segundos de pancada. O animal

21:32

Speaker A

girando e coiceando. O peão voando longe. E não tem uma única coisa vermelha ali dentro. Nem a camisa do peão, nem o chapéu, nem pano nenhum. Mas o touro tá possesso do mesmo jeito.

21:45

Speaker A

Guarda essa imagem porque ela já é metade da resposta. A cena que colou na cabeça do mundo é a outra. Arena espanhola, areia amarela, o homem de roupa bordada com um pano vermelho tremendo no braço e o touro vindo em

21:58

Speaker A

cima. A história que veio junto com a imagem foi essa. O boi vê vermelho e enlouquece. O boi não vê vermelho. Não é que ele deixa de gostar, ele não enxerga mesmo. Falta a peça. Funciona assim. No fundo do seu olho tem três tipos de

22:12

Speaker A

sensor de cor. Um responde ao azul, um responde ao verde, um vai responder ao vermelho. E é a mistura dos três que monta o mundo colorido que você conhece.

22:21

Speaker A

Aí o olho do boi tem dois. O que faltou foi justamente o do vermelho. Então aquele pano escarlate, do ponto de vista do animal, é um borrão escuro, sem graça, mais ou menos da cor de terra molhada. Seu cachorro é igualzinho, duas

22:35

Speaker A

peças só. É por isso que ele passa duas vezes por cima da bolinha vermelha caída na grama. E você jura que ele ficou bobo? Ele tá vendo duas coisas escuras no mesmo tom, uma do lado da outra. O

22:46

Speaker A

que salta pro olho do boi é azul e amarelo. Vermelho é só mais um borrão no meio dos outros. O que faz ele atacar é o pano se mexendo, movimento brusco na altura da cabeça num animal que já tá no

22:58

Speaker A

limite. E antes desse pano vermelho entrar em cena, o touro já levou lançada de cima de um cavalo e já tá com farpa cravada no lombo. O que vem correndo é um bicho com dor, cansado e sem entender

23:10

Speaker A

onde é que ele tá. E qualquer outra coisa que balançar na frente dele vai levar chifrado, seja lá de que cor for.

23:17

Speaker A

Um programa de televisão americano fez esse teste do jeito mais óbvio possível. Puseram pano branco parado e pano vermelho parado dentro da arena e o touro ignorou os dois. Depois puseram uma pessoa se mexendo com pano de cor

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Speaker A

clara e ele foi para cima da hora. O vermelho da tourada tem uma explicação bem mais suja do que a lenda. Ele não tá ali pro touro, tá ali pra plateia.

23:38

Speaker A

Aquele pano só entra na parte final quando o animal já está sangrando faz tempo e a cor serve para disfarçar o sangue no tecido. A capa que usam no começo da tourada nem vermelha é, é rosa e amarela. E no rodeio de Barretos, o

23:51

Speaker A

que faz o touro pular daquele jeito é o sedem, aquela faixa apertada passada na virilha do bicho, mais o susto do portão abrindo na cara dele. Cor não entra na conta em nenhum momento. Se você quiser saber o que mexe de verdade com o boi,

24:04

Speaker A

pergunta para quem trabalha com gado. Uma pesquisadora americana passou a vida dela inteira redesenhando o curral e ela descobriu que boi trava de andar por causa de sombra no chão, poça de água, mudança na cor do piso, corrente

24:16

Speaker A

balançando no portão. sombra. O bicho para o rebanho inteiro por causa de uma faixa escura no cimento e não registra o vermelho da sua camisa. O português guardou o erro numa expressão que todo mundo usa até hoje sem desconfiar de

24:29

Speaker A

nada. Ficou feito touro em pano vermelho. Boi e vermelho, pelo menos é coisa que você viu de longe pela televisão. Essa outra as pessoas juram ter visto de perto. Tem coveiro no interior do Brasil que já ouviu a mesma

24:41

Speaker A

pergunta umas mil vezes. Sempre no mesmo tom baixo. Sempre de alguém da família. E é verdade que a unha continua crescendo? A tia jura que o pai dela estava com a barba mais fechada no dia do enterro do que na noite do velório.

24:54

Speaker A

Alguém confirma com a cabeça e o assunto morre ali, porque ninguém quer discutir aquilo com o caixão aberto na sala. Não cresce nada, nem fio de cabelo, nem unha, nenhum 1hum milímetro. Para nascer unha e cabelo, o corpo precisa de sangue

25:07

Speaker A

chegando, de açúcar e oxigênio sendo entregues numa fábrica que fica embaixo da pele e de célula se dividindo o tempo inteiro. Isso é serviço caro e contínuo e ele para junto com o resto em minutos.

25:19

Speaker A

O que as pessoas vêm é o corpo secando. Sem circulação, o corpo perde água e a pele encolhe. Na ponta do dedo, a pele que cobria a base da unha recua e deixa aparecer uma tira branca que já estava

25:30

Speaker A

ali embaixo o tempo todo. No rosto, a pele murcha em volta de cada fio de barba e o fio, que continua exatamente no mesmo tamanho, fica mais para fora. 1 mm, dois, no máximo. E essa conta nem fecha, porque unha de gente viva cresce

25:44

Speaker A

uns 3 mm por mês. Em três dias, mesmo se crescesse de verdade, não daria para enxergar diferença nenhuma. Agora, soma isso aí. A pele perdendo a cor. Fio escuro em cima de pele pálida salta muito mais do que o mesmo fio em cima de

25:58

Speaker A

uma pele corada. Boa parte do que a tia viu foi contraste. E tem um detalhe bem sem graça que ninguém lembra na hora. A funerária faz a barba e apara a unha do defunto antes de abrir o caixão, porque

26:10

Speaker A

isso faz parte do serviço. Aí a família olha o rosto na noite do velório, olha de novo no dia seguinte com outra luz e com a cabeça em outro lugar e compara duas memórias que já não batiam desde o

26:20

Speaker A

começo. Essa confusão é velha e já rendeu coisa bem pior que fofoca de velóri. Na Europa do século XVI, quando começaram a abrir cova para investigar morte estranha em vilarejo, encontraram exatamente isso. Corpo com cabelo e unha parecendo maiores, barriga inchada como

26:37

Speaker A

se o defunto tivesse comendo bem, sangue escorrendo pelo canto da boca, empurrado para fora pelos gases da decomposição.

26:44

Speaker A

Junta essas quatro coisas e você tem com todas as letras a descrição de um vampiro. Boa parte daquela lenda saiu de gente honesta, olhando para um corpo, secando e explicando com o vocabulário que tinha na época. E esse é o único

26:57

Speaker A

mito deste vídeo que você não pode conferir em casa, o que ajuda bastante a explicar por que ele nunca morreu. No Brasil isso continua acontecendo toda semana. Na exumação de rotina, quando o túmulo é aberto anos depois praçada e

27:10

Speaker A

proário, o coveiro vê alguém da família pergunta e a história sai de lá inteira de novo. Essa do defunto não machuca ninguém. A próxima parece do mesmo tipo, boba. Coisa de vó. E ela já ajudou a matar criança. Dezembro, casa da tia,

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Speaker A

piscina de borda azul, mesa com maionese e farofa derretendo no som. Você tem 9 anos, acabou de comer e já tá com o pé na escadinha quando vem a sentença de cima. Sai daí. 2 horas. Toda criança brasileira já cumpriu pena nessas 2

27:38

Speaker A

horas. E não existe um caso documentado de alguém que morreu afogado porque tinha comido. A regra chegou aqui pronta de fara. Manual de escoteiro americano do começo do século passado. Conselho de revista. Coisa repetida tanta vez que atravessou o oceano com autoridade de

27:54

Speaker A

quem nunca foi conferido. O que acontece depois que você come é simples. O seu corpo vai mandar mais sangue pro estômago para dar conta da comida. Manda mais, não manda tudo. Sobra de sobra pro braço e pra perna trabalharem normal.

28:07

Speaker A

Câimbra na água existe, mas ela vem de água fria, de cansaço, de nadar forte demais sem tá acostumado e vem com barriga cheia ou vazia do mesmo jeito. E câimbra sozinha não afoga quem sabe nadar. Dói, trava a perna, você boia de

28:21

Speaker A

costas e espera passar. Enquanto a família inteira vigiava o relógio, o perigo estava solto na mesma festa. Mais de 5.000 brasileiros morrem afogados todo ano. No adulto, o nome do problema quase sempre é cerveja. Churrasco, sol na cabeça, uma seis. e o mergulho de

28:37

Speaker A

cabeça, que parecia uma ótima ideia. Na criança pequena de até quatro ou 5 anos, o afogamento nem acontece em piscina funda, acontece em balde, em piscininha de plástico de 30 cm, em caixa d'água destampada, em tanque de quintal, 30 cm

28:53

Speaker A

bastam. Na praia o que puxa a gente pro fundo é a correnteza de retorno, aquilo que o pessoal litoral chama de vala. É uma faixa de água mais calma e mais escura, sem onda quebrando, bem no meio de um mar cheio de onda dos dois lados.

29:06

Speaker A

Parece o melhor lugar para entrar com uma criança. É a porta de saída da água, uma esteira levando para fora. Se você um dia cair numa, não nada contra ela e não tenta voltar em linha reta pra areia, porque ninguém ganha dessa briga.

29:19

Speaker A

Deixa levar, nada de lado, paralelo à praia, sai da faixa e só então volta e levanta o braço. Enquanto isso, entrar no mar perto da bandeira do guarda-vidas resolve boa parte disso antes de começar. E tem a parte que quase ninguém

29:33

Speaker A

sabe que é a que mais salva. Afogamento não parece afogamento. No cinema, a pessoa grita, bate os braços e espirra água para tudo quanto é lado. Na vida real, ela fica de pé dentro da água, calada, com a cabeça inclinada para trás

29:46

Speaker A

e a boca no nível da superfície, os braços empurrando a água para baixo do lado do corpo para tentar subir o rosto.

29:51

Speaker A

Não grita porque a boca está ocupada tentando respirar. Isso dura de 20 a 60 segundos e termina embaixo. Criança se afoga sim em silêncio, a 3 m de um adulto que está olhando bem na direção dela. E se você reconhecer essa cena, a

30:05

Speaker A

pior coisa que dá para fazer é pular atrás. Quem tá se afogando agarra e sobe em cima de quem chega perto. E os dois acaba virando e vira dois afogando. Você pode jogar alguma coisa que boia, estende um cabo de vassoura, uma

30:18

Speaker A

pranche, uma corda e grita por socorro antes de qualquer outra coisa. 1000 anos antes de existir guardavidas, quem mais entrava em água gelada na Europa era um bando de fazendeiros do norte que acabou virando lenda. E você sabe exatamente

30:31

Speaker A

como que eles eram. Barba grande machado na mão e um capacete de metal com dois chifres saindo dos lados. Esse capacete aí nunca existiu. Não é que seja raro, é que nunca apareceu nenhum. Já foram escavadas centenas de sepulturas viking,

30:46

Speaker A

navios inteiros enterrados, milhares de peças de ferro e o único capacete daquela gente que apareceu quase inteiro foi achado numa fazenda da Noruega nos anos 40. Ele é uma calota redonda de ferro com uma barra cruzando à frente

31:00

Speaker A

para proteger os olhos. Parecido com um óculos de sol, sem chifre nenhum. E olha que ele é praticamente o único, porque capacete era caro. A maioria daquela gente ia pra briga com um gorro de couro ou com a cabeça descoberta mesmo, porque

31:15

Speaker A

ferro custava o preço de uma vaca e vaca dava leite. E existe um motivo bem mais simples pro chifre nunca ter existido.

31:21

Speaker A

Chifre em capacete é a pior ideia possível numa luta. Você está dando duas alças pro sujeito da frente. Ele segura, torce e o seu pescoço vai junto. Fora que engancha em corda de navio, em porta baixa, em galho e desequilibra a cabeça

31:36

Speaker A

pra frente o tempo todo. Quem tentasse isso uma vez não ia estar vivo para tentar de novo. Agora, capacete com chifre existe de verdade em museu, só que ele é de outro povo e de outra era.

31:49

Speaker A

Acharam dois deles num pântano na Dinamarca, feitos de bronze e eles são mais ou menos 1000 anos mais velhos que o primeiro viking. era um objeto de cerimônia, coisa de ritual religioso, provavelmente usado por alguém rezando e não por alguém brigando. Tem outro

32:05

Speaker A

parecido achado dentro de um rio na Inglaterra e esse é tão fino que amassaria com um tapa. Então, de onde saiu essa imagem que tá na sua cabeça?

32:14

Speaker A

saiu do século XIX, quando a Europa inteira entrou numa febre de inventar antepassado bonito. Cada país queria um ancestral heróico para chamar de seu. E artista foi contratado para desenhar isso. Um ilustrador sueco já tinha posto chifre em capacete lá pelos anos 20

32:29

Speaker A

daquele século, num livro de poema heróico sobre o norte. E o golpe final veio em 1876 numa cidadezinha da Alemanha, num festival de ópera gigantesco sobre deuses e guerreiros nórdicos. Foi a maior produção que a Europa tinha visto

32:44

Speaker A

até então, com plateia vindo de todo canto, jornal do continente inteiro cobrindo. O figurinista daquela montagem precisava que o público olhasse pro palco e entendesse na hora quem era aquela gente do norte. Ele pôs tifre em uns capacetes e asa em outros. Deu certo

33:00

Speaker A

demais. A imagem saiu do palco, foi pro jornal, do jornal pro cartaz, do cartaz pro desenho animado. E hoje tá em fantasia de carnaval, em escudo de time americano e em placa de churrasqueira brasileira que serve costela. Museu na

33:13

Speaker A

Escandinávia hoje explica tudo isso numa plaquinha com o capacete verdadeiro do lado e vende o chifre na lojinha da saída porque o turista não vem de tão longe para levar uma calota de ferro.

33:25

Speaker A

Aquele chifre foi trabalho de um figurinista com um prazo para entregar. O caso seguinte é obra de um desenhista também, com uma diferença. Esse fez de propósito para ajudar a ganhar uma guerra. 5 de maio de 1821, ilha de Santa Helena, no meio do

33:39

Speaker A

Atlântico. O médico que acompanhou Napoleão nos últimos anos mede o corpo e anota no papel: cinco pés e duas polegadas. Esse número atravessou o mar e virou piada por dois séculos, porque cinco pés e 2 polegadas em medida

33:54

Speaker A

inglesa dá 1,57 m, baixinhos de verdade. Só que o médico era francês e mediu com régua francesa. E aí mora o problema, porque naquela época cada país tinha o seu pé e a sua polegada e eles não eram

34:07

Speaker A

do mesmo tamanho. A polegada francesa era maior que a inglesa. fazendo a conta com a régua certa, aqueles cinco pés e 2 polegadas dão 1,68 m, quase 1,69 m. 1,68 m em 1821 não era baixo. O francês adulto na época tinha em média 1,64.

34:26

Speaker A

Napoleão era um pouco mais alto que a média dos homens do próprio país. Tem duas coisas que ajudaram a mentira a colar. E a primeira é engraçada de tão simples. A guarda pessoal dele era escolhida por tamanho. Para entrar

34:38

Speaker A

naquele grupo, o sujeito tinha que ter perto de 1,78 m, que naquele tempo era um gigante. Então, em todo lugar que ele aparecia e em todo o quadro que pintaram nele, Napoleão está cercado de homens muito maiores que ele. Ele mesmo montou

34:53

Speaker A

a moldura que o fez parecer pequeno. A segunda é que os próprios soldados chamavam ele de o pequeno cabo, só que aquilo ali era um apelido carinhoso de tropa, do jeito que time de futebol chama o craque de menino. Ninguém estava

35:07

Speaker A

falando de altura e o apelido viajou solto até virar prova. Aí entra o desenhista. A Inglaterra passou 20 anos em guerra contra esse homem. E a arma mais barata que existe contra um inimigo grande é fazer ele virar motivo de

35:20

Speaker A

piada. Um caricaturista de Londres criou um personagem, um Napoleãozinho do tamanho de uma criança de bota grande e chapéu enorme, esperneando de raiva em cima de um mapa. Aquilo saía em gravura, ficava na vitrine das lojas e gente que

35:35

Speaker A

nunca ia ver o homem de verdade na vida via aquele bonequinho toda semana durante anos. Milhões de pessoas conheceram um desenho, umas poucas conheceram o sujeito. A piada pegou tão bem que virou termo técnico. No começo do século XX, um psicólogo austríaco

35:50

Speaker A

descreveu aquele comportamento de quem compensa uma falta se impondo demais. E o nome popular que colou para isso foi complexo de Napoleão, um diagnóstico batizado com o nome de um cara que não era baixo. E o detalhe que fecha isso

36:03

Speaker A

com chave de ouro é atual. Hoje o brasileiro adulto tem em média 1,73 m.

36:09

Speaker A

Quer dizer que 1,68 agora é mesmo abaixo da média. A piada continua funcionando dois séculos depois, mas por um motivo que não existia quando ela foi inventada. Essa foi mentira de guerra. A próxima é de família e ela acontece todo

36:22

Speaker A

ano na mesma cadeira. 25 de dezembro, 3 da tarde, 35º, ventilador de colunas girando para ninguém. Seu tio tá na cadeira de plástico com o prato ainda equilibrado na perna, com a boca aberta, dormindo, o sono dos justos. E alguém da

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Speaker A

família olha para ele, aponta e dá o veredito. É o peru. O peru não fez nada.

36:43

Speaker A

A história começa com um pedaço de proteína chamado triptofano. Isso aqui não é frescura de rótulo. É uma peça que o seu corpo usa como matériapema para fabricar substâncias que regulam humor e sono. Ele existe mesmo, funciona mesmo e

36:57

Speaker A

tem peru. Até aí a fofoca tá certa. O problema é que ele não tem só em peru, tem em frango, em ovo, em queijo, em carne de porco, em peixe, em feijão, em amendoim. E se você for medir garfada

37:10

Speaker A

por garfada, queijo e carne de porco tem mais triptofano que peru. Ninguém nunca culpou o queijo Minas por sono nenhum.

37:17

Speaker A

Agora, a parte que explica a maioria das coisas e ela é fácil de entender. Para esse pedacinho entrar no seu cérebro, ele precisa pegar uma fila. E essa mesma fila é usada por um monte de outros pedaços de proteína que vieram na mesma

37:31

Speaker A

garfada. Quando você come um prato de carne, você enche a fila inteira de concorrente e o triptofono fica lá atrás empurrado. É por isso que existe cápsula de triptofono vendida em farmácia com instrução de tomar de estômago vazio.

37:47

Speaker A

Sozinho ele entra, acompanhado ele não passa. Ou seja, o único jeito de o peru te derrubar seria comer peru puro, sem mais nada na mesa, numa quantidade que nenhuma família brasileira ia aguentar.

37:59

Speaker A

O que derrubou o seu tio está na mesa inteira e não naquela ave. Arroz, farofa maionese pernil panetone rabanada. Uma refeição enorme faz o corpo mandar sangue e energia pro trabalho de digerir. E digerir aquilo ali é obra pesada, junta com 35 g, com a

38:15

Speaker A

cerveja da tarde, com a ceia que terminou às 2 da manhã e com o ano inteiro de cansaço acumulado, chegando na conta do mesmo dia. E a prova de que a culpa é do tamanho da refeição e não

38:26

Speaker A

do bicho tá no seu domingo. A feijoada, por exemplo, ela derruba brasileiro com uma eficiência que Peru nenhum alcançou na vida. Ninguém nunca culpou o feijão preto. Ninguém nunca disse que a linguiça calabresa tem uma substância misteriosa. A gente aceita numa boa que

38:41

Speaker A

feijoada da sono, porque é óbvio, e depois inventa química para explicar exatamente a mesma coisa no Natal. Ainda tem a bebida que engana todo mundo. O álcool faz você apagar mais rápido e dormir muito pior, com sono picado e

38:54

Speaker A

raso. Aquilo não é descanso, é desligamento. E esse sono de barriga cheia tem hora para chegar e hora para ir embora. Ele bate mais forte entre meia hora e uma hora depois de você largar o garfo e passa sozinho. Levantar

39:07

Speaker A

da cadeira e dar uma volta no quarteirão resolve mais do que qualquer teoria sobre a ave. O Peru chega uma vez por ano, sai caro, dá trabalho de assar e ainda leva a culpa por um crime cometido pela mesa inteira. A família tem outra

39:20

Speaker A

dessas e essa aqui é mais séria porque ela vem com um defunto na história. Você tá na cozinha, calorzão, manga madura na fruteira e um copo de leite na mão. E aí vem a voz de trás. junto, não. Manga com

39:32

Speaker A

leite mata. Sua avó falava isso, a mãe dela falava. E o argumento que fecha a discussão é sempre o mesmo. Morreu um menino aqui perto. Repara nesse menino porque ele é o personagem mais importante desse mito. Ele nunca tem

39:44

Speaker A

nome, nunca tem sobrenome, nunca tem o ano, nunca tem a rua e nunca tem a matéria de jornal. Ele morreu perto de todo mundo e não morreu perto de ninguém. Manga é uma fruta, água, açúcar, fibra e um pouco de ácido. Leite

39:59

Speaker A

é proteína, gordura e água. Não existe reação entre essas duas coisas que produz a veneno. E o seu estômago já é ácido de qualquer jeito, muito mais ácido que a manga. Seu leite talhasse por causa disso, ele talharia com

40:11

Speaker A

laranja, com abacaxi, com maracujá e aí a lanchonete brasileira teria fechado faz tempo. Na Índia se toma manga batida com leite e yorgute como se fosse suco de laranja todo dia, num país de mais de 1 bilhão de pessoas. Aqui você toma

40:25

Speaker A

vitamina de manga com leite em qualquer padaria e o balconista nem pisca. Agora vem a parte que eu acho mais interessante e ela é sobre a mentira que colaram em cima da mentira. Se você perguntar de onde veio essa história,

40:37

Speaker A

alguém vai te dar aquela resposta que parece explicar tudo, que foi invenção de senhor de engênio, que espalhou o boato para escravizado não tomar leite na época da manga, porque leite era caro e manga tinha de graça no pé. Essa

40:50

Speaker A

versão é contada em tudo quanto é lugar. Já vi em livro, em programa de televisão, em professor de escola. Meu tio já me contou ela e ela tem um problema. Ninguém nunca achou um documento. Historiadores foi atrás e não

41:02

Speaker A

existe nenhum registro do período dizendo isso. A explicação aparece muito depois, já pronta, para justificar um medo que as pessoas já tinham. Quer dizer que o povo primeiro acreditou e só depois inventou o motivo pelo qual acreditava. E olha, senhor de engenho

41:17

Speaker A

fez maldade documentada de sobra, coisa que tá escrita em papel com data e assinatura. Essa aqui específica é que não tem lastro. O que provavelmente aconteceu é bem menos cinematográfico. A manga chegou no Brasil, vinda da Ásia lá

41:30

Speaker A

pelos anos 1700 e se deu bem demais. Virou uma fruta de quintal, aquela que cai no chão e apodrece de tanto que sobra. Ela dá justamente no calor e naquele tempo não existia geladeira. O leite ficava no balde, na temperatura

41:44

Speaker A

ambiente, num país onde a sombra tem 30º. Leite estragado derruba adulto. Imagina criança, a fruta caída no chão, comida sem lavar também. Então tinha gente passando muito mal na época da manga e passando mal de verdade. Só que

41:57

Speaker A

o culpado era o balde parado no sol e a fruta do chão. E a memória popular, que é preguiçosa e muito boa de decorar, guardou as duas coisas que estavam em cima da mesa naquele dia. Essa mentira aí ninguém ganha dinheiro. A última

42:10

Speaker A

custa caro e tem gente vivendo dela até hoje. Palco, luz baixa, um sujeito de microfone na cabeça andando de um lado pro outro na frente de 300 pessoas que pagaram ingresso para estar ali no sábado. Nos primeiros 10 minutos, ele

42:23

Speaker A

vai chegar na frase: "Você usa só 10% do seu cérebro". Imagina o que você faria com o resto ele não inventou isso não.

42:31

Speaker A

Essa conversa é mais velha que o avô dele. No começo do século XX, um filósofo americano escreveu que as pessoas aproveitam só uma parte pequena dos recursos mentais que tem. Ele não deu número nenhum. Era uma frase de

42:43

Speaker A

incentivo, quase poética. Aí nos anos 30 sai um livro de autoajuda que virou o maior bestseller do mundo, aquele de como fazer amigos e influenciar pessoas.

42:52

Speaker A

No prefácio dele apareceu o número redondo pela primeira vez, 10%. Número redondo é a coisa mais perigosa que existe, porque ele parece que foi medido. E dá para derrubar isso de quatro jeitos diferentes. O primeiro é o exame de imagem. Já escanearam cérebro

43:07

Speaker A

de gente fazendo de tudo, dormindo, resolvendo conta, chorando, com fome. Nunca apareceu uma região apagada.

43:14

Speaker A

Nunca. Ao longo de um dia normal, o cérebro inteiro trabalha. O segundo é o mais doido. Se 90% fosse sobra, dava para perder essa parte sem prejuízo nenhum. Só que aí não tem pedaço de cérebro que você perca de graça, onde um

43:27

Speaker A

derrame do tamanho de uma azeitona tira a fala de uma pessoa ou tira o lado direito do corpo, ou tira a capacidade de reconhecer o rosto da própria mulher.

43:35

Speaker A

Não existe uma área reserva. O terceiro é a conta de luz. Seu cérebro é 2% do seu peso e come perto de 20% de toda a energia que você gasta no dia. Nenhum corpo que passou milhões de anos com

43:48

Speaker A

fome ia sustentar um depósito vazio desse tamanho. E o quarto é que já enfiaram um elétrodo em pedacinho minúsculo de cérebro, célula por célula, e responde em todo lugar que se cutuca.

43:58

Speaker A

Desse mesmo balcão sai a outra que você já ouviu, a de que existe gente do lado esquerdo, lógica e certinha, e gente do lado direito, criativa e artística. Essa aqui começou com uma pesquisa séria dos anos 60 em pacientes que tinham crise

44:13

Speaker A

epilética gravíssima e passaram por uma cirurgia que cortava o cabo que ligava as duas metades. Aqueles pacientes revelaram coisas fascinantes sobre como cada lado trabalha e virou Prêmio Nobel.

44:24

Speaker A

E aí a informação vazou pro mundo e virou teste de revista. Um estudo grande com mais de 1000 cérebros escaneados foi atrás disso e não achou pessoa nenhuma que use mais um lado que o outro. Tem função que puxa mais para um lado, a

44:37

Speaker A

fala puxa pra esquerda na maioria das pessoas, só que as duas metades estão amarradas por um cabo de 200 milhões de fios trabalhando juntos o tempo inteiro.

44:45

Speaker A

Você não tem um lado dominante, você tem uma coisa só. O filme da moça que toma uma droga e vai destravando o cérebro até virar quase um deus rendeu quase meio bilhão de dólares em cima disso. E o coach de palco continua vendendo o

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Speaker A

mesmo pacote de 1907 com um projetor melhor. Repara numa coisa antes de você fechar esse vídeo. Todas as mentiras que a gente derrubou aqui nasceram no mesmo lugar, no buraco de um não sei. Ninguém sabia o que tinha dentro de uma cova

45:11

Speaker A

aberta. Ninguém sabia porque o boi corria. Ninguém sabia porque que o velho dorme depois do almoço. E cabeça humana não suporta ficar com o buraco aberto.

45:20

Speaker A

Ela enfia qualquer coisa lá dentro e segue a vida. Nem toda mentira dessas nasce dentro de cozinha. Tem uma, por exemplo, que nasceu de uma igreja, catedral europeia, teto lá em cima, aquele silêncio de pedra. O guia para um

45:33

Speaker A

grupo na frente de um vitral de 700 anos, aponta pra parte de baixo do vidro e solta a informação que todo mundo vai repetir pelo resto da vida. Repara que embaixo é mais grosso, é porque vidro é líquido. Ele escorre tão devagar que

45:47

Speaker A

precisa de séculos, mas escorre. O grupo inteiro faz aquele barulhinho de admiração. É bonito demais para ser mentira, só que é vidro é sólido. A confusão vem de um detalhe verdadeiro sobre como endurece. Quando a água vira gelo, as partículas se organizam em

46:03

Speaker A

fileira, tudo alinhado, arrumadinho. O vidro não faz isso. Ele esfria com tudo bagunçado por dentro, do jeito que ele tava quando era líquido e congela naquela bagunça. Por causa dessa bagunça, alguém apelidou vidro de líquido congelado e o apelido escapou

46:18

Speaker A

pro mundo, virando descrição literal. bagunçado por dentro não quer dizer escorrendo na temperatura da sua sala.

46:25

Speaker A

Pro vidro de uma janela escorrer o suficiente para alguém medir a diferença com régua, precisaria de mais tempo do que o universo inteiro tem de existência, muito mais. Não é uma questão de esperar mais uns séculos. E tem prova em cima da mesa. Museu do

46:38

Speaker A

mundo todo está cheio de vidro romano de 2000 anos. Taça fina, frasco de perfume e nenhum deles está mais gordo na base.

46:46

Speaker A

Lente de telescópio feita à mão faz 300 anos, continua com a curva certa. E uma lente é a coisa mais impecável que existe para denunciar a deformação. Um fio de mudança e a imagem sai borrada.

46:57

Speaker A

Mas a prova que mata de vez é a mais simples que todas. Foram medir aqueles vitrais antigos um por um. Vários deles são mais grossos embaixos, sim, só que tem vários mais grossos em cima e tem os mais grossos de lado. Líquido nenhum

47:10

Speaker A

escorre para cima. O motivo verdadeiro está no jeito que aquele vidro era feito. E é uma cena bonita. O vidraceiro pegava uma bola de vidro derretido na ponta de uma harte e girava aquilo no ar rápido até a bola abrir num disco chato

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Speaker A

que nem massa de pizza girando. Disco girado desse jeito nunca sai com a espessura igual. Sai fininho numa parte, encorpado na outra. daquele disco, o sujeito recortava os pedaços da janela e aí na hora de montar ele encaixava a

47:38

Speaker A

maioria das peças com a borda pesada para baixo, porque é assim que você assenta qualquer coisa que você não quer que escorregue do caixilho. Nada de física misteriosa, bom senso de pedreiro, só isso. Se você quer saber como é uma coisa que isso correcer,

47:52

Speaker A

tem um experimento numa universidade australiana montado em 1927. Puseram piche dentro de um funil daquele piche preto de asfalto e ficaram esperando.

48:02

Speaker A

Caiu uma gota mais ou menos a cada 10 anos. E olha que aquele piche, se você bater com o martelo, estilhaça que nem vidro. É a cara de um sólido e é um líquido lentíssimo. E mesmo ele, que é o

48:14

Speaker A

campeão da categoria, precisou de 100 anos para fazer nove gotas. Casa antiga no Brasil também tem aquele vidro com onda que distorce o quintal quando você olha através. Mesma história. Aquilo lá saiu torto da fábrica em 1900 e alguma

48:28

Speaker A

coisa e continua exatamente do mesmo jeito desde então. Igreja pelo menos tem vitral para você olhar. A próxima mentira você aprendeu olhando para um bicho. Domingão no zoológico. Só na cabeça, um camelo mastigando de lado com aquela cara de deboche que camelo tem.

48:42

Speaker A

Uma criança pergunta pro pai por que que ele tem aquele calombo nas costas. E o pai responde na hora com toda a segurança do mundo, que ali dentro é água guardada pra travessia do deserto.

48:52

Speaker A

Ali dentro é gordura, pura gordura e bastante. A corcova de um camelo grande carrega uns 35 kg de gordura, que é a dispensa do bicho. Ele atravessa semana sem comer, queimando aquele estoque e conforme vai gastando, a cocorva murcha

49:07

Speaker A

e tomba pro lado. Fica pendurada que nem meia velha. Dá para bater o olho num camelo e saber se ele andou comendo bem do mesmo jeito que você olha pro ponteiro da gasolina. Agora tem uma pegadinha aqui, porque queimar gordura

49:19

Speaker A

produz um pouco de água. É verdade. Só que para queimar gordura o bicho precisa respirar mais. E respirando mais ele perde pelo nariz mais água do que ganhou na fornalha. No fim a conta empata ou fica no negativo. A corcova não é

49:32

Speaker A

reservatório em nenhum sentido. O que faz o camelo aguentar o deserto é bem mais impressionante que um tanque de água nas costas. e está espalhado pelo corpo inteiro dele. Ele aguenta a própria temperatura subiu uns 6º ao longo do dia sem passar mal. Isso parece

49:47

Speaker A

pouco e é enorme. Você e eu suamos assim que a temperatura sobe meio grau, porque nosso corpo entra em pânico. O camelo deixa esquentar a manhã inteira e só começa a suar lá pelo fim da tarde. Se suar, cada gota que ele não gasta é uma

50:00

Speaker A

gota que ele não precisa procurar. O rim dele espreme a urina até virar quase xarope. O cocô sai tão seco que dá para pegar do chão e usar de lenha na fogueira. E o pessoal do deserto faz isso há milênios. O nariz dele recupera

50:14

Speaker A

a parte da água do próprio ar que ele solta na respiração antes que ela escape. E o resto do bicho é todo feito pra areia. Ele fecha a narina que nem fecha a mão. Tem cílio de dois andares.

50:26

Speaker A

Tem uma terceira pálpebra transparente que passa por cima do olho limpando sem ele precisar parar de enxergar. E o pé abre no chão que nem raquete de neve para não afundar. Ele aguenta perder um quarto de toda a água do corpo e

50:38

Speaker A

continuar andando. Uma pessoa começa a passar muito mal perto dos 10% e morre lá pelos 15. Aí quando finalmente acha um poço, vem a parte de circo. O camelo bebe 100 L de uma vez em 10 minutos. 100

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Speaker A

L. Se você ou eu tomasse uma fração disso nesse ritmo, nosso sangue diluía tanto que as células começavam a estourar. As células de sangue do camelo são de outro formato, ovaladas e elásticas, e elas incham sem arrebentar.

51:05

Speaker A

Por isso, ele pode encher o tanque de uma sentada só. Quer dizer que aquela expressão que a gente usa beber água que nem camelo, tá certíssima, só que pelo motivo errado. E o motivo errado é justamente o que virou lenda. O animal

51:17

Speaker A

de zoológico está longe de você. A próxima acontece dentro da sua casa. Umas 3 da manhã, você levanta para beber água e tem alguém em pé no corredor com o olho aberto olhando para você e não olhando. Aquele olhar que te atravessa.

51:30

Speaker A

A pessoa vira e vai andando pra cozinha com um passo estranho, meio pesado. E a primeira coisa que veio na sua cabeça foi a regra que todo mundo aprendeu. Não acorda. Se acordar, morre do coração ou vai enlouquecer. Acordar sonâmbolo não

51:44

Speaker A

mata ninguém e nunca matou. O que acontece de fato é constrangimento. A pessoa [música] desperta perdida, sem entender onde que ela tá. nem porque você tá gritando o nome dela na frente da geladeira. Ela pode ficar irritada, pode brigar, pode demorar um minuto

51:57

Speaker A

inteiro para cair a ficha. E se você chegar agarrada por trás sem avisar, pode levar um empurrão de susto. Só isso. Nenhum caso de morte por acordar sonâmbulo jamais foi documentado. O perigo de verdade tá no contrário, em

52:10

Speaker A

deixar a pessoa andando por aí. Sonâmbulo cai da escada, sonâmbulo destranca a porta, sai pra rua, atravessa a rua. Sonâmbulo abre janela.

52:18

Speaker A

Já teve gente que dirigiu o carro dormindo e gente que ligou o fogão. Todo o estrago documentado desse assunto está do lado de fora, no batente da porta e no degrau, e nunca no ato de acordar. E entender por que isso acontece deixa

52:31

Speaker A

tudo mais fácil. O sonambulismo não acontece na hora do sonho. Quando você está sonhando de verdade, o seu corpo está travado, meio paralisado de propósito, justamente para você não sair correndo atrás do que tá sonhando. O sonambolismo acontece na fase mais

52:46

Speaker A

pesada do sono, geralmente na primeira parte da noite, quando parte do seu cérebro acorda para andar e a parte que decide as coisas continua desligada. É um corpo em pé com o dono ainda dormindo lá dentro. Por isso a pessoa não lembra

52:58

Speaker A

de nada no dia seguinte. Não tenho o que lembrar. Ninguém tava anotando. É comum, principalmente em criança. Boa parte das crianças t pelo menos um episódio na vida e vai parando sozinha com a idade.

53:09

Speaker A

Em adulto acontece menos e costuma vir quando a pessoa está dormindo mal, com febre, bebendo demais, sob estresse pesado ou com o horário todo virado. O jeito certo de agir é sem drama. Fala baixo, chama pelo nome e conduz pelo

53:22

Speaker A

braço de volta pra cama. Se precisar acordar para tirar de um lugar perigoso, acorda sem medo. E o que resolve o problema de verdade é do lado prático.

53:31

Speaker A

Tranca a porta da rua e deixa a chave longe. Fecha a janela, tira o tapete solto e o brinquedo do chão do corredor.

53:37

Speaker A

E uma criança que é sonâmbula, por favor, né? Ela não dorme na cama de cima da beliche. O medo de acordar veio de uma ideia bem antiga sobre o que era o sono. Acreditava-se que a alma saía do

53:48

Speaker A

corpo e ia passear enquanto a pessoa dormia. Se você acordasse o corpo de repente num lugar errado, a alma não podia achar o caminho de volta e a pessoa ficava vazia por dentro. É uma imagem impressionante. Atravessou os

54:00

Speaker A

séculos e continua fazendo o tio nenhum querer encostar no sobrinho que tá andando dormindo pela sala. A alma saindo para passear é mentira velha de séculos. A próxima é recente o bastante para você ter vivido ela na pele. 21 de

54:13

Speaker A

dezembro de 2012, uma sexta-feira. Tinha gente no Brasil que não dormiu direito na noite anterior. Teve quem estocasse água e comida. Teve quem cavasse abrigo no quintal. Teve também quem passasse o mês vendendo o kit de sobrevivência pela

54:26

Speaker A

internet. E teve cidade de energia mística, dessas de Minas e de Goiás, que lotou de gente esperando alguma coisa acontecer no céu. Não aconteceu nada.

54:36

Speaker A

Sexta virou sábado, do mesmo jeito que sempre virou. E a origem daquilo tudo, prestando atenção, é quase administrativa. Os maiers tinham um jeito de contar dia, que era uma contagem corrida a partir de um marco lá atrás, milhares de anos antes de Cristo.

54:50

Speaker A

Funciona parecido com o odômetro do seu carro, aquele numerozinho que conta quilômetro rodado. Os dias vão se acumulando em casinhas e quando uma casinha enche, ela zera e empurra uma unidade pra casinha do lado. Em 21 de dezembro de 2012, uma das casinhas

55:07

Speaker A

grandes emcheu virou o odômetro batendo 100.000 km. O carro não explode quando isso acontece. Ele continua andando e começa a contar de novo. E dá para provar que os próprios maas enxergavam um negócio exatamente assim, porque eles escreveram sobre datas muito depois de

55:23

Speaker A

2012. Tem inscrição em Pedra, numa cidade Maia do México, falando de uma data lá pelo ano 4772.

55:31

Speaker A

Isso é quase 3000 anos depois do tal fim do mundo. Arqueólogos também acharam pintado na parede de uma casa uma tabela de contas de calendário que segue milhares de anos pra frente, feitas por alguém que estava trabalhando, fazendo a

55:45

Speaker A

conta do futuro como quem preenche planilha. Ninguém escreve a agenda de 4772, achando que o mundo acaba em 2012. De todas as inscrições maés já encontradas, o número das que sequer mencionam aquela data cabe nos dedos de uma mão e nenhuma

56:01

Speaker A

delas fala em destruição. Ah, mas então a profecia nasceu onde? Nasceu aqui do lado, no século XX. Foi montada aos poucos por livro de esoterismo dos anos 60 e 70. Ganhou o corpo nos anos 80 e 90, explodiu na internet nos anos 2000 e

56:18

Speaker A

recebeu o empurrão final em 2009, quando saiu um filme catástrofe de Hollywood chamado Justamente 2012, com o planeta rachando na tela. Aquele filme faturou uma fortuna. Ficou tão fora de controle que a Agência espacial Americana precisou montar uma página oficial de

56:34

Speaker A

perguntas e respostas, explicando pra população que não tinha planeta escondido vindo em direção à Terra. Um órgão que manda a sonda para Marte teve que parar para desmentir asteroide de internet. E tem uma parte dessa história que quase nunca é contada, que é a parte

56:48

Speaker A

constrangedora. O mundo inteiro passou uns 40 anos falando dos maias, como se eles fossem um povo desaparecido, uma civilização sumida que deixou pedra e profecia. Só que existem mais de 6 milhões de maias vivos hoje no México e

57:01

Speaker A

na Guatemala, falando dezenas de línguas maias diferentes nas mesmas terras dos antepassados. Muitos deles assistiram pela televisão gente do mundo todo surtando com o calendário da avó deles.

57:14

Speaker A

Fim do mundo é grande demais para caber na cabeça. A próxima mentira tem o tamanho de uma moeda de R$ 1. E essa aqui eu já defendi com unhas e dentes em cima de um viaduto. Todo o grupo de

57:24

Speaker A

moleque já teve essa conversa. Alguém joga uma moeda lá de cima e vem a sentença. Cuidado que do alto de um prédio isso aí mata uma pessoa. Alguns falam que atravessa o capu de um carro.

57:35

Speaker A

Não mata, não perfura e não atravessa nada. O que engana todo mundo é uma conta que a gente aprendeu pela metade.

57:41

Speaker A

Sim, uma coisa caindo vai acelerando, só que ela está caindo dentro de ar e ar empurra de volta. Quanto mais rápido o objeto desce, mais forte o ar empurra contra ele. Chega um ponto em que os dois se igualam e a partir dali o objeto

57:55

Speaker A

para de acelerar. Ele desce sempre na mesma velocidade até o chão, nem que a queda dure 1 minuto. Esse ponto de equilíbrio depende do peso do objeto e do formato dele. E moeda é o pior candidato possível. É levíssima, é chata

58:09

Speaker A

que nem uma folha e vai girando no ar o caminho inteiro, oferecendo a barriga pro vento a cada volta. Ela bate no teto de velocidade quase no começo da queda, lá por uns 50 km/h. E daí para baixo não

58:22

Speaker A

ganha mais nada. 50 por hora é mais ou menos a velocidade de uma moeda que você atira com força usando o dedo. Se acertar sua cabeça dói, você xinga no máximo, abre um corte. E não importa se ela caiu do démo andar ou do centésimo,

58:36

Speaker A

porque depois de uns poucos andares o número congela. E se você quer comparação com coisa que cai do céu de verdade, pensa no granizo. Pedra de gelo é muito mais pesada que moeda. É redonda, corta o ar bem melhor e numa

58:50

Speaker A

tempestade forte ela desce a bem mais de 100 por hora. Cranizo amassa o capu, quebra a telha e machuca quem tá na rua.

58:57

Speaker A

Matar alguém é raríssimo. Aquele mesmo programa de televisão americano que testou o touro, testou isso também, jogando moeda de uma torre. Não furou nada, não abriu ferimento sério e no prédio mais famoso do mundo, aquele arranha de Nova York que aparece em todo

59:12

Speaker A

o filme, nem dá para fazer a experiência. O vento que sobe pela parede é tão forte que devolve a moeda para cima e ela acaba caindo nos terraços do próprio prédio. Agora o mito acertou uma coisa e errou o objeto. Cai

59:25

Speaker A

de altura mata muita gente todo dia em canteiro de obra do Brasil inteiro. E o assassino é uma chave de fenda, um parafuso, um martelo, um pedaço de ferro. Coisa pesada. compacta e com ponta que corta o ar em vez de girar

59:39

Speaker A

nele e que desce muito mais rápido que qualquer moeda. É para isso que existe a tela verde em volta do prédio em obra, o capacete e a fita isolando a calçada.

59:48

Speaker A

Aquilo não é frescura de engenheiro. Essa da moeda pelo menos tem física errada por trás. A próxima é a nossa mãe gritando na cozinha: "Sai de perto da televisão. Acende a luz para ler, menino. Você vai estragar sua vista. Tu

60:01

Speaker A

já ouviu isso deitado no chão da sala com o nariz a um palmo do aparelho ou embaixo do cobertor com uma lanterna e um gibi. Escuro cansa a vista e não estraga a vista. São coisas diferentes.

60:12

Speaker A

Ler com pouca luz obriga o olho a trabalhar mais. Você pisca menos, o olho seca. A musculatura que ajusta o foco fica forçada e depois de um tempo vem dor de cabeça, ardência, vista embaçada.

60:23

Speaker A

Tudo isso é real e tudo isso vai embora. Você dorme, acorda no dia seguinte e o olho tá do mesmo jeito que estava antes.

60:29

Speaker A

Nenhuma medida do olho muda de forma permanente por causa disso. A humanidade leu a luz de vela por uns bons 2000 anos. Se pouca luz destruísse o olho, a gente teria virado uma espécie de cegos muito antes de existir lâmpada. Aquela

60:43

Speaker A

história da televisão, aliás, teve um motivo verdadeiro lá atrás e ele já não existe mais. Nos anos 60, quando a televisão colorida chegou, um lote de aparelho saiu de fábrica com defeito e soltava uma radiação fraca pela frente

60:56

Speaker A

da tela. Teve recal, teve susto e o conselho de sentar longe entrou pra sabedoria popular e ficou. A televisão daquela época sumiu, o conselho não. E tem uma inversão aí que todo pai precisa ouvir. Criança que gruda na televisão

61:10

Speaker A

normalmente faz isso porque já enxerga mal de longe e perto é o único lugar onde ela vê nítido. Colar na tela é sintoma e não causa. Se o seu filho vive com o nariz na tela, o assunto ali é

61:21

Speaker A

consulta com o oftalmologista. Agora a parte que a ciência só entendeu direito nos últimos anos e essa vale o vídeo inteiro. O que mais protege o olho de criança contra miopia é tempo na rua de dia. Luz do sol, mesmo em dia nublado, é

61:35

Speaker A

milhares de vezes mais forte que a luz da sua sala. E essa claridade toda parece funcionar como um freio pro olho, dizendo para ele parar de crescer na direção errada. Estudo grande feito na Ásia pegou turmas escolares, obrigou uma

61:47

Speaker A

parte a passar mais tempo no pátio ao ar livre e o número de crianças novas com miopia caiu e dá para ver o tamanho disso olhando para leste asiático. Em algumas cidades grandes de lá, oito ou nove em cada 10 jovens hoje são milpes.

62:01

Speaker A

Contra uma fração disso duas gerações atrás. Gen não muda em duas gerações. O que mudou foi a infância inteira que saiu da rua e foi para dentro da sala de aula e do quarto fechado. E para quem já

62:11

Speaker A

vive na tela, o ajuste que os oftalmologistas mais repetem é ridículo de simples. A cada 20 minutos para e olha para alguma coisa bem longe por 20 segundos. Só isso já solta o músculo que segura o foco. Não foi o gibi embaixo do

62:25

Speaker A

cobertor que estragou a vista de ninguém. foi a vida inteira dentro de casa, olhando para alguma coisa a um palmo do rosto sem um sol na

Topics: mitos brasileiros Grande Muralha da China astronauta Yang Liwei julgamentos de Salém curiosidades históricas desmistificação verdades científicas Robert Ripley mitos populares história e ciência

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