**BELMONTE : HISTÓRIA, ARQUITETURA E MEMÓRIAS — Transcript & Summary | SozAI**
Source: https://sozai.app/transcript/belmonte-historia-arquitetura-memorias/

Documentário sobre a história, arquitetura e memórias da cidade de Belmonte, destacando sua organização urbana e relatos pessoais.

## Key Takeaways

- Belmonte possui uma arquitetura e urbanismo planejados, refletindo um passado organizado.
- A população local tem uma forte ligação com o trabalho braçal e a força da natureza.
- O rio Jequitinhonha é um elemento central na história e cultura da cidade.
- O sistema de trabalho rural no passado foi marcado por exploração e violência.
- A preservação do patrimônio histórico é essencial para manter a identidade cultural de Belmonte.

## What the video covers

- Belmonte é uma cidade bem organizada e arquitetada, com ruas planejadas e construções históricas.
- O narrador relata a contribuição de seu avô, mestre de obras, na construção de prédios importantes da cidade.
- Descrição do rio Jequitinhonha e sua importância cultural e histórica para a região.
- Relatos sobre a infância do narrador, trabalho desde cedo e as dificuldades enfrentadas pela população local.
- Histórias sobre o sistema de trabalho rural, exploração dos trabalhadores e conflitos violentos nas fazendas.
- Descrição das enchentes que afetavam a cidade e as medidas tomadas para conter o avanço do rio.
- Narrativas sobre a cultura local, tradições, trabalho com cacau e o cotidiano da população.
- Discussão sobre a preservação do patrimônio arquitetônico e a importância de manter a identidade histórica da cidade.
- Depoimentos sobre a diferença cultural de Belmonte em relação a outras cidades da Bahia.
- Referências a figuras históricas, instituições locais e o impacto da colonização e escravidão na região.

## Chapters

1. 00:00 Visão geral e arquitetura de Belmonte
2. 03:02 Infância e trabalho na cidade
3. 05:40 Conflitos e exploração no trabalho rural
4. 08:02 Enchentes e medidas de contenção do rio
5. 10:05 Tradições locais e trabalho com cacau
6. 13:17 Missões indígenas e colonização
7. 15:12 Escravidão e mão de obra na região
8. 20:29 Preservação do patrimônio arquitetônico
9. 23:03 Diferenças culturais de Belmonte
10. 26:07 Depoimentos pessoais e legado cultural

Answers

## Questions about this video

Qual a importância do rio Jequitinhonha para Belmonte?

O rio Jequitinhonha é fundamental para a história e cultura de Belmonte, tendo diversos nomes indígenas e portugueses e sendo central para a vida e economia local.

Como era o sistema de trabalho rural em Belmonte no passado?

O sistema era marcado por exploração, com trabalhadores submetidos a condições difíceis, sem direitos, e até violência, incluindo cemitério clandestino para trabalhadores falecidos.

Por que a preservação do patrimônio arquitetônico é importante para Belmonte?

Preservar o patrimônio mantém a identidade cultural e histórica da cidade, evitando a perda do potencial turístico e respeitando as construções antigas que contam a história local.

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00:15

Speaker A

Quando eu vejo Belmonte do alto, que eu vejo como ela é do alto, que a gente vê ela toda certinha e coisa linda, né? Bem traçada, foi uma coisa bem organizada.

00:28

Speaker A

Quem organizou isso aqui fez uma coisa bem feita, porque você vê que as ruas não são uma palauta para cá, nada, é tudo certinho, né? Foi bem arquitetado.

00:38

Speaker A

Meu avô, né, era mestre de obras e ele criava, né, ele chegou a construir muitos desses prédios aqui na cidade de Belmonte. Eu posso citar o prédio onde eu já posso na Câmara Municipal de Belmonte, a obra do meu avô, o coleto da

00:54

Speaker A

Praça São Sebastião, que numa configuração antiga não tinha coleto, né? Em 1938 foi inaugurado com o coleto.

01:02

Speaker A

Eu costumo dizer que o Belmontense não tem noção da sua própria força, sabe? Principalmente aqueles do trabalho braçal. A maioria deles construiu tudo que tem hoje na roça, no braço, no bico do facão.

01:18

Speaker A

Eu acho que o meu montense é isso, é essa força da natureza. Esse é o rio Jequitinhonha. Inicialmente era chamado de Patia pelos indígenas.

01:37

Speaker A

Com a chegada dos portugueses, o rio passou a ser chamado de rio Grande, rio Belmonte ou rio Grande de Belmonte.

01:44

Speaker A

Entre os botocudos era conhecido como Jequier Tinong, que significa rugido da onça, enquanto no tupi pode ser interpretado como cesto amarrado na água. Isso conforme descreve Afonso Monteiro em Belmonte sua história.

02:03

Speaker A

Quando eu cheguei aqui na beira do rio, que eu já tava com a faixa de 13 anos de idade ainda, a gente podia contar rio acima cerca de 20, 30 canoas a pano, o vento tocando para nós era uma

02:13

Speaker A

maravilha. Naquela época tinha a canoa Santa Inês, a canoa Paraguaia, a canoa Suíça, a Suíção, a da Itália, a de São Sebastião do Melo e várias outras que eu não me recordo mais, mas eram muitas que eram pilotadas no braço.

03:02

Speaker A

Comecei a trabalhar com 7 anos. Naquele tempo não tinha borracheira, não. Trabalhava com pé descalço. Aí de manhã cedo meu pai acordava para ir tirar leite e me chamava para ir buscar o leite pras meninas fazerem o café. Aí teve um dia que

03:18

Speaker A

eu facilitei o frio, fiquei deitado, agarrei no sono. Quando foi às 7 horas que chegou um cadeirão de leite, eu tava debaixo da coberta e já me chegou com os arriador, já me meteu fogo couro. Daí em diante, quando ele me chamava podia

03:34

Speaker A

estar um frio que fosse, eu pulava, era logo da [risadas], tá entendendo? Era desse jeito.

03:41

Speaker A

Não era todo mundo que tinha um sapato, era sapato de couro cru. Ali ele ia trabalhar, aquilo molhava de noite, ele botava no fogão para secar, tá entendendo? Botava cravo de animal no salgado do sapato, que era para não

03:57

Speaker A

escorregar. E as criançadas era descalço, era descalço. Com 15 anos eu não sabia ler, nem assinar meu nome. Aí foi que esse vizinho aí, Edivaldo, comprou um caderno que eu te ensino a fazer teu nome. Aí eu comprei uma caneta. Aquele tempo tinha

04:13

Speaker A

uns tinteiros e tinha umas canas pena, aquela pontinha fina. Aí tinha que melar no meter dentro do tinteiro, sacudir um pouco e escrever para não engarrachar ainda. E era uma pontinha bem fininha de ferro, de aço. E se você apertasse no

04:31

Speaker A

papel, ele engarranchava ali, borrava tudo. [risadas] Deus a Deus. Na cidade tem que ter ocupação, né?

04:47

Speaker A

Você tendo um emprego ou negócio, você aí fazendeiro de ter muito, tirar muita terra devoluta, chegava, botava, chegava onde você quer plantar cacau de contrato aí 5 anos. Aí o cara ia trabalhar comendo caça, comendo peixe e coisa.

05:09

Speaker A

Quando o cacau começava a botar e botava o pistoleiro para matar o cara, ou senão o pistoleiro chegava, o patrão dizia para vocês ocupar área, senão você ia morrer, cara saía chorando, cacau já botando.

05:26

Speaker A

Conheci um caso e conhecia a pessoa inclusive de que era fazendeiro. E um certo mineiro tirou um saldo bom na mão dessa pessoa. E essa pessoa, esse mineiro, a raça baiana era meio baianado, não apartava de um facão. E a

05:40

Speaker A

pessoa botou o dinheiro dele no cano do revólver, ele pediu o saldo que ele queria ir embora para Minas e a pessoa dona da fazenda botou dinheiro no cano do revólver e mandou ele pegar. Ele foi conversando com ela e tal e tal, meteu o

05:55

Speaker A

facão no braço dela, cortou, revólver, caiu, ele pegou dinheiro. Era assim que se tratava os trabalhadores aqui no nosso Belmonte, município de Mascote, nas margens do rio Pardo. Você ainda encontra em fazendas cemitério clandestino, onde os trabalhadores trabalhavam, morriam lá porque não

06:13

Speaker A

recebiam. Quem brigava para receber perdia a vida e era sepultado por lá mesmo e família, mas nunca sabia. Graças a Deus que essas coisas acabaram, mas que talvez nem só eu, mas existe alguém que ainda conhece essas histórias. Então

06:29

Speaker A

aqui na nossa região era dessa forma, por quê? Já tinha acabado a época dos coronéis, mas ainda imperava aquele sistema. Você não tem direito a nada. Você é um escravo livre, mas você não tem direito. Quem manda somos nós.

06:45

Speaker A

Ninguém falava em tempo de serviço. Trabalhava 10, 15 anos, acertava conta. Aí dizia aqui seu saldo. Tava o dinheiro na boca da repetição do saldo.

07:00

Speaker A

78. No ano de 78 o rio tava derrubando, quebrando aquela casa ali. Era Luís Guimarães que era prefeito. Chegava no mês de outubro, novembro já começava o rio a tomar água, né? Aí já ficava todo mundo assustado, ninguém tinha

07:18

Speaker A

tranquilidade. Aqui nas ruas a gente andava de canoa, andava de canoa. Aqui nas ruas a gente andava de canoa.

07:25

Speaker A

Era uma tristeza. Essa prefeitura ficava de fila de gente para poder pegar a feira. Porque eu acho que o povo que viveu aquela época são poucos hoje em dia vivos, né? Muitos já se foram. Se resta alguém deve se lembrar o que

07:38

Speaker A

sofreram naquela época que era que nem o mais cantaram bezerro dentro de canoa até gado apeiado, né? E todo mundo em cima das estufas dentro das casas altas e era um sofrimento.

07:52

Speaker A

Descia casa, descia carro de barcaça, descia tudo, a gente olhava via descer. Aí foi quando depois Luís Guimarães atravessou ali com a máquina, abriu aquele canal.

08:02

Speaker A

Muito, o proprietário jurou que matava quem? Que entrasse ali, que matava, que matava mesmo. O cara foi para lá armado.

08:10

Speaker A

Aí ele foi no trator, ele foi, botou o trator em cima de duas canoas. Me lembro bem disso, aquelas canoas grandes, né, que tinha aquelas canoas enormes. Botou o trator ali em cima e foi na roça do homem. Imagine, olha que homem. Foi na

08:24

Speaker A

roça do homem, chegou lá, meteu o trator e saiu rasgando o canal. Que tinha que fazer abrir um canal, né? Abrindo o canal, o rio ia tomando água e aí alargando, né? Aqueles espigões, a pessoa nova hoje não sabe o que para que

08:39

Speaker A

significa aquilo ali, né? Ali tudo era para matar a pancada da água que o rio passava tudo lá por cima para chegar ali numa com a canoa ali no fundo da rodoviária. Tinha que saber quem passava com o rio alto que tinha um rebojo, que

08:52

Speaker A

o remador não fosse bom ali, fundava ali mesmo, que nem fundou muito. E ali a igreja era mais comprida no fundo. Aí foi que o rio comeu, não tem umas vigas de cimento debaixo daquele pé de

09:04

Speaker A

amêndoa. Vocês podem olhar que ela é baixinha. Ali foi depois que passou lagação, vi uma firma batendo estaca ali, ó, direto ali para poder impedir o rio.

09:20

Speaker A

Acostumada a me trabalhar de menina. Meu pai me botou para trabalhar 3 horas, mora naquela casinha ali, mas minha madrasta que ela me criou, 3 horas a gente ia entrar na canoa e já ia se mandando lá para ilha 3 horas da

09:31

Speaker A

madrugada para lá onde seu pai tinha a roça para poder tirar cacau no escondido. Papai mandava ele fazer as dedeiras logo, tinha esse negócio de lua, fazer as dedeiras, acordar cedo, botar fazer a far para te mandar para

09:45

Speaker A

trabalhar. Então meu filho, é beijo de menina que eu sou assim. Já acostumei, meu filho. Você desse jeito. Olha você, olha aí dentro, meu filho. O tempero você botou, olha aí dentro para você ver, ó. Astinha aí dentro.

09:57

Speaker A

Você tá vendo? É, meu filho. Aí os temperinhos aí, a favaquinha. Você tá vendo?

10:05

Speaker A

Pois é, Eliseu. É desse jeito, meu filho. A gente acostuma. E aí, meu filho, no tempo dos ourucum, eu desbuio ourucum, faço aqueles negócios tudo lá, ó. Acabo aqui de noite, sendo a luz, ó. Dibu tudo, tudo, meu filho. Não perco um caroço ou

10:23

Speaker A

fica só vendo quantas pessoas deixam os seus perder e eu não deixo perder um ca.

10:36

Speaker A

pronto, dia eu já vou pra luta de novo. Ó, eu era menina do navio.

10:51

Speaker A

Assim atracavam aí, né? O porto, eles trazam mercadoria e levavam cacau. Esse porto aí era só cacau, já cheirava cacau. Esse era muito cacau. Agora acabou o cacau, né? Vinha, vinha de navio tudo. Vinha de navio. Querozênia.

11:10

Speaker A

Naquela época não tinha muita luz elétrica, né? Vinha muito queros. e mercadoria comestível, muita coisa. Eles traziam e voltavam com cacau. Era muito armazém de cacau. Aí esse rio aí de c aqui cacau de tudo quant era fazenda.

11:26

Speaker A

Agora não tem mais. Já sai tudo de caminhão né? Ó o peixe o car.

12:14

Speaker A

Z tá pegando a visão que não firin tá me pegando a visão. Z tem mamão do Z, tem abobrê, é o cortado de abóbora de tia Ben Então, a história de Belmonte é uma história muito oral. Então, cita-se, né,

12:45

Speaker A

que eram índios muitos ferozes que vieram expulsos lá de do alto do Jequitonha, né, de Minas Gerais para cá e foram se, né, colocando nessas nas perto das praias, né, onde eles podiam fazer a sua cultura, poder viver a sua

12:59

Speaker A

vida. E controu com o padre José de Araújo de Ferraz, que começou a catequizá-los né?

13:04

Speaker A

Era um tronco linguístico totalmente diferente do Tupi Guarani. Eles eram macrogê. Então aqui viviam os povos manhães que chegaram aqui meu monte por confronto com bandeirantes lá no nordeste de Minas Gerais e aí chegaram no rio de Quitonha e vieram descendo,

13:17

Speaker A

chegaram aqui até a Foz os o grupo manhãs que era ligado aos camacães, os amoréis. Essa missão de padre Ferraz veio para aqui para Belonte justamente para apaziguar os índios. A igreja vinha para docilizar os indígenas, para torná-los dóceis para o serviço braçal,

13:31

Speaker A

né? Os amores, por exemplo, eram extremamente bravos. Eles deram dando dor de cabeça aos donatários. entendeu?

13:38

Speaker A

E aos e os donos de sismarias posteriormente, né? Então, então com esses povos não teve conversa, velho.

13:44

Speaker A

Era confronto direto. Gazeta do Rio de Janeiro, 18 de dezembro de 1811. Al Féries Fernandes Julião.

13:52

Speaker A

Tenho cumprido as instruções que me foram dadas sobre o emprego da sétima divisão na abertura da estrada ao longo do rio Jequonha até a vila de Belmonte e guerra ofensiva contra os butucos antropófagos. Então, o que é o

14:06

Speaker A

antropófago? Antropófago é quem come a carne humana. Então, o próprio Maximiliano disse que não há como afirmar isso com precisão, porque ele consumiu muita carne de macaco. Então, segundo ele, tanto a alçada como o crânio do macaco poderia facilmente ser

14:22

Speaker A

confundida com uma alçada humana. A partir de 1816, o príncipe Maximiliano, ele vem até a cidade de Belmonte, que faz um dos estudos mais importantes, tanto sobre os povos botocudos, sobre a população preta também. O primeiro que ele traz essa

14:41

Speaker A

questão do enorme espanto que ele sentiu quando ele acaba entrando em contato com os índios botocudos, porque segundo ele esses indígenas teriam uma aparência desfigurada, porque ele encontrou índios aqui que usava botoca, furava a orelha, furava nariz e tal. Essa expressão não

14:58

Speaker A

representa uma etnia, isso é um modo de viver. Já a pintura corporal, ela era feita com as tintas extraídas do urucum, do genipapo e os colares eles eram feito com sementes e as penas serviam para distinguir qual era a hierarquia entre

15:15

Speaker A

eles, né? E a presença feminina ela é muito forte também nessa comunidade. Tanto que as mulheres elas auxiliavam os homens durante as guerras. nos armamentos, nos carregamentos de flechas, elas também trabalhavam com barro, faziam vários jarros esféricos.

15:32

Speaker A

Ainda, segundo o príncipe maximiliano, existia um um indígena chamado Jonué, que era um dos chefes da nação botoguda e que ele alvejava as embarcações que passavam. Para proteger as embarcações, foram criados postos militares desde Belmonte até Minas Gerais, que eram

15:50

Speaker A

colocados para proteger tanto os agricultores da região quanto os comerciantes, né, que que iam riam acima. Um dos relatos que eu acho mais interessante é em relação à fazenda Ipibura. Ele encontra alguns índios manhães, né, nos bancos de areia. Tanto

16:06

Speaker A

que até hoje na naquela região ali da Ipbura, você descendo mais um pouquinho para cá, pro engenho de areia, você ainda encontra ainda alguns bancos de areia na região. Mas veja, em torno do quartel dos arcos, em Cachoeirinha, que

16:21

Speaker A

ele faz uma aquarela que fica conhecida no mundo inteiro, o duelo entre o capitão Júnior e o capitão Jepara, que o Júnior ele caça porcos do mato no território do Jepara. que eles resolvem essa desavença em um duelo. E ele acaba

16:39

Speaker A

fazendo esse registro histórico de uma obra que tá exposta tanto em museus da Alemanha. Além disso, ele leva vários artefatos. Com a morte dele, esses artefatos, esses manuscritos, próprio diário dele, são doados para essas bibliotecas. Recentemente eu visitei a

16:57

Speaker A

fazenda Boa Vista, uma fazenda que fica em Barrolândia, com mais de um século de existência, que mantém a arquitetura, ainda preserva ainda um pouco da história da arquitetura desse período lá. Foi um dos palcos dessa briga territorial, tanto que a fazenda ela

17:14

Speaker A

possuía um cemitério, né, pros clavinoteiros, era grupos para eliminar essa comunidade indígena. A família Schneider gentilmente, né, abriu as portas para que eu pudesse lá fazer o registro de algumas imagens.

17:28

Speaker A

Esse que esse termo clavinoteiro era as pessoas que tinham o poder aquisitivo de manter o seu próprio, vamos dizer, entre aspas, seu exército, né? E em Belmonte ou nessa região ficou conhecida clavinoteiro por causa do tipo de arma

17:41

Speaker A

que eles usavam, que era o clavinó. E a pessoa pode pesquisar e ver como é um tipo de arma específico, né? Houve um apagamento inclusive da língua e existiam até decretos que fossem abolido qualquer tipo de nomes em vilas que

17:55

Speaker A

fizesse relembrar a comunidade indígena. Inclusive o rio da cidade começou como rio Patia e depois é substituído por Rio Grande de Belmonte. Depois a cidade ela é batizada como Belmonte, que é uma homenagem à cidade de Pedro Álvares

18:09

Speaker A

Cabral. Belmonte, como qualquer outra cidade do Brasil que sofreu processo de colonização, recebeu trabalho de mão de obra escrava. Em 1816, Mojikissaba tinha cerca de 18 escravos trabalhando em uma fazenda, fazendo cordas para navios. Se você analisar o

18:27

Speaker A

recenciamento brasileiro de 1872, cerca de 10% da população de Belmonte eram população escrava. Acredita-se que esse número seja muito maior pela questão do tráfico ilegal. E na nossa arquitetura, a Praça 13 de maio é um dos símbolos vivos desse período que

18:45

Speaker A

Belmonte viveu. É, a Praça 13 de maio, citando novamente seu Jeferson Baf, né? Ele cita que ali era uma feira na rua atrás, onde a rua da beira do rio, tinha outra praça chamada praça Tiradentes. Mas essa praça

18:57

Speaker A

13 de maio conta-se a história oral, né? Novamente a gente escuta de até de pesquisadores, né? Que lá ficava o pelourinho, né? aquele tronco onde os negros iriam apanhar, né, eram castigados. Por isso até recebeu-se no nome de 13 de maio, né, em homenagem,

19:12

Speaker A

né, a esse dia da libertação dos escravos no Brasil, né, e logo em seguida, né, entramos na era dos coronéis de cacau, né, a gente hoje tenta falar os coronéis do cacau, os coronéis do do império e tal e

19:25

Speaker A

tal, como se fosse coisinhas bibelois, não eram, eram pessoas que eram violentas, entendeu? Então, se você tenta romantizar uma situação que era violenta para uma situação dócil, não era. Não houve uma atitude desses coronéis que possibilitasse e criar uma

19:40

Speaker A

identidade do município. A a as identidades que foram criadas foram a parte desse desse poderil. Foram coisas construídas com a resiliência do povo, né, com a luta, enfrentamento e tudo mais. Foram construídas assim. Então esse poderio de 1930, foi o auge do

19:55

Speaker A

cacau, de 1930, 40, 50, 60, até chegar a 80, eles foram perdendo gradativamente o poder, não por conta de praga, nem por conta de por conta de outros outras regiões do planeta estarem produzindo também cacau e de melhor qualidade.

20:08

Speaker A

Inclusive, você vê hoje em dia para você vender uma uma um cacau, tem a zona de exportação de em Leo, né, para selecionar, para mandar para fora selecionadas as amêndoas. Então isso gerou eh um um processo de desgaste do

20:20

Speaker A

do poder econômico desses desses desses coronéis do Mas a bassa de bruxo foi o foi o golpe de misericórdia, né?

20:29

Speaker A

Olha, no início desse projeto, eu não imaginava que encontraria tantas pessoas preocupadas em preservar o conjunto arquitetônico de Belmonte. Em meio a essas pesquisas, eu encontrei o professor e Dr. Frederico Tofânia, que a partir da década de 90, com apoio do

20:46

Speaker A

IFAN, da UFMG e da CAPS, ele desenvolveu o projeto O patrimônio Grapiúna de Belmonte. É um trabalho muito sério, um trabalho que é premiado, que faz uma análise profunda da história de Belmonte, da economia, da arquitetura ao longo dos séculos. E como resultado

21:06

Speaker A

desse projeto, para mim, o acervo fotográfico que ele montou com mais de 300 fotografias do do patrimônio arquitetônico de Belmonte é sem dúvida, um dos resultados mais importantes dessa dessas pesquisas que ele realizou ao longo dos anos. É preciso que os

21:27

Speaker A

professores de história eh se preocupem um pouco mais em resgatar isso na memória dos alunos. Todo o corpo docente deveria se preocupar eh em resgatar essa história da arquitetura Belmontes que é linda. É linda. Os casarões aqui onde se

21:42

Speaker A

praticava a cultura, os casarões aqui onde se praticava os festejos, entende? Os clubes que estão todos desativados, entende? Muitas casas particulares foram reformadas. a partir de, como eu disse, de momento de a partir de pessoas que vieram de fora, compraram, adquiriram

22:01

Speaker A

essas casas e reformaram ela tentando buscar manter o patrimônio arquitetônico. Não tem nada mais moderno e nada mais novo do que manter uma tradição, uma casa, uma casa antiga que tem história para contar. Só de olhar para uma casa.

22:19

Speaker A

Você vê a história da casa, você vê a história do povo belumense, você vê a história da cidade em uma casa.

22:28

Speaker A

Eu falo que além da cultura de Belmonte, que eu acho que é riquíssima, a arquitetura de Belém Monte é uma das grandes riquezas da cidade.

22:37

Speaker A

Quando a gente chegou aqui na fachada, era assim, ela tava arruinada, tinha um atau, foi difícil para abrir o portão, né, e entrar. E o mato já tinha tomado conta e a casa toda destruída.

22:50

Speaker A

Mas a gente bateu [risadas] o olho na casa e a gente falou assim: "Nossa, eu quero essa casa". [risadas] Porque eu não gosto nem de chamar que a gente reformou a casa, mas eu gosto de falar que a gente revitalizou a casa.

23:03

Speaker A

Porque eu pensei: "Essa casa tá aqui há tanto tempo inteira em pé, por que que eu vou mexer nessa casa?" Eu não consegui hoje em eu não botei uma prateleira nessa casa porque eu não consigo furar o tijolo. Eu fico com dó

23:17

Speaker A

de de furar o tijolo. Então assim, essa casa para mim é um museu da minha história, porque aí a gente foi descobrindo as histórias da casa, né, nesse processo de habitar. Então a gente, por exemplo, conheceu o neto do

23:33

Speaker A

da pessoa que construiu essa casa, do primeiro dono, que foi quem construiu a casa. Então, a partir de conhecer essa pessoa, a gente já conseguiu mais ou menos avaliar que essa casa tem uns 100 anos. No hall tinha uma janela balcão

23:49

Speaker A

que separava a varanda de dentro de casa. Então você sabia que aqui se tratava de algum comerciante rico.

23:56

Speaker A

Tem tem esse modelo, né, de alguns casarões que exatamente é um é quase que um cômodo que separa o público do privado, né? Então é neste cômodo é um escritório onde lida com os trabalhadores e aqui de dentro para casa

24:10

Speaker A

aí eles as pessoas não entram, não tem acesso. Então em alguns casarões e a gente consegue perceber isso. E vejo também que eu não sei exatamente a data de quando chegou. Tenho essa curiosidade de saber a data da chegada da

24:23

Speaker A

eletricidade em Belmonte. Mas a casa claramente foi construída sem eletricidade. Você vê pela posição das janelas, pelo aproveitamento do vento, né? Ela tá toda feita pr durante o dia você não ligar nenhuma luz.

24:38

Speaker A

É imenso. 17 anos. é o dobro do norte. a as reformas que a gente tem visto aqui em Belmonte, assim, descaracterizando totalmente as fachadas e o período histórico, eu acho assim deprimente de ver, porque você vê uma coisa que tem

25:03

Speaker A

identidade, que tem história, que aquilo ali tem cultura, tem tanta coisa que não é só tijolo. Meu grande sonho mesmo que o conjunto arquitetônico de Belmonte seja tombado pelo IFAN. Difícil você ver um conjunto arquitetônico desses, né? E

25:19

Speaker A

ainda mais em Belmonte, que é uma cidade que tem um valor histórico que ainda não é reconhecido. Na hora que acabar com esse casaril todo, eu não sei o que vai ser de Belmonte se essa cidade forizada, sabe?

25:34

Speaker A

É porque dentro desse modelo, se for modernizado, o o que sobra de potencial turístico de Biamonte acaba. E e assim, porque tem que tomar muito cuidado com esse com essa armadilha de olhar para uma fachada de porcelanato, de vidro e

25:51

Speaker A

achar que vale mais. E não é não só o valor histórico, valor imaterial, valor cultural e o valor simbólico. Não é fazendo ou construindo ou estimulando ou incentivando novas fachadas que não dialogam com nada que a cidade tem para

26:07

Speaker A

oferecer, porque isso vai ser cópia de um outro lugar. E você tá matando a originalidade dessa cidade. E por que que as pessoas viram iriam para um lugar que é uma cópia do outro? Se a cópia a gente sabe que é sempre mal feita, né?

26:22

Speaker A

Ela é sempre um pouco mais apagada do que original. Eu vou até o original, então eu não vou na As pessoas não vão vir atrás de uma cópia, elas só vão vir para Belmonte para ver o que Belmonte

26:32

Speaker A

tem de original, que é muita coisa. Então a gente tem essa casa centenária que a gente nomeou de casa velha. Ser velha é um privilégio, né? Permanecer vivo é um privilégio. Então assim, a casa velha também é uma homenagem a a

26:48

Speaker A

essa ao velho. O carpin era eufrásio. Muito bom, muito bom mesmo. Ele trabalhou no sualho todo.

27:24

Speaker A

né? Que que a madeira toda da casa veio de Portugal, de navio. Esses ferro que tem aqui, portão lá em cima, tem o tanto que é uma coisa que nunca enferrujou.

28:01

Speaker A

Essas coisas de hoje tudo enferruja, né? Mas aí não. Aí ó, firme e forte. Nunca deu trabalho para nada.

28:13

Speaker A

Que nasci aqui, me casei e aqui tô até hoje. Meu povo foi todo embora, foi saindo de um a um. Aí eu fiquei aqui, de vez em quando eu vou por lá ver minhas irmãs e mais volto.

28:24

Speaker A

Para mim não tem lugar melhor do que aqui. É, a casa era de um capitão do exército e da da mulher dele que morava morava em Salvador, já estavam aposentados, mas que essa casa já tinha sido de uma

28:44

Speaker A

professora que parece que construiu a casa. também morou aqui um aviador. Eu sou apaixonada pelas portas e pelas janelas dessa casa. Foi o que mais me chamou atenção quando eu entrei na casa, foi ver janelas do meu tamanho, né?

29:01

Speaker A

Janela, eh, janelas que tem quatro, eh, duas águas, mas duas águas que abre uma forma muito linda. Eu sou apaixonada por essas portas e janelas. Meu nome é Ilma, sou natural de Salvador. Antes da pandemia um pouco, eu vim para Cabralha,

29:15

Speaker A

morar em Cabralha. Só que eu não me adaptei muito a cabralha e aí eu conheci Belmonte, vim fazer uma visita assim, passei o dia e fiquei apaixonada, né? E sempre lembrava de Belmonte. Ai gente, eu queria muito morar naquele lugar, não

29:32

Speaker A

conhecia ninguém aqui, não tinha nenhuma referência de ninguém, de nada. Aí um belo dia resolvi pesquisar no na internet casas à venda em Belmonte e aí vi uma casa rosa de esquina que eu não sabia onde era. E aí marquei com o

29:48

Speaker A

corretor de vim ver a casa, vim ver a vim olhar a casa, a casa tava abandonada. Voltei a terceira vez em Belmonte já para comprar a casa e me tornei uma belmontense. Não foi tão simples, né? Eu passei um ano quase

30:03

Speaker A

reformando a casa. Eu falo que eu sou, não, eu não posso falar que eu sou uma alma antiga, mas eu desde menina sempre gostei de coisinhas mais antigas, né? É, então assim, eu nunca fui apaixonada por por coisas mais pela essa arquitetura

30:17

Speaker A

mais moderna. E o que eu sinto na na do antigo que ele me remete a uma história que não tá mais ali, mas tá ali ao mesmo tempo por causa da por causa da forma, né? Tem um pé aqui de jasmim que tem

30:33

Speaker A

mais de 60 anos. Esse pé de jasmim, você olha esse pé de jasmim, eu olho da minha janela da cozinha, eu vejo o pé de jasmim, eu vejo plantas que tá que estão aqui há muito tempo, eu vejo um muro.

30:45

Speaker A

Tudo isso remete a uma história, é como se eu fosse transportada uma outra época. E isso eu acho que traz muita poesia pra minha vida.

30:58

Speaker A

Segundo o Instituto Geográfico Histórico da Bahia, este prédio pertencia a um coronel de Belmonte e foi vendido para a Associação da Santa Casa de Misericórdia em 1893.

31:14

Speaker A

Jornal Renascença 1953. O hospital da Santa Casa. Apesar de ser um prédio muito antigo, a provedoria o vem mantendo em bom estado de higiene e conservação em todas as suas dependências. Voltamos nossa atenção para um prédio novo que estava ao lado e

31:34

Speaker A

nos informaram se tratar da maternidade Nossa Senhora do Carmo. Percorremos todo o prédio e saímos bastante impressionados porque achamos que Belmonte está premiada com uma maternidade capaz de atender as suas necessidades, coisa que ali nunca se viu. maternidade possuem um prédio

31:57

Speaker A

completamente novo, com modernas salas de operação, enfermarias bem cuidadas, quartos particulares para gestantes e ótimo asseio e conforto.

33:38

Speaker A

uma menina que trabalhava na maternidade, na limpeza, e aí ela falou que se eu queria trabalhar lá e aí eu aceitei para ganhar o salário, eu aceitei para trabalhar um mês na Santa Casa de Misericórdia. E aí esse mês que

33:52

Speaker A

eu fiquei, que eu trabalhei 10 anos e infelizmente eh o hospital faliu, a maternidade faliu, onde todas as mulheres ganhava neném, inclusive muita gente, eu e mais outra, foram operada nesse hospital com Dr. Davi. E aí ele falou que despachou a metade de do povo

34:11

Speaker A

que trabalhava lá e ficou ainda eu na limpeza, na lavanderia e na limpeza, fazendo a limpeza geral da maternidade.

34:22

Speaker A

Mesmo assim que já ia fechar, despachou todo mundo. Ainda aguentei ainda um ano sozinha na limpeza e na lavanderia. Eu e Solange e José Lis. E aí quando não teve mais jeito, ainda trabalhei um ano depois que despachou todo mundo, eh, aí

34:41

Speaker A

veio fechar a maternidade. Eh, falou que o SUS não tinha como eh manter o hospital, tava nenhum, o hospital já tava já não tinha nem comida para dar os pacientes, faliu mesmo. E aí teve que tirar esse essa paciente e conduzir tudo pro

35:01

Speaker A

hospital, porque não tinha mais como médico sustentar o hospital, não tinha mais como as portas da maternidade ficar aberto. Aí você vê hoje chegou no que chegou.

36:10

Speaker A

e operar as mulher e parte e às vezes internava a criança na maternidade. internava criança, porque eu vi já muitas crianças internadas.

36:21

Speaker A

Inclusive eu nasci lá. É, [risadas] inclusive você nasceu lá que hoje tá aí, ó, contando a história da maternidade.

36:31

Speaker A

[risadas] É um orgulho muito grande hoje eu tá falando para um menino que eu vi nascer, peguei, vi na hora que sua mãe ganhou você e hoje você tá fazendo essa reportagem comigo. Isso é um orgulho muito grande. E muitas mulheres daí me

36:48

Speaker A

conhecem, Helena como eu tratava as pacientes no hospital. ganhei vários presentes e muitas que me fala hoje, como hoje eu tenho um orgulho de vir na sua casa fazer uma entrevista dessa com a sua mãe e sua mãe dizer: "Eu vê você

37:04

Speaker A

aí". Muitas mãe que ganhou neném lá e eu pergunto pelo filho dela, ela me dá mau reportagem que os filhos dela mataram.

37:12

Speaker A

Então quando eu vi um bebê nascer, cuidar dele e hoje saber que o que mataram o filho dela, para mim são uma maior tristeza que eu tenho. Parabéns.

37:26

Speaker A

Ai meu Deus. Mas não tem como não ser apaixonado pelo Belmontense. O Belmontense é receptivo, é amoroso, é festeiro, é fofoqueiro. O [risadas] se gosta de se relacionar.

37:42

Speaker A

Você veja você que os andarilhos que vem a Bel Monte vender seus babilacques, eles não passam fome, entende? Eles não precisam nem vender seus artigos para poder receber comida de graça, ser convidados e por aí vai. E as pessoas

37:56

Speaker A

são bem recebidas, saem daqui cheios de doces, que é uma peculiaridade de Belonte, os doces, né? Eh, sai daqui cheios de doces na mala, cheio de saudade, sempre voltam. E alguns voltam até de vez. Você veja que o Belmontense,

38:10

Speaker A

ele resistiu à ditadura. A ditadura militar esteve aí e tentou fazer de Belonte um ponto de alusão da ditadura.

38:18

Speaker A

E o Belamontense resistiu isso espontaneamente, sem nada forçado, sem movimentos criados, sem nada, nada de rechaço, de rebaterismo, nada disso. O Belmontense, com o seu dia a dia, mostrou que não era parte de uma ditadura, mostrou que não era parte do

38:35

Speaker A

de uma imposição social. Nós somos bem diferentes dos demais municípios. Nós somos diferentes de Canavieiras totalmente. Nós somos diferentes de Porto Seguro totalmente. Inclusive as características festivas, as características culturais, as características eruditas são bem diferentes. Nós temos aqui originários

38:53

Speaker A

belontenses que se destacam durante a história dessa cidade, como o próprio Zanini, Caldas, Tião indo de um polo a outro, Tião dos Cocos, tem o Masquim Menino também. Mas que menino era um tocador de acordeon, era um exímio

39:07

Speaker A

músico e fomentador do acordeon do forró e uma coisa que até sumiu de Belmonte do forró e todas as suas essências, baião, chote, xachado, etc., com seus alunos.

39:17

Speaker A

eram alunos não oficiais, eram alunos do círculo de amizade deles, que aproveitavam o fato de estar com ele e absorviam todo o seu conhecimento. Nós temos aqui da atualidade da nova geração o Chacau. Chacau, ele é um ator, tem

39:32

Speaker A

trabalhos reconhecidos como muito bons de novelas, filmes, de uma empresa televisiva muito grande do nosso país. E ele está sempre por aqui, inclusive prestou serviços à cultura beamontense em diversas vezes que teve oportunidade.

39:46

Speaker A

Lepet Sofie, tive o prazer de conhecê-la, uma artista do teatro de revista que saiu cedo de Beomonte devido ao preconceito da época, afinal na no tempo dos coronéis. Se hoje em dia já é forte, imagine naquela época. foi para

39:59

Speaker A

as ditas cidades grandes. Eh, ele contracenou com Rogéria, o grande travesti brasileiro, conhecido até então. Ele trabalhou no castelo. O castelo era uma casa noturna argentina que trazia gente de todo lugar do mundo para fazer, apresentar lá seus

40:16

Speaker A

folhetinhos. Eu tive o prazer de dirigir a Lepeti Sofie no espetáculo A Grande Noite do Cabaré, tá? foi editado aqui no Esport Clube América. E interessante que ela guardava todo o seu acervo, desde plumas e paetês a tipos de maquiagem,

40:34

Speaker A

figurinos louquíssimos, de alto luxo. Ah, mas o o que eu acho mais valoroso de tudo na Sofia é a consciência que ela tinha do respeito ao próximo. Ela respeitava todos, inclusive aqueles que eram contra ela, entende? Eu acho isso assim digno

40:54

Speaker A

de bater palmas, mas merecem sim certas pessoas um destaque especial. Algumas se destacaram socialmente, outras não tanto, mas fazem parte da história e são como lendas vivas.

41:11

Speaker A

A nossa pele ainda pega para esse povo, mas a vida, a vida tá dando exemplos aí, né? que nós somos, a nossa pele não não bsa mente.

41:27

Speaker A

Bem, eu nasci na Pareia, certo? Meu pai era negociante, ia buscar mercadoria em Minas, né? E mas não viveu com minha mãe, fui criado sem praticamente sem pai. a minha vida aqui em Belmonte, eu com com 13 anos, minha

41:49

Speaker A

mãe era empregada de um advogado aqui e ele resolveu levar, perdeu a política em 1955 ele perdeu a política e naquela época quando o cara perdia a política, tinha que eu saí, tinha que sair da cidade e ele foi embora para Salvador lá. Ele

42:12

Speaker A

trabalhou na Petrobras e convidou minha mãe para ir trabalhar lá com eles, com a família deles lá, né? Fui presidente de uma escola de samba lá e isso fez falta a mim aqui. Quando cheguei aqui, entrei num grupo de de mulheres que fazia

42:30

Speaker A

fazia filho de grande, né? Elas faziam filho de grande, era Ana Sulano, a esposa de João Lila e Estelita, que a família dela também mora lá pela ponderaria e morava aqui também.

42:48

Speaker A

E aí me convidaram para participar, né? Eu que já gostava da folia, entrei na folia, criei a lavagem.

42:57

Speaker A

A lavagem da igreja não existia. Fui eu que criei a lavagem do do adro, não é da igreja, do da da igreja e fazer essa festa em benefício.

43:11

Speaker A

E agradecendo a Nossa Senhora do Car, porque ela foi a única percussora da minha vida.

43:29

Speaker A

Ah, o Celson a luz, né? Sempre fomos parceiros. Ele começou a trabalhar na rede municipal de ensino. Eu trabalhava como técnica na Secretaria de Educação e aí a gente começou a manter esse laço. E ele também era muito amigo de minha mãe.

43:45

Speaker A

Para quem não conhecia ele, ele arquiteto. Então ele teve um trabalho, fazendo um trabalho na Secretaria de Educação, onde ele fazia parte dessa levantamento das estruturas das escolas.

43:57

Speaker A

Além disso tudo, meu mentor, porque hoje eu tenho um conhecimento muito amplo nas ciências por conta dele, porque ele parava para me orientar, porque hoje a minha casa que eu tenho foi ele quem riscou né?

44:10

Speaker A

Ele foi meu professor, né? No qual eu me inspirei muito, foi um professor que me incentivou bastante e ele assim se disponibilizou em me dar aula particular na convivência diária. Nos tornamos muito amigos, né? Ele veio aqui pro

44:26

Speaker A

Edgar, eu já estava aqui, ele veio como diretor. Quando chegou aqui no no Edgar, tava precisando de professor de matemática, ele virou para mim e falou para mim assumir essas aulas na época eu ficar eu fiquei um pouco com receio. Ele

44:38

Speaker A

virou para mim e falou: "Pega porque você foi meu aluno e confio em você. Até hoje eu sou professor também de de matemática aqui no Edgar, graças a ele.

44:47

Speaker A

Através do conhecimento dele, ele buscava sempre colocar os alunos para pesquisarem através das redes, das informações que tinha, televisão. Então ele chegava na sala, lançava, né? Hoje no, amanhã no Globo Repórter vai ter tal tema e vocês vão ter que assistir e

45:04

Speaker A

chegar aqui na sala e registrar o que vocês presenciaram. O que para mim era descartável, para ele era especial. um papel rabiscar, né? Ali ele já guardava futuramente ali ele já mostrava para você. Você lembra quando você rabiscou esse papel? Você lembra

45:18

Speaker A

dessa prova que você riscou e eu respondi? Você lembra desse papelzinho de bala? E fotos era diária, todas, todas, todas. Eu lembro que eu fiz um, quando eu tava na faculdade, meu portfólio foi em relação à ação da

45:30

Speaker A

natureza em Belmonte. Ele que cedeu todas as fotos para mim da época que a praia tinha duna, né? Aquelas dunas era aquele areal, só tinha uma barraca só.

45:40

Speaker A

né? Na época ele, ó, você tira a copa e guarda, viu se minha que saiu uma relíquia que ele saía registrando tudo. Se você tava chateado, ele ia lá, tirava a sua foto e aí você já abriam um sorriso. Aqui

45:52

Speaker A

mesmo, enquanto ele foi diretor na escola de G Santos, ele quando tinha os conflitos dos alunos, o que que ele fazia? Colocava os dois sentados lado a lado e dizia: "Só sai daqui quando derem um abraço no outro". E aí esses meninos

46:05

Speaker A

ficavam aqui, daqui a pouco, quando menos esperava, estavam dando risada e esqueci o que tinha acontecido. Para ele, Belmonte era um um país flutuante.

46:16

Speaker A

Então, qualquer coisa que acontecia, ele vinha com a maquininha dele e registrava. Eu pensei muito em como eu deveria encerrar esse documentário, mas eu sinto que eu devo encerrar com todas essas memórias que guardo de Belmonte. Uma delas é dos canoeiros, seu

46:38

Speaker A

Edgar, Barrão, João Rosa, Carlos Dreia, Vavá Palhaço e seu Deit naquelas canoas enormes, deslizando Jeqonha, levando e trazendo gente de todo tipo, como mulher para ganhar menino, trabalhador ofendido por cobra, carregando sacas e mais sacas de cacau, jaca, galinha e tudo que se possa

47:02

Speaker A

imaginar. Às vezes eu sonho com a ingua. Penso daquele chocolate quentinho feito no fogão à lenha que dona Bezinha fazia para mim.

47:13

Speaker A

Lembro de dona Eline, seu Gesson, das histórias de dona Amélia e seu Luiz. Às vezes relembro minha mãe passando a noite em claro, costurando as dedeiras para no outro dia ter que ajudar meu pai a tirar cacau nas roças que ele

47:27

Speaker A

trabalhava. Minha mãe dizia para eu e as meninas não se afastar muito de casa. que lá na mata vivia a vovó do mato, que rapitava as crianças e levava para morar no oco de uma árvore na mata.

47:41

Speaker A

Sinto falta de hosana, [música] Andresa, naninha. Quando o rio enchia, eu gritava: "Nan, nane, me ajuda a atravessar o rio". E Nani vinha.

47:53

Speaker A

Hoje, 20 anos depois, eu volto e chamo Nani para atravessar o rio. Mas Nani não vem. Nânia, assim como a maioria dos belontenses, precisou ir embora cedo em busca de trabalho na cidade grande. Teve filho, formou família e por lá ficou.

48:11

Speaker A

Mas eu sou muito grato à Nânia e a todos que de alguma forma me ajudaram a atravessar o rio.

48:18

Speaker A

Euclides da Cunha diz que o nordestino, antes de tudo, é um forte. Eu digo que o belumense, antes de tudo, é um sobrevivente que, apesar de tudo, sobrevive do legado, do legado de Cels Paternóstro na educação, do humor irreverente de Sofia,

48:38

Speaker A

nos poemas de SI Costas, nos causos de Anildo Lima, no futebol de Tico Mineiro, na medicina de Dr. Davi e Dr. José da Costa Pinto Dantas.

48:52

Speaker A

na persistência de Luís Guimarães, na resiliência de Tião dos Cocos e na melodia de João de Lila, Julião São Pedro.

49:02

Speaker A

A todos eles o meu muito obrigado. Quanto a Bel Monte, eu desejo um futuro de muita fé, união e muita transformação. Não.

Topics: Belmonte história arquitetura memórias Jequitinhonha trabalho rural patrimônio histórico cultura local colonização Bahia

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